No post anterior, falamos do Pacote de Estímulo. Este, no entanto, levará décadas – várias, muitas – para gerar resultados se o sistema financeiro não for reestruturado e voltar a operar dentro de uma ‘nova’ normalidade (bem menos desenfreada do que aquela que vigorava até recentemente).

A 2ª perna da Solução Obama é o Pacote de Recuperação dos Bancos (ou, para facilitar, Pacote Financeiro), anunciado por Timothy Geithner no dia 10 último. Por partes:

1.       Ela visa recuperar o sistema financeiro, para que este recobre sua autoconfiança e a partir daí volte a emprestar.

2.       O pacote foi mal recebido pelo mercado, acadêmicos e mídia, por ser genérico demais, pouco inovador e deixar a impressão de dejá vu e de chegar atrasado.

A essência deste pacote – assim como o foi o de Henry Paulson – é limpar os balanços dos bancos, extirpando os ativos tóxicos destes. Porém…

1.       Como fazê-lo sem dilapidar o capital dos bancos? Lembrem-se, quanto menor o capital de um banco, menor é sua capacidade – moral, técnica e regulatória – de emprestar. Portanto, se o objetivo é voltar a emprestar, os bancos deverão ter seu capital preservado de alguma forma.

2.       Como preservar seu capital, mas punindo os acionistas que permitiram os bancos chegarem a este estado de insolvência? É inimaginável e inaceitável que o governo (de qualquer país) injete dinheiro público numa instituição privada sem que os acionistas originais sejam exemplarmente punidos, com perda de controle do banco, parcial ou completamente.

Grandes veículos da mídia, como The New York Times Blog do Crédito trataram do assunto. J

Mas não percamos o foco: os bancos precisam voltar a ter confiança na economia (e isso o Plano de Estímulo tem o papel de fazer) e em si próprios (e é aqui que Geithner está falhando). Não nos esqueçamos, também, que a palavra-chave agora é CONFIANÇA!! Se o plano dele está certo ou errado é o que menos importa! O que interessa é: o plano transmite confiança, ou não?

A resposta é NÃO! “Próximo plano, please, Mr. Geithner!”

Bem, o mesmo NYT, na coluna Talking Business, acertou na mosca ao acabar com os rodeios: não existe opção fora da NACIONALIZAÇÃO dos bancos problemáticos. Leiam o texto (em inglês), porque a análise está provocativamente correta.

Já o nosso mentor Nouriel Roubini aparece no Estadão de hoje em artigo traduzido do Washington Post. Achei Roubini pouco arrojado neste artigo – pareceu-me com intenções, digamos, veladas de não trombar com Obama/Geithner. Terá Roubini interesse de voltar à turma de assessores da Casa Branca (ele ocupou uma posição menor no governo Clinton)? O tempo dirá. Leiam Roubini aqui.

Mas para encerrar as dúvidas e apreensões mundiais, abaixo F.Blanco dá a receita – dolorosa, complexa e única – para solucionar a questão da crise bancária americana e britânica. :)

1.       TODOS os bancos que estejam utilizando linhas de crédito do FED seriam alvos de uma AUDITORIA dos seus ativos, para identifcar seu valor de mercado (se existir…).

2.       Os que forem classificados como INSOLVENTES (além de ilíquidos…), seriam NACIONALIZADOS.

3.       Ao serem nacionalizados, o Tesouro americano os CAPITALIZARIA, no volume necessário para tornar tais bancos operacionais outras vez. Esta capitalização teria como contrapartida a aquisição dos ativos tóxicos.

4.       Os ativos tóxicos comprados pelo governo iriam para o FUNDO já anunciado pelo governo. Investidores privados (e.g. Hedge Funds) poderiam investir neste fundo também, conforme já anunciado – é uma boa idéia, mas traz o seguinte efeito colateral: descapitalizará os já descapitalizados Hedge Funds para aquisição de papéis e empresas novas.

5.       Os EUA (nem país algum do mundo) precisa de 6 ou 7 mil bancos – especialmente quando a maioria deles tem problemas. O governo então CONSOLIDARIA os bancos nacionalizados, criando alguns novos mega bancos (bem, nem tão mega assim…) – exemplo: Bank CitiMorgan of America.😉

6.       Ao nomear membros para o Board of Directors destes bancos, o governo poderia determinar METAS DE CRESCIMENTO dos empréstimos destes bancos, à luz do crescimento da economia, criando o tão desejado ‘círculo virtuoso’.

7.       Assim que a economia se normalizasse, estes bancos nacionalizados seriam PRIVATIZADOS através de leilões.

Resumindo, esta minha proposta, assim como era a de Paulson e o é a de Geithner, é terrivelmente complexa nos âmbitos legal e operacionalSeria um desafio sem igual conseguir mão-de-obra especializada para tocar todos estes passos, que teriam de acontecer concomitantemente.

Mas anotem aí, não há outra saída…

Abraços! F.