A Crise e o seu Setor


Não, eu não irei comentar a famosa canção do Legião Urbana sob a sua ótica original, que tratava das lambanças políticas e injustíças sociais tupiniquins.

Aliás, muito pelo contrário. O foco aqui é o festival de boas notícias econômicas. Só para ficar com o Estadão de hoje temos:

1. “Ritmo das montadoras gera protestos”

Sim, os trabalhadores daqui estão reclamando da carga de trabalho, do cancelamento das férias, etc. Lá fora o protesto é por falta de emprego, fechamento de fábricas e por aí segue.

2. “Microempresas retomam contratações”

Segundo pesquisa do SIMPI, 11% das empresas pesquisadas contrataram e apenas 2,8% demitiram. Há um ano, 30% delas falavam em demissão. Lá fora, ninguém contrata ninguém.

3. “Caixa bate recorde em crédito para casa própria”

Ainda que esta seja mais uma ação de política governamental do que propriamente empresarial, o que vale é que o crédito imobiliário no Brasil cresce de forma vigorosa (inclusive no setor bancário privado) e saudável. O crédito imobliário no Brasil é fundamental para o desenvolvimento econômico, gera emprego, não é tão caro como as demais linhas de crédito…e continua isento de “bolhas”.

Que país é esse?

Abraços, F.

Pois é, amigos, e não é que a Crise fez aniversário e completou 1 ano! Bem, eu (e o mundo) estou assumindo como data do parto – o marco zero – a quebra do banco Lehman Brothers, que desencadeou a famosa hecatombe financeira.

De fato mesmo, a crise havia começado há pouco mais de um ano, quando o crédito subprime foi, enfim,  considerado… subprime, i.e. que daria calote nos seus credores. Mas deixa pra lá, fechemos com 15 de setembro de 2008.

Não foi por coincidência que Barack Obama foi hoje a Wall Street apresentar – de novo – como será a reengenharia que ele deseja implementar nos mercados financeiro e de capitais dos EUA – e a partir daí tentar disseminá-lo globalmente, via G-20. Destaque para a picardia de Obama: ele se deu o trabalho de ir até NY para falar mal dos bancos e dos mercados na própria casa deles!

Mas olhando o estrago e tentando adivinhar o futuro, onde estamos:

  1. Filosoficamente falando, pouco mudou. O “cassino” só está menor porque existe menos dinheiro disponível.
  2. Securitizar tudo que for possível, fazer IPO’s de qualquer empresa e especular com ativos financeiros faz parte da essência de bancos e investidores – e continuará sendo.
  3. O que deverá mudar é a regulamentação dos mercados, para que se evite o chamado risco sistêmico. Mas fazer tais mudanças institucionais nos EUA não é fácil Lá, existe muito banco (mais de 6 mil), muitos tipos de fundos, muita liberalidade financeira, muitos reguladores que se confundem e, riam, excesso de democracia.
  4. Vale destacar que bancos, banqueiros e investidores aprenderam que governos não deixam bancos quebrar. E isso é gera um precedente perigo, pois incentiva o risco irresponsável. Como reverter este quadro é um desafio dos deuses!
  5. O mundo rico ainda está em crise? Depende como você define crise. Eu acho que a crise acabou. O que temos agora é uma economia global fraca, anêmica, pois falta capital e apetite de risco para que o crédito volte a fluir.

Agora é ter paciência, muita paciência…

E no Brasil? Foi marolinha mesmo?

  1. Foi nada, foi é tsunami mesmo! Repentino, violento e rápido. Veio, matou e foi embora, deixando um rastro de destruição.
  2. Economicamente falando, estamos na mesma situação das economias ricas: sem crise, mas com a economia crescendo pouco – ainda que crescendo muito mais do que a deles.
  3. Nosso país teve muita sorte, porque os anos com as commodities valorizadas mais os investimentos estrangeiros encheram o caixa das Reservas Internacionais. E tivemos também muita competência, porque nossos bancos eram (e são) sólidos, um mercado interno predominante e pouca exposição internacional. Nossos defeitos viraram virtudes!
  4. Ah sim, e palmas para o nosso povo, que ignorou a crise e continuou comprando e se endividando – e agora quebrando, como muitos estão…

A economia mundial já está e continuará mais difícil de se administrar. Até 2008 era só alegria, todo mundo comprava, tinha crédito para quase qualquer um, etc. Ou seja, risco baixo! Depois, foi o show de horrores que inverteu a tendência, sendo mais fácil vender tudo para limitar perdas.

Ou seja, estamos mal acostumados, porque há muitos anos que temos uma clara uma linha direcional para indicar nossas decisões de negócios. Agora não mais. As cotações e tendências de ativos reais e financeiros serão mais incertas. Subirão e cairão, como tem de ser.

Durante o período de euforia, que acabou em 15 de setembro, agentes econômicos medíocres sobreviviam, se valorizavam, etc. Bons tempos. O mundo ficará mais difícil, o que trará de volta o Darwinismo Capitalista, i.e. não haverá espaço para qualquer um, mas só para aqueles mais adaptados para períodos difíceis. Quem não se estruturar gerencialmente vai quebrar, porque, no mínimo, o crédito será difícil para este tipo de empresa.

É isso. Vamos assoprar as velinhas!

Fernando

Caríssimos,

Ontem, 5af, eu participei de um jantar de presidentes de empresas, a convite da super consultoria AT Kearney (obrigado, Silvana!). O evento, de 1a linha, teve como convidado de honra – e palestrante – Martin Walker (leia aqui uma mini bio dele), diretor global da consultoria. E eu ainda tive a sorte de sentar-me na mesa dele. 

Este escocês, que deve ter uns 60 anos, é de uma simpatia sem igual, em nada parecendo com os estereótipos que fazemos dos gurus – sim, ele é um guru no campo da economia, geopolítica e negócios.

Durante sua palestra e conversas no jantar, Mr. Walker pintou um quadro bastante negativo sobre a economia mundial, ainda que sempre com um sorriso nos lábios – bem diferente do estilo Roubini de ser – e ainda assim se definiu com um “otimista”.  Sua visão:

  • Esta crise tende a ter um perfil de W, i.e. os governos do mundo estão despejando dinheiro para terminar a derretida dos PIB’s e logo as economias tenderão a se recuperar.
  • Porém, esta recuperação econômica não deverá durar, porque deveremos gerar inflação por conta da super oferta de moeda sem lastro, assim como os juros tenderão a subir, para dar conta dos déficits fiscais que serão gerados pelos governos.
  • Para quem espera (ou torce para) que a China segure o crescimento mundial, Martin Walker explica que os chineses fantasiam suas estatísticas e que o crescimento por lá será bem mais tímido do que fazem parecer. Sua fonte: o crescimento negativo da utilização de energia elétrica.
  • Os americanos ainda terão de conviver com a crise de crédito dos cartões de crédito, o que reduzirá ainda mais a sua capacidade de consumo. E como o “grande cliente do mundo” é o consumidor americano – e este estará combalido por vários anos –, as economias acostumadas a produzir e exportar para os EUA ficarão deprimidas por muito tempo, criando uma espiral negativa na economia global.
  • Depois disto tudo, ele ainda se diz otimista? Por que? Porque o mundo se reinventará. Iremos inovar na direção de salvar o planeta. Seremos mais eficientes e esbanjaremos menos. O homem será um animal mais frugal em termos de consumo.
  • E o Brasil? É o país do futuro, pois tem população grande, área grande, capacidade de produzir alimentos, petróleo e minérios à vontade.

Para quem quiser conhecer mais a visão de M.Walker, é só clicar aqui e ler vários papers que a AT Kearney disponibiliza.

E para concluir, segue o link de uma boa entrevista que a Miriam Leitão fez com ele.

Abraços e ótimo fim de semana para todos,

Fernando

O Estadão de hoje traz duas matérias (ver links abaixo) assinadas por Marcelo Rehder, sobre estudo da Economática, que trata da performance das empresas de capital aberto no 1o. trimestre deste ano.

A seguir, os meus comentários:

Lucro das empresas cai 29% no 1o. trimestre

  • Considerando-se que a economia estava super aquecida em 2008 e hoje ela ela está em recessão, ter os lucros reduzidos (comparando os primeiros trimestres dos dois anos) em 29% é para se comemorar!
  • Mas é do lado financeiro que a coisa pegou: o Endividamento Bruto das empresas aumentou 44,6% em 1 ano, atingindo R$ 183 bi. Por outro lado, as Despesas Financeiras aumentaram R$ 126%, atingindo R$ 1,8 bi.

A dívida bruta das empresas aumentou consideravelmente por dois motivos: o primeiro foi por decisão empresarial mesmo, pois as empresas estavam se expandindo. O segundo motivo foi a desvalorização do real, já que boa parte deste endividamento era externo.

Por outro lado, a matéria não diz que boa parte desta dívida estava (e está) no caixa da empresas, pois é muito comum que estas tenham endividamento líquido pequeno ou até negativo (i.e. tem mais caixa e aplicações financeiras do que dívida bancária). E como os juros em nosso país são altos, muitas vezes as empresas têm lucro com isso.

Apesar da queda, lucro foi de 2,7%

Nesta matéria a manchete não ajudou, pois o que se mediu foi a rentabilidade, que foi muito boa, segundo a Economática. O presidente da empresa, Fernando Exel, diz que uma rentabilidade sobre o capital da empresa de 2,7%, em apenas tres meses, foi positiva se comparada à da SELIC. Ele calcula que uma aplicação em renda fixa convencional renderia 1,1% em termos reais (no trimestre), que é bem menos que os 2,7% que os investidores das empresas obtiveram.

Em outras palavras, não valeria à pena os empresários venderem suas empresas para aplicar num fundo de investimentos qualquer. Interessante…e positivo.

Microeconomia: isto tudo é análise da média – e médias são burras, muito burras. Especialmente quando falamos de crédito. A análise da Economática mostra claramente que alguns setores sairam-se “menos pior”, como os de Utilidade e Construção (surpresa!), enquanto que os de Siderurgia e Químico, entre outros, sairam-se mal demais. O de Alimentos, não conta, pois as perdas da Sadia (com derivativos) bagunçaram a média.

Em crédito, meus caros, ninguém se fia em análise “macro” ou “média”; os analistas de bancos olham o setor e a empresa em sí. Portanto, estas notícias mostram que se, em geral, nossas empresas foram até que muito bem, o crédito só fluirá mesmo para aquelas que de fato foram bem.

Conclusão:  este trimestre teve o cambio volátil, além da questão do hedge cambial que afetou muitas empresas. E mais, a rolagem das dividas será bem mais cara em 2009 do que foi em 2008. Em outras palavras, quem não conseguir rolas suas dívidas externas vincendas e precisar captar em reais terá um impacto negativo no seu caixa.

De qualquer forma, eu acho que as empresas brasileiras, de grande porte como é o caso das empresas de capital aberto, se deram muito melhor do que se poderia esperar. A principal razão, na minha opinião, é o baixo endividamento líquido da empresas.

Abraços, FB

Pego carona no blog da Miriam Leitão, que nos ajuda a refletir sobre a recuperação da economia brasileira. É só ver abaixo.

Continuo com a minha tese:

  1. Comparações ano-contra-ano são inúteis (e.g. Mar/98 vs. Mar/08), pois o tombo é grande demais.
  2. Nestes dias de recessão aguda, o que vale é notar que a produção cresce contra o mês anterior. Esta é a minha opinião, mesmo sabendo que isto desrespeita os impactos sazonais.
  3. A produção industrial do primeiro trimestre de 2009 foi pior do que a do último trimestre de 2008. A princípio isto choca, mas tem uma explicação: apesar do parto da crise ter sido em 15 de setembro, ainda havia uma inércia grande nas fábricas, muitas produzindo para o Natal.
  4. Ainda assim – e graças a Deus -, acho batemos no fundo do poço.
  5. Voltamos a crescer timidamente.
  6. O processo de retomada será lento e longo.
  7. Só teremos mais vigor econômico quando o crédito bancário voltar pra valer e, no campo institucional, quando governo + congresso mudarem as leis que atravancam o país.

Abaixo, o post da jornalista Miriam Leitão. Abraços, F.

Produção industrial: mais um degrau na longa escada

O gráfico abaixo é uma boa síntese da produção industrial do país: houve uma queda muito forte por causa da crise no final do ano, com uma recuperação lenta, mês a mês. Reparem que apesar da curva estar em trajetória ascendente, os três primeiros meses do ano ainda foram mais fracos que os últimos três de 2008 (queda de 7,9%).

Para caber na telinha do blog, o gráfico precisou ser reduzido, mas cada ponto vermelho representa o resultado bruto de cada mês (as barrinhas são a média móvel trimestral). O último resultado é de março, o anterior é fevereiro e por aí vai. Vejam que em outubro e novembro, o desempenho da indústria ainda estava bem melhor do que agora. Foi isso que fez o resultado do 4º trimes ser melhor que o do 1º tri de 2009. 

Muita gente pergunta, diretamente ou via Google, “quando os juros (e os spreads) vão cair”. Obviamente o foco desta pergunta é: quando os juros cairão para as PF’s e PJ’s (pequenas e médias).

A resposta é simples: quando os bancos aumentarem a oferta de crédito para estes segmentos. E isto acontecerá quando eles tiverem mais segurança. Em outras palavras, só quando eles tiverem a percepção de que o risco destes clientes darem um calote diminuir. Enquanto isto não acontece a oferta é pequena e os juros altos.

Por enquanto, os bancos e investidores só olham com “carinho” para as grandes empresas, e.g. Nestlé, Perdigão, Pão de Açucar, Votorantim, etc. As óbvias de sempre.

No entanto, em breve estas empresas terão oferta excessiva de crédito e, como consequência, elas poderão barganhar muito mais e os juros que pagarão será muito mais baixo. É neste momento que dizemos que há um “empoçamento de liquidez”, pois a maior parte do crédito é directionado para elas.

Resultado: os bancos começam a ganhar pouco dinheiro com as mega empresas e se animam em emprestar para as médias…e depois voltam a emprestar para as pequenas. É sempre assim desde que o mundo é mundo.

Agora, cabe a você (seja PF ou PJ) posicionar-se corretamente para que os bancos te enxerguem como um risco baixo e, portanto, passem a canalizar mais crédito para você. Só isso fará com que os juros que VOCÊ paga caiam mais rapidamente.

Não se engane pensando que pelo fato da SELIC ter caído os seus juros cairão também. Não existe uma tabela de preços “imexivel” na frente do gerente. Ele te cobrará os juros que imaginar que você pagará – cabe a você fazê-lo perceber que a sua oferta de crédito no mercado é alta e que ainda merece mais.

É isso + abraços, F.

…nunca esteve tão baixa, mas podia ter sido melhor. Eu dei umas declarações para a Folha de S.Paulo e divido com vocês a minha opinião sobre o efeito dela no crédito:

  1. Este 1% de queda não representará nada nas dívidas da imensa maioria dos brasileiros, em especial das famílias.
  2. Para elas, os spreads só cairão quando a inadimplência cair e esta é função do nível de emprego – que continuará ruim por um tempo.
  3. Já para as grandes empresas os juros (i.e. os spreads) já começaram a cair, na medida que os bancos detectaram que não houve nenhuma hecatombe.
  4. Agora, com a Selic mais baixa, o fluxo de empréstimos tende a aumentar para elas, que repassarão sua liquidez para suas cadeias, i.e. fornecedores (via adiantamento) e clientes (via prazo de pagamento).
  5. E assim as pequenas e médias empresas, que estão com acesso restrito ao crédito bancário, voltarão a respirar melhor.
  6. Este raciocinio não vale tanto para o pequeno e médio varejo, que vem sofrendo muito com a crise de crédito. Muitas empresas deste perfil vêm quebrando – e dando calote. Só que mudam o CNPJ e colocam o cunhado como acionista e a vida continua (não mudam nem a placa…).

É isso por enquanto. Saudações, F.

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