Este post é inspirado por um comentário recente, contribuição do amigo do blog Armando: “Deus cria, a Terra espalha e o diabo os junta”.

Sem querer dar qualquer viés religioso a este blog, que é espiritualizado mas sem preferencia religiosa alguma, aqui vai a minha forma de ver a questão:

Deus inspira o homem bom a desenvolver uma série de instrumentos financeiros que deveriam ajudar o desenvolvimento dos mercados e das nações. Porém – e que porém! – o diabo inspira uns tantos outros homens inteligentes, mas não tão bons, a desviarem-se da Missão e bagunçar a obra divina.

Vejam os casos abaixo:

1. Derivativos “Básicos” sem dúvida é uma invenção de Deus, pois é muito útil para a gestão de riscos de empresas e bancos. Graças aos derivativos de câmbio e de taxa de juros, por exemplo, os bancos podem tomar muito mais depósitos e emprestar muito mais – e isto é muito bom para a sociedade. Porém, o capeta aprendeu como funcionam e distorceu seu uso. Minha racional:

  • Especulação desmedida: ao invés de ser usado para proteger uma posição assumida pelo empresário, os especuladores podem montar posições que, ao longo do tempo, poderão distorcer os preços de determinado ativo ou mercado. Aqui, o problema não é especular, mas é o volume permitido pelos reguladores!
  • Alavancagem: emprestar/financiar/alavancar é mola fundamental para o crescimento econômico e, portanto, para a sociedade. Porém, financiar posições especulativas, através de instrumentos derivativos, tornando-as gigantescas…e sem controle…é insano. Especialmente porque os reguladores não tem como garantir estabilidade ao mercado.
  • Derivativos exóticos – (ou tóxicos, como está na moda) – se o Nicholas Taleb diz que são instrumentos que ele, que era um ás no trading de derivativos, não os entendia em toda sua complexidade, que dizer de tantos ásnos espalhados pelas tesourarias de bancos, fundos e empresas? O sujeito negocia várias vezes o capital de sua instituição, a partir de um modelo que ele não faz idéia de como funciona + sem controle decente de ninugém + sem que seus gestores seniors façam idéia do que o autorizaram a fazer!
  • Barings conheça aqui uma versão bem realista da quebra do multicentenário banco inglês (e onde a própria Rainha Elizabeth II tinha investimentos na divisão de gestão de fortunas – private banking). Este mais-que-testado Risk Manager, em sua atual versão blogueiro-segurador de crédito, viveu as duas pernas deste caso: primeiro foi o resgate pelo ING (eu era ING) e depois a compra da divisão americana do Barings (já com outro nome) pelo ABN (eu estava no ABN). O case study do Barings daria um MBA por sí só, pois ali aconteceu tudo de errado (antes, durante e depois, diga-se de passagem). Leiam o link porque vale a pena.

2. Securitização – securitizar é uma coisa simples, mas é tão complicada para explicar. Tentarei: uma security (ou título mobiliário, em português – ajudou?) é um título que é composto (ou lastreado) por vários outros. Tá piorando… Imagine que um banco tenha 10 empréstimos (papai-mamãe) com empresas do setor exportador, totalizando USD 100 milhões. Acontece que o banco identifica que há investidores com interesse para correr este risco, mas como investidor não é banco eles não podem fazê-lo. Securitizar é a solução. Através de uma parafernália documental, os tais 10 empréstimos são “empacotados” e vendidos para um fundo, sob a forma de título ou security. Aí os investidores poderão investir neste fundo que tem o rendimento e os riscos dos ditos empréstimos. Se não ficou claro – e é óbvio que não ficou -, comentem/perguntem, por favor!.

Pois bem, a securitização é uma coisa fantástica, pois “libera” espaço no balanço dos bancos para que estes possam emprestar mais, para mais gente. Mas se fosse tão redondinho assim não teria graça…

  •  Um problema é quando o título/security é lastreado por maus empréstimos – esta é uma das pernas da crise do subprime americano.
  • Como na maioria das vezes o empréstimo continua de forma, digamos, invisivel no balanço do banco (apenas ‘inertizado’ pela venda para o fundo – o documento é chamado de participation), se os empréstimos não são pagos, e o fundo quebra, o castelo de cartas se desmonta. Vira um “ninguém-paga-ninguém” e só quem ganha são os advogados de todas as partes, que brigarão ferozmente uns com os outros.

3. Globalização em 1992, quando estudei International Banking & Financial Studies, na Escócia, não discutíamos “Globalização” (o termo aparentemente não existia). Mas falávamos em DEREGULATION, que na época significava poder fazer quase tudo em quase todo os lugares. Os mercados financeiros e de capitais começavam a se abrir, com menos regras para os estrangeiros (e.g. um brasileiro investir em títulos emitidos nos EUA – o chamado Yankee bond – através de uma off-shore na Bahamas).

  • Graças à globalização é que o Brasil acumulou USD 200 bi de reservas e teve zilhões de dólares entrando no país sob a forma de investimento direto e empréstimos.
  • E também o comércio internacional – que é a grande fonte de riqueza neste planeta – multiplicou de volume.
  • Só que, como sempre acontece onde o Tinhoso põe a pata, houve exagero. Os EUA (e a Europa também!) não deveriam ter “terceirizado” sua manufatura para a China e seus serviços para a Índia. Isto gerou boa parte do desequilibrio que fomentou esta crise. E pra reverter agora, hein?!…

No fim das contas, amigos, todas essas coisas exóticas que vêm sendo demonizadas por conta desta crise sem igual, começaram de forma quase inocente, com propositos nobres. Só que o Capeta atiça o lado BESTA do homem de mercado e o lado BANANA dos políticos e reguladores, deixando que o lado ruim da invenção Divina predomine, ainda que temporariamente.

Para concluir o post, fiquem com este pensamento Made by F.Blanco:

Quando estiveres no jardim e reparares num pequeno anelídeo esfregando-se pelo chão, preste muita atenção nele! Talvez não seja apenas uma inofensiva minhoca, mas sim uma jibóia recém-nascida, que mais tarde poderá te devorar!…

Abraços, FB