Prezados,

Finalmente saiu o número que todo mundo queria saber: a economia brasileira recuou 3,6% no último trimestre de 2008. Um senhor tombo! Esto dado ofusca o saudável crescimento do PIB acumulado de 2008 de 5,1%. Afinal, se por um lado o pequeno “retrovisor” mostra que fomos bem até o 3o. trimestre, o imenso parabrisa frontal não engana: os tempos são difíceis.

A indústria brasileira expirementou uma retração de assombrosos 17% (janeiro’09 vs.’08) e um crescimento de apenas 2% contra o combalidíssimo mês de dezembro último. Estes péssimos números foram apenas um reflexo dos números agora divulgados pelo IBGE.

E os juros – a taxa SELIC (que, em geral, só importa para quem é aplicador ou para uns poucos grandes grupos econômicos que pagam [ou pagavam] juros anuais perto da SELIC), ao que tudo indica, irá cair entre 1,5% e 2% na reunião do COPOM de amanhã. Virá para algo ao redor de 11%. Se é 10,75% ou 11,25%, isto só interessa para os traders de juros futuros na BMF. Ah, sim, e para o governo também, pois sua dívida pública nos remunera à base de SELIC, i.e. quanto mais ela cair, mais o Tesouro economiza no pagamento de juros, podendo construir escolas, hospitais, distribuir bolsa-família, etc.

Enfim, seja 1%, 2% ou 3%, esta queda de juros se dará porque o BC estará convencido que a atividade econômica está de joelhos e que, portanto, não há chance da inflação voltar a assombrar o COPOM. Nada a se comemorar, portanto, pois o endividado que vier a pagar menos juros (isto se os juros na ponta cairem também, que fique claro!), também estará, provavelmente, vendendo menos e gerando menos caixa!…

O spread – é assim: os juros na ponta são função da oferta de crédito versus a demanda por crédito. Os números do PIB vão assustar os bancos ainda mais, pois estes sairam pior do que os próprios analistas dos bancos esperavam. Se a SELIC cair 2%, mas os juros na ponta cairem, digamos, 1%, então o spread aumentou.

Uma coisa é certa, os juros na ponta cairão mais lentamente do que a SELIC. E cairão primeiros para empresas e cidadãos que se ‘venderem’ corretamente para os bancos, i.e. forem transparentes, demonstrarem claramente sua estratégia de negócio, seus números, riscos e mitigantes do seu negócio. Em outras palavras, cairá mais e primeiro para aqueles que tiverem um plano de negócio para enfrentar a crise.

Para os que praticarem o oba-oba, a SELIC cairá, mas os juros pagos continuarão no mesmo patamar…

Bancos públicos – vem sendo noticiado – e o amigo do blog Guilherme comentou aí embaixo – que os bancos federais estão emprestando mais, cobrando menos juros e lucrando mais. Sem querer parecer metido, mas sendo mesmo assim, eu conseguiria escrever dois textos, ideológicamente construídos, um defendendo a expansão da banca pública e outro tripudiando com ela.

O fato é que:

  1. Os bancos públicos estão fazendo política econômica, ajudando a destravar o crédito, ainda que parcialmente.
  2. Estes bancos estão ganhando muito agora – o que é normal e justo -, mas também estão sendo menos precavidos ao assumir riscos maiores.
  3. Partes destes lucros serão devolvidos em 6 meses, quando a inadimplência aumentar. Não tem “almoço grátis” (do inglês There is no free lunch).
  4. Os bancos públicos estão fazendo política anti-cíclica, enquanto os bancos privados só fazem agem ciclicamente, i.e. empresta guarda-chuva em dia de sol, toma o guarda-chuva se vier temporal. Isso acontece no Brasil, na França e na Costa do Marfim e é dever de ofício do banqueiro.
  5. Os acionistas privados destes bancos já sabem que isto faz parte da missão do banco estatal. Se não gostam de ver o capital do banco ser usado para tais fins, que comprem ações de bancos privados.

Oligopólio – o Valor de ontem traz um editorial em que Armínio Fraga é citado como “estando preocupado com o oligopólio do sistema financeiro brasileiro“. Vejamos algumas verdades:

  1. Pouco banco não significa que o crédito será escasso e os juros elevados. O grande exemplo vem da Holanda, onde 3 bancos dominam completamente o sistema e, ainda assim, os juros estão entre os mais baixos do mundo, cortesia do lendário pão-durismo do simpático e trabalhador povo batavo. Lá, a turma poupa muito e se endivida pouco. Em outras palavras, cabe a cada um de nós fazer com que tenhamos oferta de crédito bem acima da nossa necessidade, pois só assim pagaremos juros menores. Se, por outro lado, você se mostra um péssimo risco para os bancos, o país poderá ter 2 mil bancos e os juros que você pagará serão estratosféricos ainda assim.
  2. Pouco banco significa margem de negociação reduzida. Num país como o Brasil, em que 5 bancos darão as cartas, se você se relacionar mal com 2 deles vai ter problemas. E isso é perfeitamente comum. Desaparece aquele velho axioma: “Eu nunca mais faço negócio com o Banco X, porque eles me fizeram isso e aquilo!”. Bem, a partir de agora é bom guardar o seu orgulho, pois nunca sabemos o dia de amanhã, ou, nestes tempos bicudos, como será hoje depois do almoço…
  3. Pouco banco funciona bem em país onde o mercado de crédito é maduro e, portanto, sua população tem educação creditícia. Estamos longe disso. Nossos bancos não são experientes em crédito e nossos tomadores menos ainda. O futuro será complicado neste campo.

Em suma, a tendência é que os juros na ponta continuem muito salgados por vários anos. Esta reversão se dará quando a Tempestade Perfeita se dissipar, i.e. (a) as empresas mostrarem bons resultados com consistência, (b) os bancos retomem a confiança perdida, (c) as linhas externas voltem, provendo liquidez, (d) o brasileiro reduzir seu apetite por crédito caro.

Abraços e boa 4af! F.