Amigos, este post estava incubado há meses. O top favorite blog do Brad Setser sempre fez “marcação serrada” na economia chinesa, mas como seus posts são mais densos, eu sempre deixava para outro dia.

Muita gente inteligente e bem intencionada pregava, ao longo de 2008, que a China e os BRICs compensariam a queda no consumo e na produção do mundo rico. Eu fiquei com esta impressão durante boa parte do ano passado, mas já havia jogado a toalha quando as exportações chinesas começaram a cair no último trimestre de 2008 e o PIB deles cedeu para “apenas” 8% de crescimento.

Xeretando a web, porém, deparei-me como este texto curtinho do Wall Street Journal, que, para melhorar, trata da essência deste blog: a nobre arte do Crédito. Pois é, a China está com problemas de crédito também.

“Lenders fear Chinese insolvencies

HONG KONG — Foreign lenders who rushed into China in recent years are watching nervously as a number of companies there teeter on the brink of insolvency. Their worry: The nation’s bankruptcy laws may leave them with virtually nothing.

Several big Western investors — Citigroup Inc., hedge-fund manager Citadel Investment Group LLC, Credit Suisse Group and CLSA Capital Partners — are seeking to get back between $100 million and $200 million in loans extended to a Chinese steelmaker, according to people familiar with the matter. While they might recoup some of the money under a restructuring, a liquidation could wipe …

Detalhe: Chinês, assim como brasileiro, não está acostumado a emprestar e a se endividar. Isso é coisa recente por lá e, na primeira virada da economia, a turma está se atrapalhando para gerenciar a situação. Aqui, porém, as regras e as relações financiador – financiado são mais claras e estáveis do que na China – e isso faz muita diferença na hora da inadimplência!

Uma breve história da China – a China é uma encicloplédia de desequilibrios, pois os tem de todos os tipos. Aliás, o país só existe da forma que conhecemos graças à mão de ferro do Partido Comunista, que administra tudo por lá: da cotação da moeda, à ocupação da terra (no campo e nas cidades), ao custo da bala que a família do executado tem de pagar, etc.

Um destes imensos desequilibrios, construídos ao longo destes 20 anos de crescimento meteórico, é o fato da tão festejada  indústria chinesa ter sido projetada e construída para atender APENAS o resto do mundo. Em outras palavras, ela é mega-dimensionada se for para atender apenas o pequeno (ainda que crescente) consumo do cidadão chinês. Sucede que o mundo parou e está com o freio de mão puxado. E aí a indústria chinesa não tem para quem exportar e, portanto, não precisa produzir tanto.

Resultado: milhares (sim, várias milhares) de fábricas fechadas e muitas dezenas de cidades-fantasmas, que nasceram e cresceram em torno daquelas fábricas voltadas à exportação (e que agora fecharam).

As empresas chinesas, muitas delas montadas em parcerias com multinacionais americanas e européias (principalmente), estão endividadas porque estavam crescendo rapidamente: e dá-lhe necessidade de crédito para capital de giro, assim como crédito para os investimentos para expansão das fábricas e estrutura logística.

O lado trágico: parou de vender, parou de entrar caixa, parou de pagar dívida. E tem a retroalimentação: aumenta a inadimplência, reduz-se a oferta de crédito e os juros aumentam automaticamente.

A minha Coface, que segura os pagamentos entre empresas no mundo todo, opera forte na China e Hong Kong. As perdas com crédito empresarial aumentaram muito lá também. A coisa está cinza, bem cinza na China. E não se esqueçam: China crescendo 5% a.a. é equivalente ao Brasil crescendo 0% (zero porcento).

Pacote de Estímulo Made in China – vocês hão de lembrar que quando virou moda, no final do ano passado, todos os governos anunciarem algum tipo de pacote fiscal (foi a 1a. safra destes pacotes, pois agora estamos na 2a. safra destes – muito maiores!), os chineses se apressaram em anunciar um “PAC Made in China” no valor de USD 585 bi. Foi um auê sem limites na mídia mundial e local também. Aí começaram a surgir os comentários cínicos: os chineses simplesmente estariam reempacotando outros projetos já orçamentados, i.e. tinha pouca ou nenhuma novidade/dinheiro novo. Alguns chamariam isto de farsa, mas deixa o radicalismo pra lá.

Olha o que saiu na Bloomberg desta 4af:, palavras do Premier Wen Jiabao:

We face unprecedented difficulties and challenges,” Wen told delegates to China’s parliament in Beijing today. The nation needs to “reverse the economic slide as soon as possible,” he said, without announcing an increase to the government’s 4 trillion yuan ($585 billion) stimulus package.

Até Tú, Confúcio?! Sim, até ele…

Abs, FB