Os amigos devem ter notado que ando escrevendo menos. Também devem ter notado que venho escrevendo mais sobre temas “frios”, ou atemporais, enquanto que antes escrevia alucinadamente sobre notícias “quentes”, da hora.

O bom sinal do comportamente do blog e do blogueiro, é que a crise perdeu momentum. Ela deixou de ser aguda e, portanto, parou de gerar notícias dramáticas que traziam volatilidade para os mercados. Podemos dizer que este é um blog anticíclico. 🙂

Creio que a crise deu lugar a uma “nova normalidade”, em que todos (países, governos, empresas, bancos, cidadãos) passam a conviver com os destroços que ficaram após a grande avalanche financeira que acometeu o planeta, para aos poucos reconstruirem uma nova economia e novos mercados. É uma fase de transição, ainda cheia e de dúvidas sobre como será este novo mundo.

Se por um lado é difícil achar alguma empresa, algum setor ou nação que esteja bem, ainda há considerável disparidade no grau de malefícios causados pela crise. Se por um lado o varejo no Brasil vai se aguentando, o setor de bens de capital vai mal demais. Se por um lado vende-se automovel à vontade, ninguém compra caminhão.

Este tipo de cenário gera confusão, pois dependendo da folha do jornal que você lê a sua percepção da situação econômica muda.

Mas existe um fato que não deve ser esquecido: a nova normalidade – pós-crise – será bem diferente daquela pré 15 de setembro de 2008! Será de menos riqueza, de mais frugalidade, de menores ganhos para a maioria, de menor volatilidade (e mais bi-direcional) e tudo acontecerá mais lentamente.

E a razão é simples: o capitalismo financeiro foi nocauteado. Não há mais tanto dinheiro fácil, barato e tolo para ser emprestado para qualquer um, para ser investido em qualquer projeto, para viabilizar mega fusões ou para turbinar qualquer IPO.

“Não tenhamos mais tanta pressa”, parece-me ser a nova ordem mundial. E isso me cheira bem.

Abraços, F.

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Passou pouco notado um tremendo feito de Tim Geithner, Secretário do Tesouro dos EUA, ontem no Congresso americano: ele deu início a uma cruzada por mais regulamentação dos mercados financeiros.

Foi só o primeiro passo, mas o sofrimento dele será grande e longo. Primeiro, porque terá de enfrentar um lobby fortíssimo da indústria e, segundo, porque os Republicanos não lhe darão vida fácil – mesmo para aprovar o óbvio e necessário.

Destaques para o projeto de Geithner:

  • Poder para impor capitalização de bancos que corram riscos além do aceitável pelo governo.
  • Poder para regular certos fundos, e.g. Private Equity, Hedge Funds, etc.
  • Poder para regular instituições quase-bancos, e.g. GE Capital, AIG, etc.
  • Impor restrições aos mercados derivativos ‘de balcão’, tais como a obrigação de registros em bolsa.

Abre-se, portanto, uma terceira frente de batalha na guerra hercúlea que Obama & Geithner vêm enfrentando. Primeiro foi o pacote fiscal para acelerar a economia, depois foi o plano de resgate do sistema financeiro e, agora, começa a luta para evitar que esta hecatombe financeira volte a ocorrer.

Aqui a matéria doThe Times, com link para o texto original de Geithner.

E aqui a da Business Week, que fala que será uma “guerra”!

Abraços, F.

PS: os Europeus já deixaram claro que não há acordo com os EUA, enquanto estes não ‘arrumarem a casa’ no quesito regulamentação bancária. Só que não adianta os EUA fecharem o cassino se Europa e Ásia não fizerem o mesmo. Isto é uma tarefa para o G-20 liderar, semana próxima, em Londres.

É tarde da noite e irei dormir chateado com as notícias de desemprego, aqui e no mundo todo. Se nos países desenvolvidos (socialmente falando) a turma se defende com o seguro-desemprego, por aqui ele é sofrível.

Mas o desemprego mexe com as pessoas de uma forma covarde. Digamos que o bolso “furado” é apenas a parte mais visível e óbvia, mas e a cabeça? A auto-estima? O fim (ou atraso) dos sonhos? A insegurança? A educação e bem estar dos filhos? E dos idosos?

Enfim, recordes de desemprego se acumulam e não respeitam fronteiras. No Brasil, a ‘marolinha’ evaporou 100 mil empregos (líquidos das contratações) em janeiro, segundo as notícias da noite – e estes 100 mil somam-se a 500 mil que se foram em dezembro! Recentemente, foi noticiado que o desemprego chegou até ao poderoso Vale do Silício americano, dominado por gigantes lucrativas como Google, Microsoft, entre outros.

Os pacotes de estímulo governamentais estão focados em…nada…pois estão distribuindo dinheiro (e evitando de recolhe-lo através de impostos) através de muitos canais. Acho que não funcionará.

A chave para a solução deste processo chama-se CRIAÇÃO DE EMPREGO. Tem mais valor que deduzir impostos, devolver imposto, apoio para o seguro de desemprego, etc. E por que:

  1. Enquanto o cidadão está sem emprego ele está sem CONFIANÇA. Lembram-se dos posts do final de semana?
  2. Enquanto o cidadão está sem confiança ele não CONSOME. Prefere POUPAR e PAGAR DÍVIDAS.
  3. Enquanto o cidadão está sem emprego ele não consegue CRÉDITO.
  4. Em suma, cidadão sem emprego não faz a ECONOMIA REAGIR.

Mas este post foi motivado pela notícia que a Embraer irá demitir (ou já demitiu) 4.000 funcionários (algo como 20% dos funcionários da empresa). Uma catástrofe social, em especial para as cidades ao redor de S.J.dos Campos e de Gavião Peixoto (ambas no estado de SP).

Lula – vindo de onde vem, não me surpreende que nosso Presidente tenha ficado indignado com a diretoria da Embraer. Pior que ser convocada para tomar um pito no Palácio do Planalto – como deve acontecer -, será ficar ouvindo Lula falar mal desta decisão, em todos os fóruns empresariais que ele participar. O Roger Agnelli, CEO da Vale, que o diga… lembram-se do massacre que ele sofreu por conta das demissões anunciadas em dezembro último?  No fim, as tais demissões nem foram tão grandes e até foram revertidas, até onde me lembro, mas o homem ficou marcado…pelas pancadas que levou do Homem.

Capitalismo financeiro – quando a empresa vai mal, sem expectativa de vendas, eu acho que o empresário tem obrigação de demitir parte da sua força de trabalho, até para preservar os empregos da maioria. Afinal, se a empresa quebrar, os demais perderão seus empregos também, sem falar na desorganização coletiva em sua cadeia de valor (e.g. fornecedores que quebram também, mais desemprego, etc.).

Esta argumentação cheira bem de “direita”? Aprumando mais para a esquerda, lembro:

  1. Empresas de capital fechado – que não precisam dar satisfação para a bolsa, para analistas de mercado, para fundos de private equity, etc. – tendem a ser mais humanistas na hora de demitir. De que estudo tirei essa idéia? Da minha extensa observação das justificativas para as demissões de companhias abertas.
  2. Mas atenção: fechar capital inibe captações financeiras mais baratas!
  3. Quando eu era bem mais novo, as empresas pensavam duas vezes antes de contratar e outras duas vezes antes de demitir. O que mudou? (a) o capitalismo financeiro, em que as empresas precisam provar que são eficientes o tempo todo (do contrário as ações caem e o crédito fica escasso), (b) o capitalismo acelerado, em que tudo, sempre, tem que acontecer rápido. Não se pode “não se ter uma visão clara do futuro” – o futuro é hoje.
  4. O lucro passado (do ano passado que acabou de se encerrar) não serve para mais nada, pois o nome do jogo é EXPECTATIVA DO LUCRO FUTURO. OK, o lucro passado ainda serve como refernência para a distribuição de dividendos e participação dos lucros. Talvez a tal história da bolsa antecipar o futuro tenha ido longe demais. Antes, quando as empresas tinham lucro elas acumulavam caixa também, e se seguravam antes de demitir ou partir para voos arrojados. Hoje, elas cortam hoje, já investem pesado amanhã….e se precisar demitem todo mundo de novo.

Notem que não estou defendendo uma nova era de ineficiência econômica. Mas ninguém pode incentivar um “Capitalismo ABC”, i.e. ‘acelera-breca-corta’, na velocidade como este que vivemos há um década, mais ou menos. É muita instabilidade!

Mas como reduzir esta aceleração perniciosa? Será coisa de governo? Fechar o capital nas bolsas seria uma boa alternativa? Volta ao passado, talvez…será que a minha teoria do pêndulo provar-se-á correta de novo?

Super Lupi – enquanto isso, um personagem que ganhou espaço na Esplanada dos Ministérios é o Ministro do Trabalho Carlos Lupi. O sujeito é uma fera. E possui um imã gigante para atrair microfones! Ele é muito energético e não importa o vetor da notícia (“Brasil Crescendo” ou “Recorde de Demissões”), pois o  sua incansável verve o permitirá fazer um discurso. Hoje, ele apresentou uma nov competência: a visão, a vidência, o terceiro olho, a capacidade de ver o futuro (próximo!). Veja o que diz a sua Bola de Cristal –a virada do emprego é pra março”!

Vamô sair comprando, aí gente!!

É isso. Vou dormir chateado…tá virando hábito! Abraços, FB