Caros – o Paco Debonnaire é um amigo do blog e está muito bem posicionado para comentar o momento que vivemos: ele é analista de crédito na França. O país está numa recessão muito incômoda, mas seus bancos não demonstraram fraqueza. Por outro lado, a gritaria empresarial e política em função da falta de crédito bancário é alta e o Presidente Sarkozy vem sendo bastante ativo nesse campo.

O texto abaixo é um comentário dele, que merece virar post.

Agradeço muito a contribuição do Paco e sugiro a leitura.

Abraços, FB

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Olá Fernando !

O tema do seu blog nunca foi tão atual: Crédito.
Porque foi a crise financeira que levou (ou seja precipitou) a crise econômica; todos os governos agora tem a obsessão de começar a apagar o fogo pelos bancos…(após aprenderem o drama que foi deixar quebrar o 4° maior banco de investimento do mundo…). E todo mundo concorda que sem uma oferta maior de crédito, a economia real não poderá voltar a crescer.

Porque o Brasil está cada vez mais próximo do modelo econômico conhecido na Europa. Vou tentar lhe dar um quadro da situação do crédito na França de hoje :

A situação do crédito na França

Como você sabe, Fernando, o presidente Sarkozy criou uma função chamada “mediador nacional do crédito”; ele é encarregado (junto com o Banco Central) de facilitar a obtenção do crédito para as empresas que declararem ser prejudicadas pela falta de crédito. Funciona mais ou menos assim:

  • Bancos e seguradoras tem de informar a decisão tomada (sim ou não) em 3 dias.
  • Até o momento, 65% dos casos receberam um Sim e 35% o Não.
  • Aparentemente este processo funciona, só que na maioria dos casos as empresas que acionaram o mediador federal não precisavam tê-lo feito, mas precisavam apenas ter se comunicado com os bancos.
  • Para assegurar a efetividade das medidas, todos os meses os empresários se reúnem com o prefeito da sua cidade e a administração fiscal. Eis a posição de cada um durante esse bate-papo:

I. O DISCURSO OFICIAL:

Os bancos dizem que seus objetivos comerciais para 2009 aumentaram, ou seja, estes se preparam para oferecer mais crédito do que nunca, ainda que:

  1.  As empresas não tenham apetite por investimentos.
  2.  O custo de crédito seja mais alto.

A administração fiscal (o “Leão” francês) autorizou empresas em dificuldade de caixa a estender o pagamento de impostos por alguns meses.

Seguradoras de crédito:
Elas também oferecem crédito (!), porque:

  1. O seguro permite que o cliente do nosso cliente pague suas compra a prazo (pagar em 30 dias é bem melhor para o caixa do que pagar à vista, não é?!).
  2. E o crédito entre empresas representa 25% do crédito empresarial!

O compromisso geral delas é manter estável o nível GLOBAL de crédito (ou seja, manter estável o nível de cobertura).
Ademais, o governo disponibilizou uma garantia pública para completar coberturas recém cortadas pelas seguradoras, chamado “CAP/ Cobertura pública”, não sei se já ouviram falar.  Agora, cada uma promete medidas próprias :

  • A COFACE promete transparência, disponibilizando o rating atribuído para as empresas que quiserem saber.
  • A EULER HERMES diz que usa critérios próprios para cada empresa, sem focalizar-se só no setor dela (por exemplo, uma companhia sólida atuando no mercado automobilístico não vai ser prejudicada só porque o mercado está uma dureza).
  • A ATRADIUS ainda não foi muito ouvida nesta crise , mas diz que, em função da alta taxa de inadimplência, terá de cortar muitas coberturas…

II. E A REALIDADE:


Os bancos emprestam menos e exigem garantias maiores (imóveis próprios da empresa, ou do empresário, por exemplo), geralmente dividindo o risco com outros bancos. Estão sendo mais cautelosos nas análises, deixando de acreditar em “bobeiras” como projeções de crescimento das vendas de 15% ao ano…chega de “business plan” prevendo crescimento de 15% ao ano!

Seguradoras mantêm o nível de cobertura global, sim, mais transferindo-a dos riscos altos (e.g. PME’s com dificuldade de honrar compromissos) para riscos baixos (grandes empresas, do tipo VALE ou PETROBRAS aí no Brasil ) [NDR: é o flight-to-quality à francesa]

Enfim, como pode-se  constatar, a situação do crédito na Europa, apesar das ações políticas (e midiáticaa), não está melhorando para todos… infelizmente…

Um abraço !
Paco