Espero que seja notícia falsa, plantada, mas este link do Financial Times nos conta que alguns dos bancos americanos com o maior volume de ativos tóxicos, estariam considerando comprar mais dos mesmos! Como? Utilizando-se dos empréstimos risco-zero do Plano Geithner. Será o cúmulo da ousadia se os gestores destes bancos permitirem isto; será o cúmulo do absurdo se o FED deixar que o façam!

Abs, F. 

PS: este rumor dá uma clara visão de como o Plano Geithner é, de fato, mamão-com-açucar para os investidores. Até os que perderam com tais ativos querem agora fazer mais uma ‘fézinha’…

Leio na Bloomberg que uma grande empresa americana, com rating elevado, está pagando 6% acima dos juros básicos. É muito alto! É como se um gigante brasileiro pagasse algo como 17% a.a. aqui no Brasil. Impensável. E um cidadão americano pagaria 7,3% a.a. acima do mesmo juro básico para financiar uma compra de automóvel (60 meses).

Bem, lá os juros básicos estão em 0,5% a.a., o que faz com que a taxa final fique bastante acessível – já aqui…

Estes dados nos ajudam a refletir sobre um velho axioma deste blog: ter muito banco num país não significa que os spreads serão baixos! A Holanda tem 3 bancos que realmente contam e lá os juros são pequenininhos assim, ó!

O FED e a crise de crédito – aproveito o embalo e informo que o FED tem USD 1,9 tri de ativos de crédito em seu balanço (é mais que 1 PIB do Brasil) e é pouco, muito pouco. O FED vem sendo pressionado para comprar ativos de bancos, empresas de cartões e até bonds de empresas industriais. A ordem do dia é irrigar a economia com crédito.

Mais fácil falar do que fazer – bancos centrais não estrutura (física ou técnica) para fazerem o que bancos privados fazem. Podem dar uma mão em momento de crise, mas nunca substituí-los integramente. É por isso que lá como aqui anuncia-se muita coisa, mas não sentimos mudança no quadro do crédito.

Abraços e A Luta Continua! FB

<<Post pre-cooked. Blogueiro ainda fora do ar , mas melhorando …>>

Amigos, faz um tremendo bem para o ego e para a sanidade mental, quando alguém como Paul Krugman vem e diz exatamente o que estamos dizendo por aqui: Barack Obama, seu # 2 Geithner e o FED governor herdado de Bush, Ben Bernanke, não estão sendo suficientemente arrojados na solução do problema dos bancos americanos!

Os bancos americanos viraran zumbis e Krugman chama a turma de Obama de Zumbis também!

“Tá, lá vem este Fernando Blanco falar de novo (!!) sobre bancos americanos e nacionalização do sistema e bla-bla-bla”. OK, vocês têm o direito de me achar um chato, sem assunto, banqueiro-frustrado (ou será um regulador frustrado?), etc.

Mas na verdade, eu e Paul Krugman 🙂 estamos certos por conta dos seguintes motivos:

  1. A economia americana representa perto de 30% do PIB mundial.
  2. O mundo não sairá do lodaçal enquanto a economia americana não começar a se mexer de novo.
  3. A economia americana travou porque o seu sistema financeiro quebrou.
  4. O sistema está sem confiança e capital. Pior os executivos estão sem coragem para emprestar mais.
  5. E se os bancos Made in USA não voltarem a emprestar, a economia real não voltará a fucionar e a consumir…e o resto do mundo continuará em recessão. Até enjoar.
  6. Os bancos americanos só voltarão a emprestar – pra valer – quando forem devidamente sanitizados e isto não acontecerá com estas medidas meia-boca que vêm sendo divulgadas.

A solução para o Planeta Terra voltar a ser feliz – ainda que não como antes -, passa obrigatoriamente por reverter o coma bancário, i.e. estatizá-los (só aqueles que estiverem insolventes), limpá-los (jogando o lixo no Bad Bank), consolidá-los (pois também é necessário cortar custos), capitalizá-los (pois sem capital adequado os empréstimos não voltarão) e vendê-los para quem queira comprá-los.

Mas se você não concorda com Krugman & Blanco tente então Gerard Caprio , especialista em bancos (ex-Banco Mundial).

Anotem aí: esta crise global (e brasileira) não acaba enquanto não seguirem a receitinha acima.

Oremos. Abs, F.

Olha, se há apenas um ano me dissessem que isto aconteceria, eu diria que era viagem lisérgica. Mas não é que o President Obama acaba de anunciar que os executivos dos bancos, que vierem a receber ajuda do próximo pacote do governo (que ainda está em gestação), não poderão receber bônus acima de USD 500 mil!

Estes USD 500 mil podem parecer indecentemente altos para quem não é do mercado financeiro, afinal, é muito dinheiro em qualquer país do mundo e em qualquer situação. No entanto, para executivos de bancos americanos USD 500 mil é dinheiro de gorjeta. Estamos falando de gente que ganhava múltiplos de 5 também, mas em milhões, tipo USD 5 mm, USD 10 mm…USD 50 mm, etc. – ao ano, todo ano!

Remuneração – eu defendo a tese de que a remuneração de executivos  deve respeitar a lei da oferta e da demanda, assim como ocorre com a taxa de juros, o preço da batata e do repolho, honorários de advocacia, entrada do cinema, etc. É simples: se tiver cara bom sobrando para as vagas ofertadas, o bônus pode e deve cair; e se tem mais vaga do que candidato bom, o incentivo financeiro tem de subir para que estes sejam atraídos para a vaga.

O erro – Porém, o sistema financeiro vem errando há decadas na gestão dos riscos que correm e que só aumentam a cada crise internacional. E existem dois motivos titânicos para isto:

  1. A pressão que os investidores/acionistas fazem para que os bancos lucrem sempre mais e mais e mais e mais…
  2. Os bônus que são oferecidos para que os executivos atinjam tais metas malucas. É o incentivo à irresponsabilidade!

Estaremos às portas de um novo Capitalismo Financeiro? Será este menos agressivo, menos materialista e mais fraterno? Minha aposta é que sim, até porque eu torço para que isto aconteça – e dou a minha humilde contribuição aqui e alí.

In Obama we trust!

Abraços, F.

TRANSPARÊNCIA

Lembram quando Paulson & Bernanke ficaram de joelhos perante o Congresso americano, implorando pela aprovação de um pacote de USD 700 bilhões? À época, esse volume era ultrajantemente grande. Muitos – eu incluso – acharam que isso seria a “entrada” de uma refeição que ainda teria “prato principal” e “sobremesa”.

Pois bem, a Bloomberg informou que a conta já chegou aos USD 2 trilhões – e continua crescendo – sob a forma de diferentes programas emergenciais (novos e outros já existentes pré-crise).

Pior, o Congresso exigiu total transparência quanto à utilização dos USD 700 bi e agora não consegue informações sobre um lote muito, mas muito maior – e crescente. A Bloomberg News chegou a entrar com uma ação na justiça americana, solicitando que sejam divulgadas informações relativas às garantias dadas para esses empréstimos.

Se por um lado ninguém retorna as ligações e emails dos editores da Bloomberg News, Paulson & Bernanke vêm passando maus momentos em diversas audiências no Congresso americano, pois são cobrados pelas promessas de total transparência.

Mas dentro do próprio Congresso há quem os apóie, como o poderoso Chairman da House Financial Services Committee Barney Frank, que disse: “O grau de transparência do FED vem sendo adequado e o risco que estão assumindo é apropriado para a atual situação econômica.” Ele discutiu essa situação com Timothy F. Geithner, número 1 do FED Regional de NY e o mais forte candidato para substituir Paulson no futuro governo de Barack Obama. E Mr. Geithner também concorda que o FED não poderia divulgar mais do que está fazendo, pois colocaria o sistema em risco. Em outras palavras, dificilmente o nível de transparência das ações do FED mudarão no governo Obama.

O tema é complexo; nunca vivemos nada parecido. É natural que os contribuintes tenham direito de saber para onde seu dinheiro está indo e quais garantias o governo está recebendo pelos empréstimos e demais ajudas dadas aos bancos. Mas quando o assunto é sigilo e solidez de bancos grandes, todo o cuidado com a informação é aconselhável. Abaixo a reportagem integral.

http://www.bloomberg.com/apps/news?pid=20601170&refer=home&sid=ahdVHk_Ccoeg

Desafios do capitalismo…

Abraços, F.

Surpresa Geral: o Plano Paulson não foi aprovado!

E não é que eles não conseguiram aprovar o Plano Paulson?! É inacreditável a falta de liderança e prestígio do presidente Bush! Afinal, foram os senadores do seu próprio partido que o derrubaram na votação! É coisa para “pedir o boné” e ir para o seu rancho no Texas curtir a aposentadoria. O país mais importante e rico (sim, ainda o é, em tese) do mundo vive uma crise sem precedentes e está sem comando.

Ah, e McCain, candidato Republicano que apoiou o pacote (a contragosto) também perdeu, moralmente falando.

Paul Krugman, que é Democrata até a alma, aproveitou para destilar seu veneno com requintes de crueldade. Ao usar a expressão “Banana Republic”, vingou todos nós, latino-americanos. Ver abaixo.

http://krugman.blogs.nytimes.com/2008/09/29/ok-we-are-a-banana-republic/

Conforme bem escreve Floyd Norris, do NYT (ver link abaixo), surpreendeu também a falta de força dos líderes do partidos no Congresso que não conseguiram arregimentar forças no plenário.

Norris também diz, de forma direta, o seguinte: a indústria bancária está com problema com ou sem o pacote. É lamentável o esforço que estão fazendo para mudar as regras contábeis. Em inglês: The banking industry is in trouble with or without this bailout. Its efforts to change accounting rules to hide its problems are sad and appalling.

http://norris.blogs.nytimes.com/2008/09/29/september-surprise/

Abraços, F.

No melhor estilo Shakespeareano, a resposta é complexa e sujeita a visão política de cada um – e também da posição que você está no momento da quebra. Não há esquerdista, anti-capitalista, piqueteiro de porta de banco, que resista à tese da salvação se ele/ela estiver com o salário e sua poupança presos no banco que acaba de quebrar e prestes a perde-los.

Bom, tirando este “pequeno” casuísmo moral, discutamos questões técnicas:

  1. Bancão de varejo não deve quebrar, nunca, em lugar nenhum do mundo. Eles administram a poupança alheia e a sua terminação acarreta enorme desorganização no sistema de pagamentos e na vida das pessoas e empresas. A solução brasileira do PROER foi criativa e vencedora na ótica dos poupadores. Não foi perfeita, pois vários bancos sem ‘lastro’ acabaram absorvendo bancos quebrados e quebraram junto, pouco tempo depois. Sorte que, à época, muitos bancos estrangeiros queriam se estabelecer no Brasil e acabaram comprando-os, com e sem ajuda do PROER. Uma coisa é certa: banqueiros e altos executivos que praticam atos irresponsáveis devem ser processados na forma da lei.
  2. Instituições como as americanas Fannie Mae e Freddie Mac também não. São mistos de agências e bancos e garantem trilhões de empréstimos de outros bancos. Se quebram, desorganizariam todo o sistema financeiro americano. O fato de investidores do mundo inteiro terem investido em seus títulos e ações é o de menos. Falamos aqui de proteção para o sistema hipotecário, que se sustenta em torno destas duas mega organizações.
  3. Bancos de investimentos, como Bear Sterns (já absorvido pelo J.P.Morgan) e Lehman Brothers (que hoje está no olho do furacão), além de outros da mesma estirpe e que também estão mal falados: em tese, não há nenhum motivo social para que este tipo de banco seja preservado, afinal, sua estratégia de negócio é centrada em grandes operações estruturadas, fusões e aquisiçõe e mercado de capitais. E este tipo de negócio pode muito bem ser feito por concorrentes sobreviventes a esta hecatombe. Como eles não captam poupança do cidadão comum, nem fazem negócios com pequenas e médias empresas, não haveria nenhum motivo político para preservá-los. Então por que salvaram o Bear Sterns e tanto debatem sobre o Lehman? O nome técnico para a dúvida que paira no ar chama-se Counterparty Risk. Cálculos preliminares apontam que se os bancos de investimentos de Wall Street deixarem de honrar os derivativos que têm em aberto, centenas (várias) de bancos americanos quebram junto.

Voltarei ao tema de Counterparty Risk mais tarde. De qualquer forma, ficaremos na dúvida, pois não temos acesso aos números destes bancos – e creio que nem eles mesmos o tenham, afinal, juntar as planilhas de Excel de centenas de traders dá um trabalhão…

Abraços, Fernando

PS: este texto é lastreado no conhecimento adquirido por este escriba, ao longo de 15 anos de Risk Management e uma meia-dúzia de crises deste tipo, só que com magnitudes menores (graças a Deus…).