Caros,

O nosso BC não cansa de surpreender o país! Lá estava eu em Paris, cercado de gente importante a elogiar o Brasil, dizendo que éramos os mais preparados para enfrentar a crise… e olhe que a gringolândia se baseava no fato de que aqui “nem era necessário baixar os juros, como no resto do mundo”.

E de repente, não mais que de repente, vem o choque: COPOM derruba os juros em 1%. Assim, à vista, sem prestações! Até me engasguei com o croissant!!

Lembram, quando todos clamavam por uma redução da SELIC por conta da crise, o BC a aumentou; agora que todos achavam que a taxa cairia o,5% eles socaram 1%! Acho que existe uma banda de pagode chamada Só pra Contrariar, não é?! Taí, pode ser o apelido do COPOM…🙂

O lance agora é apreciar como isso irá atingir os juros na ponta (aquele que pagamos). Os bancos – a maioria, pelo menos – já anunciou mini-reduções na taxa mensal (que compõe 1% de redução na taxa anual). Esta redução se dá na “tabela cheia” que o gerente enxerga na tela dele. A taxa que nós pagamos pode e deve ser mais baixa do que esta. Mas às vezes é até mais alta… se você marcar bobeira, prepare-se para pagar o que o gerente quiser! Atenção: ele não faz isso por ser sádico ou malvado, mas porque tem que atingir metas de resultado e isso é o problema dele; o seu é brigar por juros menores.

A história mostra que os juros (i.e. os spreads) cairão mais lentamente do que a SELIC. A tendência é que este processo seja ainda mais lento agora, por conta da crise de confiança que toma conta do nosso e de todos os sistemas financeiros do mundo.

O Valor Econômico deste final de semana, em matéria de Fernando Travaglini, traz a manchete “Incerteza mantém spread elevado”. Vamor reler e dar mais precisão a esta manchete: “Incerteza quanto à capacidade de repagamento das empresas aumenta o conservadorismo dos comitês de crédito e, portanto, reduz a oferta de crédito, sendo que este fato reduz fortemente o poder de barganha dos tomadores de crédito, permitindo que os spreads se mantenham elevados”. É só isso… ou melhor, tudo isso.

Nesta matéria, o economista-chefe da FEBRABAN, Rubens Sardenberg (irmão mais novo do famoso jornalista da CBN e da Globo Carlos Alberto) saiu-se bem ao dizer – de forma direta – que o cenário é incerto e que a queda da SELIC não significa que os spreads cairão. Gostei! Parabéns! Eu já disse isso aqui: os mercados financeiro e  segurador (em geral) tem que aprender a dar más notícias de forma transparente. Acho que é a mão do Fabio Barbosa na FEBRABAN, mudando o estilo da casa.

BB, CEF, BNDES, BNB e BASA – no embalo do COPOM e na necessidade de dar uma resposta à sociedade civil, o Presidente Lula reuniu seu alto comando econômico e os Presidentes dos bancos federais, para dar-lhes uma ordem: os bancos estatais tem que sair na frente na guerra pela redução dos juros e do spread bancário.

Já abordei este tema aqui. Juros não caem por decreto, nem no grito. Os executivos e gerentes desses bancos tem metas a cumprir – e bônus a receber pelo seu devido cumprimento. Outro ponto: depois, se esses bancos lucrarem menos que os privados, vão cair de pau neles dizendo que são mal administrados, que há corrupção, etc. Será que vão lembrar que foi o Big Boss que mandou?!

Anotem aí: os juros desses bancos só cairão pra valer se houver algum tipo de ordenamento jurídico adequado, tipo publicação no Diário Oficial, etc. Do contrário, farão uma redução cosmética apenas, só para agradar Lula.

Erro – voltando à reportagem do Valor, o jornalista foi na conversa de acadêmicos que insistem em “fatiar” o spread bancário, como se houvesse uma fórmula mágica para determiná-lo. A reportagem explica que o spread bancário é composto da seguinte forma:

  • 37,4% Inadimplência
  • 26,9% Resíduo liquído
  • 13,5% Custo administrativo
  • 10,5% Impostos diretos
  • 8,1% Tributos e taxas
  • 3,6% Custo do compulsório

A soma, se Deus quiser, dá 100%. Bonito, não?! Pois é, tão bonito quanto errado. Cansei de precificiar empréstimos – i.e. embutir spreads – pra cima e pra baixo única e exclusivamente por conta do que o mercado estava precificando. Ninguém fica fazendo conta “ah, vou cobrar mais 0,075% a.a. porque a inadimplência subiu 0,0009% este mês e precisamos compensar…”. Essas análises são feitas de trás pra frente e perdem a validade 1 segundo após serem publicados porque as condições de mercado mudam.

Ou alguém acha que quando a inadimplência cai, os bancos reduzem angelicalmente as taxas que cobram? E quando o BC liberou o compulsório, alguém baixou a taxa? Ou quando Itaú e Unibanco cortarem zilhões de reais em custos, após a fusão, irão reduzir o spread que cobram? É mercado! Esta análise serve para dar uma noção num determinado momento e olhe lá.

Enfim, boa sorte para todos nós – do meu lado, as empresa sobre as quais corro risco de crédito, precisam de mais linhas de crédito e mais baratas, do contrário elas não pagarão os meus clientes e eu tenho que indenizá-los. Dureza…

Abraços e uma ótima semana!

Fernando