Extremos – de um lado, a pequena Davos, na Suiça, e seus USD 42 mil de renda per capita; do outro, a nossa Belém com meros R$ 15 mil. Lá, uma temperatura de – 4 graus celsius, enquanto que aqui o calor úmido de 36 graus aquece os corações latinos.

A farra suíça chama-se World Economic Forum (WEF) e a tupiniquim Fórum Social Mundial (FSM), criado no início da década para contrapor a visão neo-liberal pregada em Davos.

Pior deve ser o contraste de estados de espírito: Davos recebe os mais importantes líderes do capitalismo financeiro e industrial mundial, assim como os Chefes de Estado que sempre deram o ritmo da economia global. Líderes nocauteados – para sermos mais precisos – procuram respostas para perguntas como “E agora, para onde seguir?”, “Como retomar a confiança e o crescimento?” – pelo menos a pergunta “Onde foi que eu errei?”  já foi devidamente respondida.

Em Belém, quem nunca teve nada e estava começando a se divertir com um mínimo de progresso, procura entender como esta crise – “que não é nossa!”, dizem  – irá nos afetar. Sim, estou certo que a maioria dos políticos latino-americanos ainda não entendeu que, assim como fomos ‘passageiros’ daquela viagem rumo ao desenvolvimento nos últimos anos, também o seremos nesta viagem de derrocada global.

Agendas – se em Davos o foco é a crise, parece-me que em Belém o foco será ecologia e desenvolvimento sustentável. O Renato, do ótimo O Fim da História, está cobrindo o FSM. Acompanhem aqui. E eu farei o possível para postar e comentar o WEF diariamente (ver um exemplo abaixo).

Celebridades – pelo que sei, o WEF deste ano não contará com tantos ‘pesos-pesados’ como de costume, ainda que nomes como o mega-investidor/bilionário/filósofo George Soros, o Premier da Turquia e o Presidente de Israel, entre outros, já tenham se manifestado por lá (quase que aos tapas). Gordon Brown também falará nos próximos dias e terá dificuldades para explicar como consertará o sistema financeiro quebrado do seu Reino Unido. O nosso Henrique Meirelles já está lá. Celebridades em busca de manchetes também estão em baixa em Davos este ano – no passado, ‘bateram cartão’  Bono Vox, do U2, e até a atriz Sharon Stone.

No entanto, pelo que observei, o que não falta em Davos é gente querendo falar mal dos bancos e do mercado financeiro internacional. Uma dessas estrelas é Nouriel Roubini que está num vídeo da Bloomberg que de tão acessado não dava para assistir (amanhã eu o publico). Mas o brilhante Nicolas Taleb, autor do best-seller The Black Swan, os esculhamba com requintes de crueldade neste vídeo, também da Bloomberg.

Entre outras pérolas, ele diz que “Como eu sou trader de opções, posso dizer: se eu não entendo direito como as opções funcionam, os reguladores do FED entendem muito menos” e “deveriam proibir quaisquer derivativos mais complexos do que as opções tradicionais”. E outra: “Nós ficamos reféns dos bancos”. Ou que tal: “Os bancos americanos deveriam ser nacionalizados e o governo deveria dizer como eles deveriam operar”. Para terminar: “Chega de privatizar lucros e socializar prejuízos”.

As palavras de Taleb tem mais conexão com a ideologia pregada em Belém. Seriam seguramente mais aplaudidas em Belém, mas causam mais impacto e são mais úteis para ‘catequizar’ a fauna que frequenta Davos.

Sangue latino – há pouco chegou a Belém o Presidente Lula, o mais pragmático dos presidentes latino-americanos. Ele veio juntar-se a Chávez e seus pares da Bolívia, Equador e Paraguai. Uma tristeza. A Ministra Dilma fez um discurso inflamado em que disse: “Deve haver um outro modelo de desenvolvimento, que não sacrifique os mais humildes…”.

Sim, Ministra, existe. É só podar o capitalismo financeiro de forma, digamos, radical – como Nicolas Taleb mais ou menos nos propõe. Isto acabaria com a volatilidade, desaceleraria a movimentação de capitais, eliminaria os derivativos mais complexos, etc. Mas também reduziria a aceleração do crescimento e a taxa de eliminação da pobreza. Este seria o preço a se pagar para vivermos num mundo mais previsível e de menor risco. Que tal a economia global crescendo entre 2% (EUA, Europa e Japão) e 4% a.a. (BRIC’s) num grande ano? Ou entre 0% e 2% num ano mais fraco? É uma opção a ser discutida.

É isso, vamos monitorar como os debates prosseguem nos dois fóruns.

Em tempo, as notícias da economia real americana são realmente trágicas. Nada de novo, porém. Não se esqueçam do que escrevi ontem: vivemos em tempos de Economia de Depressão (by Paul Krugman).

Saludos, Fernando