O governo lançou ontem um pacote ambicioso para destravar o crédito no Brasil. Em poucas palavras:

  1. Os bancos (de qualquer porte e, se Deus quiser, nacionalidade) poderão emitir um título chamado RDB (Recibo de Depósito Bancário), que já está sendo chamado de “Especial”.
  2. Quem investir em RDB’s “Especiais”, no montante de até B$ 20 milhões (bom volume!), terá a garantia do FGC (Fundo Garantidor de Crédito), i.e. garantia do governo federal.
  3. O banco que emitir este título, com esta garantia, terá um custo mensal adicional de 0,083%, ou 1% a.a. (é caro…), que é o custo deste ‘seguro de crédito’.
  4. Se todos os bancos tomarem no limite do que tem direito, injetaria-se R$ 174 bilhões no mercado (coisa de 15% do total do crédito no país, hoje) – o BC estima que a demanda será ao redor de R%$ 50 bi, o que é bom também.

Outras informações:

  1. Os bancões NÃO vão emitir este tipo de papel, porque não tem dificuldade de captar recursos dos seus investidores (eu, você, fundos de pensão, etc.) e não irão pagar o seguro por isso.
  2. O alvo desta medida do governo são os bancos pequenos e médios, que viram seu funding desaparecer após a crise (aliás, após todas as crises). Espera-se agora que grandes investidores voltem a investir em seus papéis (i.e. neste RDB), permitindo que estes bancos voltem a atuar no mercado de crédito.
  3. Ao voltarem a emprestar, cria-se competição com os poucos bancões que hoje dominam o mercado, reduzindo os juros na ponta e, portanto, o spread.
  4. Porém, os empréstimos fundeados com estes RDB’s tenderão a custar mais caro, pois o banco terá um custo adicional de 1% a.a.
  5. Não tenho dúvida que os bancos pequenos e médios atacarão empresas igualmente pequenas e médias, que estão pagando juros muito altos, gerando spreads suficientemente altos.

Eu gostei do pacote, especialmente porque:

  1. É simples.
  2. Possibilita a injeção de funding diretamente nos bancos médios e pequenos.
  3. Abre novas possibilidades para quem está pagando juros muito altos, ou que nem está conseguindo crédito suficiente.

Acho que, dadas as circunstâncias, o governo fez o que pode. Cabe esperar como se comportarão:

  1. Os investidores: o volume que estarão dispostos a investir nestes títulos, destes bancos. Talvez o governo incentive seus fundos de pensão a aplicarem parte de suas reservas nestes títulos, ou seus bancos federais a fazerem aplicações nestes bancos via mercado interbancário.
  2. Os comitês de créditos dos próprios bancos pequenos e médios: o temor pelo risco de crédito em período de crise não é exclusividade dos bancões. Banco pequeno e médio tanbém é conservador. Se o banco captar via RDB e não emprestar, terá que depositar o dinheiro captado no no Banco Central, ou no mercado interbancário, e isto é prejuízo na certa. Então, os bancos menores terão que identificar negócios que sejam rentáveis e suficientemente seguros – não é tão simples.
  3. Os clientes (empresas): se forem espertos, aproveitarão a deixa e criarão competição pelos seus empréstimos, i.e. se hoje só tomam de um ou dois (ou três) bancões, deveriam passar a captar também de um, ou dois (ou três) bancos menores (que voltarão ao mercado graças a este RDB). Desta forma, manifestarão para o mercado que tem oferta de crédito abundante e que não são dependentes de ninguém. Isto é mais do que alquimia financeira: é mágica mesmo, porque gera crédito do nada e reduz os spreads.

Risco Moral – o ex-BC Gustavo Franco comenta no Estadão de hoje que existe este risco (conceitual, não financeiro), pois o governo está atuando no mercado, ajudando alguns agentes privados, etc. O risco é mínimo, pois existe igualdade para todos os bancos, não gera oportunidades de arbitragem financeira e é, de fato, voltado para o crédito de capital de giro (fundamental para a retomada do desenvolvimento econômico e para o emprego, que está ficando escasso). Em suma, o governo não está fazendo favores especiais para ninguém.

Aqui o link do Valor Econômico.

Palmas para o governo brasileiro!

Abraços,

Fernando