Prezados, recentemente eu escrevi este este post, que discutia se a nossa combalida economia já não estaria numa trajetória de recuperação. Eu advogava que sim, enquanto amigos competentes, como o Marcio Relvas, questionavam se este não seria o famoso “voo de galinha” (i.e. espalhafatoso e curto).

Paul Krugman, um dos gurus deste blogueiro, já vinha argumentando que períodos fortemente recessivos costumam apresentar suspiros de retomada, similar ao que estamos acompanhando.

Para minha grata surpresa, meu colega de Coface – e economista de mão-cheia – Daniel Nobre, escreveu um Comentário aqui no blog explicando este fato – o bullwhip effect – e eu preferi transformá-lo em post, para que se torne visivel para um maior número de interessados, permitindo o debate de idéias.

Ao Daniel, muito obrigado! Aos demais, boa leitura e o meu estímulo para que também cooperem com textos. Abraços, F.

Os ’suspiros de aquecimento’ podem estar decorrendo de um fenômeno comum em cadeias de valor (efeito bullwhip) que se verifica a partir de estimativas equivocadas sobre a demanda futura quando há um crescimento repentino da demanda presente.

Tentarei descrevê-lo: quando a crise irrompeu, restrições de liquidez e expectativas pessimistas sobre a demanda futura fizeram com que grande parte das empresas simplesmente suspendesse suas encomendas (mesmo porque as demandas imediatamente anteriores à eclosão da crise eram ‘otimistas’). Dalí em diante, a demanda enfraquecida e a dificuldade de financiamento de capital de giro obrigou as empresas a operar com estoques ‘mais justos’. Isto significou ‘compras zero’ imediatamente e porquanto o nível mais justo fosse atingido, quando então voltariam a comprar. O efeito é ‘demanda zero’ por toda a cadeia. As empresas então reagem ‘desimobilizando’, ou seja, reduzindo capacidade (demissões, desativações de equipamentos ou plantas, etc) para reduzir custos fixos e atenuar pressão sobre o caixa.

Agora pode ser que chegou o momento de recompor estoques, sem necessariamente a demanda na ponta da cadeia haver reaquecido. Esta continua no mesmo nível (baixo), apenas o referido fornecedor não tem mais estoque produzido ‘antes da crise’ para ‘queimar’ (chamemos este fornecedor de ‘A’). Portanto, ‘A’ volta a encomendar de forma contínua (lembre-se que está recompondo um estoque já baixo, e assim decide mantê-lo neste patamar dalí em diante), porém em nível inferior ao que costumava demandar antes diante das restrições de financiamento (chamaremos esta quantidade demandada de ‘X’). Entretanto, como seu fornecedor imediato (’B’) ‘desimobilizou’ – e também está com estoques baixos – necessitará de um prazo superior para entrega, digamos o dobro do normal. Assim, ‘B’ demandará de ‘C’ (seu fornecedor) o dobro da ordem de ‘A’ (a encomenda atual mais a próxima, ou seja, 2X) a fim de reduzir o backlog. ‘C’ também ‘desimobilizou’, e também responde a ‘B’ pedindo um prazo maior de entrega. ‘C’ encomenda então a ‘D’ o dobro da ordem de ‘B’, ou seja, 4X. E assim por diante.

Lembre-se que a demanda na ponta é somente ‘X’. Porém a não coordenação da informação ao longo da cadeia de valor (administração do backlog criado diante da necessidade de ajustes de capacidade em várias etapas da cadeia) provoca uma percepção equivocada da demanda, amplificando ordens ao longo da cadeia a fim de minimizar pedidos pendentes. Este efeito gerará um novo acúmulo indesejado de estoques na frente, o que pode pressionar o caixa das empresas e precipitar novos eventos de inadimplência, caso restrições de financiamento perdurem.

Portanto, temos que ter cuidado ao apostar neste reaquecimento. Claro que, se as restrições de liquidez e financiamento são removidas, estas ineficiências são mascaradas , eis que este acúmulo indesejado pode ser financiado e o devedor manter seu fluxo de pagamentos. Porém, com o enfraquecimento do sistema financeiro global, por mais que os agentes se deixem levar pela miragem deste efeito, a incapacidade (nem tanto o desejo) de voltar a emprestar pode conduzir-nos a mais uma onda de inadimplência entre empresas.

Anúncios