<< Curiosidade: os posts em que eu comento textos/falas da Miriam Leitão são dos mais visitados neste blog, porque muita gente procura por ela nos Googles da vida. Eu acho a Miriam Leitão a melhor e mais dinâmica jornalista econômica do país…mesmo discordando com ela volta e meia…como agora, eu acho.>>

Hoje a Miriam discuste – ou melhor, discorda – do fato do BC refinanciar até USD 36 bilhões de dívida externa de empresas brasileiras, que estão com dificuldades de fazê-lo pelos canais convencionais do mercado, i.e. refinanciar via bancos (trade finance, syndicated loans, etc.), euromercado, etc.

Como eu também ia postar sobre este tema, pego carona no post dela e faço contrapontos que ajudarão os amigos do blog a chegarem às suas próprias conclusões.

Ela acha que isto não é papel do Banco Central e que, no final das contas, o contribuinte é quem vai pagar a conta, como aconteceu na década de 80, segundo diz neste link. Leiam-na e vejam que ela também demonstra incômodo com o fato do BC doar dinheiro das reservas cambiais para os bancos cobrando 1% a.a., sendo que estes repassarão este dinheiro cobrando 5% a.a., lucrando em cima do BC, da empresas, etc.

Minha opinião – parece-me que há uma certa confusão conceitual e uma pitada de politização numa questão que é essencialmente técnica. Especialmente nos dias de total anormalidade em que vivemos, i.e. dias em que ortodoxia e ideologia devem dar passagem para medidas que gerem resultados. Detalhando:

  1. As empresas do Brasil e do mundo estão com dificuldade de rolar suas dívidas. Quando esta dívida é com um banco estrangeiro a coisa só piora. Os bancos (de qualquer país) estão com dificuldade de financiar as famílias e empresas dos seus próprios países por falta de funding…e um certo conservadorismo também. Como é então que um banco francês justifica para Monsieur Sarkozy que não está emprestando para a brasserie do Pierre, em Lyon, porque parte do seu funding está financiando a tropicalíssima Petrobras? Seria uma segunda queda da Bastilha, não?!
  2. Como os bancos brasileiros não tem capital extra para tal missão impossível, quem ajudará as empresas brasileiras? O governo, é lógico, via Banco Central que é quem volume de recursos em dólares, compatível com o volume necessário. É isso ou declarar inadimplência de centenas de empresas locais, que se endividaram no exterior para investir no crescimento do parque industrial brasileiro – e geral empregos, arrecadação fiscal, etc. Não houve especulação alguma, então não pode haver molecagem.
  3. O nosso Banco Central – como qualquer banco central – gerencia as reservas em moeda forte do país, investindo em papéis emitidos por outros governos de primeira linha. Já divulguei aqui, no passado, que o Brasil carregava mais de USD 100 bilhões de títulos do Tesouro do EUA. Em outras palavras, eu e você financiamos, indiretamente, o endividado contribuinte americano. Então, isto pode? O Brasil pode “estatizar” a dívida do cidadão americano, mas não pode “estatizar” a dívida da empresa brasileira?
  4. Na década de 80 o assunto foi radicalmente diferente. As empresas brasileiras também deviam em dólar, para bancos estrangeiros. Só que na hora de pagá-los, nossas empresas tinham os reais para fazê-lo, mas na hora de converter o pagamento para dólares e remeter para os credores, o nosso banco central é que não tinha os dólares . Resultado: o BC informava que o devedor privado brasileiro havia honrado a dívida e que ele, BC, é quem devia. O governo brasileiro não estatizou a dívida de ninguém, porque este alguém não pagou o que devia – o BC foi devidamente pago em dólares e assumiu a dívida externa simplesmente porque não tinha os dólares para completar a transação. Em outras palavras, nem eu nem você fizemos favor algum para os empresários endividados brasileiros. Se a renegociação da dívida externa brasileira gerou algum prejuízo para nós contribuintes brasileiros, esta foi gerada pelo próprio governo, que, no fim das contas, nos representa – e eu acho que o Brasil não incorreu em perda financeira alguma, pelo contrário, pois houve um grande deságio à época do Plano Brady – pagamos caro sim, mas pela exclusão do mercado internacional de capitais, encarecendo o custo dos empréstimos para empresas e governo brasileiros. Concluindo, não houve qualquer tipo de “socialização de dívida privada”.
  5. A questão do lucro: eu não sei de onde sairam os 1% e 5% que ela cita, mas dúvido que o nosso BC irá dar funding para os bancos brasileiros repassarem para as empresas, cobrando juros mais baixo do que é remunerado quando aplica em títulos no exterior, i.e. o BC ainda terá algum lucro nesta história. Já os bancos privados, como repassadores dos recursos, é que correrão o risco de crédito do empréstimo. P ortanto, eles tem que lucrar também, até para compensar o citado risco de crédito. Quanto lucrar? O mercado dirá. Quando o tomador for sólido haverá maior concorrência e os juros serão menores; empresas mais complicadas pagarão mais. Nada mais natural.

Puxa, acho que discordei radicalmente da Miriam Leitão – se ela souber da existência deste post, ela jamais me entrevistará! 🙂 Bem, agora vocês têm duas visões opostas sobre um tema fundamental para a retomada da nossa combalida retomada econômica.

Abraços + bom final de semana! F.

PS: não tive tempo de ir atrás de mais detalhes, mas até onde deu para entender, estou 100% de acordo com a ação do BC!