Quanto tempo…sim, eu ando sumido, mas é porque estou com a “batata assando” no meu dia-a-dia na Coface, mas também estou trabalhando forte num projeto chamado Instituto do Crédito (que terá blog também)!

Abaixo segue o link do Estadão de hoje, cujo Editorial comenta uma ótima reportagem do competente Leandro Modé. Acho que a matéria saiu na edição de ontem, mas não achei a versão eletrônica.

Inadimplência e Spread

 A confusão, por conta do desconhecimento de como os bancos tomam decisão, é cavalar. E a própria Febraban não ajuda, pois o seu economista-chefe talvez não entenda este funcionamento também. Quem sabe mesmo é quem trabalha no comitê de crédito da instituição.

É assim:

1. Como os bancos levam muito calote de, digamos, empresas de micro e pequeno porte, seus comitês de crédito aprovam limites de crédito pequenos.

2. Aí, você empreendedor vai aos bancos e, precisando de R$ 10 mil de crédito, só consegue R$ 9 mil e a muito custo.

2. Por conta desta oferta pequena, apertada – para as suas necessidades – você não tem poder de barganha junto aos bancos, pois precisa tomar tudo e ao preço que for pedido.

Moral da história: o spread é elevado para você, mas não é por conta de estatísticas, ou das famosas pizzas que certos analistas adoram produzir (refletindo os balanços antigos dos bancos) e que não servem para nada.

O fato é que os bancos não estão confiantes na adimplência de pequenas e médias empresas, que se machucaram muito na crise. De fato, eu acho que ele estão, aos poucos, lançando a perdas os muitos calotes que levaram de setembro/08 até abril/09. E isso deixa o humor do banqueiro muito negativo.

Eles preferem ganhar pouco aplicando suas sobras de caixa nos títulos públicos, via Banco Central, do que correr risco de crédito. E aí, como a oferta é baixa e a demanda é alta, os bancos têm maior poder de barganha e cobram caro. Todo o risco é ficção científica.

Agora, se a sua empresa é arrumadinha e você a apresenta corretamente para os bancos (com documentação adequada e transparência), você conseguirá linhas…caras, mas aos poucos elas vão barateando, na medida que os bancos ganham confiança em você.

Abraços,

Fernando

PS: e vá para o BB e para a Caixa, pois eles estão emprestando com gosto!

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Segundo o Banco Central, sim senhor! E vocês do Governo, da FIESP, da CUT, da imprensa, do mundo acadêmico, da Gaviões da Fiel, da CNBB, etc.,  parem de reclamar dos bancos! Afinal, o confiável relatório mensal do BC confirma que o CRÉDITO AUMENTOU de novo (i.e. dezembro x novembro e novembro x outubro).

Mês passado, mais precisamente no dia 23 de dezembro, eu fui entrevistado pelo Sardenberg, na CBN, e disse a ele que QUANTITATIVAMENTE o crédito vem aumentando sim; e que isso seria ótimo, não fosse o fato de que QUALITATIVAMENTE esse crescimento é enganoso e ruim.

Detalhes do relatório recém-emitido:

  • O volume de crédito na economia atingiu R$ 1,2 trilhão, ou 41% do PIB – recorde histórico (de novo).
  • O volume de crédito cresceu 31% em 2008 – outro recorde.
  • Em dezembro, o crédito com recursos livres (*) cresceu apenas 0,9% (menos que a SELIC mensal).
  • Em dezembro, o crédito do BNDES cresceu imensos 4,9%, o crédito direcionado cresceu 3,4% e o setor público captou 11% a mais do que em novembro.
  • Os juros médios cobrados são: PF 43,20%  (= 3 SELICs) e PJ 30,7% (= 2,5 SELICs).
  • O crédito para a indústria cresceu + 2%. “Puxa, assim o Paulo Skaf, da FIESP, não tem do que reclamar!” – calma, muita calma! Ele pode continuar reclamando, sim!
  • Mas o varejo “cresceu” perigosamente apenas 0,2%.

(*) Dinheiro que os bancos emprestam sem qualquer restrição legal ou direcionamento.

Análise do relatório e do cenário

  1. Espelho retrovisor: dizer que o crédito cresceu pujantes 30% em 2008 a essa altura do campeonato, só serve para estudo acadêmico. A realidade virou de tal forma, que este número pujante ficou anêmico.
  2. O crédito que IMPORTA é aquele que eu e você tomamos para financiar nossas compras e que a pequena e média empresas tomam para o seu capital de giro e para sua expansão. ESTE CRÉDITO NÃO ESTÁ AUMENTANDO! E esta é a situação que FIESP et caterva gritam diariamente – com razão, ainda que usando argumentos pouco eficazes.
  3. “Mas como assim? O relatório do BC diz que o crédito aumentou, de novo, em dezembro!” – acontece que quando a Petrobras e outras mega-empresas deixam de tomar dinheiro lá fora (porque o mercado internacional secou) e tomam dinheiro do BB, da CEF e de outros bancos, isso aumenta a base de crédito brutalmente! Só a Petrobras, pelo que foi informado na imprensa, captou mais de B$ 3 bilhões só da CEF!
  4. Enquanto você lê este post, centenas de empresas e cidadãos estão renegociando dívidas bancárias que venceram ou que irão vencer em breve – e cujos devedores não conseguiram ou não conseguirão pagar. Então, ao embutirem parte dos juros vencidos ou a vencer na nova dívida (renegociada), a base de crédito ficará maior artificalmente (principal antigo e não pago + juros não pagos que serão embutidos na nova dívida).
  5. Resumidamente, enquanto as linhas de crédito para os “pequeninos” cai, o estoque de crédito da economia sobe.
  6. Os bancos privados, comprovadamente, colocaram o pé no breque. Os bancos públicos e o setor público é que estão tentando reverter o quadro negro.
  7. E o comércio está sofrendo triplamente: estão estocados porque venderam menos que esperavam; a situação econômica só piora; estão sem crédito. O crédito que haviam tomado e que era autoliquidável (e.g. desconto de recebíveis, como o de cartão de crédito VISA) está sendo debitado aos poucos, mas dinheiro novo para financiar o estoque…hum…este deve estar difícil e caríssimo.
  8. Os juros na ponta são reportados como mais ou menos estáveis, na média, mas este dado não é confiável na minha opinião. Simplesmente não bate com o que ouço dos bancos e das grandes empresas. Não que haja alguma molecagem da parte do BC, mas deve ter algum bug na forma que os bancos informam e/ou o BC calcula os juros.

LAMENTAVELMENTE, o BC não detalha certos números e não faz análises mais pormenorizadas. Aí, fica parecendo que o crédito está normal. E a FIESP, a CUT e a Mancha Verde ficam bringando a briga errada…

Conclusão

Este blog é simpático à sua causa, você que está sofrendo com a questão do crédito. Os bancos – todos, daqui e do mundo inteiro – estão sem vontade de emprestar; estão cautelosos porque temem não serem repagos no futuro. Por que? Porque sabem que estamos vivendo numa ECONOMIA DE DEPRESSÃO (definição usada por Paul Krugman, atual Prêmio Nobel de Economia – seu blog está no Blogroll ao lado).

Aqui no Blog do Crédito você encontrará vários posts com dicas sobre como abordar novos empréstimos, negociação com bancos, etc. Perguntem, em caso de dúvida!

Abraços, F.

 
 
 

A semana que se encerra foi quente aqui também. Meu primeiro comentário vai para a decisão do governo de capitalizar o BNDES em R$ 100 bilhões. O fato, que deveria ser óbvio e bem-vindo, foi, para minha surpresa, recebido com algumas pancadas pela imprensa e por “analistas”.

A Miriam Leitão postou “Governo não deveria se endividar para capitalizar o BNDES”, dizendo que “… O governo está transferindo dinheiro para o BNDES, que vai repassar às empresas sem estabelecimento claro de critérios. Esse dinheiro vai acabar parando no caixa das grandes empresas do país, que já tem acesso ao crédito, como Petrobras, Vale, e outras empresas do setor petroquímico e de commodities. Com taxas mais baratas, obviamente elas vão pegar dinheiro com o BNDES…

… Enquanto isso, as pequenas, micro e médias empresas continuarão sofrendo para ter acesso ao sistema bancário, que não está emprestando. São elas que estão estranguladas pela crise do crédito, não as grandes.”

Não entendi a bronca dela, francamente. As empresas – de todos os portes, nacionalidades, de setores e regiões – precisam de crédito, mais do que nunca. Ao longo da história creditícia deste país, cansei de ver empresa pequena sofrendo às custas das grandes que nadavam em dinheiro. Agora, não. Todas estão com o pires na mão.  Até os bancos.

Que as PME’s estão com pouco acesso ao crédito bancário, isto é claro. A Petrobras está com o mesmo problema, tanto é que foi parar na Caixa Econômica Federal (CEF). Agora, o dinheiro que vai para o BNDES não tem como financiar todas as PME’s do país, nem por decreto. Notem que dinheiro a CEF e o BB têm! Mas esses bancos federais não irão emprestar para todas as PME’s do país, pois lhes falta apetite de risco e capacidade de processamento de tantos pedidos de crédito.

…de qualquer forma, a problemática acima não teria, jamais, como solucionática os R$ 1oo bi que irão para o BNDES (copyright cultural: Dadá Maravilha, 1970)

E no Estadão de hoje o Leandro Modé assina “Política anticíclica é criticada”. A matéria cita críticas ao fato do governo federal incorrer num custo de perto de 12% a.a. (SELIC) para captar os recursos que serão repassados ao BNDES, sendo remunerado em apenas 7% pelo seu banco federal. Apesar de correta a análise, se olharmos friamente para os números, concluiremos que os juros que o BNDES cobra são subsidiados.

Minha opinião: Às favas com essa conversa! Se não fossem as linhas do BNDES e o custo mais baixo delas, hoje seríamos tão desenvolvidos como a Albânia. Vários ‘puristas’ (incluindo aqui amigos meus) acham que se os juros cobrados pelo BNDES fossem de mercado, o spread médio dos bancos privados cairia – duvido com fervor!

A matéria fecha com a questão do índice de Basiléia do BNDES, que estaria em folgados 22%, quando nosso BC determina um mínimo de 11% para os bancos. Mas não é esse o ponto. O BNDES precisa é de caixa para emprestar mais. Não precisa de capital para cumprir obrigações regulatórias. Diferentemente dos demais bancos, o BNDES não se financia através de emissões de CDB’s para clientes  fundações e não capta estruturalmente via mercado interbancário. Ele é, portanto, sólido demais. O problema aqui é caixa e só existe porque a demanda pelo seu crédito é alta demais! Tão óbvio, tão mal entendido.

O que ninguém abordou – o dinheiro do BNDES é BOM e NECESSÁRIO, porque é LONGO E MENOS CARO, mas leva muito tempo para ser desembolsado a partir do momento que é solicitado (entre 3 e 6 meses). Em tempos de liquidez, os bancões fazem um empréstimo-ponte e tudo se ajeita. Agora, não. É fundamental que o BNDES também ache uma forma de acelerar o seu processo interno de crédito.

Concluindo, essa discussão sobre o BNDES é bizantina, na minha ótica. Se até o Paul Krugman está dizendo que o déficit público é secundário, que a inflação é secundária,…, quem somos nós para esnobar a oportunidade de termos a ÚNICA fonte de crédito DECENTE do país emprestando mais R$ 100 bilhões?!

E eu acho também que, em 2009, o BNDES terá que renegociar muito repagamento de dívidas dos seus devedores, pois muitos deles estarão com o caixa curto e não encontrarão outras fontes de refinanciamento no mercado. Minha opinião: “c’est la vie”. São dias de crise sistêmica. Então, o BNDES deverá renegociar com tranquilidade, para não desestabilizar ainda mais o sistema produtivo.

Abraços, FB

Prezados amigos,

Este post é dedicado ao sofrido povo brasileiro que, por séculos, tanto sifu por conta da desigualdade social.

E aí, quando este mesmo povo sofrido começava a tirar o pé da lama, tendo acesso a bens de consumo típicos da classe média graças ao financiamento abundante (para os nossos padrões), vem essa crise maldita. E sifu de novo!

Mas como nosso Presidente é um defensor do povo e não quer vê-lo se ‘afogando na marolinha’, ele não se cansa de falar/declarar/discursar/urrar que não podemos ser pessimistas, que não podemos deixar de comprar, etc., “porque o governo não vai deixar que essa crise importada estrague o sonho dos brasileiros“.

A maior pérola da sua verve porém, aconteceu ontem, quando disse que ele, como líder nacional, não poderia fazer como o médico que dá uma má notícia para o paciente, “…e sifu“. Eu estou chocado. Tomem imediatamente o CRM deste médico grosseiro!

Como fiquei e permaneço sem palavras, apenas repetirei o que já escrevi antes, até porque tais palavras não ‘perderam a validade’:

  1. Um governante NÃO tem que vir à mídia pregar o pessimismo.
  2. Mas nenhum governante tem o DIREITO de vir à mídia dizer que o povão deve gastar (e, por tabela, se endividar).
  3. Será que Lula não tem capacidade de ser realista, alertando para o óbvio? O mundo não vai acabar, mas não podemos descuidar; não é preciso pânico, mas não é hora para ser arrojado, e por aí vai.

Alguns fatos irrefutáveis e irremediáveis:

  1. Nem o Presidente, nem a mídia e nem ninguém veio a público dizer que nosso crescimento recente e a conseqüente prosperidade vinham sendo frutos do crescimento mundial que, em grande medida, eram financiados pelo ‘cassino’ financeiro internacional.
  2. Agora que o ‘cassino’ quebrou e o mundo está devolvendo a prosperidade construída sem sustentabilidade, o governo quer jogar a culpa pra cima da gringolândia. E, de quebra, pra cima de quem mostra que a situação é preta!
  3. É sem uma ponta de orgulho que eu, desde o início deste blog, em maio, já escrevia que o povo brasileiro estava endividado demais, que não tinha educação financeira e que, mais cedo ou mais tarde, teríamos uma crise de crédito “made in Brazil”, etc. É só checar os posts mais antigos.
  4. Pois é esse mesmo brasileiro que o Presidente quer-porque-quer que continue comprando com o dinheiro que não tem. E sem qualquer garantia de que terá emprego amanhã!
  5. Mas e os pátios das montadoras, lotados, e o número imenso de obras civis em andamento (e que, irresponsavelmente continuam sendo lançadas)? Se o povão não comprá-los, as empresas quebrarão? Sim! E o emprego gerado por estes negócios? Desemprego à vista!
  6. Bem-vindos ao mundo maravilhoso do capitalismo. Mas com um adendo, digamos, mega-importante: a economia brasileira vinha crescendo a 6% a.a. no primeiro semestre, enquanto que o mundo lá fora já dava sinais exaustivamente claros que a crise era séria, séria demais! E nós? Marolinha pra cá, blindagem prá lá!
  7. E dá-lhe produção de automóveis, dá-lhe lançamento de imóveis, etc.
  8. Agora a economia brasileira deve estar crescendo ao redor de 1% a.a., i.e. vinha a 12o km/h, brecou violentamente e o motorista saiu pelo párabrisa.

Como consertar? Não tem conserto, pelas regras de mercado! Não haverá crédito disponível nem geração de renda suficiente para ‘patrocinar’ uma retomada de atividade que absorva os estoques. E tais empresas não terão como se sustentar durante uma longa recessão, com os estoques cheios e crédito restrito e caríssimo.

Mas o que fazer, deixar quebrar? Não! Governo ativista neles! A solução será fiscal e heterodoxa. O governo que abra mão de todos os impostos embutidos nos automóveis e imóveis, do IOF dos financiamentos para esses bens, etc. Esses produtos terão de ficar tão baratos a ponto de estimular sua compra. E que BB e CEF os financie em condições FORA DE MERCADO, i.e mais longo e muito barato.

O Brasil começou a enfrentar essa crise da forma certa. Só que não previu o tamanho do buraco! Agora o governo já está atrasado na tarefa suprema de aumentar a dosasem do remédio, como vem fazendo Bush, Paulson & Bernanke, nos EUA. Ou, como diria o Silvio Santos em um dos seus programas antigos: “Quem quer dinheiroooo???”.

E, olha, não adianta meter o pau nos bancos. Pode desopilar o fígado, mas não resolve nada. A sociedade brasileira faz isso há séculos e nunca adiantou nada! Banqueiro tem a pele grossa e não se intimida com gritaria pela (e da) mídia. No fim – e com sua razão -, eles sempre poderão dizer: “OK, querem quebrar o sistema financeiro brasileiro, como fizeram lá fora?”. Aí todo mundo afina!

Enfim, vocês sabem bem que a crise é séria e ela veio para ficar por uns 12 a 18 meses. Seguir o Presidente será sifu em dobro!

Abraços e bom final de semana, F.

Este assunto deu o que falar nesses últimos dias. Muita gente dizendo que a Petrobras tem uma gestão financeira ruim e outros tantos falando que ela foi favorecida pelos bancos estatais por se estatal também e por aí seguiu a repercussão.

O link abaixo, do blog da Miriam Leitão, dá uma boa visão do caso, ainda que com certa “parcialidade”. Mas não aborda a questão por inteiro. Ainda bem, do contrário eu não teria o que dizer… 🙂

http://oglobo.globo.com/economia/miriam/post.asp?t=as_distorcoes_do_caso_caixa-petrobras&cod_Post=143349&a=495

Alguns pontos para reflexão:

  1. Sim, ao tomar R$ 2 bilhões da Caixa (e aparentemente outro tanto do BB também) a Petrobras acabou por contribuir, indiretamente e de forma não intencional, para agravar a oferta de crédito no país.
  2. Não é normal que Caixa e Petrobras façam operações de crédito, pois o banco estatal não foca em grandes empresas e porque nossa rainha do petróleo costuma trabalhar com outro perfil de banco.
  3. Porém, deveria ser óbvio para todo mundo que a Petrobras não tomou crédito na Caixa porque tinha desejos mórbidos de secar a já escassa oferta de crédito do país.
  4. A situação de crédito global está péssima e, creio eu, nem a Petrobras está conseguindo rolar certos empréstimos internacionais (e.g. bilionárias linhas de financiamento de importação de petróleo).
  5. Além disso, a estatal tem mega investimentos em andamento e muitos bilhões de contas a pagar por conta disso, i.e. é perfeitamente razoável que tenha tido um furo de caixa.
  6. Calma, o possível e provável furo de caixa poderia ser facilmente coberto com o dinheiro que a Petrobras tem aplicado. Porém, sabedora do clima negativo do mercado, deve ter preferido tomar crédito dos “bancos aparentados” e preservar sua própria liquidez.
  7. Não pagar seus pequenos e médios fornecedores (sim, não é só gigante que vende para a Petrobras!) seria um mal maior, pois estes não teriam para onde correr.
  8. E também não seria uma boa sinalização para o mercado se ela parasse de importar petróleo, ou “comprar fiado”…

Acho que essa celeuma se deu mais por falta de transparência da companhia do que pelos fatos em si. Não que seja fácil admitir que uma empresa-símbolo como a Petrobras esteja enfrentando os mesmos problemas que o Bar do Gosma, lá da periferia, i.e. falta de crédito.

O governo federal também deve ter pensado mil vezes antes de sinalizar que a “Operadora do Milagre do Pré-sal” está enfrentando problemas de caixa – ainda que temporariamente. Mas é que falou-se tanto que o Brasil estaria blindado contra a “marolinha” graças ao petroleo do pré-sal que agora fica complicado explicar que precisaríamos de recursos financeiros para a realização de tal feito. E os tais recursos financeiros estão em falta no planeta…

É isso, meus caros, Risco de Refinanciamento pega qualquer um! E pega com requintes de crueldade empresas que têm ativos mais longos do que seus passivos e, em especial, as que estão com grande volume de investimentos em andamento (e que não querem paralisá-los) e contas a pagar queimando no caixa.

Sinceramente, não me preocupei em saber se os tais empréstimos foram feitos de forma mais ou menos transparente. Pior se tentaram fazer de forma enrustida. Mas o fato é que o governo – qualquer um – tem como missão ser “emprestador de última instância” e seus bancos oficiais têm esse papel e, aparentemente, desta forma agiram.

O resto é balela, lamento dizer. Ou alguém gostaria de ver faltar gasolina no posto?

Abraços,

Fernando

PS: transparência é tudo, minha gente, com ou sem crise! Sempre.

Bom dia. Rapidinho.

Este espaço nunca foi dado a malhar o governo até por que isso não ajuda nada a resolver os nossos problemas e eu também sei um pouquinho das dificuldades que a turma enfrenta lá em Brasilia, i.e. é mais fácil criticar do que consertar e isso não tem graça para mim.

Mas eu acabo de levar os guris no colégio e ouvia o Ricardo Boechat, craque da Bandnews, esculhambar o governo e ele inspirou este post. Os motivos:

  1. Governo promete mundos e fundos para apoiar ‘n’ setores com dificuldades de liquidez e/ou com consumo cadente. Como: via financiamentos da Caixa, do BB, BNDES e compulsórios do Banco Central (caso de bancos médios e pequenos). Tudo certo.
  2. Só que o custo dessa ajuda é altíssimo, a começar pela taxa básica de juros (13,75%), a SELIC, que é a taxa de juros real mais alta do mundo. Fora o spread, que no caso dos bancos públicos até que são razoáveis (apenas para o padrão local!). Só que os demais bancos estão cobrando muito mais, pois a liquidez está escassa no sistema como um todo. Tudo errado.

O ativismo governamental está centrando fogo nos seguintes focos da crise:

  1. Limitar a falta de liquidez de bancos pequenos e médios (na marra)
  2. Reativar setores (“cadeias produtivas”) importantes para o emprego
  3. Incentivar o consumo da população – em especial da baixa renda

Só que, como de hábito, Fazenda e Banco Central atuam como inimigos na trincheira. Parece que o BC realmente não acredita que haverá uma forte retração econômica no país, ao mesmo tempo que, por outro lado, teme que há um processo inflacionário recalcitrante a ser atacado com força.

Se pensarmos que a recessão que galopa rapidamente é um incêndio, a Fazenda se comporta como o bombeiro zeloso, mas o BC brinca com o isqueiro no meio do incêndio. Já o BC acha que incêndio mesmo é a inflação. Então, dá-lhe jato d’água e pó químico, enquanto a Fazenda prepara-se para jogar mais lenha no fogaréu.

Existe um processo inflacionário, não há dúvida, pois a desvalorização do real foi brutal e certamente haverá repasse do custo inflado dos produtos importados. E não há evidência alguma que o câmbio voltará a um patamar próximo de R$ 2,00. Em 2009, será de R$ 2,20 pra cima, na minha opinião.

Agora… o governo liberar a torneira de liquidez de um lado e o mesmo governo cobrar caríssimo por essa mesma água parece-me um equívoco. Parece-me que o “chefe” dos senhores Mantega e Meirelles deveria chamá-los para uma “conversinha”.

Reparem que 6 meses – sim, é só isso – atrás, o fantasma global era a inflação em função dos altos preços das commodities. Naquele período, nosso BC foi exemplar ao iniciar um vigoroso processo de alta de juros, enquanto os demais bancos centrais titubeavam. O nosso Henrique Meirelles foi festejado em todos os fóruns internacionais. Quando o vento mudou de lado – e não há dúvida de que mudou lá e aqui – os outros BCs foram vigorosos em dobro, derretendo suas taxas de juros, mas aí o nosso – que historicamente tem viés altista – resolveu ser triplamente cauteloso.

O momento pede uma outra abordagem.

Saudações e um bom dia a todos.

Fernando

PS: hoje tem Fernando Blanco no Conta Corrente, do canal Globonews, às 20:30. Não percam! Promessa de grandes revelações!! 🙂

Hoje fui muito perguntado sobre a razão de ser dessa Medida Provisória (MP): se havia algo de esquisito nela, se algo estava ocorrendo no mercado bancário, etc.

O link abaixo, do Ministério da Fazenda, traz um comentário bastante genérico da mesma.

http://www.fazenda.gov.br/

A MP trata de três temas:

  1. Dá poderes ao Banco do Brasil (BB) e à Caixa Econômica Federal (CEF) para comprarem bancos com dificuldades de liquidez.
  2. Permite que a CEF crie empresa de participações acionárias para que possa comprar construtoras/incorporadoras em dificuldade (seria a CaixaPar, num conceito muito similar ao BNDESPar).
  3. Autoriza o Banco Central a realizar operações de SWAPs em países detentores de moedas de alta conversibilidade.

O item 3 não me parece controverso, pois apenas agrega mais um instrumento de gestão de trading de moedas para a mesa de operações do Banco Central. Normal, bacana, pronto.

Agora, as duas primeiras…achei-as desnecessárias e questionáveis. Quanto à aquisição de bancos pelo BB e pela CEF, eu digo:

  1. Lançar mão desse tipo de expediente e dizer que “não há ninguém quebrado”  (Ministro Mantega) é achar que as pessoas são alienadas. Especialmente por fazê-lo após forte injeção de liquidez e outras medidas voltadas à aquisição de carteiras de crédito de bancos de pequeno e médio portes.
  2. Na verdade, o governo passou recibo de que (a) as medidas anteriores não funcionaram, (b) sim, os tais bancos continuam precisando de dinheiro e (c) talvez a situação não tenha retorno (“paciente terminal”).
  3. O que de fato estará acontecendo? O governo quis criar um mecanismo de pressão para os bancões comerciais comprarem logo esses banquinhos “antes que o governo o faça”?  Terá o governo feito isso porque quer se livrar logo do problema (do redesconto)? Ou será que é porque o Banco do Brasil quer aumentar sua participação de mercado?
  4. Sabemos que os bancos em apuros não sobreviverão sem mudança de controle acionário e/ou venda substancial de suas carteiras. Conforme já disse antes, não me consta que tais bancos tenham problema de solvência (i.e. carteira de crédito ruim), mas sim de liquidez. Porém, talvez as negociações com possíveis/prováveis compradores não estejam ocorrendo em boa ordem.
  5. Corre no mercado que quando o finado Banco Santos entrou em colapso, aconteceu um episódio idêntico a este, i.e. o Banco Central chamou os bancões e os teria “aconselhado” para comprarem as carteiras de crédito dos pequenos. Assim foi feito e logo em seguida tudo voltou ao normal, etc.
  6. Mas, aparentemente, teriam havido alguns ‘acordos de cavalheiros’ entre certos bancos que assim que a poeira baixasse o banco X compraria o banco Y e assim por diante. Diz a ‘lenda urbana’ que alguns bancos a serem vendidos fugiram do acordo, teriam pedido mais do que valiam, etc.
  7. Como alguns bancões teriam ficado na mão, estaria agora ocorrendo uma retaliação. Fofocas, meus caros, rumores, nada de concreto, mas é impressionante como tudo se encaixa direitinho…

Vários “analistas” de mercado logo trataram de dizer que essa MP bagunçou a cabeça dos investidores, que trouxe volatilidade para a bolsa, etc. Minha opinião? Bobagem! Mas que gera um ‘frisson’ desnecessário, isso gera. Se eu sou o governo, só emitiria uma medida dessas se fosse para testá-la no ato, i.e. já comprava logo uns dois bancos!

Concluindo esta parte, essa Medida Provisória reforça a tese defendida no blog: no Brasil, banco algum quebra tão cedo.

Quanto à CEF poder comprar participações em construtoras/incorporadoras, olha, não tenho palavras. Meu post de ontem foi bem direto. É Operação Hospital”… E logo esse governo que tanto falou do PROER, acaba de lançar dois de uma vez só! E feita pra gente pequena que deveria se acertar no mercado, pois traz baixo risco sistêmico. Vai dar o que falar!

https://blogdocredito.wordpress.com/2008/10/22/construcao-civil-mais-um-subprime-verde-amarelo/

Saudações, Fernando