Caros amigos – vocês devem ter notado que eu dei um tempo na minha cobertura quase diária da crise lá fora, preferindo abordar questões nacionais, mais exatamente sobre a recuperação da economia brasileira e suas consequências no crédito doméstico.

No entanto, lá fora só se fala no tal do Stress Test, que o Tesouro americano vem aplicado há várias semanas em 19 bancos, que tem “alto poder de abalo sistêmico”. Este exercício teórico visa identificar se o banco terá capital suficiente em caso de uma situação hipotética de crise (de stress). Como funciona:

  1. O  Tesouro construiu uma série de cenários econômicos (recessão de X%, inadimplência de Y%, queda do índice Dow Jones de Z%, desvalorização do USD de…, etc.).
  2. Depois, o Tesouro, com a ajuda dos próprios bancos (pois do contrário este exercício seria impossível de ser realizado), aplica estas situações de stress nas posições que o banco tem e vê o tamanho das perdas que seriam geradas.

Notem o seguinte, todo banco sério tem limite de exposição em moedas, índices, juros, posições em bolsa, etc. E estes limites refletem a volatilidade diária, que em geral é baixa e, portanto, permite grandes posições de risco. Mas também tem limites específicos para eventos, i.e. situações de stress. Esta é a forma que se encontrou para evitar que a posição de risco fique quase infinita quando a volatilidade diária fica muito baixa.

Notem que volatilidade diária (também chamada de “intraday” e “overnight”) significa que a perda máxima provável é muito pequena, portanto, poderia-se montar uma posição de trilhões de dólares. Mas e se houver uma disfunção qualquer no mercado, como sempre acontece? As perdas seriam multi-bilionárias! É por isso que os modelos de gestão de risco preveem (nde: nova ortografia?) a aplicação do chamado “cenário de evento” (ou de stress).

A coisa se complica com o fato de que, muitas vezes, a sua posição de risco estar baixa ou até zerada, mas você se zerou com uma contraparte que não honrou a operação feita. De repente, não mais que de repente, você acorda com uma posição perdedora quando achava que estava zerado.

Tudo isso aconteceu em Wall Street, na Europa e em todo lugar. Quando o Lehman quebrou deixou muita gente na mão. E só não deixaram a AIG quebrar porque ela é quem zerava metade de Wall Street. Se ela não honrasse suas posições, os bancos e investidores que compraram proteção da AIG acordariam expostos a perdas imensas e quebrariam junto.

Voltando ao Stress Test de Mr. Geithner – de fato, o que eles vêm fazendo é o que os bancos deveriam ter feito há muito tempo, ação esta que teria evitado esta crise. Em outras palavras, se os seus modelos tivessem sido aplicados e/ou respeitados, as posições de risco dos bancos não teriam sido tão gigantescas e, quando o mercado virou, a avalanche não teria sido tão intensa e ninguém quebraria.

O problema que está na mão de Obama e Geithner é o que o fazer com os bancos cujos stress test mostrar que eles devem ser recapitalizados. Já andou vazando que o Bank of America – i.e. a Merril Lynch – precisará de mais SUD 34 bi. Uma mixaria…

Irão injetar esta dinheirama amanhã, com dinheiro público? E se o depositante do Bank of America – sim, o John Smith, lá do interior de Illinois -, o que ele fará ao ler no jornal que o banco está descapitalizado?

Os abutres, quer dizer, os hedge funds – corre à boca solta em Wall Street que há um lobby poderoso desta turma no Congresso, no FED e no Tesouro, para que o governo “deixe quebrar” estes bancos sem futuro. Por que? Para que os hedge funds os comprem a preço de liquidação…e com ajuda do governo americano. Tais fundos contam que os bancos, uma vez limpos, se valorizariam e eles ganhariam trilhões – mais ou menos os trilhões que perderam nesta crise. Como diria o meu Rei Pelé, “entende?”…

O lucro recente dos bancos americanos – a mídia global anunciou em fanfarra que os bancões americanos começaram a se recuperar, com lucros saudáveis no primeiro trimestre de 2009. Eu escrevi ‘saudaveis’? Bah! O governo americano autorizou que cada banco precificasse suas posições sem liquidez (i.e. sem preços de mercado que permitam uma precificação transparente) do jeito que bem quisessem. É mole, é brincadeira? Fizeram é alquimia contábil.

Amigos, a situação da banca americana é bizarra. Ela quebrou e o governo não sabe o que fazer com aquilo. Estatizar, como já cansamos de dizer aqui, é absolutamente anti-americano. O custo de sanear um sistema financeiro é altíssimo e quem paga é o contribuinte (não há alternativa).

Se os resultados do stress test – e as soluções pós anúncio – forem consistentes, transparentes e bem aceitas pela sociedade e pelo mercado, estaremos entrando no início do fim da crise de crédito americana (e, portanto, global). Porém, se fizerem lambança, ou se a sociedade e o mercado não comprarem o stress test, estaremos no início do fim do sistema financeiro americano, com consequências inimagináveis para aquele país.

Oremos, FB

PS: durante uns 8 anos da minha carreira eu fui responsável pelos limites de posição de risco de bancos, tendo analisado e calculado cenários de stress. Já vi banco quebrar e ser resgatado pela matriz, porque não respeitaram os limites. Vivi a situação de uma contraparte importantíssima quebrar e o banco herdar posições perdedoras. Também já vi a crise do mercado ser maior do que prevíamos no cenário de stress. Já vi de tudo. É por isso que comento sobre este tema com firmeza.