Ou A Luta Inglória de Timothy Geithner!

Pra começar, ele poderia ter um nome fácil – eu já grafei o nome dele de umas 3 formas diferentes. Sorry.

A tarefa deste jovem (bio na Wikipedia) Secretário do Tesouro é gigantesa, seja pelo tamanho, importancia, complexidade, etc.

Ontem ele falou muito. Foi tempo em excesso (19 minutos) para dizer tão pouco. Geithner fez um discurso político, nada técnico. Acho que disse pouco, porque o aspecto-chave deste imbróglio bancário-creditício é de difícil comunicação. Ou melhor, difícil mesmo é assumir e dizer qual é a real situação do sistema e o que tem de ser feito. Lembram dos meus posts sobre Pensamento Único e sobre Denial (ou Negação)? Pois é, Geithner, você e eu encontramos enormes dificuldades para aceitar e comunicar esta crise por que:

  1. Ninguém – e não é jogo de palavras – sabe como avaliar os ativos dos ativos bancários atualmente. Existem milhões de papéis ‘empacotados’ sob a forma de Collateralized Debt Obligations (CDO’s), garantidos por Credit Default Swaps (CDS’s). E não existem dois títulos iguais: num deles o lastro pode ser a hipoteca da minha casa e num outro ser a hipoteca da sua casa – e como você e eu temos perfis de risco diferentes, e nossas casas tem valores diferente, os CDO’s e os CDS’s que contém nossos ativos têm valores diferentes.
  2. Ao fazer a coisa certa, i.e. ao marcar-a-mercado estes CDO’s e CDS’s o capital de centenas (ou chegaremos aos milhares?) será pulverizado, e estes não terão capacidade de fazer novos empréstimos.
  3. Sem firulas, o sistema financeiro americano quebrou – e quando isto for assumido, o sistema britânico quebra junto e sabe Deus quantos outros. Nota do blogueiro: e o nosso sistema financeiro brasileiro é muito sólido e ficará ainda mais conservador.
  4. O sistema financeiro americano terá que ser estatizado. Mas como fazê-lo? São 6 mil bancos. Se “apenas” 600 estiverem quebrados (10% do total), como é que o governo americano administrará um número tão grande de instituições. Não há gente suficiente, nem há expertise suficiente.

Mr. Geithner fala em criar um fundo, que comprará os chamados “ativos tóxicos” (CDO’s, CDS’s) dos bancos, com capital público e privado. É uma alquimia inovadora – mas só um pouco. Explico:

  1. A idéia boa é que ao permitir que investidores privados – e.g. Hedge Funds – possam investir neste fundo de títulos podres, o governo reduz o volume de dinheiro do contribuinte investido nesta recuperação.
  2. Todo o resto continua o mesmo (Ver os itens acima, de 1 a 4).

Os valores envolvidos – o número consolidado varia entre USD 2 e USD 2,5 trilhões. No meu entendimento a conta fecha assim:

• USD 350 bilhões: recursos que sobraram do programa TARP (by Paulson & Bernanke).

• Entre USD 500 bi e USD 1 trilhão: fundo “público-privada”, que comprará os ativos.

• USD 1 trilhão de dinheiro novo (i.e. recém impresso) para comprar (investir em) ativos securitizados (lastreados em cartões de crédito, empréstimos estudantis, etc).

Será que dá? – Ninguém sabe e ninguém se arrisca a estimar o tamanho do rombo dos bancos – nem os próprios (PS: o FMI diz que será USD 2,2 trilhões, mas o FMI não conta, vamos combinar?). O total de empréstimos bancários nos EUA soma USD 7 trilhões.

Para encerrar: as palavras de ordem neste tema são as seguintes:

  1. Eles ainda não sabem os detalhes (até porque são muitos e complexos).
  2. Eles não tem confiança que a coisa vá funcionar (e não podem errar).
  3. Nenhuma das medidas (não) anunciadas forçará os bancos a emprestarem. A fera do The New York Times Floyd Norris aborda esta questão e eu antecipo e já resumo/traduzo a parte chave do texto: “Ordenar os banqueiros a emprestar é simples e nos traz satisfação. Mas isto não irá consertar a economia ou o sistema financeiro”.
  4. Continuaremos no temível jogo da “Tentativa e Erro”.

Abraços e oremos, pra valer. Fernando