É tarde da noite e irei dormir chateado com as notícias de desemprego, aqui e no mundo todo. Se nos países desenvolvidos (socialmente falando) a turma se defende com o seguro-desemprego, por aqui ele é sofrível.

Mas o desemprego mexe com as pessoas de uma forma covarde. Digamos que o bolso “furado” é apenas a parte mais visível e óbvia, mas e a cabeça? A auto-estima? O fim (ou atraso) dos sonhos? A insegurança? A educação e bem estar dos filhos? E dos idosos?

Enfim, recordes de desemprego se acumulam e não respeitam fronteiras. No Brasil, a ‘marolinha’ evaporou 100 mil empregos (líquidos das contratações) em janeiro, segundo as notícias da noite – e estes 100 mil somam-se a 500 mil que se foram em dezembro! Recentemente, foi noticiado que o desemprego chegou até ao poderoso Vale do Silício americano, dominado por gigantes lucrativas como Google, Microsoft, entre outros.

Os pacotes de estímulo governamentais estão focados em…nada…pois estão distribuindo dinheiro (e evitando de recolhe-lo através de impostos) através de muitos canais. Acho que não funcionará.

A chave para a solução deste processo chama-se CRIAÇÃO DE EMPREGO. Tem mais valor que deduzir impostos, devolver imposto, apoio para o seguro de desemprego, etc. E por que:

  1. Enquanto o cidadão está sem emprego ele está sem CONFIANÇA. Lembram-se dos posts do final de semana?
  2. Enquanto o cidadão está sem confiança ele não CONSOME. Prefere POUPAR e PAGAR DÍVIDAS.
  3. Enquanto o cidadão está sem emprego ele não consegue CRÉDITO.
  4. Em suma, cidadão sem emprego não faz a ECONOMIA REAGIR.

Mas este post foi motivado pela notícia que a Embraer irá demitir (ou já demitiu) 4.000 funcionários (algo como 20% dos funcionários da empresa). Uma catástrofe social, em especial para as cidades ao redor de S.J.dos Campos e de Gavião Peixoto (ambas no estado de SP).

Lula – vindo de onde vem, não me surpreende que nosso Presidente tenha ficado indignado com a diretoria da Embraer. Pior que ser convocada para tomar um pito no Palácio do Planalto – como deve acontecer -, será ficar ouvindo Lula falar mal desta decisão, em todos os fóruns empresariais que ele participar. O Roger Agnelli, CEO da Vale, que o diga… lembram-se do massacre que ele sofreu por conta das demissões anunciadas em dezembro último?  No fim, as tais demissões nem foram tão grandes e até foram revertidas, até onde me lembro, mas o homem ficou marcado…pelas pancadas que levou do Homem.

Capitalismo financeiro – quando a empresa vai mal, sem expectativa de vendas, eu acho que o empresário tem obrigação de demitir parte da sua força de trabalho, até para preservar os empregos da maioria. Afinal, se a empresa quebrar, os demais perderão seus empregos também, sem falar na desorganização coletiva em sua cadeia de valor (e.g. fornecedores que quebram também, mais desemprego, etc.).

Esta argumentação cheira bem de “direita”? Aprumando mais para a esquerda, lembro:

  1. Empresas de capital fechado – que não precisam dar satisfação para a bolsa, para analistas de mercado, para fundos de private equity, etc. – tendem a ser mais humanistas na hora de demitir. De que estudo tirei essa idéia? Da minha extensa observação das justificativas para as demissões de companhias abertas.
  2. Mas atenção: fechar capital inibe captações financeiras mais baratas!
  3. Quando eu era bem mais novo, as empresas pensavam duas vezes antes de contratar e outras duas vezes antes de demitir. O que mudou? (a) o capitalismo financeiro, em que as empresas precisam provar que são eficientes o tempo todo (do contrário as ações caem e o crédito fica escasso), (b) o capitalismo acelerado, em que tudo, sempre, tem que acontecer rápido. Não se pode “não se ter uma visão clara do futuro” – o futuro é hoje.
  4. O lucro passado (do ano passado que acabou de se encerrar) não serve para mais nada, pois o nome do jogo é EXPECTATIVA DO LUCRO FUTURO. OK, o lucro passado ainda serve como refernência para a distribuição de dividendos e participação dos lucros. Talvez a tal história da bolsa antecipar o futuro tenha ido longe demais. Antes, quando as empresas tinham lucro elas acumulavam caixa também, e se seguravam antes de demitir ou partir para voos arrojados. Hoje, elas cortam hoje, já investem pesado amanhã….e se precisar demitem todo mundo de novo.

Notem que não estou defendendo uma nova era de ineficiência econômica. Mas ninguém pode incentivar um “Capitalismo ABC”, i.e. ‘acelera-breca-corta’, na velocidade como este que vivemos há um década, mais ou menos. É muita instabilidade!

Mas como reduzir esta aceleração perniciosa? Será coisa de governo? Fechar o capital nas bolsas seria uma boa alternativa? Volta ao passado, talvez…será que a minha teoria do pêndulo provar-se-á correta de novo?

Super Lupi – enquanto isso, um personagem que ganhou espaço na Esplanada dos Ministérios é o Ministro do Trabalho Carlos Lupi. O sujeito é uma fera. E possui um imã gigante para atrair microfones! Ele é muito energético e não importa o vetor da notícia (“Brasil Crescendo” ou “Recorde de Demissões”), pois o  sua incansável verve o permitirá fazer um discurso. Hoje, ele apresentou uma nov competência: a visão, a vidência, o terceiro olho, a capacidade de ver o futuro (próximo!). Veja o que diz a sua Bola de Cristal –a virada do emprego é pra março”!

Vamô sair comprando, aí gente!!

É isso. Vou dormir chateado…tá virando hábito! Abraços, FB

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Os dois primeiros links abaixo, da White House, talvez entrem para a história como sendo o registro do início da Grande Reforma que alguns acreditam estar por vir.

Neste final de semana, o presidente dos EUA, George W. Bush, recebeu as visitas ilustres do francês Nicolas Sarkozy e do português José Durão Barroso que representaram a União Européia. O objetivo foi alinhar o discurso sobre a necessidade de se iniciar uma reforma do “Sistema”.

Será uma batalha duríssima, tanto no plano institucional (dadas as diferentes visões dos governos envolvidos), como no plano privado (pois se os bancos mal e mal controlam seus próprios negócios, como controlar instituições que operam fora do sistema, como Hedge Funds?).

Não acreditem no que digo. Reflitamos:

1. Diferenças Institucionais

Enquanto a Europa não demorou para semi-estatizar vários dos seus grandes bancos, Bush resistiu até à beira do colapso do sistema. Para começar, europeus não gostam de bancos, finanças internacionais, derivativos e assemelhados. Já deste lado do Atlântico, respira-se e vive-se banking & finance.  A indústria de serviços financeiros tem um peso importante no PIB americano e no modo de vida do cidadão (que é fortemente endividado). Americanos são liberais até o DNA, enquanto que os europeus são estatizantes e centralizadores. Nos EUA, o sucesso e o destaque público são admirados e incentivados, enquanto que na Europa ocorre o oposto.

Traduzo a seguir uma parte do discurso de Bush: “…Na medida em que façamos as mudanças institucionais e regulatórias para evitarmos a repetição desta crise, é essencial que preservemos as fundações do capitalismo democrático – o comprometimento para o livre mercado, à livre empresa e livre comércio. Nós devemos resistir à perigosa tentação do isolamento econômico e continuar a respeitar as políticas de livre mercado, que subiram a qualidade de vida e tiraram milhões de pessoas da pobreza no mundo todo…”.

Notem que Bush começa bem, mas a sua insistência no não-intervencionismo deixa claro que os europeus terão uma parada dura pela frente.

Este link traz os três discursos oficiais (em inglês), pré-evento.

http://www.whitehouse.gov/news/releases/2008/10/20081018-1.html

Após o evento, saiu este pouco revelador texto para a imprensa (abaixo), onde lemos que após a eleição de Barack Ob…, perdão, após a eleição do próximo presidente americano, no dia 4 de novembro próximo, um Summit será convocado – será nos EUA de novo. A partir desse encontro é que veremos com que grau de profundidade os líderes mundiais estão engajados na criação de um mundo novo.

http://www.whitehouse.gov/news/releases/2008/10/20081018-2.html

2. Gestão de Riscos dos Próprios Bancos

Um dos bons motivos que os governos tem para reduzir o grau de liberdade que os mercados financeiros e de capitais têm é o fato das próprias instituições financeiras não terem o melhor controle dos riscos que correm.

Exemplos? A história recente (últimos 10 anos) é rica o suficiente para se escrever uma enciclopédia sobre o tema. Mas só nestes últimos 12 meses podemos listar:

  • O caso do francês Societé Generale onde um único trader perdeu USD 7 bilhões, numa fantástica fraude interna.
  • O grupo que controla a minha Coface, o francês Natixis, foi surpreendido com perdas ao redor de EUR 1 bilhão, com suas operações nos EUA. Vários executivos foram demitidos recentemente.
  • E um dos controladores do mesmo Natixis, o gigante Caisse d’Epargne, acaba de anunciar a demissão do seu CEO, após descobrir que perderam mais de 800 milhões de euros com operações que foram feitas além dos limites autorizados (ver abaixo).
  • http://www.bloomberg.com/apps/news?pid=20601087&sid=aGigtrnYsrsc&refer=home
  • Sem falar no maior fiasco das finanças bancárias internacionais: a aquisição hostil que o ABN AMRO, da Holanda, foi vítima ano passado. Bem, vítimas mesmo foram 2 dois dos seus 3 compradores! O Fortis, da Bélgica, quebrou espetacularmente e a divisão holandesa do ABN acabou sendo estatizada. O Royal Bank of Scotland (RBS, que patrocina os carros da Williams na F-1) ficou ilíquido e desacreditado a ponto do Bank of England ter assumido o controle do banco. Só o Santander, que ficou com o Banco Real aqui no Brasil, escapou ileso da “Maldição Holandesa”.
  • Além do RBS, o sistema financeiro britânico ficou na penúria, pois seus bancos corriam muito mais riscos com hipotecas no próprio Reino Unido e nos EUA do que seus acionistas e reguladores tinham idéia.
  • Nem precisamos falar da banca americana, pois esta implodiu.
  • E em toda a Europa e boa parte da Ásia, a crise bancária atinge mais agentes a cada dia que passa (ver abaixo).

ING (Holanda): http://www.bloomberg.com/apps/news?pid=20601087&sid=aFEb7sgN0P2M&refer=home

Bancos da Coréia do Sul: http://www.bloomberg.com/apps/news?pid=20601087&sid=aM5S3bpWfGZo&refer=home

3. Outros agentes e ativos não regulados

Não bastasse a endêmica falta de controle dos próprios agentes do mercado e a disparidade ideológica entre EUA e Europa, há ainda uma séria questão a ser resolvida: o que fazer com Hedge Funds e Credit Derivatives (CDS), que não são regulamentados?

Eu tenho uma opinião genérica – essa turma tem que ser regulada e pronto -, mas o tema é complicado demais para nos alongarmos ainda mais neste post. Confiram estes dois links importantes abaixo:

Sobre CDS: http://www.nytimes.com/2008/10/19/opinion/19cox.html?_r=1&scp=1&sq=;;Quoteswapping%20secrecy;;Quote&st=cse&oref=slogin

Sobre Hedge Funds: https://blogdocredito.wordpress.com/2008/10/15/1133/

Bom, é isso. Levar o pêndulo de um extremo para o ponto médio será uma tarefa para os deuses…

Abraços, Fernando

Roubini is back no Blog do Crédito! 

E a possível catástrofe do dia chama-se: HEDGE FUNDS.

Primeiro, o que são Hedge Funds: são…fundos muito agressivos, que tomam empréstimos para comprar mais ativos do que podem, assim como faziam short-selling para poder vender mais ativos do que tinham em mãos.

E qual o problema? Como vivíamos num mundo sem risco  (percepção é tudo…), fundos agigantaram-se a ponto de virarem risco para todo o sistema financeiro mundial – alguém já ouviu falar disso recentemente? Há exatos 10 anos durante a Crise da Rússia, tivemos o famoso caso do LTCM, fundo que tinha dois Prêmios Nobel em suas fileiras e que foi à bancarrota apenas para ser resgatado por uma operação coordenada pelo FED de NY. Ver link abaixo.

http://en.wikipedia.org/wiki/Long-Term_Capital_Management

Como os Hedge Funds não são regulados ou monitorados por ninguém, sabe Deus o tamanho da encrenca. E Roubini nos alerta que ainda podemos ter uma Crise do Subprime Parte II à nossa frente.

Em suas próprias palavras: “one cannot rule out that some systemically important hedge fund may get into trouble with systemic consequences. If larger and systemically important hedge funds were at risk of failing the Fed will have to engineer a massive private sector bail-in of such hedge funds (a larger scale rescue a la LTCM) where the prime brokers of such funds are forced to maintain repo exposure to such funds rather than be allowed to shut off such exposure. This is a radical suggestion but the alternative of a Fed liquidity bailout of systemically important hedge fund is not politically feasible.

Traduzindo e condensando, temos: talvez o governo Americano tenha que gerenciar um novo resgate de instituições (os Hedge Funds), mas desta vez sem dinheiro público. As próprias instituições contrapartes terão que renegociar suas posições com os fundos. E eu agrego: sim, mas as contrapartes, que estariam esperando grandes somas serem liquidadas a seu favor, precisarão se zerar com alguém (pois não haverá caixa nesta operação). E aí é dinheiro público que terá de ser usado, do contrário o risco sistêmico se restabelece. Complicado…

A RGE Monitor, empresa de Roubini, reporta que SÓ PARA OS NEGÓCIOS INTERMEDIADOS PELO FINADO LEHMAN BROTHERS, os Hedge Funds têm que pagar USD 65 bilhões de cobertura adicional. “O banco quebrou, mas suas dívidas permanecem”, diz Roubini.

A coisa pode ficar ainda mais preta se for confirmado que papéis (bonds, ações) que os Hedge Funds tinham depositado no Lehman Brothers para cobertura de operações alavancadas, foram realmente emprestadas pelo banco falido para outros clientes fazerem ‘short-selling’.

O absurdo definitivo  – o RGE Monitor informa que, segundo a Investors Insight, os Hedge Funds seriam responsáveis por algo como 32% da vendas de Credit Default Swap (os famosos CDS’s), numa aterrorizante cifra de USD 14 trilhões. Como estimam que os fundos sob gestão dos Hedge Funds sejam de “apenas” USD 2,5 tri, fica o terror de que esses fundos venderam muito mais ‘seguro’ do que teriam capital e ativos para cobrir.

Roubini também coloca – e se apóia em outros experts – que é bem possível que esses Hedge Funds tenham que fritar suas carteiras (“fire sale”) e eu digo: já não estarão fazendo isso há algum tempo?

Se tudo isso for verdade, não tenhamos dúvida que teremos a Hecatombe II. Também riremos dos poucos mais de USD 3 bilhões que somavam a crise do LTCM.

E também não teremos dúvida de que houve a maior fraude da história da humanidade.

Isto é Roubini, isto é (ou era) o Capitalismo Financeiro Acelerado.

Fernando

Prezados,

Eu não conheço pessoalmente o sr. Alcides Amaral, ex-CEO do Citibank no Brasil, mas conheço dúzias de profissionais (sérios) que o conhecem. Pelo que sempre ouvi sobre ele, além da reputação que ele goza no meio, não tenho dúvida de que ele faz parte da constelação de estrelas mais brilhantes da banca nacional.

Pois bem, se existe algo que não se possa dizer é que o sr. Amaral seja de esquerda, ou que tenha antipatia por bancos, banqueiros e remuneração de alto calibre. Poucos têm a credibilidade e a legitimidade para tratar do tema como ele – só que ninguém esperaria que justo ele, por ser um “da turma”, abordasse o tema de uma forma tão transparente e contundente, ou melhor, realista. O texto escancara a ferida! Se o mesmo viesse de um jornalista já seria bom, mas vindo de um ex-banqueiro convicto, aí fica espetacular.

Saudações e boa reflexão, FB

O fator humano na crise americana
Alcides Amaral
18/09/2008
 
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O estouro da bolha imobiliária americana gerou prejuízos enormes para os bancos dos países ricos. Os americanos, especialmente Citigroup e Merrill Lynch, e o UBS (suíço), foram aqueles que até agora registraram as maiores perdas – todas superiores a US$ 35 bilhões – e, o pior, não vai parar por aí. Estimava-se pessimistamente que a provisão global dos bancos com o estouro da bolha, que ficou mais conhecida como a crise do subprime, seria de US$ 500 bilhões, e hoje já há quem multiplique por três ou por quatro esse valor face ao alastramento dos problemas, atingindo moradias de maior valor, cartões de crédito, empréstimos pessoais etc. Foi um gigantesco castelo de cartas que desmoronou, pegou a todos de surpresa pelas cifras envolvidas e não há dúvida de que o sistema financeiro do Primeiro Mundo será, doravante, bem diferente.
Pois bem, esse é o lado financeiro da crise que mais preocupa a mídia e os analistas. Pouco ou nada se falou, até agora, do “fator humano” da crise, onde milhões perderam e alguns milhares ganharam.
Inicialmente, é bom que se diga que nunca na história do sistema financeiro internacional se viu tanta incompetência ao mesmo tempo. O Fed , que tem como uma das suas principais funções fiscalizar os bancos, não viu a bolha crescer e, depois que ela estourou, não teve alternativa que não despejar bilhões de dólares para dar liquidez ao sistema e segurar os grandes bancos comerciais e de investimento dos EUA. Como dizem os amigos do Tio Sam, esses bancos – Citi, Merrill Lynch etc – são “too big to fail”. Portanto, falha imperdoável de análise dos técnicos do Fed, que por certo ganharam atrativos bônus antes da bolha estourar.
As companhias de ratings também não foram capazes de enxergar um palmo à frente do nariz nas suas análises. Com ratings de investment grade, motivaram muitos a comprarem tais papéis lastreados em hipotecas de pessoas das classes C e D. Também ganharam seus polpudos bônus e agora assistem tranqüilos o castelo de cartas desmoronar.
Nos bancos, as coisas não foram diferentes. Cada um deles possui auditoria interna independente que verifica periodicamente a qualidade da carteira de crédito da sua instituição. Também foram envolvidos pela euforia global, receberam seus bônus e os seus bancos estão hoje tendo que amargar pesadas perdas por mais essa prova de incompetência.
Como podemos verificar , em termos de supervisão, houve uma falha coletiva que levou o americano a pensar que se tornara rico da noite para o dia. Conversando com um motorista de táxi em Nova York, no outono de 2006, perguntei a ele se não estava preocupado com a valorização – que a mim já parecia excessiva – dos imóveis nos Estados Unidos. Respondeu-me que sim, que comprou sua casa financiada por US$ 300 mil e que, naquele momento , valia US$ 700 mil. Acreditava que um ajuste iria ocorrer, e que o preço de sua moradia iria cair para uns US$ 500 mil. Hoje, infelizmente, deve ser um daqueles que está “sem teto”, devido à queda do valor dos imóveis e à completa falta de liquidez. Assim como esse motorista, milhões de americanos de baixo poder aquisitivo viram seu sonho de possuir sua casa própria (juro atraente e prazos de até 30 anos) transformar-se em pesadelo.
Não bastasse, a ânsia de ganhar dinheiro mais rápido fez com que milhões de americanos fossem aos seus bancos e tomassem a segunda e, depois, a terceira hipoteca sobre o mesmo imóvel, para comprar casa na praia, mobiliário novo, viajar, etc. E, assim, os bancos aumentaram suas carteiras de crédito de forma agressiva, o que, na teoria, geraria muito mais lucro nos anos seguintes. Esses gerentes também ganharam seus polpudos bônus e, por tabela, toda sua linha de supervisão até chegar ao chairman da instituição financeira. Lucros gigantescos – até aquele momento -, bônus igualmente gigantescos.
O que a crise imobiliária evidenciou claramente é que a “filosofia do bônus” imperou de forma irresponsável por todo o sistema financeiro. Bônus de milhões de dólares para aqueles “mágicos” que estavam gerando a expectativa de lucros fabulosos para suas instituições. Esse foi o grande mal do sistema, pois o bônus passou a ser muito mais importante do que o salário. Estruturas criativas são elaboradas, bilhões de dólares são teoricamente gerados e, da noite para o dia, milhares de jovens executivos e seus ausentes superiores tornam-se milionários.
Enquanto isso, o “povão” – que existe também por lá, não só por aqui – perdeu tudo o que tinha, pois acreditou no milagre da casa própria. Como o ex-famoso Greenspan baixou a taxa de juro para 1% ao ano , todos voltaram-se para o mercado imobiliário, pois os investimentos financeiros pouco rendiam.
O que causa maior espanto é que os banqueiros, aqueles responsáveis pelas instituições que amargaram prejuízos de bilhões de dólares, mesmo demitidos (ou chamados a se demitirem), saíram dos bancos mais ricos do que entraram. Não foram capazes de avaliar que toda bolha um dia estoura e foram premiados pela aposentadoria precoce. Quem trabalha 35/40 anos em uma empresa, aposenta-se com algum benefício, mas longe de tornar-se rico. Lá na cúpula dos bancos o tratamento é diferente. Ao invés de saírem “algemados”, deixam os bancos com os bolsos carregados de dólares, além de benefícios adicionais. Diante dessa realidade, a pergunta que fica é: onde está a vantagem de trabalhar honesta e corretamente a vida inteira diante dessa extraordinária injustiça?
Enfim, esse é mais ou menos o quadro de como ficou o “fator humano” diante dessa crise toda que ainda está por aí e não irá desaparecer tão cedo. O pobre, aquele cidadão que viu a possibilidade de ter sua casa própria, ficou pior do que estava. E aqueles que criaram o problema, ganharam bônus significativos e tocam suas vidas sem maiores preocupações.
Não temos nada contra premiar boa performance com bônus, muito pelo contrário. Mas devemos fazê-lo com moderação, baseados em contribuição e resultados efetivos, e não na expectativa de lucros fabulosos.
Alcides Amaral é jornalista, ex-presidente do Citibank S/A e autor do livro “Os limões da minha limonada”

 

E viva (?) o Capitalismo Financeiro Acelerado: das 19:00, quando iniciei um jantar de trabalho, até agora, quando começo a escrever (23 horas), o mundo mudou radicalmente – para menos pior,pelo menos!

Vamos aos fatos:

1. Brasil:

Conforme previsto ontem, a bolsa deu uma subidinha – a lógica é simples: ontem caiu demais, na base do medo e da especulação pesada. Mas o vai-e-vem continuará até que o investidor estrangeiro decida se fica ou se vai. Não é jogo para amadores e bem intencionados.

Soube que o mercado de crédito hoje, pela manhã, esteve paralizado, sem preço. Que coisa!

2. Wall Street

Salvo alguma reviravolta de última hora, salvaram-se AIG e Lehman Brothers (este apenas parcialmente). Os resgates foram feitos q a extrema-unção de ambos. A AIG foi literalmente federalizada pelo Tesouro americano e o Barclays, do Reino Unido, comprou os ativos americanos da Lehman. Ver abaixo:

http://www.bloomberg.com/apps/news?pid=20601087&sid=aAkvusf5Ld7M&refer=home

Motivos: as diversas entidades do governo americano que se envolveram na salvação da AIG chegaram à conclusão de que esta seguradora não poderia quebrar, sobre pena de gerar um efeito dominó. É que a AIG segurava uma quantia enorme de CDS’s, que são os derivativos de crédito que garantem os péssimos empréstimos hipotecários subprime. Se ela quebrasse e, portanto, não honrasse tais apólices, a quebradeira em Wall Street continuaria e, por tabela, no resto dos EUA.

http://www.bloomberg.com/apps/news?pid=20601087&sid=aLsMT_psdKqk&refer=home

Motivos: diferentemente do caso AIG, o governo americano achou que custava menos politicamente deixar o Lehman quebrar, do que colocar dinheiro do “tax payer”, como eles dizem. Aí, o Barclays que, como todo grande banco europeu, sempre teve dor-de-cotovelo por não ter presença forte em Wall Street, negociou até a hora que o oficial de justiça chegava para lacrar o banco…e comprou-o por um valor “simbólico” de pouco mais de USD 1,5 bilhão.

Acho que agora evitou-se o Armagedon. Porém, ainda na simbologia bíblica, reiteiro que apenas o Armagedon foi evitado, por que as pragas do Egito ainda estão estão por vir, i.e. crédito apertado, recessão, menor fluxo de capitais, comércio internacional enfraquecido, etc.

E isto vai chegar no Brasil, de forma menos agressiva do que no passado, mas vai atingir, como sempre, empresas e pessoas mais fragilizados por conta de dívidas mal estruturadas.Prazo: entre 6 e 12 meses.

Meu abraço, Fernando

Prezados Brahmeiros e abstêmios,

Fiquei surpreso com o impacto que a aquisição da Anheuser-Busch (nominho complicado…) pela INBEV (leia-se Interbrew + AMBEV) gerou na blogosfera. Os jornais tradicionais não deram uma atenção maior do que ela merece, mas ao correr blogs aleatoreamente, notei uma certa dose de ufanismo-patriótico. Tipo, “o Tio Sam vai beber uma Brahminha”. Agora o Zeca Pagodinho vai à loucura!

Até eu entre na onda e rebatizei The All-American Beer, Budweiser, para Brahmaweiser!! Legal, né?! Acho que vou mandar meu C.V. para o Pânico, Casseta &…

À título de brincar com a lógica, ofereço duas visões sobre o mesmo tema. Qual seja: uma empresa brasileira se funde com uma belga, assume a gestão, para em seguida comprar a maior empresa do setor nos EUA.

Visão 1: A glória do Capitalismo

Os brasileiros da Brahma (da escola Banco Garantia e GP), com seu estilo de gestão meritocrático, focado na eficiência e geração de valor para o acionista, chacoalharam a sonolenta Interbrew, da Bélgica, tornando a  INBEV numa potência consolidadora na indústria.

Com agressividade, conseguiram convencer os acionistas americanos a abandonarem a família fundadora, que era contra a venda da empresa (“para aqueles belgas abrasileirados”, deviam comentar), propondo a criação de uma nova e gigantesca empresa, que será mais eficiente, rentável e, portanto, de maior valor.

Visão 2: Mas pra que?

Escuta, mas a Brahma já não era uma máquina de ganhar dinheiro aqui no Brasil? Era! E os belgas, não estavam felizes da vida com o seu mega negócio lá na pacata Leuven? Sim! E os Americanos, então, não se fala!

Então pra que tanta confusão, briga com acionistas, com board of directors, complexas operações de crédito para financiar as aquisições, trocas de ações, etc., etc.?

Ambição, é obvio! Vontade de ganhar ainda mais dinheiro! Se fosse só isso estava bom. Mas é que se eles não vão atrás destas aquisições, i.e. ficam parados, aí eles é que seriam atacados. O Capitalismo Acelerado (termo meu) que vivemos é assim: “matar pra não morrer”.

Mundando de assunto, estarão nossos brasileiros dando um passo maior que a perna? Terá um componente de orgulho? Do tipo “Em 1999 vocês nos desprezaram! Agora serão nossos empregados“. O grande risco deste negócio é a questão cultural. Nossos agressivos executivos brasileiros conseguiram dar um nó na cabeça dos pacatos acionistas da Interbrew e assumir a gestão da INBEV, que se tornou, de fato, belgo-brasileira. Até quando a paz iria/vai reinar não sabemos. Agora, este mesmo grupo híbrido terá que domar um animal muito mais complexo, mais orgulhoso e vaidoso. Este será o grande desafio. A ver.

Abaixo, uma nota sobre a esta aquisição. Abraços, FB

http://br.invertia.com/noticias/noticia.aspx?idNoticia=200807140804_RED_77204979