Caros,

O Estadão de hoje emplacou várias matérias sobre as dificuldades que o país vem enfrentando com o crédito escasso.  Apesar de domingo de carnaval não ser o melhor dia para se apoquentar com crédito, a comunidade que luta pela transparência do crédito agradece! Sigamos:

Crédito escasso freia o consumo, por Leandro Modé

O argumento é que o crédito não se regularizou, apesar da solene afirmação feita por Henrique Meirelles e já comentada – e destruída – aqui no blog. Me digam, custava o BC ser mais transparente com um assunto tão importante para a população e empresas? Até a Febraban, que é entidade de classe, foi muito mais correta neste ponto! O BC sim tinha essa obrigação, mas pisou na bola – e feio.

A reportagem é focada no varejo. Todos concordam que o setor mais afetado foi o comércio. Eu concordo e vou mais longe:  aos olhos de quem financia, o comércio é o setor menos transparente no Brasil. Não gostam de dar balanços para análise e quando os dão…lembram de Star Trek, Star Wars e outras ficções? Conheço muito bem o setor e algumas de suas associações de classe…enquanto não mudarem sua forma de encarar crédito e o relacionamento com bancos, financeiras, etc., vão sempre pagar os juros mais altos.

Quem não é transparente com banco sempre passa impressão de má qualidade de risco, então as linhas são escassas e, portanto, o empresário não tem  como barganhar. Conclusão, pagam o que é cobrado, i.e. juro alto.

 BC e Febraban admitem dificuldades , por Leandro Modé

Pelo que diz a reportagem, o BC enviou uma nota apenas. Que feio! Bem, acho que ninguém do BC resistiria a duas perguntas bem feitas sobre o tema. Seria nocaute na certa. A tal nota foi “de sobrevivência”. 🙂

Acho que o destaque desta matéria é a conclusão do próprio jornalista, a respeito da visão do BC: Por ora, o BC entende que as dificuldades se devem a própria crise, que fez os bancos serem naturalmente mais cautelosos na concessão de empréstimos. Se essa percepção mudar, o contra-ataque será diferente”, ele escreve com precisão.

Exigências dos bancos excluem empresas médias, por Marianna Aragão

Confesso que não entendi a lógica desta manchete, mas a matéria explica que as empresas de médio e pequeno porte estão encontrando problemas para fornecer todas as garantias exigidas pelos bancos. Não custa lembrar o ‘caminho do inferno’ nestes momentos de alta percepção de risco:

  • Piora a percepção de risco da empresa?
  • Diminui o volume de linhas de crédito ofertadas.
  • E menos ofertas é igual a preço mais alto, sempre!
  • Pior, os prazos das linhas são encurtados.
  • Muito pior, mais garantias são solicitadas.

A matéria aborda também as dificuldades de empresas de serviços, que não tem ativos ou recebívies. Como conseguir crédito? Bem, no Brasil isto sempre foi quase impossível, só tendo havido um refresco nestes anos recentes de exuberância irracional do crédito verde-amarelo.

Eu sei que é duro para quem tinha acabado de se acostumar com a oferta de crédito (ainda que a custo proibitivo). Mas o crescimento recente do crédito no Brasil não era normal – e não era saudável. Se nada cresce 30% a.a., por vários anos, por que o crédito doméstico, em reais, deveria? De repente o risco empresarial ficou tão maravilhoso assim, ou as famílias ficaram tão abastadas e seguras? Ou os bancos aprenderam a dar crédito pra valer, renunciando a um passado absurdamente conservador? Nah…foi exuberância irracional.

Agora, voltamos à velha ordem natural das coisas. Só que de forma abrupta, machucando muita gente inocente.

Factoring vira tábua de salvação, por Marcelo Rehder

Finalmente, ufa, quanta matéria sobre crédito. Até para um veterano obsecado como eu tem coisa demais para ler e comentar. Esta matéria, até pelo próprio título, saúda a existência das empresas de factoring, tantas vezes demonizadas (até por bancos…).

Meus amigos da ANFAC comentam que o volume de negócios aumentou 40%, se comparado com o pré-crise. Notem que não me surpreendo com um provavel aumento da demanda por factoring. Mas me surpreendo sim com o aumento dos negócios. Por que?

  • De onde saiu o funding para as empresas de factoring passarem a descontar tantos títulos a mais?
  • Estariam elas com caixa sobrando, à espera de bons negócios?
  • A única certeza que eu tenho é que os bancos não passaram a dar mais funding para elas.

O custo do factoring é naturalmente mais alto do que os juros bancários, por dois motivos: (a) o custo de funding para as factorings é consideravelmente mais caro que o dos bancos, (b) as factorings sofrem uma cunha fiscal que as torna menos competitivas que os bancos. Em outras palavras, as factorings – na média – correm mais risco, cobram mais caro e lucram menos. Este é um fenômeno do capitalismo financeiro…

Nossa Caixa – esta reportagem traz a declaração de um empresário que reclama de ter sido injustamente protestado pela Nossa Caixa, tendo ficado com o nome sujo e com enormes dificuldades para tomar empréstimos em outros bancos. É óbvio que eu não quero fazer juízo de valor da Nossa Caixa ou do empresário, mas aqui mesmo no blog já registramos uma tremenda reclamação contra a Nossa Caixa, por motivo similar. Haverá algum problema por lá?

Abraços, Fernando

PS: concluir este post foi uma obra de amor à arte de blogar. Quando o mesmo já estava quase pronto, eu fui salvá-lo, mas o patético serviço da dupla Telefonica/Speedy me fez perder tudo! Deu vontade de jogar o notebook pela janela! Fica aqui a minha vingança: que nenhum dos 23 leais seguidores deste blog jamais usem quaisquer serviços da Telefonica/Speedy!