Quanto tempo…sim, eu ando sumido, mas é porque estou com a “batata assando” no meu dia-a-dia na Coface, mas também estou trabalhando forte num projeto chamado Instituto do Crédito (que terá blog também)!

Abaixo segue o link do Estadão de hoje, cujo Editorial comenta uma ótima reportagem do competente Leandro Modé. Acho que a matéria saiu na edição de ontem, mas não achei a versão eletrônica.

Inadimplência e Spread

 A confusão, por conta do desconhecimento de como os bancos tomam decisão, é cavalar. E a própria Febraban não ajuda, pois o seu economista-chefe talvez não entenda este funcionamento também. Quem sabe mesmo é quem trabalha no comitê de crédito da instituição.

É assim:

1. Como os bancos levam muito calote de, digamos, empresas de micro e pequeno porte, seus comitês de crédito aprovam limites de crédito pequenos.

2. Aí, você empreendedor vai aos bancos e, precisando de R$ 10 mil de crédito, só consegue R$ 9 mil e a muito custo.

2. Por conta desta oferta pequena, apertada – para as suas necessidades – você não tem poder de barganha junto aos bancos, pois precisa tomar tudo e ao preço que for pedido.

Moral da história: o spread é elevado para você, mas não é por conta de estatísticas, ou das famosas pizzas que certos analistas adoram produzir (refletindo os balanços antigos dos bancos) e que não servem para nada.

O fato é que os bancos não estão confiantes na adimplência de pequenas e médias empresas, que se machucaram muito na crise. De fato, eu acho que ele estão, aos poucos, lançando a perdas os muitos calotes que levaram de setembro/08 até abril/09. E isso deixa o humor do banqueiro muito negativo.

Eles preferem ganhar pouco aplicando suas sobras de caixa nos títulos públicos, via Banco Central, do que correr risco de crédito. E aí, como a oferta é baixa e a demanda é alta, os bancos têm maior poder de barganha e cobram caro. Todo o risco é ficção científica.

Agora, se a sua empresa é arrumadinha e você a apresenta corretamente para os bancos (com documentação adequada e transparência), você conseguirá linhas…caras, mas aos poucos elas vão barateando, na medida que os bancos ganham confiança em você.

Abraços,

Fernando

PS: e vá para o BB e para a Caixa, pois eles estão emprestando com gosto!

Muito já foi dito sobre a intempestiva demissão de Antonio F. de Lima Neto, ex-presidente do Banco do Brasil. Deus me ajude, portanto, a trazer um ângulo diferente para este fato.

Para começar, não se mistura CRÉDITO com o DEPARTAMENTO DE PESSOAL. E foi isso que o Governo, que é o maior acionista do banco, fez ao demitir Lima Neto.

Agora eu pergunto: como ficará a cabeça das dezenas de milhares de funcionários não só do Banco do Brasil, mas também da Caixa Econômica Federal, da Nossa Caixa, do BNB e do BASA? Sim, porque a partir de 2af todos os gerentes, superintendentes, diretores e vice-presidentes de todos estes bancos federais tenderão a dar crédito de graça, para qualquer um. Foi esta a mensagem nada subliminar que o Presidente Lula e seus Ministros passaram para estes funcionários e para a sociedade como um todo.

“Não emprestou bastante? Cobrou caro? Vai pra rua!”

No entanto, salvo melhor juízo, a carteira de crédito do Banco do Brasil era a que mais crescia no Brasil, depois da crise, e os juros cobrados pelo banco, na média, eram mais baixos do que seus concorrente privados.

Notem que até outro dia eu era concorrente direto do BB, nos meus tempos de diretor da área comercial do Banco Real/ABN AMRO. E eu digo: o BB era um banco difícil de bater! Agora, que os bancos privados estão mais conservadores do que nunca, o BB poderia cobrar o spread que quisesse, mas não, emprestou mais – aumentando o próprio risco – e ainda passou a cobrar menos (na média).

Enfim, para mim Lima Neto sofreu um “acidente de trabalho” (tão típico de executivos que, por azar, estão no lugar errado, na hora errada) ou é “baixa de guerra” (tão típicas do jogo político). Alguns exemplos:

·         Imagine que o BB emprestou “errado” (i.e volume baixo e/ou juros altos) para alguém próximo demais da cúpula do Palácio do Planalto? A informação chegou lá enviesada.

·         Podem ter também “esculpido” estatísticas comparativas que demonstraram que sob sua gestão os spreads não estavam caindo no ritmo adequado.

A lista de possibilidades é enorme. Mas é difícil acusá-lo de agir como os bancos privados.

Ah, sim, e tem a questão dos acionistas minoritários…

Se eu fosse tomador de crédito hoje, eu correria para o Banco do Brasil em busca de juros ainda mais baixos. E se fosse acionista do banco venderia as ações.

Abraços, F.

PS: e OBRIGADO aos amigos do blog que fizeram comentários tão ricos no post passado, que tratou deste tema!

Caiu Lima Neto, Presidente do  BB, porque não estaria derrubando as taxas de juros cobradas pelo banco. Mas o mercado não gostou. Leiam aqui no Valor on line um ótimo texto de Eduardo Campos.

E você,  gostou da decisão de Lula? Abraços, F.

Retorno de uma jornada de dois dias em Brasilia. Foi uma viagem rica, pois conversei com muita gente boa e senior, dos setores público e privado. Deu para sedimentar algumas visões importantes, as quais divido com os amigos:

I. A Origem da Crise do Crédito no Brasil

  1. Ela NÃO começou no dia 15 de setembro de 2008, quando o Lehman Brothers quebrou nos EUA.
  2. Ela APENAS se desnudou naquele momento.
  3. A inadimplência já subia consistentemente naqueles dias, só que era mascarada pelo crescimento dos ativos de crédito na economia.
  4. Já estava claro para muitos bancos que haviam emprestado mais do que deviam para gente/empresas que não tinham estofo para tamanho endividamento.
  5. A quebra do banco americano, com o consequente corte nas linhas externas, apenas acelerou o processo voraz de corte de linhas.
  6. Isto retroalimentou o processo de inadimplência já em curso.
  7. Agora que o estoque de crédito não cresce mais, a inadimplência não pára de crescer (em reais e na proporção do estoque de crédito).

II. Perspectiva da Crise de Crédito no Brasil

  1. A morosidade para a retomada do crédito no Brasil, não se dá, portanto, em função da recessão que está aqui instalada.
  2. Se dá – e continuará se dando – porque os bancos estão – e continuarão – ajustando seus portfolios de crédito. Em outras palavras, reduzirão o crédito para muitos clientes, cobrarão integralmente os empréstimos de outros tantos, etc.
  3. O Fabio Barbosa (CEO Santander/Real e Febraban) já disse – com propriedade – que o crédito não voltará a ser o que era antes, pois não há funding disponível para tanto tomador de crédito. Ele não disse e eu complemento, que não haverá oferta de crédito para muita gente, simplesmente porque os bancos e financeiras (e seguradoras de crédito) aprenderam que estes tomadores não eram suficientemente sólidos.

Portanto, concluo que a retomada do crédito – e da atividade econômica como um todo – se dará de forma mais lenta e gradual. Mas, se Deus quiser, de forma mais consistente.

III. Outras histórias/conclusões tiradas da minha viagem

  1. Senti preocupação séria por parte dos maiores bancos financiadores do comércio exterior brasileiro.
  2. Não me foi dito explicitamente, mas macaco velho cheira estas coisas: espera-se algumas grandes perdas de crédito no mercado. Outro dia o grande frigorífico Independência entrou em recuperação judicial. Senti que gente bem maior, neste e em outros setores, terão problemas.
  3. Há tempos eu brinco (sério) que todas as empresas tomarão um belo calote de um cliente que jamais imaginariam. Parece que eu não sou o único a acreditar nisto…
  4. Bom saber que o Banco do Brasil não parece ter problemas de funding. Mas caiu a demanda por linhas, porque cairam as exportações e o valor destas (principalmente das commodities).
  5. Outra coisa que venho ouvindo de bancos em geral: “Funding tem, o que não tem é bom tomador de crédito“. Os bancos estão muito refratários e tem a ver com o item  I deste post. E eu os entendo, porque aqui na Coface o volume de sinistros (i.e. empresas que dão calote nos meus clientes) cresceu barbaramente!
  6. O exportador brasileiro gostaria de tomar linhas de longo-prazo, para arrumar o seu passivo bancário, só que não há linha longa disponível, muito menos apetite dos bancos em oferecê-la.
  7. Outro fator: muitos exportadores estão sem ‘lastro’ para novos financiamentos curtos (ACC’s-ACE’s). Tomaram linha demais e não estão exportando suficiente. Isto é muito ruim.

É isso. Cautela e canja de galinha quando o assunto é crédito: seja dando prazo nas suas vendas, ou contando com o crédito para o seu capital de giro! Procure por linhas de crédito ANTES de precisar delas desesperadamente!

Abraços, Fernando

Segundo o Banco Central, sim senhor! E vocês do Governo, da FIESP, da CUT, da imprensa, do mundo acadêmico, da Gaviões da Fiel, da CNBB, etc.,  parem de reclamar dos bancos! Afinal, o confiável relatório mensal do BC confirma que o CRÉDITO AUMENTOU de novo (i.e. dezembro x novembro e novembro x outubro).

Mês passado, mais precisamente no dia 23 de dezembro, eu fui entrevistado pelo Sardenberg, na CBN, e disse a ele que QUANTITATIVAMENTE o crédito vem aumentando sim; e que isso seria ótimo, não fosse o fato de que QUALITATIVAMENTE esse crescimento é enganoso e ruim.

Detalhes do relatório recém-emitido:

  • O volume de crédito na economia atingiu R$ 1,2 trilhão, ou 41% do PIB – recorde histórico (de novo).
  • O volume de crédito cresceu 31% em 2008 – outro recorde.
  • Em dezembro, o crédito com recursos livres (*) cresceu apenas 0,9% (menos que a SELIC mensal).
  • Em dezembro, o crédito do BNDES cresceu imensos 4,9%, o crédito direcionado cresceu 3,4% e o setor público captou 11% a mais do que em novembro.
  • Os juros médios cobrados são: PF 43,20%  (= 3 SELICs) e PJ 30,7% (= 2,5 SELICs).
  • O crédito para a indústria cresceu + 2%. “Puxa, assim o Paulo Skaf, da FIESP, não tem do que reclamar!” – calma, muita calma! Ele pode continuar reclamando, sim!
  • Mas o varejo “cresceu” perigosamente apenas 0,2%.

(*) Dinheiro que os bancos emprestam sem qualquer restrição legal ou direcionamento.

Análise do relatório e do cenário

  1. Espelho retrovisor: dizer que o crédito cresceu pujantes 30% em 2008 a essa altura do campeonato, só serve para estudo acadêmico. A realidade virou de tal forma, que este número pujante ficou anêmico.
  2. O crédito que IMPORTA é aquele que eu e você tomamos para financiar nossas compras e que a pequena e média empresas tomam para o seu capital de giro e para sua expansão. ESTE CRÉDITO NÃO ESTÁ AUMENTANDO! E esta é a situação que FIESP et caterva gritam diariamente – com razão, ainda que usando argumentos pouco eficazes.
  3. “Mas como assim? O relatório do BC diz que o crédito aumentou, de novo, em dezembro!” – acontece que quando a Petrobras e outras mega-empresas deixam de tomar dinheiro lá fora (porque o mercado internacional secou) e tomam dinheiro do BB, da CEF e de outros bancos, isso aumenta a base de crédito brutalmente! Só a Petrobras, pelo que foi informado na imprensa, captou mais de B$ 3 bilhões só da CEF!
  4. Enquanto você lê este post, centenas de empresas e cidadãos estão renegociando dívidas bancárias que venceram ou que irão vencer em breve – e cujos devedores não conseguiram ou não conseguirão pagar. Então, ao embutirem parte dos juros vencidos ou a vencer na nova dívida (renegociada), a base de crédito ficará maior artificalmente (principal antigo e não pago + juros não pagos que serão embutidos na nova dívida).
  5. Resumidamente, enquanto as linhas de crédito para os “pequeninos” cai, o estoque de crédito da economia sobe.
  6. Os bancos privados, comprovadamente, colocaram o pé no breque. Os bancos públicos e o setor público é que estão tentando reverter o quadro negro.
  7. E o comércio está sofrendo triplamente: estão estocados porque venderam menos que esperavam; a situação econômica só piora; estão sem crédito. O crédito que haviam tomado e que era autoliquidável (e.g. desconto de recebíveis, como o de cartão de crédito VISA) está sendo debitado aos poucos, mas dinheiro novo para financiar o estoque…hum…este deve estar difícil e caríssimo.
  8. Os juros na ponta são reportados como mais ou menos estáveis, na média, mas este dado não é confiável na minha opinião. Simplesmente não bate com o que ouço dos bancos e das grandes empresas. Não que haja alguma molecagem da parte do BC, mas deve ter algum bug na forma que os bancos informam e/ou o BC calcula os juros.

LAMENTAVELMENTE, o BC não detalha certos números e não faz análises mais pormenorizadas. Aí, fica parecendo que o crédito está normal. E a FIESP, a CUT e a Mancha Verde ficam bringando a briga errada…

Conclusão

Este blog é simpático à sua causa, você que está sofrendo com a questão do crédito. Os bancos – todos, daqui e do mundo inteiro – estão sem vontade de emprestar; estão cautelosos porque temem não serem repagos no futuro. Por que? Porque sabem que estamos vivendo numa ECONOMIA DE DEPRESSÃO (definição usada por Paul Krugman, atual Prêmio Nobel de Economia – seu blog está no Blogroll ao lado).

Aqui no Blog do Crédito você encontrará vários posts com dicas sobre como abordar novos empréstimos, negociação com bancos, etc. Perguntem, em caso de dúvida!

Abraços, F.

 
 
 

A semana que se encerra foi quente aqui também. Meu primeiro comentário vai para a decisão do governo de capitalizar o BNDES em R$ 100 bilhões. O fato, que deveria ser óbvio e bem-vindo, foi, para minha surpresa, recebido com algumas pancadas pela imprensa e por “analistas”.

A Miriam Leitão postou “Governo não deveria se endividar para capitalizar o BNDES”, dizendo que “… O governo está transferindo dinheiro para o BNDES, que vai repassar às empresas sem estabelecimento claro de critérios. Esse dinheiro vai acabar parando no caixa das grandes empresas do país, que já tem acesso ao crédito, como Petrobras, Vale, e outras empresas do setor petroquímico e de commodities. Com taxas mais baratas, obviamente elas vão pegar dinheiro com o BNDES…

… Enquanto isso, as pequenas, micro e médias empresas continuarão sofrendo para ter acesso ao sistema bancário, que não está emprestando. São elas que estão estranguladas pela crise do crédito, não as grandes.”

Não entendi a bronca dela, francamente. As empresas – de todos os portes, nacionalidades, de setores e regiões – precisam de crédito, mais do que nunca. Ao longo da história creditícia deste país, cansei de ver empresa pequena sofrendo às custas das grandes que nadavam em dinheiro. Agora, não. Todas estão com o pires na mão.  Até os bancos.

Que as PME’s estão com pouco acesso ao crédito bancário, isto é claro. A Petrobras está com o mesmo problema, tanto é que foi parar na Caixa Econômica Federal (CEF). Agora, o dinheiro que vai para o BNDES não tem como financiar todas as PME’s do país, nem por decreto. Notem que dinheiro a CEF e o BB têm! Mas esses bancos federais não irão emprestar para todas as PME’s do país, pois lhes falta apetite de risco e capacidade de processamento de tantos pedidos de crédito.

…de qualquer forma, a problemática acima não teria, jamais, como solucionática os R$ 1oo bi que irão para o BNDES (copyright cultural: Dadá Maravilha, 1970)

E no Estadão de hoje o Leandro Modé assina “Política anticíclica é criticada”. A matéria cita críticas ao fato do governo federal incorrer num custo de perto de 12% a.a. (SELIC) para captar os recursos que serão repassados ao BNDES, sendo remunerado em apenas 7% pelo seu banco federal. Apesar de correta a análise, se olharmos friamente para os números, concluiremos que os juros que o BNDES cobra são subsidiados.

Minha opinião: Às favas com essa conversa! Se não fossem as linhas do BNDES e o custo mais baixo delas, hoje seríamos tão desenvolvidos como a Albânia. Vários ‘puristas’ (incluindo aqui amigos meus) acham que se os juros cobrados pelo BNDES fossem de mercado, o spread médio dos bancos privados cairia – duvido com fervor!

A matéria fecha com a questão do índice de Basiléia do BNDES, que estaria em folgados 22%, quando nosso BC determina um mínimo de 11% para os bancos. Mas não é esse o ponto. O BNDES precisa é de caixa para emprestar mais. Não precisa de capital para cumprir obrigações regulatórias. Diferentemente dos demais bancos, o BNDES não se financia através de emissões de CDB’s para clientes  fundações e não capta estruturalmente via mercado interbancário. Ele é, portanto, sólido demais. O problema aqui é caixa e só existe porque a demanda pelo seu crédito é alta demais! Tão óbvio, tão mal entendido.

O que ninguém abordou – o dinheiro do BNDES é BOM e NECESSÁRIO, porque é LONGO E MENOS CARO, mas leva muito tempo para ser desembolsado a partir do momento que é solicitado (entre 3 e 6 meses). Em tempos de liquidez, os bancões fazem um empréstimo-ponte e tudo se ajeita. Agora, não. É fundamental que o BNDES também ache uma forma de acelerar o seu processo interno de crédito.

Concluindo, essa discussão sobre o BNDES é bizantina, na minha ótica. Se até o Paul Krugman está dizendo que o déficit público é secundário, que a inflação é secundária,…, quem somos nós para esnobar a oportunidade de termos a ÚNICA fonte de crédito DECENTE do país emprestando mais R$ 100 bilhões?!

E eu acho também que, em 2009, o BNDES terá que renegociar muito repagamento de dívidas dos seus devedores, pois muitos deles estarão com o caixa curto e não encontrarão outras fontes de refinanciamento no mercado. Minha opinião: “c’est la vie”. São dias de crise sistêmica. Então, o BNDES deverá renegociar com tranquilidade, para não desestabilizar ainda mais o sistema produtivo.

Abraços, FB

Prezados amigos,

Este post é dedicado ao sofrido povo brasileiro que, por séculos, tanto sifu por conta da desigualdade social.

E aí, quando este mesmo povo sofrido começava a tirar o pé da lama, tendo acesso a bens de consumo típicos da classe média graças ao financiamento abundante (para os nossos padrões), vem essa crise maldita. E sifu de novo!

Mas como nosso Presidente é um defensor do povo e não quer vê-lo se ‘afogando na marolinha’, ele não se cansa de falar/declarar/discursar/urrar que não podemos ser pessimistas, que não podemos deixar de comprar, etc., “porque o governo não vai deixar que essa crise importada estrague o sonho dos brasileiros“.

A maior pérola da sua verve porém, aconteceu ontem, quando disse que ele, como líder nacional, não poderia fazer como o médico que dá uma má notícia para o paciente, “…e sifu“. Eu estou chocado. Tomem imediatamente o CRM deste médico grosseiro!

Como fiquei e permaneço sem palavras, apenas repetirei o que já escrevi antes, até porque tais palavras não ‘perderam a validade’:

  1. Um governante NÃO tem que vir à mídia pregar o pessimismo.
  2. Mas nenhum governante tem o DIREITO de vir à mídia dizer que o povão deve gastar (e, por tabela, se endividar).
  3. Será que Lula não tem capacidade de ser realista, alertando para o óbvio? O mundo não vai acabar, mas não podemos descuidar; não é preciso pânico, mas não é hora para ser arrojado, e por aí vai.

Alguns fatos irrefutáveis e irremediáveis:

  1. Nem o Presidente, nem a mídia e nem ninguém veio a público dizer que nosso crescimento recente e a conseqüente prosperidade vinham sendo frutos do crescimento mundial que, em grande medida, eram financiados pelo ‘cassino’ financeiro internacional.
  2. Agora que o ‘cassino’ quebrou e o mundo está devolvendo a prosperidade construída sem sustentabilidade, o governo quer jogar a culpa pra cima da gringolândia. E, de quebra, pra cima de quem mostra que a situação é preta!
  3. É sem uma ponta de orgulho que eu, desde o início deste blog, em maio, já escrevia que o povo brasileiro estava endividado demais, que não tinha educação financeira e que, mais cedo ou mais tarde, teríamos uma crise de crédito “made in Brazil”, etc. É só checar os posts mais antigos.
  4. Pois é esse mesmo brasileiro que o Presidente quer-porque-quer que continue comprando com o dinheiro que não tem. E sem qualquer garantia de que terá emprego amanhã!
  5. Mas e os pátios das montadoras, lotados, e o número imenso de obras civis em andamento (e que, irresponsavelmente continuam sendo lançadas)? Se o povão não comprá-los, as empresas quebrarão? Sim! E o emprego gerado por estes negócios? Desemprego à vista!
  6. Bem-vindos ao mundo maravilhoso do capitalismo. Mas com um adendo, digamos, mega-importante: a economia brasileira vinha crescendo a 6% a.a. no primeiro semestre, enquanto que o mundo lá fora já dava sinais exaustivamente claros que a crise era séria, séria demais! E nós? Marolinha pra cá, blindagem prá lá!
  7. E dá-lhe produção de automóveis, dá-lhe lançamento de imóveis, etc.
  8. Agora a economia brasileira deve estar crescendo ao redor de 1% a.a., i.e. vinha a 12o km/h, brecou violentamente e o motorista saiu pelo párabrisa.

Como consertar? Não tem conserto, pelas regras de mercado! Não haverá crédito disponível nem geração de renda suficiente para ‘patrocinar’ uma retomada de atividade que absorva os estoques. E tais empresas não terão como se sustentar durante uma longa recessão, com os estoques cheios e crédito restrito e caríssimo.

Mas o que fazer, deixar quebrar? Não! Governo ativista neles! A solução será fiscal e heterodoxa. O governo que abra mão de todos os impostos embutidos nos automóveis e imóveis, do IOF dos financiamentos para esses bens, etc. Esses produtos terão de ficar tão baratos a ponto de estimular sua compra. E que BB e CEF os financie em condições FORA DE MERCADO, i.e mais longo e muito barato.

O Brasil começou a enfrentar essa crise da forma certa. Só que não previu o tamanho do buraco! Agora o governo já está atrasado na tarefa suprema de aumentar a dosasem do remédio, como vem fazendo Bush, Paulson & Bernanke, nos EUA. Ou, como diria o Silvio Santos em um dos seus programas antigos: “Quem quer dinheiroooo???”.

E, olha, não adianta meter o pau nos bancos. Pode desopilar o fígado, mas não resolve nada. A sociedade brasileira faz isso há séculos e nunca adiantou nada! Banqueiro tem a pele grossa e não se intimida com gritaria pela (e da) mídia. No fim – e com sua razão -, eles sempre poderão dizer: “OK, querem quebrar o sistema financeiro brasileiro, como fizeram lá fora?”. Aí todo mundo afina!

Enfim, vocês sabem bem que a crise é séria e ela veio para ficar por uns 12 a 18 meses. Seguir o Presidente será sifu em dobro!

Abraços e bom final de semana, F.