março 2009


Este artigo da Business Week está muito bom e eu recomendo a leitura.

Primeiro o autor, Matthew Goldstein, comenta que o Obama foi muito “soft” com os banqueiros na Casa Branca, comparativamente ao que foi com as montadoras.

Depois ele argumenta que o governo do EUA (e por tabela do resto do mundo?) não deveria permitir que nenhum banco ser “grande demais para quebrar” (“too big to fail”). Afinal, 96% dos derivativos estavam nas mãos de apenas 5 bancos.

A solução, segundo ele, seria o restabelecimento de uma legislação semelhante ao famoso Glass-Steagall Act, que separava as funções de banco comercial (depósitos e empréstimos) das de banco de investimento (“mandrakarias” em geral”). Quanto esta lei foi alterada, nos anos 90, bancos como Citibank puderam cumprir os dois papéis, correndo riscos que jamais teriam corrido em outros tempos.

Se, de fato, um novo Glass-Steagall Act for criado nos EUA (e no mundo), o processo de inovação financeira terá dado um passo para trás. Mas é isso mesmo que os governantes querem. E é isso que o mundo precisa.

Em tempo, aqui no Brasil os bancos múltiplos podem cumprir os dois papéis – comercial e investimentos -, só que o mercado local é muito limitado e regulado, o que torna muito difícil que geremos uma crise Made in Brasil, por conta de excesso de liberalidade.

Abraços, F.

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A alta de hoje é por conta dos…bancos, sim, pelo mesmo motivo que fez o mercado cair ontem. Leiam o que este executivo do UBS disse:

“In March, it wasn’t that things got materially better, they just got less worse,” said Mike Ryan, New York-based head of Americas wealth management research at UBS AG. “This market could surprise to the upside if we get near-term data points that suggest things are not as horrific as some people suggest.”

A bolsa surpreenderá – para cima – se os números dos bancos vierem “menos horríveis” do que se espera.

Abraços, F.

O mercado acionário teve um dia de queda generalidade, de norte a sul, leste-oeste, e o motivo divulgado é “por conta da declaração de Barack Obama de que alguns bancos precisarão de mais ajuda”. E um pouco também porque GM e Crysler bla-bla-bla…

Santo Cristo, estamos falando de zumbis de 1a categoria. Bem, aí o governo lançou um pacote de difícil execução (vide os vários posts abaixo) e o mercado subiu que foi uma alegria só, como se tudo estivesse resolvido.

Agora Obama, ou que seja o Joe The Plumber (lembram desta do McCain?), diz que ainda tem mais por fazer e o mercado derrete? É óbvio que ainda teremos rios de notícias complicadas sobre os bancos americanos, pois a confusão instalada na contabilidade destes é algo supremo. Não deveria haver mais ingenuidade neste campo. Mas há. Ou não…

Aqui a história contada pela Bloomberg

Abs, FB

Caros,

Os amigos com mais de 40 anos de idade lembrarão de Delfim como o Czar da economia. Os mais jovens conheceram apenas o Deputado Federal. O fato é que ele é um dos maiores conhecedores de economia dos nossos tempos. E dono de um humor mordaz como poucos.

O Estadão de hoje traz esta ótima entrevista que Leandro Modé fez com o Delfim. E eu fico particularmente feliz com que o que ali é dito, pois o Czar valida pelo menos duas visões que há tempos eu deixo claro neste blog:

  • Ele diz que o BC (e eu disse que o Ministério da Fazenda também) não agiu com a agressividade devida para combater esta crise, por conta das amarras que sofre da burocracia federal que o(os) regula (e.g. TCU, Ministério Público). Confiram aqui.
  • Quando perguntado se o crédito não vai voltado, ele disse: “A gente se engana. O crédito está crescendo? Claro, o sujeito está renovado a mesma linha, mas com juro maior. O que há de engano estatístico é uma coisa gloriosa. Não está melhorando.”

Leiam a entrevista, pois Delfim é de uma lucidez analítica fora do padrão.

Abraços e boa semana a todos! F.

Passou pouco notado um tremendo feito de Tim Geithner, Secretário do Tesouro dos EUA, ontem no Congresso americano: ele deu início a uma cruzada por mais regulamentação dos mercados financeiros.

Foi só o primeiro passo, mas o sofrimento dele será grande e longo. Primeiro, porque terá de enfrentar um lobby fortíssimo da indústria e, segundo, porque os Republicanos não lhe darão vida fácil – mesmo para aprovar o óbvio e necessário.

Destaques para o projeto de Geithner:

  • Poder para impor capitalização de bancos que corram riscos além do aceitável pelo governo.
  • Poder para regular certos fundos, e.g. Private Equity, Hedge Funds, etc.
  • Poder para regular instituições quase-bancos, e.g. GE Capital, AIG, etc.
  • Impor restrições aos mercados derivativos ‘de balcão’, tais como a obrigação de registros em bolsa.

Abre-se, portanto, uma terceira frente de batalha na guerra hercúlea que Obama & Geithner vêm enfrentando. Primeiro foi o pacote fiscal para acelerar a economia, depois foi o plano de resgate do sistema financeiro e, agora, começa a luta para evitar que esta hecatombe financeira volte a ocorrer.

Aqui a matéria doThe Times, com link para o texto original de Geithner.

E aqui a da Business Week, que fala que será uma “guerra”!

Abraços, F.

PS: os Europeus já deixaram claro que não há acordo com os EUA, enquanto estes não ‘arrumarem a casa’ no quesito regulamentação bancária. Só que não adianta os EUA fecharem o cassino se Europa e Ásia não fizerem o mesmo. Isto é uma tarefa para o G-20 liderar, semana próxima, em Londres.

O ótimo blog de Brad Setser nos mostra, entre outras informações muito relevantes, este gráfico, que demonstra claramente o triste grau de desaquecimento da economia internacional.

A Ásia é a região exportadora de produtos manufaturados, por excelência, e os países ricos, como EUA e União Européia, são os grandes compradores. Pois bem, olhem como andam as exportações dos países do Oriente!

Setser nos informa também que as exportações do Japão cairam 50% (cinquenta porcento!) em fevereiro de 2009 versus 2008. Em situação similar estão todos os países do Sudeste Asiático. E aí eu fico com medo.

Estes países vinham crescendo mais do que a média mundial, assim como deles era esperado que continuassem crescendo para sustentar (mais ou menos) a economia mundial. A China à frente, naturalmente.

Sucede que estes países eram e são dependentes de exportações para que seus PIB’s crescam e sua população possa consumir, suas empresas investir, etc. Se as exportações caem dramaticamente – porque os ricos não compram -, estas economias ficam estagnadas tão rapidamente como as ricas ficaram.

É um círculo vicioso assustadoramente perigoso. Espero estar errado e que não sejamos surpreendidos por uma recessão global ainda pior do que aquelas que são projetadas pelo FMI e outros (crescimento do PIB global por volta de zero).

E se você depende de exportações para aquela região, reflita sobre a sua estratégia.

Abraços e bom domingo! FB

Caros – este blog não se notabiliza por criticar governos e governantes – só as vezes, quando merecem. Mas vocês notaram certas falas do nosso mandatário esta semana? Acho que Lula não estava numa boa semana – ou será impressão minha?

1. Ao receber o Primeiro Ministro do Reino Unido, Gordon Brown, ele discursou: “É uma crise causada por comportamentos irracionais de gente branca de olhos azuis, que antes da crise parecia saber tudo e agora não sabe nada”

  • Essa frase correu o mundo. Foi profundamente inapropriada por conta do preconceito nela embutido. E, pior, pelo fato dele ser anfitrião do Chefe de Estado de um país de gente de branca e olhos claros.

2. Ao lançar o programa habitacional Minha Casa, Minha Vida, o Presidente comentou sobre o prazo de entrega:  “Não tem limite, não tem data. Portanto, ninguém me cobre que nós vamos fazer 1 milhão de casa em dois anos”

  • Lançar um programa – de qualquer coisa – sem data para conclusão é bizarro. Não tem nem que tentar explicar.

3. Ao discursar na FEICOM (feira da construção civil), disse: “Nós, hoje, mais do que fazer uma pauta de reivindicação pedindo mais aumento, temos de contribuir para as empresas venderem mais”

  • Bem, aqui ele não falou bobagem alguma, mas foi algo tão inimaginável de sair da boca de Lula que vale menção. Até porque foi usada politicamente pela mídia e até sindicalistas ficaram na bronca.

Abraços, F.

PS 1: Gordon Brown é o Primeiro Ministro do Reino Unido e não da Inglaterra, como grande parte da mídia reportou, com imbatível ignorância. O Reino Unido é composto por Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte. A capital do Reino Unido fica em Londres, que coincidentemente é capital da Inglaterra. Mr. Brown é escocês (assim como o era seu antecessor, Mr. Blair).

PS 2: Lula havia dito que não conhecia banqueiros negros ou índios, ao defender seu ataque a brancos e loiros. Pois bem, um certo Stanley O’Neal era até outro dia CEO da poderosa Merril Lynch e um dos grandes líderes de Wall Street. Apesar do nome 100% irlandês, Mr. O’Neal não é propriamente um cidadão loiro ou ruivo, muito pelo contrário. Vejam aqui dúzias de fotos dele, em vários ângulos, para não deixar dúvidas.

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