Segundo o Banco Central, sim senhor! E vocês do Governo, da FIESP, da CUT, da imprensa, do mundo acadêmico, da Gaviões da Fiel, da CNBB, etc.,  parem de reclamar dos bancos! Afinal, o confiável relatório mensal do BC confirma que o CRÉDITO AUMENTOU de novo (i.e. dezembro x novembro e novembro x outubro).

Mês passado, mais precisamente no dia 23 de dezembro, eu fui entrevistado pelo Sardenberg, na CBN, e disse a ele que QUANTITATIVAMENTE o crédito vem aumentando sim; e que isso seria ótimo, não fosse o fato de que QUALITATIVAMENTE esse crescimento é enganoso e ruim.

Detalhes do relatório recém-emitido:

  • O volume de crédito na economia atingiu R$ 1,2 trilhão, ou 41% do PIB – recorde histórico (de novo).
  • O volume de crédito cresceu 31% em 2008 – outro recorde.
  • Em dezembro, o crédito com recursos livres (*) cresceu apenas 0,9% (menos que a SELIC mensal).
  • Em dezembro, o crédito do BNDES cresceu imensos 4,9%, o crédito direcionado cresceu 3,4% e o setor público captou 11% a mais do que em novembro.
  • Os juros médios cobrados são: PF 43,20%  (= 3 SELICs) e PJ 30,7% (= 2,5 SELICs).
  • O crédito para a indústria cresceu + 2%. “Puxa, assim o Paulo Skaf, da FIESP, não tem do que reclamar!” – calma, muita calma! Ele pode continuar reclamando, sim!
  • Mas o varejo “cresceu” perigosamente apenas 0,2%.

(*) Dinheiro que os bancos emprestam sem qualquer restrição legal ou direcionamento.

Análise do relatório e do cenário

  1. Espelho retrovisor: dizer que o crédito cresceu pujantes 30% em 2008 a essa altura do campeonato, só serve para estudo acadêmico. A realidade virou de tal forma, que este número pujante ficou anêmico.
  2. O crédito que IMPORTA é aquele que eu e você tomamos para financiar nossas compras e que a pequena e média empresas tomam para o seu capital de giro e para sua expansão. ESTE CRÉDITO NÃO ESTÁ AUMENTANDO! E esta é a situação que FIESP et caterva gritam diariamente – com razão, ainda que usando argumentos pouco eficazes.
  3. “Mas como assim? O relatório do BC diz que o crédito aumentou, de novo, em dezembro!” – acontece que quando a Petrobras e outras mega-empresas deixam de tomar dinheiro lá fora (porque o mercado internacional secou) e tomam dinheiro do BB, da CEF e de outros bancos, isso aumenta a base de crédito brutalmente! Só a Petrobras, pelo que foi informado na imprensa, captou mais de B$ 3 bilhões só da CEF!
  4. Enquanto você lê este post, centenas de empresas e cidadãos estão renegociando dívidas bancárias que venceram ou que irão vencer em breve – e cujos devedores não conseguiram ou não conseguirão pagar. Então, ao embutirem parte dos juros vencidos ou a vencer na nova dívida (renegociada), a base de crédito ficará maior artificalmente (principal antigo e não pago + juros não pagos que serão embutidos na nova dívida).
  5. Resumidamente, enquanto as linhas de crédito para os “pequeninos” cai, o estoque de crédito da economia sobe.
  6. Os bancos privados, comprovadamente, colocaram o pé no breque. Os bancos públicos e o setor público é que estão tentando reverter o quadro negro.
  7. E o comércio está sofrendo triplamente: estão estocados porque venderam menos que esperavam; a situação econômica só piora; estão sem crédito. O crédito que haviam tomado e que era autoliquidável (e.g. desconto de recebíveis, como o de cartão de crédito VISA) está sendo debitado aos poucos, mas dinheiro novo para financiar o estoque…hum…este deve estar difícil e caríssimo.
  8. Os juros na ponta são reportados como mais ou menos estáveis, na média, mas este dado não é confiável na minha opinião. Simplesmente não bate com o que ouço dos bancos e das grandes empresas. Não que haja alguma molecagem da parte do BC, mas deve ter algum bug na forma que os bancos informam e/ou o BC calcula os juros.

LAMENTAVELMENTE, o BC não detalha certos números e não faz análises mais pormenorizadas. Aí, fica parecendo que o crédito está normal. E a FIESP, a CUT e a Mancha Verde ficam bringando a briga errada…

Conclusão

Este blog é simpático à sua causa, você que está sofrendo com a questão do crédito. Os bancos – todos, daqui e do mundo inteiro – estão sem vontade de emprestar; estão cautelosos porque temem não serem repagos no futuro. Por que? Porque sabem que estamos vivendo numa ECONOMIA DE DEPRESSÃO (definição usada por Paul Krugman, atual Prêmio Nobel de Economia – seu blog está no Blogroll ao lado).

Aqui no Blog do Crédito você encontrará vários posts com dicas sobre como abordar novos empréstimos, negociação com bancos, etc. Perguntem, em caso de dúvida!

Abraços, F.