Data Estelar: 14 de março de 2009

Participantes:

. Arminio Fraga Neto, Gavea Investimentos (ex-Presidente do BC e ex-executivo de George Soros)

. Afonso Celso Pastore, Consultor (ex-Presidente do BC)

. José Luiz Alqueres, CEO da Light

. José Rubens de la Rosa, CEO da Marcopolo

Formato:

A Miriam Leitão fazia perguntas aos 4 convidados. Simples, direto e sem debate.

Destaques:

Abaixo eu destaco as frases de maior destaque (quase tudo, por sinal). Em negrito/itálico a minha opinião complementar.

  1. Pastore: são várias crises combinadas, uma dentro da outra. e.g. cambial no Leste europeu, financeira nos EUA e UK, queda de exportações na Ásia, etc. <<concordo, ainda que a origem e a solução final passe pelo crédito>>
  2. Arminio: devemos ter uma mudança na forma de pensar do americano; fim da visão equivocada de riqueza “virtual”, poupança zero, dívida alta e consumo acelerado. << isto irá fazer com que as economias crescam mais lentamente>>
  3. De la Rosa: governo havia começado bem, mas faltou senso de urgência. <<sem dúvida, mas não é exclusividade do nosso – acontece com todos, pois a burocracia emperra a evolução>>
  4. Alqueres: a crise acabou e vivemos em um novo patamar. Minha empresa está se preparando para atuar e crescer num novo ambiente. Mundo novo. <<pura lucidez! O mundo encolherá de tamanho para muitos, ou permanecerá como está para outros. Seguramente não crescerá como antes>>
  5. Pastore: cita que a volatilidade baixa reduz a percepção de risco e que a importação de deflação chinesa suportou que a alavancagem dos bancos crescesse e as bolhas surgissem. Houve erro coletivo; Brasil se beneficiou desta crise. <<concordo>>
  6. J.R.Mendonça de Barros (gravado em off): commodities agrícolas irão melhor do que as metálicas, pois comer o povo não vai parar, mas os investidores reduzirão investimentos em fábricas. <<concordo>>
  7. De la Rosa: neste momento, não há alternativa, mas só os governos irão nos ajudar a sair desta crise em que falta comida na mesa. <<concordo>>
  8. Arminio: queda das commodities machuca a conta-corrente do país, mas o Brasil sairá melhor da crise. E tem que ficar de olho nas fontes de financiamento. O país precisa pouco, mas tem de ficar atento. <<é isso. O país pode não quebrar, mas o câmbio se descontrola e isto é muito nocivo para o planejamento empresarial>>
  9. Pastore: acha que o governo tem de manter superavit primário, até porque o país tem como usar política monetária (juros, compulsório, etc.). Espera juros reais por volta de 4% (SELIC a 8%!). Banco não pode emprestar com o risco mais alto, pois não cabe a ele fazer política contra-cíclica. Governo tem competência limitada em investir; só gasta. <<verdade>>
  10. De la Rosa: não demitiu no Brasil, mas fechou uma fábrica na Rússia. Lá não há financiamento deste outubro. E não vai reabri-la porque o novo patamar será diferente, mais baixo, com uma fábrica só vai dar. Índia deu uma parada geral e só agora está retomando. México vai muito mal. O real está menos forte, mas muitas moedas também perderam muito valor, o que relativiza o ganho de competitividade do Brasil, até porque o câmbio empobreceu os demais países (em USD). <<quadro feio>>
  11. Arminio: Obama está lutando contra a herança maldita. Aprovaram o pacote fiscal, mas o financeiro está complicado porque não conseguem aplicar o ‘proer’ deles (i.e. assumir o controle) nos grandes bancos; não conseguem nem preencher as posições do Tesouro. A situação é extraordinariamente difícil. Os membros do governo são pessoas arrojadas e se não conseguem é porque é difícil mesmo. Estão com dificuldade para sair da estratégia e operacionalizar. <<já falamos muito disso aqui>>
  12. Pastore: precisam de pessoas que saibam manejar com bancos, mas o governo dos EUA nao podem contratar ex-executivos de bancos. <<esta é estranha, pois o Tesouro estava lotado de ex-Goldman Sachs, que foram junto com Paulson>>
  13. Alqueres: recessão não chegou com queda do consumo, mas os clientes estão procurando se financiar na Light, porque não há crédito no mercado. Aumentou a inadimplência da PF. Queda de 4 ou 5% na adimplência (agora está em 92%). Idem para as empresas que compram no atacado. <<informação importante e que surpreende, em se tratando de uma utilidade pública. As grandes empresas estão fazendo as vezes dos bancos>>
  14. Arminio: Nos iludimos porque as commodities continuaram subindo, apesar da desalavancagem financeira já estar ocorrendo há um ano. Nosso crescimento não era sustentável. Há decepção conjuntural, mas virá a decepção estrutural também. <<verdade pura. Todos nós nos iludimos de alguma forma. Faltou o espírito crítico que sobrou para o Roubini>>
  15. Pastore: recessão é uma convençao, tem de ter dois trimestres com crescimento negativo, etc., mas este primeiro trimestre será negativo no Brasil também, porque o investimento e as exportações serão fracos. PIB 2009 será perto de zero.

É isso. Nada de realmente novo, mas foi bom ouvi outros personagens de 1a. linha comentando a crise.

Abraços, F.

PS: lamento a demora na publicação, mas o dia foi difícil…