<< Primeiramente, o meu mais efusivo muito obrigado pelas vossass manifestações de apoio, através do blog e fora dele. O tombo  foi feio, mas os movimentos estão voltando e as dores passando. E vamos para o próximo, pois vida de ciclista é assim mesmo! >>

Amigos, quem tem 40 anos ou mais lembrar-se-a que, antes da internet revolucionar o fluxo de informação no nosso Planeta Azul, a Veja exercia tamanha influência na vida de executivos e empresários brasileiros, que hoje chega a ser pueril. Eram tempos de escândalos que mexiam com os mercados; hoje pouco mexem (vide o Mensalão…). Nós assinávamos a Veja para saber no domingo se a 2af seria agitada ou não. Quando a revista chegava em nossas mãos, líamos a coluna Radar com tamanha voracidade e sofreguidão, que poderíamos perder o gol da final do campeonato ou deixar a namorada recém-conquistada falando sozinha! Dá pra acreditar na força que Veja tinha?

Na minha visão, a revista mais lida do Brasil continua sendo uma potencia no aspecto político, além de ser uma revista legal em termos gerais. Mas no lado econômico, tsc, tsc, não tem acertado a mão.

Nesta última edição, resolveram aplicar uma goleada de otimismo na crise: Brasil 10 x 1 Crise, conforme o link da Veja . O Blog do Crédito, que NÃO ADVOGA O PESSIMISMO, mas que NÃO ACEITA OTMISMO SEM SUBSTÂNCIA, foi checar o TIRA-TEIMA da Rede Globo, e informa:

GOLS do Brasil

Primeiro gol: Reservas de USD 200 bilhões – VÁLIDADO

Segundo gol: Banco sólidos – VÁLIDADO

Terceiro gol: Ausência de bolhas – ANULADO!

O Tira-teima explica: para o nosso padrão creditício, o crédito para PF (imóveis e automotivos de longuíssimo-prazo) e certos setores de PJ (pequenas, longos e com pouca garantia) cresceu além do normal e pode ser considerado uma mini-bolha. Não chegou a quebrar ou ameaçar banco algum, mas os volumes emprestados anteriormente não voltarão tão cedo, portanto, Veja erra ao afirmar “com potencial de crescimento real dos setores”.

Quarto gol: Mercado interno forte – VÁLIDADO

Quinto gol: Matriz energética verde – ANULADO!!

O Tira-teima deixa claro forçaram a barra. Ok, temos carro flex, mas isto não significa que poderemos derrubar amazônia para plantar cana. E  também temos petróleo sobrando e o preço deste está no magma. Quer dizer: não tem nada a ver uma coisa com a outra. A atual conjuntura é boa, de fato, para a China, que importa muito mais que nós, ou para a França. Para o Brasil é neutro.

Sexto gol: Estabilidade política – ANULADO!!

Mais uma vergada na lógica. EUA, UK, França, Espanha e mais uns 10 países absurdamente democráticos flertam com o fundo do poço. Ser democrático não chega sequer a ser “condição necessária, mas não suficiente“, visto que a China é bem pouco democrática e vai tão bem – ou tão mal – como nós, democratas recentes.

Sétimo gol: Estabilidade econômica – ANULADO!!

Ora pipoca, nossa economia vinha sendo tão estável como as dos demais países afetados. Não é por causa disso que iremos nos sair melhor na crise. Aliás, crescia menos, daí o fato de cair menos também. A conversa é outra. Nossos marcos regulatórios são abaixo da crítica se comparados com os demais países desenvolvidos (podem ser melhores que os de China, Rússia, Venezuela e Equador, mas aí é baixar demais o sarrafo…).

Oitavo gol: Maior exportador de alimentos – VALIDADO

Nono gol: Mercado externo diversificado – VALIDADO

Décimo gol: Cresceremos mais que o mundo – ANULADO!!

Gol de mão, em posição de impedimento e com o jogo já encerrado. E daí? Só porque a Islândia foi estraçalhada pela crise isto nos dá algum benefício ou motivo de orgulho? Dane-se que a Islândia e os demais 25 países da OCDE vão muito mal: o problema é que nós estamos indo suficientemente mal também, oras! Pergunte ao Zezinho, ex-mecânico de freio aerodinâmico da EMBRAER, se ele ficou feliz com as demissões no Japão e na Espanha, que são maiores que as do Brasil? Para ele, deu empate, porque ele perdeu o emprego também!

Gol LEGAL do Brasil e que foi ANULADO (i.e. não listado pela Veja): por sermos um país fechado (exportações/PIB,  investimentos externos/PIB, empréstimos externos/PIB), sofremos menos agora. O nosso atraso global tornou-se ponto positivo agora. Defeito virou virtude…

GOLS DA CRISE

Único gol VALIDADO por Veja: Gastos públicos. Correto. Se o governo gastasse menos, poderia investir mais. De qualquer forma, eu discordo da tese que ao ter um superávit fiscal maior o governo não competiria com os bancos e os juros cairiam. Conversa. Os bancos depositariam mais no BC.

Agora, a CRISE vem marcando outros gols, INJUSTAMENTE INVALIDADOS por Veja, como por exemplo:

Gol 1: Falta de apetite de risco dos bancos brasileiros. São mais sólidos que seus rivais, porém, são tão conservadores quanto estes. O país está em recessão por este motivo, principalmente.

Gol 2: O país perdeu muito crédito e investimentos externos e isso ajudou a travar o país. E o governo ainda não conseguiu reverter o jogo, através das reservas do BC, ou dos empréstimos de BB, BNDES, BNB, etc.

Gol 3: Nossas exportações perderam valor e isto reduz a renda dos exportadores, sendo que estes reduzem investimentos, projetos, perdem crédito, etc.

Gola 4: Nossas reformas não realizadas! Por que o país não crescia como os emergentes até o dinheiro global sair pelo ladrão? Por que só começar a surfar a onda do crescimento sério quando o capital externo (a tal da liquidez) começou a sobrar no mundo e migrar para cá? Por conta das nossas intrincadas questões tributárias, trabalhistas, previdenciária, etc., etc. O custo Brasil continua igualzinho ao que era antes da abundância e antes da crise.

A Veja e o mercado hoje: Veja foi ufanista. O mercado caiu 5%. O mundo mudou e Veja não emtendeu. Vocês devem se lembrar das capas de Veja em que o Tio Sam aparecia com roupa de Super Homem, etc., onde a revista dava a entender que a solução estava endereçada e pronto! Nada…

Vejam bem, o caso empresarial bem sucedido do estimado amigo Álvaro Stefani, registrado em comentários dele próprio neste blog, não é o padrão do Brasil. Assim como a complicada situação da Embraer também não o é. A realidade está no meio do caminho. O importante é que se a sua empresa não consegue sair-se tão bem como a do Álvaro, também não se afunde por acreditar que o Brasil ganhará de goleada da crise.

O resultado justo, na minha opinião é  BRASIL 6 x 5 CRISE. É jogo para ganhar, mas é para ganhar de pouco. Até porque ninguém ganha de goleada numa crise global e sistêmica como essa. Além disso, ganhar esse jogo só vale comemorar se o gol contra não foi contra a sua empresa ou o seu emprego.

E voltando ao futebol, na Copa de 1970, o goleiro Felix, do Brasil, foi unanimidade como uma…calamidade…mesmo com o país sendo tri-campeão mundial. Ele saiu do Mexico com uma medalha bonita no peito, mas a carreira afundou de forma retunbante. Já Gordon Banks, da Inglaterra, que realizou a mais bela defesa da história das Copas, saiu sem medalha alguma e entrou para a história. A vida é dura, de matemática complexa…

Abraços, Fernando

PS: nesta 3af tentarei escrever da nossa capital Federal, onde participarei de almoço com o Presidente Lula e por lá fico até 4af, em reuniões com a administração central. Boa sorte…para mim.