Existem vários elementos desta crise que, apesar de serem inéditos, podem ser vistos como “normais”, mas duvido que alguém pudesse imaginar, digamos que 6 meses atrás, que os Bancos Americanos fossem estar nessa – perdõe-me a expressão – draga.

O mercado já negocia os seus papéis como empresas falimentares. É uma destruição contínua de valor, sem piedade. Até o Republicano, Chairman do Comitê de Bancos do Senado americano – e talvez o cidadão mais liberal daquela casa – Chris Dodd, cede às evidências e assume que talvez não haja outra solução, i.e. Citibank, Bank of America (BofA), entre muitos outros, serão nacionalizados. Porque quebraram.

Para mim, pessoalmente, o caso do BofA é ainda mais emblemático, pois foi o meu segundo emprego (em 1985 eu era analista de crédito de uma subsidiária brasileira do BofA chamada Multi-Banco Internacional de Investimentos). Eu vivi, respirei a potência e solidez daquela instituição. E outro dia, num passo patético, próprio de executivos sem-noção, compraram a quebrada Merril Lynch, que ajudou a afundar o centenário banco da California. Detalhe: o FED que deu a “benção” para o “casório” é outro sem-noção!

E Obama? – está perdido, o que é natural. Ninguém – nem eu!🙂 – sabe exatamente como lidar com esta besta que provou ser indomável! E o medo das consequências ao nacionalizar todo um sistema quebrado? Como fazer funcionar depois? Notem que é muito antiamericano! E deve ter um exército de Beluzzos, dizendo nas orelhas inchadas e ferventes de Obama e Geithner: “Deixa quebrar, porque assim o sistema se depura mais rapidamente e retorna com mais vigor”. Tá bom…e coragem para implementar? Eu, que confio muito no meu taco e, sem modéstia, acho que entendo do riscado, jamais toparia deixar um sistema financeiro quebrar-quebrado, dilapidando a poupança das famílias.

Enquanto isso no Velho Mundo…

Os bancos europeus me surpreenderam em setembro. Eu apostaria que a situação deles era muito melhor do que a dos bancos americanos. OK, é melhor – na média – mas é suficientemente ruim para desorganizar o sistema. Nouriel Roubini, guru das horas trágicas, nos informa que os bancos europeus enfiaram muito, mas muito dinheiro mesmo nos países do Leste Europeu, que estão muito, mas muito ruim das pernas.

Eu sei de longa data, que a Alemanha (governo, empresas e bancos) tem uma certa fascinação com a Rússia. E os bancos alemães têm muitos bilhões emprestados para aquele país tão complicado, especialmente agora, com o petróleo a USD 40/barril.

Vejam aqui o vídeo com o Roubini

E eu com isso?!

O amigo frequentador deste blog sabe que nossa proposta é abordar os assuntos sob o prisma técnico, para minimizar as suas/nossas perdas. 
Não costumo abordar o lado ideológico da coisa…porque não ajuda a resolver o problema, me entendem?

Pois bem, pois mais que os bancos (do mundo todo) nunca tenham feito nada para merecer a simpatia do cidadão comum, as economias são estruturadas em torno deles. E é por isso que os governos estão fazendo o diabo para salvá-los! E eu acho que está certo. Mas não é para salvar o banqueiro falido, não!

Agora, o grande problema desta situação, com ou sem ajuda governamental, é que os bancos internacionais não irão olhar para mercados emergentes, como faziam antes, durante um bom tempo. Entre dar crédito para a boulangerie do Pierre e a padaria do nosso Manoel, adivinha qual é a prioridade do banco francês?…

Os governos estão jogando dinheiro público nos bancos, mas é para que estes emprestem para seus cidadãos, não para os de outros países. É meio óbvio.

ING – o meu querido ING, banco que passei longos 8 anos e onde aprendi muita coisa, anunciou uma grande reorganização no mundo – e no Brasil. O banco anunciou perdas de USD 1 bilhão em 2008. Aqui no Brasil, apesar de muito lucrativo, sofrerá as consequências das lambanças feitas na Europa e EUA. Como receberam muita ajuda governamental (EUR 10 bi), irão focar no mercado local. Mais das metade dos funcionários do banco brasileiro estão deixando a casa, inclusive o Presidente, que é meu amigo há 15 anos. É corte na gordura, na carne e nos ossos.

Abraços e bom carnaval!

Fernando