É o que escreveu o jornal Valor de ontem e é o que ouvi do maior banqueiro de comércio exterior do país.

É fato que os bancos brasileiros deixaram de utilizar – e estão até pré-pagando – as linhas de emergência que o Banco Central colocou à disposição no pico da crise. Fazem isso porque tem linhas suficientes (e mais atrativas) de bancos e investidores internacionais.

Isto ocorre porque parte da pouca liquidez internacional está sendo alocada no Brasil, pois:

  1. O Brasil está entupido de reservas em moeda forte, o que nos torna um país de risco baixíssimo quanto a calotes na dívida externa.
  2. Os bancos brasileiros, que são os grandes captadores destas linhas, são sólidos, acima de qualquer suspeita.
  3.  Ainda pagamos bons spreads.

Porém, o que ninguém escreveu é que banco algum está com apetite aberto para financiar o comércio exterior de todos que demandam. Além disso, o preço das commodities despencou – e parte do volume também caiu -, o que significa menor valor da exportação e, portanto, do financiamento necessário para esta.

As notícias sempre precisam ser relidas, ‘traduzidas’…não há dúvida que o momento é bom, mas não o é para todo mundo! O momento está bom para os grandes e sólidos.

E os pequenos e médios? Estes devem fazer a lição de casa e praticar Relacionamento Bancário de forma profissional. Só assim conseguirão mais linhas.

Abraços, F.

Retorno de uma jornada de dois dias em Brasilia. Foi uma viagem rica, pois conversei com muita gente boa e senior, dos setores público e privado. Deu para sedimentar algumas visões importantes, as quais divido com os amigos:

I. A Origem da Crise do Crédito no Brasil

  1. Ela NÃO começou no dia 15 de setembro de 2008, quando o Lehman Brothers quebrou nos EUA.
  2. Ela APENAS se desnudou naquele momento.
  3. A inadimplência já subia consistentemente naqueles dias, só que era mascarada pelo crescimento dos ativos de crédito na economia.
  4. Já estava claro para muitos bancos que haviam emprestado mais do que deviam para gente/empresas que não tinham estofo para tamanho endividamento.
  5. A quebra do banco americano, com o consequente corte nas linhas externas, apenas acelerou o processo voraz de corte de linhas.
  6. Isto retroalimentou o processo de inadimplência já em curso.
  7. Agora que o estoque de crédito não cresce mais, a inadimplência não pára de crescer (em reais e na proporção do estoque de crédito).

II. Perspectiva da Crise de Crédito no Brasil

  1. A morosidade para a retomada do crédito no Brasil, não se dá, portanto, em função da recessão que está aqui instalada.
  2. Se dá – e continuará se dando – porque os bancos estão – e continuarão – ajustando seus portfolios de crédito. Em outras palavras, reduzirão o crédito para muitos clientes, cobrarão integralmente os empréstimos de outros tantos, etc.
  3. O Fabio Barbosa (CEO Santander/Real e Febraban) já disse – com propriedade – que o crédito não voltará a ser o que era antes, pois não há funding disponível para tanto tomador de crédito. Ele não disse e eu complemento, que não haverá oferta de crédito para muita gente, simplesmente porque os bancos e financeiras (e seguradoras de crédito) aprenderam que estes tomadores não eram suficientemente sólidos.

Portanto, concluo que a retomada do crédito – e da atividade econômica como um todo – se dará de forma mais lenta e gradual. Mas, se Deus quiser, de forma mais consistente.

III. Outras histórias/conclusões tiradas da minha viagem

  1. Senti preocupação séria por parte dos maiores bancos financiadores do comércio exterior brasileiro.
  2. Não me foi dito explicitamente, mas macaco velho cheira estas coisas: espera-se algumas grandes perdas de crédito no mercado. Outro dia o grande frigorífico Independência entrou em recuperação judicial. Senti que gente bem maior, neste e em outros setores, terão problemas.
  3. Há tempos eu brinco (sério) que todas as empresas tomarão um belo calote de um cliente que jamais imaginariam. Parece que eu não sou o único a acreditar nisto…
  4. Bom saber que o Banco do Brasil não parece ter problemas de funding. Mas caiu a demanda por linhas, porque cairam as exportações e o valor destas (principalmente das commodities).
  5. Outra coisa que venho ouvindo de bancos em geral: “Funding tem, o que não tem é bom tomador de crédito“. Os bancos estão muito refratários e tem a ver com o item  I deste post. E eu os entendo, porque aqui na Coface o volume de sinistros (i.e. empresas que dão calote nos meus clientes) cresceu barbaramente!
  6. O exportador brasileiro gostaria de tomar linhas de longo-prazo, para arrumar o seu passivo bancário, só que não há linha longa disponível, muito menos apetite dos bancos em oferecê-la.
  7. Outro fator: muitos exportadores estão sem ‘lastro’ para novos financiamentos curtos (ACC’s-ACE’s). Tomaram linha demais e não estão exportando suficiente. Isto é muito ruim.

É isso. Cautela e canja de galinha quando o assunto é crédito: seja dando prazo nas suas vendas, ou contando com o crédito para o seu capital de giro! Procure por linhas de crédito ANTES de precisar delas desesperadamente!

Abraços, Fernando

Prezados,

A partir deste post, o Blog do Crédito inicia novas Categorias de posts, conforme abaixo:

  1. A Crise e Você: Pessoa Física
  2. A Crise e Você: Pessoa Jurídica
  3. A Crise e o seu Setor: um setor de cada vez

Além da visão macro e internacional dos acontecimentos, humildemente me proponho a contribuir de forma mais específica com os participantes deste Blog. Vamos então ao primeiro da série.

Setor: Agricultura e Fertilizantes

Estamos todos sabendo que as linhas para financiamento de exportações (os famosos ACCs/ACEs) estão muito escassos porque são linhas vindas de bancos internacionais e estes precisam do dinheiro em suas próprias casas-matriz. Já o financiamento em reais, via crédito rural, é uma linha que todos os bancos que captam depósitos à vista têm obrigação de repassar para fazendeiros e/ou empresas do agronegócio. Nesse front, parece-me que as coisas também não andam com a devida agilidade. Esta é a conclusão que se tira a partir da gritaria dos agricultores e das declarações do governo (que reclama dos bancos).

Exemplo real da situção:

  • O enxofre é insumo essencial para a fabricação de fertilizantes.
  • Sua oferta advém das petroquímicas (subproduto) e da extração de minas (russas e canadenses).
  • Com o aquecimento da demanda mundial de alimentos nesta década (graças ao crescimento da China e dos demais emergentes), o preço da tonelada de enxofre chegou a USD 900/tonelada.
  • Isso porque a indústria de fertilizantes consumia todo o enxofre que era ofertado.
  • Sabe quanto está o preço hoje? Meros USD 70/tonelada, i.e. o preço do frete doméstico!

As fábricas de fertilizantes pararam porque o agronegócio se estocou e porque o agronegócio não irá comprar por falta de linhas de crédito. Esses são os sons que vêm do campo…

Conforme já havia postado recentemente, a tendência é que a produção e a produtividade da nossa produção de grãos caia em 2009. Com isso, cairá também a renda no campo e, por tabela, cairão também o consumo das famílias que vivem do setor e o investimento da agroindústria.

Preços: está claro que a oferta será menor e que isso faria com que os preços dos produtos agrícolas subissem. Mas como a demanda externa deve diminuir também (por conta da recessão), eu não acho que teremos uma inflação vinda do campo.

Crédito: o agronegócio nunca teve vida fácil para obter crédito, seja de bancos ou de seguradoras de crédito. Há o fator climático, que não é controlável por ninguém e gera prejuízos para toda a cadeia (incluindo o elo financeiro). Um outro fator 100% controlável é a gestão do relacionamento de crédito, que é muito mal feito pelo setor. Em sua esmagadora maioria, existe muita informalidade e isso atrapalha a concessão de crédito. Vale muito mais a reputação, os dados físicos da produção e os preços dos produtos, sem falar nas garantias oferecidas. Num ano difícil como este, o setor sofrerá mais do que de hábito. E a única saída é saber demonstrar sua capacidade de superar a crise. Como sempre, uns conseguirão, outros não…

Setores mais penalizados:

  • Fertilizantes e defensivos agrícolas
  • Tratores e implementos agrícolas
  • Caminhões e transporte em geral (incluindo o frete)
  • Consumo de bens e serviços nas regiões agrícolas

Sofrem estes e todos aqueles que dependem destes. Fique de olho.

Abraços,

Fernando

Caros – venho conversando (por dever de ofício e também por causa do blog) com algumas feras do mercado de crédito. Abaixo reporto algumas visões, percepções e verdades absolutas:

1. Linhas de Comércio Exterior:

Como é conhecido, esta foi a primeira fonte que secou. Os bancos internacionais que davam linhas para os nossos bancos repassarem para as empresas brasileiras, ou que emprestavam diretamente para as mega empresas, pararam de emprestar. Como estes bancos estão sem liquidez nas suas próprias matrizes (no seu “mercado local”), foi natural cortarem linhas para o exterior.

Sabemos que muito cliente brasileiro simplesmente não está pagando a linha de volta para o banqueiro brasileiro – sim, está em “default”. Sabem que se pagarem não terão a linha rolada (esta externa, ou outra local em reais).

Muita gente – SEM NOÇÃO DO QUE DIZ – quer minimizar o problema, dizendo que as linhas externas são apenas “10% do total do mercado de crédito brasileiro”. Sim, mas representa muito mais do que 10% das linhas de crédito que empresas-chave da nossa economia tomam – em muitas delas pode representar até 30%, e isso é muito! E essa escassez também gera uma tremenda desorganização no sistema, pois a linha externa será – possivelmente – substituída por uma linha doméstica que poderá ser tirada de outra empresa que também precisa!

O Governo começa a tentar solucionar o problema.

a. BNDES

Mudaram algumas regras internas da sua linha de pré-embarque visando apoiar empresas maiores também. O BNDES, que estava com seu orçamento prá lá de tomado (conforme antecipado aqui no blog), passou a contar com uma linha extra do Tesouro Nacional de USD 5 bilhões. O BNDES me informou o seguinte:

  • É uma linha similar a um ACC, usualmente tomado diretamente dos bancos aqui instalados.
  • A linha vem do BNDES, mas a transação é intermediada por um banco aqui instalado, i.e. o empresário precisa convencer o seu banco de relacionamento a aprovar o crédito (pois esse banco irá garantir o empréstimo junto ao BNDES) e tocar o processo junto ao banco federal.
  • O processo é bem rápido, tipo 10 dias a partir da entrada junto ao BNDES.
  • O custo não me foi informado, mas será bem mais caro, pois o custo do BNDES encareceu consideravelmente.

b. Banco Central

Cria uma linha de crédito para bancos captarem diretamente das reservas cambiais do país. Abaixo eu passo o link da Resolução 3.622. Minha leitura é que o Banco Central está mais liberal e flexível na aceitação de garantias. A regulamentação é confusa, pois diz que pode-se oferecer uma ampla variedade de ativos em garantias, mas em outra parte diz que no primeiro leilão aceitará apenas Global Bonds…

Outros pontos relevantes:

  • O Banco Central é mais duro do que qualquer banco privado no que concerne ao volume de garantias aceitas, pois exige 120% do valor do empréstimo se o ativo tiver o rating AA (o melhor possível pelas regras do Brasil), chegando até 140% se o rating for B.
  • Prazo máximo: 360 dias, i.e. bye-bye recursos externos para financiar investimentos. Agora ‘só’ dá para financiar o giro do negócio e olhe lá.
  • Custo da linha: será definido em leilão, o que é justo. O primeiro será na 2af, dia 20. Tá em cima da hora, mas dá para correr atrás do seu banco logo cedo.
  • Não foi anunciado o volume a ser colocado à disposição, mas nossas reservas estão grandes…

PS: taí o Fundo Soberano que o nosso Ministro Mantega tanto queria criar. O Brasil, ao invés de aplicar as suas reservas internacionais em títulos do Tesouro dos EUA, agora as está aplicando para salvar as nossas exportações – perfeito, na minha opinião. Ou quase…: podia ser menos restritivo e acho que o custo vai ficar salgado…

http://www.bancocentral.gov.br/noticias/Noticias.asp?noticia=1&idioma=P&cod=1890

Melhorando o seu crédito: o amigo exportador/importador já sabe que disputará a tapas um recurso muito escasso. Para conseguir ‘abocanhar um naco desse bolo que será pequeno para tanta gente faminta’, eu sugiro:

  • Negocie forte e use o seguinte argumento: “Hoje o mercado está seco e eu [empresário] não tenho para onde correr, mas logo o mercado estará líquido, cheio de oferta para a minha empresa, e será natural que no futuro venhamos a dar preferência aos bancos que foram parceiros e nos apoiaram neste momento difícil…”
  • Essa frase – ou similar – é para ser dita com firmeza e profissionalismo. A maioria das empresas de médio e pequeno prazos o dizem “com vergonha” ou “com agressividade”. Ambas inapropriadas. O gerente do banco tem que sentir que perderá um cliente importante se não atendê-lo direito.
  • Em tempos bicudos no mundo do crédito, você tem que maximizar a transparência com os bancos, visando minimizar a percepção de risco que eles terão de você e da sua empresa. Aqui ao lado, clique em “Melhorando seu Crédito” e encontre várias dicas.
  • Mostre todo o potencial de negócios que você e sua empresa têm a oferecer para o banco (vale tudo, até a sua conta-corrente PF, sem falar nas dos seus funcionários, seguros, etc.). Isso é uma moeda de troca, pois o gerente irá temer perder tudo isso assim que a crise acalmar.

2. Mercado doméstico:

Adoraria ter boas notícias, mas não as tenho. O que apurei:

a. Banco Central:

Continua no seu esforço de liberar liquidez. Essa prática, conforme venho informando, ganhará o Oscar de Medida Econômica de Governo Pior Entendida do Ano.

O link abaixo mostra a mais nova regulamentação do Banco Central que aumenta o leque de ativos que permite maior liberação de compulsório. No entanto, nada muda na essência da iniciativa: é para ajudar os bancões a comprarem carteiras de crédito dos “banquinhos” (de até R$ 7 bilhões de Patrimônio Líquido!!!)para que estes possam ter liquidez e pagar seus depositantes.

http://www.bancocentral.gov.br/noticias/Noticias.asp?noticia=1&idioma=P&cod=1888

E por que tais compras estão acontecendo a passo de tartaruga manca? Por que os bancões estão com apetite de risco BAIXÍSSSIMO!!! Se eles mal estão dando crédito para os seus clientes antigos e conhecidos, porque iriam comprar créditos de empresas/pessoas desconhecidas?

b. Crédito consignado:

A alta do custo do dinheiro torna pouco atraente este tipo de empréstimo que foi a coqueluche do mercado brasileiro nos últimos 5 anos. Como muitos bancos pequenos e médios querem vender esse tipo de carteira, eu imagino que terão que fazê-lo com algum prejuízo e isso eles também não querem…

c. Crédito privado (dos bancos conhecidos):

O crédito está escasso, porque os bancos, i.e. os seus comitês de crédito, estão muito conservadores. Ponto. Não há nada nem ninguém que os fará mudar de opinião nesse momento difícil. E como temos alguns grandes bancos estrangeiros no Brasil, o conservadorismo de suas matrizes poderá atrapalhar nessa hora. Algumas informações colhidas:

  • Para muitos bancos não existe mais limite aprovado para vários setores de maior risco, limites mais altos (e.g. R$ 10 milhões), prazos acima de 1 ano, etc.
  • Em outras palavras, para cada emprésimo o comitê se reúne e delibera à luz do momento (econômico e de caixa). Isso atrasa e muito o processo e poderá levar empresas a situação de iliquidez.
  • O spread bancário mais que dobrou de preço. Se a SELIC é perto de 1% a.m., a empresa que pagava pouco acima disso agora paga 2% a.m…
  • Os executivos de bancos têm ordens explícitas de reduzir o risco, mas não de reduzir os lucros, i.e. os juros serão muito salgados nos próximos 12 meses.
  • Os bancos com quem conversei estão refazendo os seus orçamentos, já prevendo aumento das perdas de crédito.

Como evitar ficar sem linha e/ou pagar muito mais caro? ^Vale a mesma regra acima. Negocie duro.

Concluo dizendo que o momento é difícil para todos – e se servir de consolo, está sendo para todo tipo de empresa (o que é raro acontecer num capitalismo tão piramidal como o nosso). Redobre a sua atenção na hora de:

  1. Assumir compromissos com clientes, e.g. aceitar um grande e desejado pedido (que aumentará a sua fatia de mercado, mas que poderá destruir o seu capital de giro e quebrar a sua empresa – cansei de ver isso).
  2. Dar crédito, i.e. vender a prazo por períodos longos e/ou para quem você não está muito certo da solidez, etc. Falo isso com seriedade, pois a Coface vive de segurar esse tipo de risco e nós reduzimos o nosso apetite. Razão: por conta das grandes perdas que estão acontecendo no mundo todo – será que não vai chegar aqui?…
  3. Deixar para tomar crédito em cima da hora. Essa prática, tão comum em nosso país, é um veneno para qualquer empresa – especialmente neste momento.

Meu abraço, esperançoso que essa crise passe logo e que os amigos do blog saiam-se bem desta fase difícil.

Fernando

Não, eu não estou falando da bolsa cair mais 7% e o dólar subir outros 5%. Isso é volatilidade normal (com viés notoriamente pessimista) que não deveria surpreender mais ninguém nessa altura do campeonato. E agora os mercados cairão por conta da perspectiva clara de recessão forte e não mais por conta do medo da crise sistêmica.

Estou falando é de crédito, que está secando barbaramente. Falta crédito em dólar, falta para empresa PME, falta para banco de porte médio pra baixo. Alguns pontos:

1. O Banco Central mexeu no compulsório dos bancos (com potencial para liberar R$ 23,5 bilhões). Só que essa mudança teve um claro viés de apoio para os bancos menores. A liberalidade é restrita aos bancões que comprarem créditos dos bancos menores, i.e. estes precisam de liquidez urgentemente. Eles até tem bons ativos, mas devem estar sem funding, pois houve um “flight to quality” do lado dos depositantes. Em outras palavras, são bancos solventes, mas ilíquidos – e olha que fizeram IPO’s no ano passado. Mas aí faltou o famoso Asset – Liability Management (“ALM”)…

2. Se fizessem uma escala de importância entre os executivos – públicos e privados – do mercado de trade finance do Brasil, eu diria que ontem eu conversei longamente com o número 1 e com o número 2. O que ouvi foi uma calamidade. Os bancos internacionais, que já tinham estendido linhas de crédito para ACC, ACE, financiamento de importação, pré-pagamento, etc., estão cobrando TODAS essas linhas no vencimento. Isto é, não há rolagem possível. São USD 5 bilhões por mês. Não é a toa que o Presidente Lula acordou e parou de falar pérolas do tipo “o problema é do Bush”, “o Bush, resolve os seus problemas aí, meu filho”, lembram-se?

3. A maioria dos bancos, como não tem dinheiro para atender toda a demanda, começam a hierarquizar a liberação de empréstimos, i.e. quem pode mais, chora menos. Chegou a hora de cada empresa mostrar sua competência na desprezada disciplina Relacionamento Bancário, que eu tanto preguei aqui neste blog (antes da crise roubar-lhe espaço…).

Começo a temer seriamente pelo Natal deste ano – a despeito de Lula ter urgido seus ministros a “garantirem crédito para o Natal” – e do crescimento do PIB de 3% para 2009.

É PERFEITAMENTE POSSÍVEL TERMOS UMA DEPRESSÃO MUNDIAL E UMA RECESSÃO NO BRASIL. A CRISE DE CRÉDITO ESTÁ MUITO SÉRIA E O MUNDO APRENDEU A CRESCER COM CRÉDITO FÁCIL E BARATO. E ISSO VIROU FICÇÃO!

Até + tarde, F.

…dando continuidade à nossa saga de como tomar o crédito certo para a necessidade certa, na hora e no volume certo, vamos falar de:

2. Capital de Giro

  • Estas linhas se travestem de várias formas: Capital de Giro, Desconto de Duplicatas, Desconto de Cheques, Vendor, etc. Quase todo banco oferece este tipo de linhas, com maior ou menor restrição e custo.
  • É fundamental pedir a linha CERTA. Se a sua empresa tem um ‘buraco’ no seu ciclo de caixa de, digamos, 90 dias, no valor de R$ 2 milhões, é inadequado solicitar um empréstimo para o seu banco, no valor de $ 5 milhões e prazo de 180 dias, “só para ter uma folguinha”. Banco sabe fazer conta melhor que qualquer empresário e não lhe dará esta linha. Pior: seu nome vai ganhar uma (ou) ‘marquinha'(s) no ‘cadastro mental’ do gerente e/ou do comitê de crédito.
  • Exemplos de ‘marquinhas’: “O cliente não sabe fazer conta”, “O cliente é desorganizado”, “Ele quer captar mais do que precisa para usar em outro negócio que não consegue se manter”, “Ele quer captar mais do que precisa para comprar um carrão novo“. A lista é longa e não ajudará a vida do empresário no relacionamento com o banco.

3. Emergência

  • Todo e qualquer empresário tem dúzias de razões nobres para não conseguir liquidar um empréstimo na data pactuada (e.g. atraso no recebimento de uma duplicata grande, redução de vendas, atraso na entrega de mercadorias que atrasa a produção, atraso no desembolso de um outro empréstimo, acidente/dano industrial etc., etc.).
  • É para este tipo de ‘sangria temporária’ que existe a linha conhecida como Conta Garantida. Sem tirar nem pôr, é um cheque especial que o banco te oferece durante (e.g.) 180 dias (e.g. garantido por 50% de duplicatas). Até a data pactuada, você poderá sacar da linha no valor acordado e pronto.
  • Esta linha é, em geral, bem mais cara do que os empréstimos de capital de giro.
  • Esta linha se destina, portanto, para rombos temporários. Se o rombo se tornar estrutural (porque a empresa não consegue gerar caixa para zera-lo), troque a Conta Garantida por um Capital de Giro parcelado, com carência)

4. Expansão/aquisição

  • Os ativos de giro dão retorno, em geral, ao redor de 90 dias, que é o período que vai entre o pagamento dos fornecedores e o recebimento das duplicatas. Já os ativos permanentes só geram retorno a partir do 2o ano (no caso de um pequeno comércio), ou 5 anos (uma planta industrial) ou 15 anos (um avião de grande porte).
  • Portanto, as linhas a serem captadas para este fim tem que ter prazo similar.
  • No Brasil, BNDES é a fonte! Porém, muitos se queixam da demora do processo – e tem razão de reclamar. Outra dificuldade reside no fato de que quase nenhum gerente de banco gosta de empréstimos do BNDES- em especial os de agência, que atendem as empresas menores! Por que? São muito mais trabalhosas e rendem spreads menores, em geral.
  • O leasing também é uma ótima alternativa para aquisição de equipamentos que dão retorno em 2, 3 anos.
  • Linhas exteras de médio/longo-prazo andam escassas, mais curtas e mais caras, mas são elas que abastecem os bancos, para que você possa tomar um Capital de Giro parcelado de médio-longo prazo.

5. Comércio Exterior

  • O grande lance para quem exporta é poder captar linhas de capital de giro pré-embarque (o famoso ACC) e financiar o recebível põs-embarque (o igualmente famoso ‘irmão-siamês ACE).
  • Estas linhas são dolarizadas e são mais baratas que as similares denominadas em reais.
  • Como sua empresa vai receber o pagamento de suas exportações em dolar, não há um risco imenso de se endividar em dolar, ainda que a moeda possa flutuar no período.
  • As importações também podem ser financiadas por linhas externas, mas aí poderá haver descasamento de moeda e isto não é recomendável.
  • Para o longo-prazo, o exportador pode recorrer às linhas conhecidas como Pré-pagamento de Exportação (ou PPE, ou ainda EPP em inglês). Em geral, são utilizadas para financiar expansões empresariais, que gerarão fluxo de exportação no futuro. São operações estruturadas por áreas Corporate do bancos e, dificilmente, uma empresa PME conseguirá tal linha, mas não custa tentar.
  • Nenhuma linha externa está abundante atualmente. O jornal Valor desta 2af traz uma boa reportagem – comentarei nesta 3af.

PS: há outras linhas de longo-prazo, internacionais, extendidas por organismos multilaterais, como o IFC, ou de fomento à exportação, como o US Eximbank. Os volumes, porém, são marginais e a dificuldade de se obter grande demais.

É isso por hoje. Novamente, o objetivo desta série de posts é alertá-los para os perigos de se tomar crédito no prazo e na modalidade errada. Amanhã tem mais.

Saudações Santistas (depois do 5X2 de ontem, no Vasco, voltei a sorrir!),

Fernando