Amigos,

Ninguém aguenta mais falar de crise, isto é claro. Porém, ela existe e só sobreviverá quem administrar corretamente esta travessia. Isto também é claro. Há um dilema, porém: como é que gente como eu pode comunicar sua visão sobre a tinhosa, sem parecer o Zé do Caixão ou como o Macaco Simão?…

Tem muita gente que prefere se comunicar através de bordões do tipo: “O pior já passou”, “Crise é igual a oportunidade”, “Estaremos vivos ao final da crise e a vida continua”, “Sejamos otimistas” e outras pérolas. O tema não é novo aqui no blog, mas me incomoda tanto que tornou-se recorrente. Mil perdões pela falta de originalidade.

ArcelorMittal no Valor Econômico – a maior siderúrgica do mundo é uma potencia no Brasil também e, na edição de hoje do jornal, a repórter Vera Saavedra Durão entrevista o executivo do grupo José Francisco Viveiros.

A empresa vem implementando, há anos, uma bem sucedida estratégia de crescimento baseada em aquisições. Analisem, portanto, esta declaração do J.Francisco, assim como os meus negritos:

Nossa estratégia não mudou [por causa da crise]. Apenas a velocidade de aquisição e investimento desses ativos será menor [por causa da crise]

Acho que é uma frase perfeita, tipo livro-texto. Não é otimista (porque não diz que “apesar da crise vamos investir normalmente“); não é pessimista (porque não diz que “abandonamos nossos planos!”). Ela é sim realista, pois mantém a estratégia de longo-prazo, mas faz os ajustes no curto-prazo.

Minha visão – esta crise vai atrasar o mundo em uns 3 anos (ou mais) e empobrecerá quase todo mundo. Então, não faz sentido algum a empresa (qualquer empresa ou cidadão) se endividar (se é que vai conseguir fazê-lo, nestes dias de crédito curto) para fabricar algo que não terá quem compre nos volumes oferecidos. O que fazer? Esperar um pouco, analisar o novo contexto do seu mercado, investir menos talvez, etc. Não é ciência espacial, não, é bom senso só.

Mas tem gente, os tais “otimistas de quermesse” que acham que tá tudo certo e vamos que vamos! Que ódio! São manipuladores da fé pública!

Crédito – se você está negociando uma linha de crédito (nova ou rolagem) precisa demonstrar bom-senso para o seu gerente. Banco não gosta de gente “otimista”, nem de “pessimista”. Banco gosta de gente realista!Negociar crédito demonstrando que está tudo bem (parecendo que acabou de sair do curso de auto-ajuda) é certeza de negativa. Da mesma forma, negociar crédito com fisionomia e motivação de quem precisa de Prozac na veia, não ajuda também.

Realismo, amigos, isto é mais que suficiente!

Abraços, Fernando

PS: usurpei o termo “de quermesse” do Alex Schwartsman, brilhante economista (pra lá de ortodoxo!), que costuma chamar certos economistas de “keynesianos de quermesse”, pois, segundo ele, comentam economia sem conteúdo. E os meus “otimistas de quermesse” não têm noção do que estão falando…