Após ler virtualmente tudo o que foi publicado e analisado sobre o plano, aqui vai o meu veredito: o plano tem vários problemas e uma única virtude. Temo que não irá funcionar, o que significa manter o crédito nos EUA paralizado e, talvez pior que tudo, minar o capital político de Obama.

Como o Plano funciona:

  1. O governo separa os ativos tóxicos dos bancos em duas categorias: (a) empréstimos hipotecários, (b) securities lastreadas em empréstimos hipotecários. Cada uma destas duas categorias terão tratamento levemente diferente, ainda que a filosofia seja a mesma.
  2. Em ambos os casos, o governo estimulará a criação de fundos de investimentos, em que ele governo colocará USD 1 para USD 1 investido por investidores privados.
  3. No caso dos fundos de empréstimos hipotecários, o governo permite que o fundo tome empréstimos para comprar mais ativos, em até 6 vezes o valor do seu capital. Exemplo: o fundo levanta USD 50 de capital privado, então o governo coloca outros USD 50, totalizando USD 100 de capital (“equity”). Desta forma, o fundo pode captar outros USD 600 através de empréstimos bancários, para então comprar USD 700 em ativos.
  4. Mas como nenhum banco do universo iria financiar uma “operação cassino” como esta, o governo americano oferecerá uma garantia para este empréstimo.
  5. Este plano é o que chamamos no mercado de operação operação alavancada, pois, notem, para cada USD 1 investido pelo fundo ele pode comprar USD 6 papéis. Se der tudo errado ele perde USD 1. Se der tudo certo ele lucra em cima de USD 7.
  6. E o melhor de tudo isso é que como o empréstimos é garantido pelo governo, esta operação de “risco-retorno” altamente favorável para o investidor privado ainda é subsidiada!
  7. Já os fundos de investimento lastreados em securities hipotecárias ainda não foram adequadamente formulados. Mas seguirão a mesma filosofia de “apoio” do governo.

O ponto bastante positivo – o leilão envolvendo investidores privados dará transparência para a formação de preço e ninguém poderá acusar o governo de haver pago mais ou menos do que o valor “justo”. Cria-se, deste forma, um mercado privado, com o governo participando como “investidor silencioso” (do inglês “silent partner”).

A grande falácia – Geithner fala que o contribuinte americano não correrá o risco sozinho. É verdade…correrá apenas 6/7 (seis-setimos) do risco. Só que estará subsidiando também o investidor privado. O Plano é de uma assimetria absurda sob a ótica do contribuinte. É muito pior do que se o governo nacionalizasse os bancos.

Outros pontos:

  1. Os bancos que tem estes ativos podres em seus ativos é que definem se-quando-e-quanto irão colocar à venda. Poderão especular, segurando tais ativos em seus livros, esperando que se valorizem graças ao Plano do governo, ou até a economia se recuperar.
  2. A transação de compra-venda se dará via leilão, o que é legal. Porém,…, como comparar os zilhões de empréstimos diferentes, de cidadãos diferentes, regiões diferentes, prazos e condições contratuais diferentes, etc.?

Por que não acredito no Plano:

  1. É confuso e o momento pede simplicidade.
  2. Nada garante que haverá investimento privado suficiente para se limpar os ativos dos bancos.
  3. Nada garante que os bancos optarão por limpar seus balanços (poderão ficar sem capital e quebrar automaticamente).
  4. É improvável que o crédito interbancário volte a fluir normalmente, minando de novo, numa segunda etapa, a confiança do mercado.
  5. Este massivo subsídio para investidores privados deverá gerar uma comoção no Congresso americano.

E sem medo de ser repetitivo, enquanto a situação dos bancos americanos não se resolver…:

  • O crédito não voltará a fluir à economia real.
  • A recessão se aprofundará e empregos continuarão a desaparecer.
  • O americano não voltará a consumir.
  • O resto do mundo continuará em recessão.

<< O PIB americano representa 30% do mundo; o consumo das famílias representa 70% do PIB americano; o volume total de crédito nos EUA passa dos 100% do PIB>>

Concluindo, por que tudo isso: porque Obama se recusa a ser anti-americano e nacionalizar os bancos – até porque sabe que isto não é de simples execução. Talvez, quem sabe, esteja lançando esta última alquimia e seja lá o que Deus quiser, i.e. se não funcionar ele poderá dizer que “não restou outra alternativa, mas estatizar o mercado financeiro” de vez. A ver.

Abraços, FB