Este é um post pessoal, para consumo próprio. Visa homenagear e registrar o dia do nascimento do meu avô materno, José Pablo Blanco del Mar, que hoje completaria 100 anos.

Nascido em Montevideo, por acaso (seu pai trabalhava como calafate da marinha uruguaia), aos 2 anos já vivia em La Línea de la Concepción, no sul da Andalucia. Logo passou a trabalhar numa loja em Gibraltar, o famoso protetorado Britânico encravado num enorme rochedo, que fica em terras contíguas à La Linea.

Quando tinha 15 anos imigrou com a família para o Brasil, tendo como destino as fazendas de café do interior de São Paulo. A origem portuária de toda família, mais o fato de terem conhecidos espanhóis vivendo em Santos, motivaram a família Blanco a fugir da Casa do Emigrante de Santos no meio da noite, para ali fixar residência definitiva.

A paixão pela mecânica e a ignorância dos pais impediram que Don Pepe, aos 18 anos sendo trilingue e bem educado, seguisse uma carreira mais prestigiosa e rentável. Pelo contrário, trabalhou na abertura dos famosos canais fluviais de Santos, na oficina mecânica central da Companhia Docas de Santos e chefiou a usina hidroelétrica de Itatinga, na vila do mesmo nome, que fica em algum lugar da Serra do Mar, perto de Bertioga.

Em Itatinga foi feliz e realizado. Espanhol gosta de mandar, dizem…e ele, com 1m84 era um gigante naquela época. Ele era caçador (vi muitas fotos), pescador (de remar rios adentro), etc. Viveu em harmonia com a natureza quando isto não era uma prioridade.

Como meus pais trabalham dia e noite, minha infância foi vivida, em grande parte, na casa dos meus avós maternos, Pepito e Totoina, como eu os chamava e chamaria até falecerem na primeira metade da década de 90. Eu tinha adoração por eles e quando os meus pais vinham me pegar para dormir em casa, toda noite eu aprontava um escândalo. Quando viajva, ainda pequeno, com os pais, chegava a adoecer de saudades dos avós.

Foi meu avô quem me levou a dar os primeiros chutes numa bola. Eu, devidamente uniformizado com o manto sagrado do Santos FC, e ele íamos a pé até os antigos campos do Canal 5, que perfaziam uns 10 gramados semi-oficiais de futebol de várzea, em se jogavam as partidas da famosa Liga Santista. Bons tempos. Hoje, este imenso terreno de lazer tornou-se uma imensidão de prédios, lojas, i.e. de progresso. Ou será “progresso”?

As minhas primeiras pedaladas também foram dadas com o Vô Pepito ao meu lado. Nada mais natural, pois ele havia sido um ciclista razoável nos anos 30 (palavras dele). Lembro-me da medalha de bronze que ele me deu, prêmio pela 3a colocação numa corrida de 120 km, a Santos – Itanhaem – Santos, disputada através das areias das praias (não havia alfato naquela época). Dá para imaginar o sofrimento?

Sem dúvida, as fotos e as histórias daqueles dias românticos do ciclismo brasileiro foram grande inspiração para mim, que viria a me tornar ciclista de competição aos 15. Detalhe: contra a sua vontade! Sabedor dos perigos deste esporte, acho que nunca foi assistir a uma corrida minha, pois temia pela minha saúde. Aliás, se dependesse dele eu não sairia de casa para nada, tamanha era preocupação que tinha por mim.

Fui o primeiro e único neto, pelo menos na questão afetiva. O que era reciproco. Meus primos nunca foram próximos dos avós e toda a carga afetiva do velho imigrante foi dedicada para mim. O espanhol durão, dizem, só amolecia com o netinho.

Conheceu o bisneto Fábio já no final da vida, mas pouco o curtiu, dado que estava com a saúde muito debilitada pela falência da circulação periférica – esta o cegou e o impedia de andar direito. Não foi fácil ver aquele gigante, tão ativo e altivo no passado, definhar aos poucos.

Ele se foi aos 84 anos de idade, mas permanecerá na minha memória para sempre.

Fernando, seu neto.