O idioma inglês tem uma palavra muito interessante: denial. Sua tradução para o português é negação, mas é pouco usada. Seu significado é negar a existência de algum fato cuja existência é óbvia, mas cujo incômodo causado é tão nefasto que a pessoa recusa-se a aceitá-lo.

Em Davos, a comunidade financeira lá presente parece estar vivendo em estado de denial de responsabilidade. Em outras palavras, “Não é culpa minha nem de ninguém, mas de todos”. No post abaixo eu realmente desqualifico qualquer tentativa de dizer que Mr. A ou Mr. B são OS culpados da crise, mas em Davos as negações são coletivas, para toda uma categoria de co-culpados, e.g. banqueiros.

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Denial à brasileira – em nosso país a negação não se refere a culpa, afinal esta crise foi importada. Nossa especialidade é a negação dos seus efeitos, duração, etc. Tudo começou com a marolinha do Presidente Lula. O nosso Ministro da Fazenda até outro dia vinha dizendo e repetindo que nossa economia cresceria 4% em 2009 – parece que agora “ajustou” o discurso, dizendo que os tais ilógicos 4% são apenas uma meta. Sei…

Semana passada eu participei de uma reunião, junto com vários executivos e consultores de peso, numa entidade internacional séria. Discutíamos a organização de um futuro evento sobre economia e finanças. Não demorou muito e logo alguns participantes surgiram com frases do tipo: “Mas não vamos falar de crise, afinal, ninguém aguenta mais falar disso e continuaremos vivos ao final dela”. Outro irrompeu: “Perfeito, vamos falar de oportunidades!”, ou “A abordagem deverá ser otimista”. Verdades:

  • Sim, ninguém aguenta mais falar em crise, mas todos continuam falando sobre isso porque precisamos entender seus desdobramentos, para melhor planejar nossas vidas e negócios.
  • Ser otimista é tão perigoso quanto ser pessimista. Temos que ser realistas, à luz do que conseguimos entender do momento e prever a evolução da crise.
  • Oportunidades sempre ocorrem em crises, mas só para aqueles que sobrevivem a elas. Para todos aqueles muitos que desaparecem nas crises, não há oportunidade alguma.

O que notei na citada reunião foi que havia uma busca coletiva por um toque de mágica que nos permitisse pular os próximos 12-18 meses de sofrimento que nos aguarda, para acordarmos num mundo que já tenha superado a tal crise.

Sorry, macacada, tal passe de mágica não existe. Negar a existência da crise – e consequentemente não se preparar para enfrentá-la – é tão ruim quanto pagar para ouvir “profissionais da catástrofe”. E todos sabemos que há muito economista que se aproveita para falar em catástrofe, pois às vezes isso dá mais ‘ibope’.

Conclusão, a crise existe e impactará todos nós, com maior ou menor força. Quem acreditar na sua existência e gerenciar corretamente seus negócios poderá sair-se melhor do que seus concorrentes ao final dela. Quanto aos demais – que a negarem – sairão dela mortos, em coma ou severamente amputados.

Abraços e bom final de domingo. FB