Eu gosto muito do Barack Obama. Eu teria votado nele; eu teria feito campanha pra ele – ele é “O Cara”. Pois agora ele veio e disse na cara de todo mundo, o que ninguém tem peito de admitir:

“Não contem com o consumo dos americanos, para que a economia internacional se reaqueça. Isto levará muito tempo”.

Simples, óbvio e genial. Foi um recado à la Henrique Meirelles, que não entende o porquê de tanto otimismo – eu também não entendo!

Lá fora, não há crédito disponível (porque os bancos estão descapitalizados) e o consumidor já está endividado demais; sem falar no risco de perder o emprego a qualquer momento (são meio milhão jogados na rua todo mês). Então, vão consumir o quê, Cara Pálida?!

É o que me disse em janeiro, pessoalmente, Mr. Keneth Rogoff, de Harvard: os EUA crescerão entre 1% e 2% ao ano, nos próximos 10 anos, i.e. a locomotiva do mundo andará em marcha lenta, sugerindo que o mundo não crescerá muito mais rápido do que isso também. E já sabemos que China, Índia, Brasil et caterva não tem como substituir o mundo (ex) risco à altura.

E o Brasil? Bem, o competente Presidente do BNDES, Luciano Coutinho, disse ontem, num tom pra lá de otimista, que nosso país crescerá entre 4% e 5% a partir de 2010. Voltarei ao tema.

Hare baba! Abs, F.

Segundo o Banco Central, sim senhor! E vocês do Governo, da FIESP, da CUT, da imprensa, do mundo acadêmico, da Gaviões da Fiel, da CNBB, etc.,  parem de reclamar dos bancos! Afinal, o confiável relatório mensal do BC confirma que o CRÉDITO AUMENTOU de novo (i.e. dezembro x novembro e novembro x outubro).

Mês passado, mais precisamente no dia 23 de dezembro, eu fui entrevistado pelo Sardenberg, na CBN, e disse a ele que QUANTITATIVAMENTE o crédito vem aumentando sim; e que isso seria ótimo, não fosse o fato de que QUALITATIVAMENTE esse crescimento é enganoso e ruim.

Detalhes do relatório recém-emitido:

  • O volume de crédito na economia atingiu R$ 1,2 trilhão, ou 41% do PIB – recorde histórico (de novo).
  • O volume de crédito cresceu 31% em 2008 – outro recorde.
  • Em dezembro, o crédito com recursos livres (*) cresceu apenas 0,9% (menos que a SELIC mensal).
  • Em dezembro, o crédito do BNDES cresceu imensos 4,9%, o crédito direcionado cresceu 3,4% e o setor público captou 11% a mais do que em novembro.
  • Os juros médios cobrados são: PF 43,20%  (= 3 SELICs) e PJ 30,7% (= 2,5 SELICs).
  • O crédito para a indústria cresceu + 2%. “Puxa, assim o Paulo Skaf, da FIESP, não tem do que reclamar!” – calma, muita calma! Ele pode continuar reclamando, sim!
  • Mas o varejo “cresceu” perigosamente apenas 0,2%.

(*) Dinheiro que os bancos emprestam sem qualquer restrição legal ou direcionamento.

Análise do relatório e do cenário

  1. Espelho retrovisor: dizer que o crédito cresceu pujantes 30% em 2008 a essa altura do campeonato, só serve para estudo acadêmico. A realidade virou de tal forma, que este número pujante ficou anêmico.
  2. O crédito que IMPORTA é aquele que eu e você tomamos para financiar nossas compras e que a pequena e média empresas tomam para o seu capital de giro e para sua expansão. ESTE CRÉDITO NÃO ESTÁ AUMENTANDO! E esta é a situação que FIESP et caterva gritam diariamente – com razão, ainda que usando argumentos pouco eficazes.
  3. “Mas como assim? O relatório do BC diz que o crédito aumentou, de novo, em dezembro!” – acontece que quando a Petrobras e outras mega-empresas deixam de tomar dinheiro lá fora (porque o mercado internacional secou) e tomam dinheiro do BB, da CEF e de outros bancos, isso aumenta a base de crédito brutalmente! Só a Petrobras, pelo que foi informado na imprensa, captou mais de B$ 3 bilhões só da CEF!
  4. Enquanto você lê este post, centenas de empresas e cidadãos estão renegociando dívidas bancárias que venceram ou que irão vencer em breve – e cujos devedores não conseguiram ou não conseguirão pagar. Então, ao embutirem parte dos juros vencidos ou a vencer na nova dívida (renegociada), a base de crédito ficará maior artificalmente (principal antigo e não pago + juros não pagos que serão embutidos na nova dívida).
  5. Resumidamente, enquanto as linhas de crédito para os “pequeninos” cai, o estoque de crédito da economia sobe.
  6. Os bancos privados, comprovadamente, colocaram o pé no breque. Os bancos públicos e o setor público é que estão tentando reverter o quadro negro.
  7. E o comércio está sofrendo triplamente: estão estocados porque venderam menos que esperavam; a situação econômica só piora; estão sem crédito. O crédito que haviam tomado e que era autoliquidável (e.g. desconto de recebíveis, como o de cartão de crédito VISA) está sendo debitado aos poucos, mas dinheiro novo para financiar o estoque…hum…este deve estar difícil e caríssimo.
  8. Os juros na ponta são reportados como mais ou menos estáveis, na média, mas este dado não é confiável na minha opinião. Simplesmente não bate com o que ouço dos bancos e das grandes empresas. Não que haja alguma molecagem da parte do BC, mas deve ter algum bug na forma que os bancos informam e/ou o BC calcula os juros.

LAMENTAVELMENTE, o BC não detalha certos números e não faz análises mais pormenorizadas. Aí, fica parecendo que o crédito está normal. E a FIESP, a CUT e a Mancha Verde ficam bringando a briga errada…

Conclusão

Este blog é simpático à sua causa, você que está sofrendo com a questão do crédito. Os bancos – todos, daqui e do mundo inteiro – estão sem vontade de emprestar; estão cautelosos porque temem não serem repagos no futuro. Por que? Porque sabem que estamos vivendo numa ECONOMIA DE DEPRESSÃO (definição usada por Paul Krugman, atual Prêmio Nobel de Economia – seu blog está no Blogroll ao lado).

Aqui no Blog do Crédito você encontrará vários posts com dicas sobre como abordar novos empréstimos, negociação com bancos, etc. Perguntem, em caso de dúvida!

Abraços, F.

 
 
 

Este post foi inspirado nos – e é dedicado aos – novos amigos que chegaram ao Blog através das ferramentas de busca. Eles vêm solicitando explicações sobre o tema e abaixo eu estruturo o texto conforme perguntaram para o “Oráculo Google”. Para os que ainda não a encontraram…

1. Primeiro passo para obter Crédito

> Pessoa Física:

  • Conhecer a geração de caixa do seu negócio
  • Ter um fluxo de caixa futuro detalhado
  • Saber demonstrar claramente para o banco como e quando irá pagá-lo
  • Preparar um Plano de Negócio da sua empresa, e.g. o que a empresa faz, como faz, estrutura operacional, mercado em que atua (clientes, regiões, produtos), estratégia do negócio, análise da concorrência, quadro acionário e equipe de executivos, plano de sucessão (se fizer sentido), números (balanço, demonstrativo de resultados, fluxo de caixa), perspectivas do negócio, análise dos riscos do seu negócio
  • Saber apresentar e discutir tudo isso com o seu banco
  • Ter capricho na apresentação, i.e. qualidade do papel, correção ortográfica, limpeza, etc.
  • Procurar vários bancos, para poder escolher a melhor oferta de crédito e serviços (preços e prazos)
  • Se possível, conseguir que alguém bem próximo (que lhe conheça bem e que conheça bem alguém do banco) faça a apresentação – referência é algo muito importante
  • Não demonstrar ansiedade, pressa…isto é o pior inimigo do endividado
  • Demonstrar profissionalismo, seriedade, integridade e conhecimento
  • Ter o nome limpo na praça – ou limpá-lo com urgência

> Pessoa Física

  • Aqui não se aplica a descrição do Plano de Negócio, mas você deve apresentar claramente para os bancos como é a sua estrutura financeira, i.e. quanto ganha, quanto gasta, as dívidas que tem, como pretende equacionar o seu furo de caixa, etc.
  • Todo o resto se aplica!

2. Linha de Crédito para empresa investir

  • Um dos principais fatores para que nosso país não tenha ainda deslanchado rumo ao conceito de País Desenvolvido, é o fato não termos fontes de crédito para investimento
  • A imensa maioria das empresas – com destaque para as PME’s – procuram tais linhas, não as encontram e se contentam com linhas de capital de giro de curto-prazo, correndo um imenso risco de quebrarem no meio do caminho, porque a linha não foi renovada ou o foi parcialmente e com custo muito alto
  • O BNDES é a grande opção, com suas linhas de FINAME, POC e outras – visite o site www.bndes.gov.br
  • O BB, a CEF e outros bancos federais e regionais sempre tem algum tipo de linha de fomento. Vale a pena procurar nos sites. Clique no site da Febraban e descubra esses bancos
  • O leasing é outra opção para aquisição de alguns equipamentos
  • Em épocas de liquidez e apetite de risco elevado, os bancos oferecem outras linhas de longo-prazo para investimento. Exemplos: pré-pagamento de exportação, capital de giro longo (em geral descontando contratos e recebíveis)
  • Existem outras opções mais complexas e voltadas para empresas maiores e que são de difícil acesso
  • Exemplos: Eximbank (se você está importando um equipamento, o seu fornecedor poderá te ajudar), emissão de títulos de dívida (e.g. debentures, euronotes)

Lamento dizer, mas é só isso. Eu divido com vocês a “inspiração”, mas a “transpiração” fica por conta de cada um… especialmente nestes dias confusos e de retração do apetite de risco.

Tomar crédito hoje, no Brasil e no mundo, é tarefa de guerra. Tem que se apresentar ao banco de forma muito profissional, estudada, treinada, etc. Não é chegar lá, encostar a barriga no balcão e falar com o gerente amigo:

“E aí, amigão, o caixa apertou, você sabe, né…a crise pegou todo mundo de surpresa e vou ter que tomar um papagaio…”.

O IBAMA adverte: o papagaio é espécie em extinção e não será concedido para tomadores de crédito que não transmitam absoluta segurança para o banco!

Espero ter ajudado. Abraços, F.

A semana que se encerra foi quente aqui também. Meu primeiro comentário vai para a decisão do governo de capitalizar o BNDES em R$ 100 bilhões. O fato, que deveria ser óbvio e bem-vindo, foi, para minha surpresa, recebido com algumas pancadas pela imprensa e por “analistas”.

A Miriam Leitão postou “Governo não deveria se endividar para capitalizar o BNDES”, dizendo que “… O governo está transferindo dinheiro para o BNDES, que vai repassar às empresas sem estabelecimento claro de critérios. Esse dinheiro vai acabar parando no caixa das grandes empresas do país, que já tem acesso ao crédito, como Petrobras, Vale, e outras empresas do setor petroquímico e de commodities. Com taxas mais baratas, obviamente elas vão pegar dinheiro com o BNDES…

… Enquanto isso, as pequenas, micro e médias empresas continuarão sofrendo para ter acesso ao sistema bancário, que não está emprestando. São elas que estão estranguladas pela crise do crédito, não as grandes.”

Não entendi a bronca dela, francamente. As empresas – de todos os portes, nacionalidades, de setores e regiões – precisam de crédito, mais do que nunca. Ao longo da história creditícia deste país, cansei de ver empresa pequena sofrendo às custas das grandes que nadavam em dinheiro. Agora, não. Todas estão com o pires na mão.  Até os bancos.

Que as PME’s estão com pouco acesso ao crédito bancário, isto é claro. A Petrobras está com o mesmo problema, tanto é que foi parar na Caixa Econômica Federal (CEF). Agora, o dinheiro que vai para o BNDES não tem como financiar todas as PME’s do país, nem por decreto. Notem que dinheiro a CEF e o BB têm! Mas esses bancos federais não irão emprestar para todas as PME’s do país, pois lhes falta apetite de risco e capacidade de processamento de tantos pedidos de crédito.

…de qualquer forma, a problemática acima não teria, jamais, como solucionática os R$ 1oo bi que irão para o BNDES (copyright cultural: Dadá Maravilha, 1970)

E no Estadão de hoje o Leandro Modé assina “Política anticíclica é criticada”. A matéria cita críticas ao fato do governo federal incorrer num custo de perto de 12% a.a. (SELIC) para captar os recursos que serão repassados ao BNDES, sendo remunerado em apenas 7% pelo seu banco federal. Apesar de correta a análise, se olharmos friamente para os números, concluiremos que os juros que o BNDES cobra são subsidiados.

Minha opinião: Às favas com essa conversa! Se não fossem as linhas do BNDES e o custo mais baixo delas, hoje seríamos tão desenvolvidos como a Albânia. Vários ‘puristas’ (incluindo aqui amigos meus) acham que se os juros cobrados pelo BNDES fossem de mercado, o spread médio dos bancos privados cairia – duvido com fervor!

A matéria fecha com a questão do índice de Basiléia do BNDES, que estaria em folgados 22%, quando nosso BC determina um mínimo de 11% para os bancos. Mas não é esse o ponto. O BNDES precisa é de caixa para emprestar mais. Não precisa de capital para cumprir obrigações regulatórias. Diferentemente dos demais bancos, o BNDES não se financia através de emissões de CDB’s para clientes  fundações e não capta estruturalmente via mercado interbancário. Ele é, portanto, sólido demais. O problema aqui é caixa e só existe porque a demanda pelo seu crédito é alta demais! Tão óbvio, tão mal entendido.

O que ninguém abordou – o dinheiro do BNDES é BOM e NECESSÁRIO, porque é LONGO E MENOS CARO, mas leva muito tempo para ser desembolsado a partir do momento que é solicitado (entre 3 e 6 meses). Em tempos de liquidez, os bancões fazem um empréstimo-ponte e tudo se ajeita. Agora, não. É fundamental que o BNDES também ache uma forma de acelerar o seu processo interno de crédito.

Concluindo, essa discussão sobre o BNDES é bizantina, na minha ótica. Se até o Paul Krugman está dizendo que o déficit público é secundário, que a inflação é secundária,…, quem somos nós para esnobar a oportunidade de termos a ÚNICA fonte de crédito DECENTE do país emprestando mais R$ 100 bilhões?!

E eu acho também que, em 2009, o BNDES terá que renegociar muito repagamento de dívidas dos seus devedores, pois muitos deles estarão com o caixa curto e não encontrarão outras fontes de refinanciamento no mercado. Minha opinião: “c’est la vie”. São dias de crise sistêmica. Então, o BNDES deverá renegociar com tranquilidade, para não desestabilizar ainda mais o sistema produtivo.

Abraços, FB

Caros, pensem comigo:

1. E esse tal de Mr. Madoff…que sujeito odioso! Não bastava ser rico, mas bem rico mesmo, por que o infeliz tinha que aprontar esse golpe na praça? Vamos por partes: (a) ele não começou essa ‘pirâmide’ mês passado, mas também não a começou 10 anos atrás! (b) estou certo que algum dia – ano passado, 6 meses atrás? – o(s) seu(s) fundo(s) levou(aram) algum mega-tombo e, tecnicamente, quebrou(aram). Aí, numa mistura de pretensão e vaidade, Madoff e seu bando acharam que conseguiriam reverter as perdas com operações de alto risco. Como o plano não funcionou, partiram para a ‘pirâmide’, talvez esperando alguma salvação do FED – que não veio e não virá…

Os bancos perderam dinheiro com ele? Não e sim. O ‘não’ é porque a maioria desse dinheiro vinha dos fundos administrados pelos bancos e não do seu capital do próprio. No entanto, os clientes dos Private Banks irão pra cima dos bancos por conta da má gestão, etc. O ‘sim’ é porque muitos bancos irão ressarcir seus clientes dessas perdas, ainda que parcialmente.

O mercado definitivamente não precisava de mais essa…

2. O governo/BC lança mais um pacote de ajuda para os bancos pequenos e médios. Ajudará no curto-prazo, mas e no médio/longo? Esta é a segunda crise seguida (a primeira foi a quebra do Banco Santos)  em que esses bancos sofrem irremediável crise de liquidez. Dará para reverter? Não creio que haverá mercado interbancário para eles (até porque os bancões ‘decidiram’ que não querem mais a competição deles) e acho que não haverá grandes volumes de depósitos vindo de fundos (tipo fundações de estatais). E, como os mercados de capitais internacionais não têm prazo para abrir – e quando abrirem serão avessos ao risco -, esses bancos viverão de ajuda governamental para continuarem operando, e mesmo assim em escala restrita.

O governo não tem interesse em vê-los desaparecer, pois são bons distribuidores de produtos para P.F. e pequena P.J. Eu até simpatizo com alguns desses bancos e tenho bons (e competentes) amigos nesse nicho de mercado, mas não invisto em CDB deles.

3. E as montadoras americanas, hein?! Lá, como aqui, é a mesma coisa: a empresa está desenganada, respirando por aparelhos…mas acionistas e/ou sindicalistas impõem mil regras para a salvação do governo. Eu já vivi isto aqui no Brasil quando enfrentei crises de crédito. Os funcionários de GM, Ford e Chrysler não querem perder benefícios. Eu até entendo o ódio deles, mas se não chegarem a um acordo, perderão o emprego e os benefícios.

Pior, todo mundo sabe que elas, individualmente, não são viáveis. A solução dessa crise seria: (a) fundir as três empresas, criando uma mega empresa americana – a American Automobile Inc., (b) redução brutal de custos, incluindo a demissão de executivos e muitos operários, (c) calote parcial (o nome de mercado é chic: hair-cut) em todos os credores. Em suma, é quase sair do zero.

No Brasil? Seria uma reedição da famosa e antiga Autolatina, quando VW e Ford se uniram no país. O motivo foi mercadológico e não grana. Quando se separaram, a VW saiu com produtos e a Ford com dinheiro. A Ford levou uns 15 anos para se reerguer, provando que dinheiro não era tudo – hoje é…

4. ATENÇÃO: GOVERNO NÃO LIBERA R$ 88 BI PARA OS BANCOS!!! Os bancos poderão emprestar mais R$ 88 bi por conta de um artifício contábil, aprovado ontem, que aumenta o capital do sistema e, portanto, seu poder de alavancagem.

As maiúsculas são para lembrar a todos que, neste caso, o governo não está fazendo bondade com o dinheiro do contribuinte.

5. A TJLP continuará em 6,25% a.a., conforme decisão do Conselho Monetário Nacional (o CMN). Ora, os Ministros Mantega e Paulo Bernardo, membros do CMN que tanto criticam as taxas de juros e as decisões do BC, bem que poderiam ter baixado essa taxa que é o principal componente dos juros pagos nas operações com o BNDES. Falar é tão mais fácil que fazer…

Abraços, F.

Eu não irei analisar as notícias de jornais passados para vocês, mas irei destacar algumas informações que obtive – de fontes top – após as muitas (!) reuniões, apresentações, eventos, etc. que participei.

1. A siderurgia parou geral, ou quase. Péssimo alerta que vem da economia real. Pararam os aços planos e os especiais, i.e. automóveis, máquinas, construção civil, etc. – está tudo parado. Dezembro melhorou um pouco, mas a turma está VENDENDO ESTOQUE. A perspectiva de produção de novos produtos não é animadora, pelo menos no primeiro trimestre de 2009.

2. O BNDES não está liberando Finame? Foi isso que ouvi de algumas fontes diferentes. Não me surpreende, pois há tempos que eu venho alertando que o banco federal desembolsou muito ao longo de 2007 e 2008, com prazos cada vez mais longos. Mais cedo ou mais tarde iria faltar caixa. E lembram quando o BNDES teve que emitir um ordinário CDB para fazer frente aos seus desembolsos? Vale lembrar que todas (!) as empresas que previam captar dinheiro no exterior para fazer frente aos seus planos de investimentos, vêm captando do BNDES.

3. Executivos alemães me contam que a recessão européia iniciou-se pura e simplesmente por conta do medo de contágio da crise americana do subprime – quer dizer, pegaram gripe antes mesmo do contágio do vírus. Quando os bancos europeus começaram a dar sinais de fragilidade, por conta das perdas com papéis subprime, a recessão já estava instalada. Morro de medo do Efeito Japão, em que a população e os empresários perderam a confiança na economia e só poupavam (consumiam e investiam apenas o mínimo, apesar da taxa de juros fortemente NEGATIVA). A Europa segue pelo mesmo caminho. Alguém leu ou ouviu a palavra CONFIANÇA por aí?

4. O números de setores em que as vendas pararam no varejo até assusta! Se por um lado as “bondades” fiscais recém anunciadas pelo governo ajudaram o varejo automotivo, por exemplo, a venda de motos está paradinha!

5. Ouvi de um sujeito “insider” de banco de investimento que a crise de derivativos exóticos só não chegou pra valer aqui no Brasil por…falta de tempo. Segundo ele, tinha muita gente se animando com os “ganhos fáceis”, mas aí o ‘castelo de cartas’ ruiu…

6. É impressionante o grau de ignorância generalizada sobre esta crise! As pessoas ainda comparam esta Crise de Crédito com as outras Crises Cambiais. Quem frequenta este espaço já sabe a diferença. Mas surpreende feras de mercado se atrapalharem tanto. Sem contar a turma do “otimismo”, que vê a crise piorar a cada dia que passa…

7. Os Private Equity funds que estão capitalizados (i.e. uns poucos) estão bem posicionados para comprar empresas a um custo bem mais baixo do que o fariam até outro dia (quando tudo estava inflacionado por conta do excesso de liquidez). Mas em contra-partida, que não se espere dinheiro novo tão cedo, pois os investidores lá fora estão pra lá de retraídos.

8. Ouvi de headhunter de primeiríssima linha que “até que enfim a balança se equilibrará, pois o que tem de candidato de segunda-linha se vendendo como gênio…e levando vagas e pacotes de remuneração muita acima da sua competência, é um absurdo”. Em outras palavras, havia uma ‘bolha’ até no mercado de executivos.

Talvez vocês não tenham enxergado nenhuma grande novidade nos fatos acima, mas foi importante para mim trocar visões com tantos executivos e empresários de 1a. linha em tão poucos dias. Ajudou a confirmar algumas teses, pelo menos.

A qualquer momento também comentarei sobre os recentes fatos econômicos e medidas governamentais e seus impactos no crédito. Aguardem!

Abraços, F.

Bom dia. Rapidinho.

Este espaço nunca foi dado a malhar o governo até por que isso não ajuda nada a resolver os nossos problemas e eu também sei um pouquinho das dificuldades que a turma enfrenta lá em Brasilia, i.e. é mais fácil criticar do que consertar e isso não tem graça para mim.

Mas eu acabo de levar os guris no colégio e ouvia o Ricardo Boechat, craque da Bandnews, esculhambar o governo e ele inspirou este post. Os motivos:

  1. Governo promete mundos e fundos para apoiar ‘n’ setores com dificuldades de liquidez e/ou com consumo cadente. Como: via financiamentos da Caixa, do BB, BNDES e compulsórios do Banco Central (caso de bancos médios e pequenos). Tudo certo.
  2. Só que o custo dessa ajuda é altíssimo, a começar pela taxa básica de juros (13,75%), a SELIC, que é a taxa de juros real mais alta do mundo. Fora o spread, que no caso dos bancos públicos até que são razoáveis (apenas para o padrão local!). Só que os demais bancos estão cobrando muito mais, pois a liquidez está escassa no sistema como um todo. Tudo errado.

O ativismo governamental está centrando fogo nos seguintes focos da crise:

  1. Limitar a falta de liquidez de bancos pequenos e médios (na marra)
  2. Reativar setores (“cadeias produtivas”) importantes para o emprego
  3. Incentivar o consumo da população – em especial da baixa renda

Só que, como de hábito, Fazenda e Banco Central atuam como inimigos na trincheira. Parece que o BC realmente não acredita que haverá uma forte retração econômica no país, ao mesmo tempo que, por outro lado, teme que há um processo inflacionário recalcitrante a ser atacado com força.

Se pensarmos que a recessão que galopa rapidamente é um incêndio, a Fazenda se comporta como o bombeiro zeloso, mas o BC brinca com o isqueiro no meio do incêndio. Já o BC acha que incêndio mesmo é a inflação. Então, dá-lhe jato d’água e pó químico, enquanto a Fazenda prepara-se para jogar mais lenha no fogaréu.

Existe um processo inflacionário, não há dúvida, pois a desvalorização do real foi brutal e certamente haverá repasse do custo inflado dos produtos importados. E não há evidência alguma que o câmbio voltará a um patamar próximo de R$ 2,00. Em 2009, será de R$ 2,20 pra cima, na minha opinião.

Agora… o governo liberar a torneira de liquidez de um lado e o mesmo governo cobrar caríssimo por essa mesma água parece-me um equívoco. Parece-me que o “chefe” dos senhores Mantega e Meirelles deveria chamá-los para uma “conversinha”.

Reparem que 6 meses – sim, é só isso – atrás, o fantasma global era a inflação em função dos altos preços das commodities. Naquele período, nosso BC foi exemplar ao iniciar um vigoroso processo de alta de juros, enquanto os demais bancos centrais titubeavam. O nosso Henrique Meirelles foi festejado em todos os fóruns internacionais. Quando o vento mudou de lado – e não há dúvida de que mudou lá e aqui – os outros BCs foram vigorosos em dobro, derretendo suas taxas de juros, mas aí o nosso – que historicamente tem viés altista – resolveu ser triplamente cauteloso.

O momento pede uma outra abordagem.

Saudações e um bom dia a todos.

Fernando

PS: hoje tem Fernando Blanco no Conta Corrente, do canal Globonews, às 20:30. Não percam! Promessa de grandes revelações!! 🙂