fevereiro 2009


Hoje cedo, quando eu vinha de levar as crianças na escola, ouvi o Ricardo Boechat, âncora do programa jornalístico matinal da Bandnews FM, dizer o seguinte:

Esse negócio de juros é assim: outro dia eu fiz um leasing de um carro e a taxa de juros que queriam me cobrar era de 1,9% a.m., mas eu falei com vários bancos, dei um tremendo calor num deles e acabei fechando por 1,3% a.m. Tá certo, deu um trabalhão, fiquei uns dois meses negociando, mas a taxa caiu.”

O Boechat fez o que:

  1. O BC deveria fazer, i.e. ensinar a população a se defender das altas taxas, ao invés de dizer “que está tudo normal” quando não está.
  2. O Ministério da Fazenda poderia fazer, ao invés do Ministro reclamar diariamente dos bancos e dos juros altos, quando isto não resolve a vida de ninguém.

O Boechat deveria ser canonizado por esta frase, que deveria ser repetida em horário nobre de rádio e TV.

Eu venho dizendo isto ‘ad nauseum’ por anos! O feirante abaixa o preço do tomate ou da laranja enquanto a demanda está aquecida, às 9 horas da manhã? Mas ele abaixa quando a demanda enfraquece às 13 horas.

Com o dinheiro (a mercadoria) e o gerente de banco (o feirante de grana) é a mesma coisa: quer moleza vai pagar caro. O Boechat ralou e comprou o carro dele (e com o que economizou de juros pôde pagar pelo DVD e GPS no carango novo dele).

Este é o post da semana. Abraços, F.

Aviso rápido para leitores notívagos e madrugadores: acabo de ler no blog da Miriam Leitão, que ela gravou um programa com dois economistas, em que estes comparam as crises bancárias de 1929 e esta atual.

No blog, ela dá as seguintes pistas sobre suas falas – abaixo, o copy-paste do post dela:

  • Marcelo de Paiva Abreu: avalia que a crise bancária pode ser maior agora do que na grande depressão de 1929, mas que o desemprego não chegará aos níveis alarmantes daquele tempo porque os mecanismos de intervenção são maiores.
  • Gustavo Loyola: o ex-BC, que enfrentou a crise bancária brasileira dos anos 90, disse que o que mais o preocupa é a demora de agir do governo americano que pode aprofundar a crise.

O programa é da Globonews e foi ao ar agora pouco (21:30), mas será repetido nesta 6af, âs 8:30.

Atenção: eu não assisti o programa desta noite, mas tentarei assistí-lo pela manhã. Porém, meu ego-competitivo antecipa algumas visões:

  1. Concordo – em termos – com Marcelo Paiva, pois tudo depende da definição para crise bancária. A de 1929 foi maior em termos de quebras de bancos, pois naquela época quebraram milhares. Eu já comentei aqui, que o Ben Bernanke daqueles dias perdeu o juízo e dizia “Que quebrem“. Porém, Paiva tem razão porque   os mecânismos de metástase do sistema são, hoje, muito piores do que jamais foram. Hoje temos derivativos e securitização; temos fundos de alto risco (“hedge funds’); está tudo globalizado, etc.
  2. Concordo com o que diz Loyola, mas principalmente pelo fato dos americanos estarem em “denial”. Tem que estatizar e pronto. Quanto mais atrasarem a operar um resgate direto e profundo, mais fragilizado o sistema permanecerá e mais tempo demorará a retomada da economia real.
  3. Mas, observação minha: o câncer já está em metástase e está sendo tratado com quimio/radioterapias (i.e. pacotes de estímulos). No entanto, o paciente está recebendo doses maciças de morfina (i.e. linhas do FED e outros bancos centrais), para minimizar as dores do paciente. Isto não ocorreu no passado. Desta vez, quando o tumor for extirpado, o paciente estará fragilizado por tanta química e sofrerá de uma profunda anêmia monetária (déficit público e dívida pública), i.e.1 moeda enfraquecida, i.e.2 inflação americana e européia.
  4. Outro problema que me parece ser diferente agora, é que os bancos saudáveis não querem emprestar para ninguém, pois temem ficar tão ruins quanto os seus concorrentes enfraquecidos, assim como também tem capital regulatório restrito. Ou seja, o processo recessivo/depressivo se auto-alimenta.

É isso. Vamos assistir e comentar o programa da Miriam Leitão, na Globonews!

Abs, F.

Primeiramente, espero que as folias momescas tenham servido para diversão ou relaxamento da melhor espécie.

Agora, que discurso “de campanha” este de Barack Obama, quando ele abriu o ano legislativo do Congresso americano. Eu não gostei. Não que ele deva prometer o que não pode cumprir, ou sei lá o que. Mas o fato é que não gostei! A Miriam Leitão disse que ele foi “Vibrante como na campanha”. Perfeito, mas agora é mostrar como irá fazer…

Leiam e/ou vejam o vídeo – e muito mais – aqui, no blog da Casa Branca. Não, não é brincadeira!

Mas pior mesmo foi a nova dupla econômica Geithner e Bernanke. O governo Obama, que tem estes dois senhores à frente do lado financeiro, chegou à conclusão que não deve estatizar (ou nacionalizar, como eles dizem por lá) – parece que eles vivem em outro planeta, onde os bancos são saudáveis e críveis. Leiam aqui na Bloomberg.

As últimas que chegam de lá é dão a impressão os bancos é que escolherão se querem dinheiro público – como se pudessem escolher ou tivessem credibilidade para decidir qualquer coisa. E dizem também que eventuais investimentos públicos serão feitos via ações preferenciais conversíveis em ordinárias, i.e. o governo não quer mandar nos bancos que quebrarem e que precisem de dinheiro público. Ai que saudades do nosso PROER…

Mais que isso, Bernanke, o todo-poderoso chefe do FED, diz achar que o sistema não está tão mal assim, que a maioria dos bancos tem capital em excesso. Me tira o tubo…

Assistam aqui um breve vídeo com Bernanke.

E aqui outro com o Geithner. (quase 9 minutos)

Quer saber, mais cedo ou mais tarde essa turma vai cair na real e nacionalizar boa parte do sistema financeiro americano (não os 6 mil bancos, mas aqueles que representam 90% dos depósitos e ativos do sistema, que devem ser uns 20, não mais).

Por enquanto, o espírito liberal americano e anti-estatizante está falando mais alto, mas se o crédito não for retomado e a economia continuar deprimida eles tomarão alguma decisão mais drástica.

Abraços,

Este post é inspirado por um comentário recente, contribuição do amigo do blog Armando: “Deus cria, a Terra espalha e o diabo os junta”.

Sem querer dar qualquer viés religioso a este blog, que é espiritualizado mas sem preferencia religiosa alguma, aqui vai a minha forma de ver a questão:

Deus inspira o homem bom a desenvolver uma série de instrumentos financeiros que deveriam ajudar o desenvolvimento dos mercados e das nações. Porém – e que porém! – o diabo inspira uns tantos outros homens inteligentes, mas não tão bons, a desviarem-se da Missão e bagunçar a obra divina.

Vejam os casos abaixo:

1. Derivativos “Básicos” sem dúvida é uma invenção de Deus, pois é muito útil para a gestão de riscos de empresas e bancos. Graças aos derivativos de câmbio e de taxa de juros, por exemplo, os bancos podem tomar muito mais depósitos e emprestar muito mais – e isto é muito bom para a sociedade. Porém, o capeta aprendeu como funcionam e distorceu seu uso. Minha racional:

  • Especulação desmedida: ao invés de ser usado para proteger uma posição assumida pelo empresário, os especuladores podem montar posições que, ao longo do tempo, poderão distorcer os preços de determinado ativo ou mercado. Aqui, o problema não é especular, mas é o volume permitido pelos reguladores!
  • Alavancagem: emprestar/financiar/alavancar é mola fundamental para o crescimento econômico e, portanto, para a sociedade. Porém, financiar posições especulativas, através de instrumentos derivativos, tornando-as gigantescas…e sem controle…é insano. Especialmente porque os reguladores não tem como garantir estabilidade ao mercado.
  • Derivativos exóticos – (ou tóxicos, como está na moda) – se o Nicholas Taleb diz que são instrumentos que ele, que era um ás no trading de derivativos, não os entendia em toda sua complexidade, que dizer de tantos ásnos espalhados pelas tesourarias de bancos, fundos e empresas? O sujeito negocia várias vezes o capital de sua instituição, a partir de um modelo que ele não faz idéia de como funciona + sem controle decente de ninugém + sem que seus gestores seniors façam idéia do que o autorizaram a fazer!
  • Barings conheça aqui uma versão bem realista da quebra do multicentenário banco inglês (e onde a própria Rainha Elizabeth II tinha investimentos na divisão de gestão de fortunas – private banking). Este mais-que-testado Risk Manager, em sua atual versão blogueiro-segurador de crédito, viveu as duas pernas deste caso: primeiro foi o resgate pelo ING (eu era ING) e depois a compra da divisão americana do Barings (já com outro nome) pelo ABN (eu estava no ABN). O case study do Barings daria um MBA por sí só, pois ali aconteceu tudo de errado (antes, durante e depois, diga-se de passagem). Leiam o link porque vale a pena.

2. Securitização – securitizar é uma coisa simples, mas é tão complicada para explicar. Tentarei: uma security (ou título mobiliário, em português – ajudou?) é um título que é composto (ou lastreado) por vários outros. Tá piorando… Imagine que um banco tenha 10 empréstimos (papai-mamãe) com empresas do setor exportador, totalizando USD 100 milhões. Acontece que o banco identifica que há investidores com interesse para correr este risco, mas como investidor não é banco eles não podem fazê-lo. Securitizar é a solução. Através de uma parafernália documental, os tais 10 empréstimos são “empacotados” e vendidos para um fundo, sob a forma de título ou security. Aí os investidores poderão investir neste fundo que tem o rendimento e os riscos dos ditos empréstimos. Se não ficou claro – e é óbvio que não ficou -, comentem/perguntem, por favor!.

Pois bem, a securitização é uma coisa fantástica, pois “libera” espaço no balanço dos bancos para que estes possam emprestar mais, para mais gente. Mas se fosse tão redondinho assim não teria graça…

  •  Um problema é quando o título/security é lastreado por maus empréstimos – esta é uma das pernas da crise do subprime americano.
  • Como na maioria das vezes o empréstimo continua de forma, digamos, invisivel no balanço do banco (apenas ‘inertizado’ pela venda para o fundo – o documento é chamado de participation), se os empréstimos não são pagos, e o fundo quebra, o castelo de cartas se desmonta. Vira um “ninguém-paga-ninguém” e só quem ganha são os advogados de todas as partes, que brigarão ferozmente uns com os outros.

3. Globalização em 1992, quando estudei International Banking & Financial Studies, na Escócia, não discutíamos “Globalização” (o termo aparentemente não existia). Mas falávamos em DEREGULATION, que na época significava poder fazer quase tudo em quase todo os lugares. Os mercados financeiros e de capitais começavam a se abrir, com menos regras para os estrangeiros (e.g. um brasileiro investir em títulos emitidos nos EUA – o chamado Yankee bond – através de uma off-shore na Bahamas).

  • Graças à globalização é que o Brasil acumulou USD 200 bi de reservas e teve zilhões de dólares entrando no país sob a forma de investimento direto e empréstimos.
  • E também o comércio internacional – que é a grande fonte de riqueza neste planeta – multiplicou de volume.
  • Só que, como sempre acontece onde o Tinhoso põe a pata, houve exagero. Os EUA (e a Europa também!) não deveriam ter “terceirizado” sua manufatura para a China e seus serviços para a Índia. Isto gerou boa parte do desequilibrio que fomentou esta crise. E pra reverter agora, hein?!…

No fim das contas, amigos, todas essas coisas exóticas que vêm sendo demonizadas por conta desta crise sem igual, começaram de forma quase inocente, com propositos nobres. Só que o Capeta atiça o lado BESTA do homem de mercado e o lado BANANA dos políticos e reguladores, deixando que o lado ruim da invenção Divina predomine, ainda que temporariamente.

Para concluir o post, fiquem com este pensamento Made by F.Blanco:

Quando estiveres no jardim e reparares num pequeno anelídeo esfregando-se pelo chão, preste muita atenção nele! Talvez não seja apenas uma inofensiva minhoca, mas sim uma jibóia recém-nascida, que mais tarde poderá te devorar!…

Abraços, FB

Caros,

O Estadão de hoje emplacou várias matérias sobre as dificuldades que o país vem enfrentando com o crédito escasso.  Apesar de domingo de carnaval não ser o melhor dia para se apoquentar com crédito, a comunidade que luta pela transparência do crédito agradece! Sigamos:

Crédito escasso freia o consumo, por Leandro Modé

O argumento é que o crédito não se regularizou, apesar da solene afirmação feita por Henrique Meirelles e já comentada – e destruída – aqui no blog. Me digam, custava o BC ser mais transparente com um assunto tão importante para a população e empresas? Até a Febraban, que é entidade de classe, foi muito mais correta neste ponto! O BC sim tinha essa obrigação, mas pisou na bola – e feio.

A reportagem é focada no varejo. Todos concordam que o setor mais afetado foi o comércio. Eu concordo e vou mais longe:  aos olhos de quem financia, o comércio é o setor menos transparente no Brasil. Não gostam de dar balanços para análise e quando os dão…lembram de Star Trek, Star Wars e outras ficções? Conheço muito bem o setor e algumas de suas associações de classe…enquanto não mudarem sua forma de encarar crédito e o relacionamento com bancos, financeiras, etc., vão sempre pagar os juros mais altos.

Quem não é transparente com banco sempre passa impressão de má qualidade de risco, então as linhas são escassas e, portanto, o empresário não tem  como barganhar. Conclusão, pagam o que é cobrado, i.e. juro alto.

 BC e Febraban admitem dificuldades , por Leandro Modé

Pelo que diz a reportagem, o BC enviou uma nota apenas. Que feio! Bem, acho que ninguém do BC resistiria a duas perguntas bem feitas sobre o tema. Seria nocaute na certa. A tal nota foi “de sobrevivência”. 🙂

Acho que o destaque desta matéria é a conclusão do próprio jornalista, a respeito da visão do BC: Por ora, o BC entende que as dificuldades se devem a própria crise, que fez os bancos serem naturalmente mais cautelosos na concessão de empréstimos. Se essa percepção mudar, o contra-ataque será diferente”, ele escreve com precisão.

Exigências dos bancos excluem empresas médias, por Marianna Aragão

Confesso que não entendi a lógica desta manchete, mas a matéria explica que as empresas de médio e pequeno porte estão encontrando problemas para fornecer todas as garantias exigidas pelos bancos. Não custa lembrar o ‘caminho do inferno’ nestes momentos de alta percepção de risco:

  • Piora a percepção de risco da empresa?
  • Diminui o volume de linhas de crédito ofertadas.
  • E menos ofertas é igual a preço mais alto, sempre!
  • Pior, os prazos das linhas são encurtados.
  • Muito pior, mais garantias são solicitadas.

A matéria aborda também as dificuldades de empresas de serviços, que não tem ativos ou recebívies. Como conseguir crédito? Bem, no Brasil isto sempre foi quase impossível, só tendo havido um refresco nestes anos recentes de exuberância irracional do crédito verde-amarelo.

Eu sei que é duro para quem tinha acabado de se acostumar com a oferta de crédito (ainda que a custo proibitivo). Mas o crescimento recente do crédito no Brasil não era normal – e não era saudável. Se nada cresce 30% a.a., por vários anos, por que o crédito doméstico, em reais, deveria? De repente o risco empresarial ficou tão maravilhoso assim, ou as famílias ficaram tão abastadas e seguras? Ou os bancos aprenderam a dar crédito pra valer, renunciando a um passado absurdamente conservador? Nah…foi exuberância irracional.

Agora, voltamos à velha ordem natural das coisas. Só que de forma abrupta, machucando muita gente inocente.

Factoring vira tábua de salvação, por Marcelo Rehder

Finalmente, ufa, quanta matéria sobre crédito. Até para um veterano obsecado como eu tem coisa demais para ler e comentar. Esta matéria, até pelo próprio título, saúda a existência das empresas de factoring, tantas vezes demonizadas (até por bancos…).

Meus amigos da ANFAC comentam que o volume de negócios aumentou 40%, se comparado com o pré-crise. Notem que não me surpreendo com um provavel aumento da demanda por factoring. Mas me surpreendo sim com o aumento dos negócios. Por que?

  • De onde saiu o funding para as empresas de factoring passarem a descontar tantos títulos a mais?
  • Estariam elas com caixa sobrando, à espera de bons negócios?
  • A única certeza que eu tenho é que os bancos não passaram a dar mais funding para elas.

O custo do factoring é naturalmente mais alto do que os juros bancários, por dois motivos: (a) o custo de funding para as factorings é consideravelmente mais caro que o dos bancos, (b) as factorings sofrem uma cunha fiscal que as torna menos competitivas que os bancos. Em outras palavras, as factorings – na média – correm mais risco, cobram mais caro e lucram menos. Este é um fenômeno do capitalismo financeiro…

Nossa Caixa – esta reportagem traz a declaração de um empresário que reclama de ter sido injustamente protestado pela Nossa Caixa, tendo ficado com o nome sujo e com enormes dificuldades para tomar empréstimos em outros bancos. É óbvio que eu não quero fazer juízo de valor da Nossa Caixa ou do empresário, mas aqui mesmo no blog já registramos uma tremenda reclamação contra a Nossa Caixa, por motivo similar. Haverá algum problema por lá?

Abraços, Fernando

PS: concluir este post foi uma obra de amor à arte de blogar. Quando o mesmo já estava quase pronto, eu fui salvá-lo, mas o patético serviço da dupla Telefonica/Speedy me fez perder tudo! Deu vontade de jogar o notebook pela janela! Fica aqui a minha vingança: que nenhum dos 23 leais seguidores deste blog jamais usem quaisquer serviços da Telefonica/Speedy!

O amigo do blog Camilo Telles, do ótimo blog Tellesfera, nos envia um fórum do ex-super banco de investimento – e agora banco comercial, pelo que me consta – Morgan Stanley. Neste link você encontra uma análise que demonstra que a queda brutal da produção industrial brasileira em dezembro é um Black Swan (“cisne negro”), teoria que saiu do anonimato e ficou mundialmente conhecida graças ao escritor (ex-trader de opções) Nicholas Taleb

A dupla Taleb-Black Swan era virtualmente desconhecida no Brasil quando chegou neste blog, graças à grande contribuição do Camilo para o blog.

 A crise e o Black Swan – na verdade, a crise toda é um Black Swan. E é por isso que todo mundo comprou o livro do Taleb. As crises que conhecemos – também chamadas de “bolhas” – acontecem a partir da seguinte dinâmica:

1. Pressupostos:

  • TI abundante e barato viabiliza crescente complexidade de modelos financeiros.
  • Velocidade e abundância da informação nivela o conhecimento de todos os agentes econômicos.
  • Excesso de liquidez – bancos e fundos dispostos a emprestar/investir.
  • Sociedade materialista e imediatista (geração vídeo-game, video-clip).
  • Assimetria entre a velocidade de ganho de confiança: de compra vs. de venda.

2. Consequências:

  • Redução da assimetria de informação, i.e. todo mundo sabe de tudo ao mesmo tempo.
  • A tomada de decisão (comprar, comprar mais, vender, vender tudo) se acelera.
  • Interligação de mercados e instrumentos financeiros (títulos, empréstimos, derivativos, câmbio, etc.).
  • Necessidade de remunerar o excesso de capital disponível (liquidez), rapidamente.
  • Compra-se mais lentamente, vende-se mais rapidamente.

Portanto, é por isso que cada vez mais, certos ativos (“o ativo da hora”) se valorizam brutalmente – e num período de tempo relativamente curto. O problema é que, sempre, a montagem das posições se dá mais lentamente do que a desmontagem destas.

A montagem (e.g. “vou comprar Petrobras e vender Ibovespa porque estou certo que há um spread bom aí“) demanda confiança, estudos, etc. A venda não! Só depende de você observar que o mercado está derretendo contra sua posição e, aí sim, acreditar (confiar) que o processo não terá volta. No momento que você – e outros milhares – pensarem assim, a derrocada começa…e não pára tão cedo.

Black Swan “estrutural” – eu acredito que nossa sociedade viverá eternamente em black swans se nossa mentalidade não mudar (radicalmente). Se as perdas e ganhos “fora da curva” deveriam acontecer apenas eventualmente – i.e. com baixa probabilidade de ocorrência -, agora a tendência é que ocorram sempre, bastando chegar o momento da turba vendedora iniciar a desmontagem de posições.

O mundo econômico-financeiro tornou-se um ambiente perigoso. Até esta crise bater firme nos EUA, Europa e Japão, achava-se que “bolhas” eram um problema “daqueles países complicados do sul do planeta”. Desta vez, a origem e a metástase do problema foi privilégio dos países centrais do capitalismo.

E à esta altura do campeonato, a elite econômica do mundo aprendeu que o desbalanceamento do sistema financeiro irradia maleficios para a economia real e para os governos também – afinal, eles é que tem de partir para o resgate. Nós brasileiros já sabemos disso há décadas…

É isso. Bom carnaval! Abs, Fernando

Existem vários elementos desta crise que, apesar de serem inéditos, podem ser vistos como “normais”, mas duvido que alguém pudesse imaginar, digamos que 6 meses atrás, que os Bancos Americanos fossem estar nessa – perdõe-me a expressão – draga.

O mercado já negocia os seus papéis como empresas falimentares. É uma destruição contínua de valor, sem piedade. Até o Republicano, Chairman do Comitê de Bancos do Senado americano – e talvez o cidadão mais liberal daquela casa – Chris Dodd, cede às evidências e assume que talvez não haja outra solução, i.e. Citibank, Bank of America (BofA), entre muitos outros, serão nacionalizados. Porque quebraram.

Para mim, pessoalmente, o caso do BofA é ainda mais emblemático, pois foi o meu segundo emprego (em 1985 eu era analista de crédito de uma subsidiária brasileira do BofA chamada Multi-Banco Internacional de Investimentos). Eu vivi, respirei a potência e solidez daquela instituição. E outro dia, num passo patético, próprio de executivos sem-noção, compraram a quebrada Merril Lynch, que ajudou a afundar o centenário banco da California. Detalhe: o FED que deu a “benção” para o “casório” é outro sem-noção!

E Obama? – está perdido, o que é natural. Ninguém – nem eu! 🙂 – sabe exatamente como lidar com esta besta que provou ser indomável! E o medo das consequências ao nacionalizar todo um sistema quebrado? Como fazer funcionar depois? Notem que é muito antiamericano! E deve ter um exército de Beluzzos, dizendo nas orelhas inchadas e ferventes de Obama e Geithner: “Deixa quebrar, porque assim o sistema se depura mais rapidamente e retorna com mais vigor”. Tá bom…e coragem para implementar? Eu, que confio muito no meu taco e, sem modéstia, acho que entendo do riscado, jamais toparia deixar um sistema financeiro quebrar-quebrado, dilapidando a poupança das famílias.

Enquanto isso no Velho Mundo…

Os bancos europeus me surpreenderam em setembro. Eu apostaria que a situação deles era muito melhor do que a dos bancos americanos. OK, é melhor – na média – mas é suficientemente ruim para desorganizar o sistema. Nouriel Roubini, guru das horas trágicas, nos informa que os bancos europeus enfiaram muito, mas muito dinheiro mesmo nos países do Leste Europeu, que estão muito, mas muito ruim das pernas.

Eu sei de longa data, que a Alemanha (governo, empresas e bancos) tem uma certa fascinação com a Rússia. E os bancos alemães têm muitos bilhões emprestados para aquele país tão complicado, especialmente agora, com o petróleo a USD 40/barril.

Vejam aqui o vídeo com o Roubini

E eu com isso?!

O amigo frequentador deste blog sabe que nossa proposta é abordar os assuntos sob o prisma técnico, para minimizar as suas/nossas perdas. 
Não costumo abordar o lado ideológico da coisa…porque não ajuda a resolver o problema, me entendem?

Pois bem, pois mais que os bancos (do mundo todo) nunca tenham feito nada para merecer a simpatia do cidadão comum, as economias são estruturadas em torno deles. E é por isso que os governos estão fazendo o diabo para salvá-los! E eu acho que está certo. Mas não é para salvar o banqueiro falido, não!

Agora, o grande problema desta situação, com ou sem ajuda governamental, é que os bancos internacionais não irão olhar para mercados emergentes, como faziam antes, durante um bom tempo. Entre dar crédito para a boulangerie do Pierre e a padaria do nosso Manoel, adivinha qual é a prioridade do banco francês?…

Os governos estão jogando dinheiro público nos bancos, mas é para que estes emprestem para seus cidadãos, não para os de outros países. É meio óbvio.

ING – o meu querido ING, banco que passei longos 8 anos e onde aprendi muita coisa, anunciou uma grande reorganização no mundo – e no Brasil. O banco anunciou perdas de USD 1 bilhão em 2008. Aqui no Brasil, apesar de muito lucrativo, sofrerá as consequências das lambanças feitas na Europa e EUA. Como receberam muita ajuda governamental (EUR 10 bi), irão focar no mercado local. Mais das metade dos funcionários do banco brasileiro estão deixando a casa, inclusive o Presidente, que é meu amigo há 15 anos. É corte na gordura, na carne e nos ossos.

Abraços e bom carnaval!

Fernando

Próxima Página »