Eu já deveria estar na cama faz tempo, mas estou muito mal humorado com as informações econômico-financeiras que estão chegando. A de hoje sobre a indústria, então, me arrasou.

Não foi surpresa para mim e para quem acredita no que escrevo, mas a produção despencar perto de 15% (2008 x 2007) foi ruim demais (*). Lembram da minha analogia? É como vir a 180 km/h e brecar violentamente. Quem estiver mal equipado capotará ou sairá pelo vidro. Os bens equipados terão apenas lesões faciais e imensas dores toráxicas por conta do impacto com o air bag. Não morre, mas sai machucado. E um monte de gente morre nessa.

(*) Detalhe: os “analistas” esperavam 7%, segundo noticiado. Estamos bem de analistas…

Leia mais aqui sobre a derretida da indústria brasileira.

Crédito, Juros, Spread – é óbvio ululante que a tragédia acima é fruto da redução da oferta de crédito. Os motivos já são conhecidos do leitor assíduo do blog, mas a gente repete para o não-iniciados:

  • As linhas externas secaram – representavam algo como 19% do total.
  • Os bancos muito mais conservadores por conta desaceleração da economia.
  • Linhas de crédito migraram para grandes tomadores, como Petrobras.
  • O ‘calote negociado’ do affair derivativos reduziu a disponibilidade dos bancos.
  • O spread subiu porque a oferta de crédito diminuiu. Simples!

“E quando então a oferta de crédito vai aumentar e os juros/spreads cairão?”, você está se perguntando: Vai demorar, porque os bancos sabem que haviam emprestado demais nos últimos anos e, consequentemente, estão enfrentando grandes perdas. A economia terá que se reaquecer com estímulo governamental, para que só depois os comitês de crédito comecem a afrouxar suas decisões. Lá para março/abril de 2010. Antes será difícil.

Balança Comercial, Câmbio, USD – um dos posts mais sérios que eu já escrevi foi solenemente ignorado pelos amigos. Chamava-se “Caos, Câmbio…”. Tivemos uma ‘maxi-desvalorização’ do real e ninguém notou, ou reclamou. Eu previa – e confirmo -que teremos um câmbio nervoso em 2009, porque o mundo comprará menos produtos nossos e as nossas commodities exportadas valerão menos; teremos menos investimento estrangeiro no país (*) e nada de crédito externo. Por outro lado, apesar de importarmos menos também (viva a desaceleração!), as multinacionais aqui instaladas continuarão enviando dividendos para o exterior com voracidade e os juros/principal das nossas dívidas terão de ser pagos/remetidos. Acho, portanto, que em 2009 sairá mais dólar do país do que entrará, i.e. o real perderá valor.

(*) em 2009, registramos o mais inesperado dos recordes: entrarão no país USD 45 bi de investimento direto, inclusive no final do ano. Não tenho dúvida que este número não se repetirá, nem de perto em 2009.

Atenção, portanto, com o seu fluxo de caixa em moeda forte! E explique bem a sua situação para o seu banco, na hora de tomar crédito. Se o seu banco desconfiar que você importa demais e terá alta nos custos (por causa do câmbio), sem poder repassar esta alta nos preços, bye-bye linha de crédito! Serão reduzidas, cortadas, encarecidas, etc.

Leio no Estadão (repórter Adriana Ferreira) que as exportações de janeiro cairam 22,8% em relação a janeiro de 2008 (e 25% em relação a dezembro). Ruim demais. Enquanto isso, as importações cairam apenas 12,6% e 6,3% respectivamente. Ruim de menos. O deficit comercial em janeiro atingiu expresivos USD 518 milhões. Péssimo. Foi porisso que o governo tomou aquela decisão estabanada, na semana passada, de “monitorar” as importações – mas que voltou atrás.

Notícias internacionais – não irei aborrecê-los com páginas e páginas de más notícias vindas de todos os fronts do mundo. Até porque tornaram-se banais e não deveriam surpreender mais ninguém (e.g. crédito paralizado, economias encolhendo, prejuízos recordes nos balanços das empresas, etc).

Atenção: não quero ninguém pessimista (“Oh meu Deus, vou vender tudo!”), mas nem otimista (“O mundo não vai acabar! Vou comprar mais!”), mas sim realista (“Dado o cenário de profunda recessão mundial e de recessão leve aqui…”). Outro dia eu disse para um grupo de “otimistas”, que eles estavam era praticando auto-ajuda econômica, tipo O Segredo, Neurolinguística do Lair Ribeiro, etc.

Não gostaram….

Abraços, F.