Amigos, este post estava incubado há meses. O top favorite blog do Brad Setser sempre fez “marcação serrada” na economia chinesa, mas como seus posts são mais densos, eu sempre deixava para outro dia.

Muita gente inteligente e bem intencionada pregava, ao longo de 2008, que a China e os BRICs compensariam a queda no consumo e na produção do mundo rico. Eu fiquei com esta impressão durante boa parte do ano passado, mas já havia jogado a toalha quando as exportações chinesas começaram a cair no último trimestre de 2008 e o PIB deles cedeu para “apenas” 8% de crescimento.

Xeretando a web, porém, deparei-me como este texto curtinho do Wall Street Journal, que, para melhorar, trata da essência deste blog: a nobre arte do Crédito. Pois é, a China está com problemas de crédito também.

“Lenders fear Chinese insolvencies

HONG KONG — Foreign lenders who rushed into China in recent years are watching nervously as a number of companies there teeter on the brink of insolvency. Their worry: The nation’s bankruptcy laws may leave them with virtually nothing.

Several big Western investors — Citigroup Inc., hedge-fund manager Citadel Investment Group LLC, Credit Suisse Group and CLSA Capital Partners — are seeking to get back between $100 million and $200 million in loans extended to a Chinese steelmaker, according to people familiar with the matter. While they might recoup some of the money under a restructuring, a liquidation could wipe …

Detalhe: Chinês, assim como brasileiro, não está acostumado a emprestar e a se endividar. Isso é coisa recente por lá e, na primeira virada da economia, a turma está se atrapalhando para gerenciar a situação. Aqui, porém, as regras e as relações financiador – financiado são mais claras e estáveis do que na China – e isso faz muita diferença na hora da inadimplência!

Uma breve história da China – a China é uma encicloplédia de desequilibrios, pois os tem de todos os tipos. Aliás, o país só existe da forma que conhecemos graças à mão de ferro do Partido Comunista, que administra tudo por lá: da cotação da moeda, à ocupação da terra (no campo e nas cidades), ao custo da bala que a família do executado tem de pagar, etc.

Um destes imensos desequilibrios, construídos ao longo destes 20 anos de crescimento meteórico, é o fato da tão festejada  indústria chinesa ter sido projetada e construída para atender APENAS o resto do mundo. Em outras palavras, ela é mega-dimensionada se for para atender apenas o pequeno (ainda que crescente) consumo do cidadão chinês. Sucede que o mundo parou e está com o freio de mão puxado. E aí a indústria chinesa não tem para quem exportar e, portanto, não precisa produzir tanto.

Resultado: milhares (sim, várias milhares) de fábricas fechadas e muitas dezenas de cidades-fantasmas, que nasceram e cresceram em torno daquelas fábricas voltadas à exportação (e que agora fecharam).

As empresas chinesas, muitas delas montadas em parcerias com multinacionais americanas e européias (principalmente), estão endividadas porque estavam crescendo rapidamente: e dá-lhe necessidade de crédito para capital de giro, assim como crédito para os investimentos para expansão das fábricas e estrutura logística.

O lado trágico: parou de vender, parou de entrar caixa, parou de pagar dívida. E tem a retroalimentação: aumenta a inadimplência, reduz-se a oferta de crédito e os juros aumentam automaticamente.

A minha Coface, que segura os pagamentos entre empresas no mundo todo, opera forte na China e Hong Kong. As perdas com crédito empresarial aumentaram muito lá também. A coisa está cinza, bem cinza na China. E não se esqueçam: China crescendo 5% a.a. é equivalente ao Brasil crescendo 0% (zero porcento).

Pacote de Estímulo Made in China – vocês hão de lembrar que quando virou moda, no final do ano passado, todos os governos anunciarem algum tipo de pacote fiscal (foi a 1a. safra destes pacotes, pois agora estamos na 2a. safra destes – muito maiores!), os chineses se apressaram em anunciar um “PAC Made in China” no valor de USD 585 bi. Foi um auê sem limites na mídia mundial e local também. Aí começaram a surgir os comentários cínicos: os chineses simplesmente estariam reempacotando outros projetos já orçamentados, i.e. tinha pouca ou nenhuma novidade/dinheiro novo. Alguns chamariam isto de farsa, mas deixa o radicalismo pra lá.

Olha o que saiu na Bloomberg desta 4af:, palavras do Premier Wen Jiabao:

We face unprecedented difficulties and challenges,” Wen told delegates to China’s parliament in Beijing today. The nation needs to “reverse the economic slide as soon as possible,” he said, without announcing an increase to the government’s 4 trillion yuan ($585 billion) stimulus package.

Até Tú, Confúcio?! Sim, até ele…

Abs, FB

Amigos, este post é dedicado aos – e inspirado pelos – amigos da  Monitor Investimentos e do Armando Pinto, que havia nos enviado dois comentários bastante pertinentes.

1. Que crise é essa

# É uma Crise de Crédito, na origem e no seu desenrolar.

# A Crise se iniciou por conta de crédito mal dado, por excesso de confiança.

# A Crise se multiplicou por conta da toxidade da securitização e derivativos.

# A Crise se perpetuou por conta da falta de crédito, por desconfiança generalizada.

# Falar em crise econômica, crise financeira e outras menos cotadas é incorreto.

2. E a Crise de Confiança?

# Confiança não é algo que se discute tecnicamente, pois é emocional. Mas…

# Bancos e investidores perderam a confiança no proprio sistema.

# Empresas perderam a confiança na capacidade da economia reagir: não investem.

# As famílias perderam a confiança no emprego, então pararam de consumir.

# Bancos não emprestam por não confiarem na economia e em seus balanços

3. A visão dominante para a solução

A macroeconômia nos ensina que demanda agregada é Y = C + I + G + (X – M), onde:

  • C = Consumo das famílias, depende de confiança, crédito e renda
  • I = Investimentos da empresas, depende de confiança e crédito
  • G = Gastos e investimentos do governo, depende da política fiscal
  • (X – M) = Balança Comercial do país
  • X = Exportações, depende do câmbio, crédito e da demanda internacional
  • M = Importações, depende do câmbio, crédito e da demanda doméstica

# Como dá para notar, “C”, “I” e “X” sofrem por falta de confiança e de crédito. “M” estará comprometido por conta do dólar caro no Brasil e da recessão doméstica que está se instalando aos poucos – e graças a Deus!

# Isto posto, só o Governo (“G”)  tem força para fazer a economia ‘pegar no tranco’. É por isso que o Presidente Obama lutou muito para que seu pacote de USD 787 bilhões fosse aprovado (ele queria USD 825 bi). É por isso que, para o Presidente Lula, tudo é PAC. E até a China lançou um pacote – fajuto, segundo muitos – de mais de USD 500 bilhões em obras. Na China e no Brasil, todo e qualquer programa ou obra fica “batizado” de pacote de estímulo ao crescimento (o nosso tem nome, PAC, e até mãe, a Dona Dilma).

# O que os governantes se propõe a fazer é construir ou reformar tudo o que puderem, visando gerar empregos, para que as pessoas voltem a gastar. Só isto – e com uma forcinha de redução e devolução de impostos (estilo Bush) – é que fará as empresas voltarem a produzir. Note que, por estarmos em Economia de Depressão, baixar os juros não é suficiente para que as empresas voltem a investir ou as pessoas a consumir (pois o medo do desemprego é alto).

# Qual é a mágica? Para cobrir os imensos deficits fiscais que surgirão, os governos provavelmente cobrarão mais impostos de quem pode pagar, e desonerar quem está na pior. Tais deficits terão de ser cobertos por investimentos estrangeiros (e.g. da China, do Oriente Médio) em títulos do governo americano ou haverá impressão de moeda, com risco futuro de inflação.

O Brasil – temos um belo, e agora inútil, superavit primário, mas um mega deficit quando adicionamos os juros da dívida público. Se a recessão pegar firme no país e o governo quiser debela-la com gastos públicos, terá que reduzir os juros da dívida governamental (SELIC pra baixo ou calote parcial) ou imprimir reais. Nenhuma solução simples.

As obras do Pacote de Estímulo de Obama e do PAC de Lula visam:

  • Gerar emprego e renda para o trabalhador.
  • Recuperar a sua confiança no emprego e na capacidade de consumir.
  • Em função disto, a indústria retomará a sua confiança e investirá.
  • Em função de tudo isto, os bancos retomam a confiança na economia.

Mas…ainda falta limpar o sistema financeiro (Americano, pois o nosso está bem), para que este, além de retomar a confiança, tenha capital para voltar a emprestar. Mas isso fica para o próximo post, ok?!

Abraços e bom domingo a todos.

Fernando

Mais um lote de previsões, desta feita por conta de Dani Rodrik, professor de Harvard e especialista em economia internacional (o blog dele está aqui ao lado). Aproveitem! Abraços diretamente da Bahia (blogueiro em mini-férias!)

  • “O mundo estará procurando por uma nova ordem econômica internacional, mas a desordem virá primeiro…” [brilhante!]
  • “Os 4 fatores abaixo é que determinarão o quão ruim será o ano de 2009” [ele não tem dúvida que será ruim…]

Os 4 fatores de Dani Rodrik:

  1. A política econômica de Obama será suficientemente arrojada? Apesar de Obama et al anteciparem um grande estímulo fiscal ‘keynesiano’, Rodrik diz que é preciso ir além para restaurar a confiança do consumidor americano (e do europeu, do japonês). Assim como os bancos não estão emprestando por falta de confiança, o trabalhador que teme ser demitido também não gasta. Ele sugere ações para preservar o emprego. [esta é novidade: não li ou ouvi ninguém dizer nada a respeito]
  2. A Europa se organizará? A Europa poderia ser a grande vencedora num momento em que os EUA estão severamente feridos e tendo que arrumar a própria casa. Mas, para tirar proveito dessa situação, os países líderes da União Européia deveriam demonstrar e praticar um mínimo de união em torno da proposta de estímulo fiscal. E esta é a última coisa que estão fazendo, lamentavelmente. [correto – acho que o fim do mandato semestral da França na UE, com Sarkozy, será negativo para o processo, pois agora assume o inexpressivo presidente checo]
  3. A China vai se aguentar? Rodrik nos conta que a China tem um mundo de tensões e fraturas no tecido social, prontas para explodir se uma crise econômica se instalar no país. Ele sabe que cada analista estima um crescimento mínimo necessário para manter a China estável (6%? 7%? 8%?…). Ele está negativo e acha que o governo chinês não terá sucesso em manter ‘a panela de pressão’ perfeitamente fechada em 2009. [assustador!]
  4. Haverá suficiente cooperação global? – sua tese é que quando a situação nacional é emergencial, a cooperação internacional sofre. O FMI se reposicionou e está emprestando dinheiro de curto-prazo para quem precisar. E, lamentavelmente, o Organização Mundial do Comércio (a OMC) perdeu o momento com o que ele chama de irrelevante Rodada Doha. A OMC deveria focar-se nas intenções do G-20 que, recentemente, hipotecou compromisso para manter o comércio internacional com um mínimo de barreiras. [fácil discursar, difícil executar]

E encerra com mega-sinismo: “Eu desejei Feliz Ano Novo?”

Looking forward to 2009?

It will be a watershed year, ushering a new world economic order–with the disorder most likely coming first.  I just don’t have the foggiest idea what this new order will look like.

It will be a time when we will all have to change our tune and have to think out of the box. I for one will worry more about growth in the advanced countries than in the developing world, will be warning against the dangers of protectionism, will be singing the praises of the IMF (if its recent actions and pronouncements are a guide), and will fret about too much state intervention. Changing times require changing lines…

Here are four things that will determine how much doom and gloom is yet to come:

Will the U.S. policy response be “bold” enough? Barack Obama has promised that it will be, echoing at least part of FDR’s famous call for “bold, persistent experimentation” at the height of the Great Depression in 1932. In particular, he will need to go beyond Keynesian policies of fiscal stimulus to heal the deep wounds to economic confidence that lie at the root of the present crisis. So far, confidence-building measures have been limited to financial markets,  but the needs of Main Street are no less important. Workers who worry about being laid off are unlikely to go on a spending spree regardless of how much money fiscal stimulus puts in their pockets. Just as banks are hoarding cash, households will try to preserve wealth by increasing their saving. To counter this, incentives targeted directly at preserving employment will have to be part of the solution.

Will Europe get its act together? This could have been Europe’s moment. After all, the crisis originated in the U.S. and left American policy focused on its domestic troubles, opening up room for global leadership by others. Instead, the crisis has demonstrated the deep divisions within Europe—on everything from financial regulation to the requisite policy response. Germany has dragged its feet on fiscal stimulus, stymieing what should have been the second leg of a globally-coordinated fiscal action plan. Alas, the best that can be hoped at this stage is that Europe will not undermine the global fiscal stimulus which even the International Monetary Fund—the guardian of fiscal orthodoxy—regards as absolutely essential.

Will China hold together? China is a country of enormous tensions and cleavages beneath the surface, and these will find more occasion to erupt into open conflict in difficult economic times. Experts on China differ in their estimate of the rate of economic growth the country needs to create employment for the millions that flock into its urban areas every year. But it is virtually certain that China will fall short of this threshold in 2009. The question is whether policy actions to date will do enough to stem a socially and politically dangerous slowdown in the economy.  Whichever way the Chinese leadership responds, future generations may remember 2009 less for its global economic and financial crisis than for the momentous transformation it will have caused in China.

Will there be enough global economic cooperation? When domestic needs become paramount, global economic cooperation suffers. But the costs of protectionism in trade and finance are especially large at moments like these. So far the International Monetary Fund has reacted with new-found vigor, establishing a much-needed short-term lending facility and warning against too little fiscal stimulus. The World Trade Organization, meanwhile, has wasted valuable time on the irrelevant Doha round. It should have focused its efforts on monitoring and implementing the commitment made by the Group of 20 countries not to raise trade barriers.

Did I say happy new year?

Caros,

Muito antes dessa crise começar, este humilde escriba já discutia, ou melhor, falava sozinho, sobre a relação simbiótica entre a China e o EUA e seus efeitos sobre o resto do mundo. À época, quando apenas N. Roubini acreditava que uma crise econômica estava em formação, minha única e imensa preocupação era com a sustentabilidade desta “parceria”. Por que:

  1. A China crescia e inflacionava a economia mundial aceleradamente.
  2. Por conta desta “inflação importada” o nosso BC subiria os juros, desacelerando a economia, gerando uma crise de crédito local.
  3. A devastação ambiental – no mundo – crescia na mesma velocidade dos PIBs.

Pois foi para minha grande surpresa, que, hoje, ao ler o blog de Brad Setser (ver ao lado), eu descobri que os economistas Niall Ferguson e Moritz Schularick haviam cunhado o termo Chimérica, em função da simbiose entre China e EUA.

Chimérica = China + América!!

Está provado e comprovado que o modelo “chimérico” é o responsável “por tudo isso que está aí”. Resumindo:

  1. A China mantém a sua moeda, o renminbi (RMB), artificialmente desvalorizado e indexado ao dólar.
  2. Desta forma, os chineses puderam inundar os EUA (e o resto do mundo) com seus produtos.
  3. Ao mesmo tempo em que a China acumulava massivas reservas em dólar, os EUA produziam déficits comerciais.
  4. A conta fechava na medida que o People’s Bank of China (o BC deles) investia substancial parte das suas titânicas reservas em U.S. Treasuries, emitidos pelo BC americano, o FED.
  5. Como conseqüência, a abundante oferta de capital (chinês) puxou as taxas de juros nos EUA para um nível baixíssimo.
  6. E juros tão baixos uniram a “fome” dos bancos “com a vontade de comer” dos investidores, pois ambos tinham baixa rentabilidade.
  7. A saída encontrada, sustentada pela percepção geral de que o mundo entrara num círculo de crescimento virtuoso, foi estimular a construção civil e o devedor hipotecário, incluindo os maus devedores.

O resto é história…

Esse processo foi retro-alimentado por uma onda de investimentos de empresas americanas (e européias…e até brasileiras) na China, todas ávidas por aproveitarem mão-de-obra e moeda de baixo valor. Isso gerou a maior e mais rápida transferência de tecnologia e renda já experimentada na história da humanidade.

Só que o resultado foi um repentino aumento na alavancagem dos EUA, aqui incluindo o Estado, empresas e famílias, de 250% do PIB para 350%. Um assombro!

Chimericans – o conceito é divertido, além de instrutivo. Ele define que a Chimérica é dividida em West Chimerica (Chimérica do Oeste) e East Chimerica (Chimérica do Leste).

Os Chimericans do Oeste são ricos e hedonistas, enquanto que seus compatriotas do Leste são pobres (com renda per capita de apenas 16% daqueles do Oeste). Os do Oeste são especialistas em administração, finanças e marketing, enquanto que os do Leste dominam engenharia e manufatura.

Sucede que os Chiméricos do Oeste não poupam e gastam mais do que têm de renda, sendo forçados a complementá-la a partir da captação de empréstimos garantidos pela 2ª hipoteca de suas belas casas. Já os parcimoniosos Chiméricos do Leste poupam 1/3 da sua renda. O engraçado (e funesto) é que essa poupança vai direto para a Chimérica do Oeste para financiar os hábitos consumistas dos seus cidadãos.

Esse processo foi, aos poucos mas consistentemente, transferindo empregos do Oeste para o Leste, assim como transferência de riqueza.

Concluindo, os autores advogam que Chimérica, ou China e EUA, formaram uma autêntica União Econômica, ainda que sem uma União Monetária – similar ao arranjo entre Reino Unido e a Zona do Euro.

Genial, não?!

O texto abaixo traz a saga de Chimerica no original.

http://www.jfki.fu-berlin.de/faculty/economics/persons/schularick/chimerica.pdf

Abaixo segue o texto de Brad Setser, onde ele advoga que nos últimos dois anos a Europa também entrou no “esquema” e teria criado a sua própria Chieuropa.

http://blogs.cfr.org/setser/2008/12/19/chieuropa/#more-4211

Abraços, F.

As últimas 24 horas provaram que quando os governantes querem não falta dinheiro! Os “neo ativistas” prometem imprimir dinheiro quando e quanto precisar!

Listemos alguns pacotes de maior destaque, que foram lançados entre ontem e hoje:

I) Plano Paulson II – A missão: USD 800 bilhões, para facilitar o crédito, i.e. USD 600 bi para compra de títulos garantidos pela Fannie Mae e Freddie Mac; USD 200 bi para dar liquidez via operações de “repo” com quem tiver Collateralized Debt Obligations (CDO) com lastro em ativos não hipotecários.

http://www.nytimes.com/2008/11/26/us/politics/26paulson.html?_r=1&hp

II) União Européia: EUR 200 bilhões para ações fiscais, visando estimular as economia da UE.

http://www.nytimes.com/2008/11/27/business/worldbusiness/27global.html?pagewanted=1&_r=1&hp

É dinheiro que não acaba mais.
Mas pegando carona num ótimo artigo do Financial Times (FT), os governantes ativistas tornaram-se “machos” (expressão do jornal !!) na prática de anunciar mega-medidas.
O FT nos diz que tornou-se banal falar-se em “trillions, schmillions” de estímulo fiscal, resgate de bancos, seguro para bancos e devedores quebrados. E isso tudo porque os governos já identificaram que as economias não estão simplesmente entrando numa recessão. O fato assustador é que eles sabem que esta não é uma recessão comum: estamos em “economia de depressão”, como dizem Paul Krugman (Prêmio Nobel, Princeton, etc.) e Brad Setzer (do Foreign Council).

A China já fala em 7,5% de crescimento para 2008. Era 11%, caiu para 10%, 9%…e até onde irá? Na Europa já se fala “2009, o ano perdido”. Nos EUA, a cada resultado estatístico que é divulgado, bate-se um novo recorde (negativo). Nem nos Jogos Olímpicos os recordes caíam com tamanha facilidade.

Alguns temas para reflexão:

  1. Os governos fazem barulhentos discursos quando anunciam seus pacotões, mas não deixam claro que boa parte de tais ajudas já estava prevista! Exemplo: dos USD 590 bi de ajuda chinesa, aparentemente só 25% é de dinheiro novo.
  2. E como aqui comentou o Rodrigo, e a inflação?!?! Imprime-se moeda sem constrangimento, mas isso gera inflação, certo?! OK, cada prioridade em seu momento, mas… o engraçado que não se imprime dinheiro para acabar com a miséria, né?!
  3. E o resultado dessas ações também não está gerando resultados, certo?! Normal. Existe um enorme intervalo de tempo entre o anúncio das medidas e o momento em que elas viram demanda agregada. Mas seria bom que a imprensa tomasse nota das datas dos anúncios e monitorasse as realizações.
  4. Os sistemas econômico e financeiro estão desorganizados como nunca estiveram e os governos vêm apanhando (e aprendendo) muito neste processo. Acho que um grande problema é que não querem agir muito fora da cartilha. Mas a porta já arrombou, moçada…
  5. O mundo lá fora já aprendeu que dar dinheiro para os bancos tem apenas evitado uma quebradeira sistêmica. Até agora não ajudou em nada a atividade econômica. Os governos se mobilizam para investir diretamente na economia real. E neste quesito nosso governo tem sido pra lá de tímido. Temos o PAC, mas ele não demonstra gerar os resultados que todos esperamos.
  6. Seria tão mais fácil se Mantega & Meirelles se entendessem e reduzissem impostos e juros…

Dream on…

É isso aí. Abs, F.

“News of the China stimulus and AIG revamped bailout was diluted by ongoing earnings carnage in the financial sector,” according to analysts at Action Economics.”

Olha a chamada do Investor’s Watch (ver Blogroll) de agora há pouco! Traduzindo: “Notícias do estímulo chinês e aumento do pacote de salvação da AIG foram diluídas pela carnificina dos resultados do setor financeiro.”

Definitivamente, eu tento não ser negativo – até a pedido de vários amigos deste blog. Apesar de achar o Nouriel Roubini um tremendo economista, o apelido de “Roubini Brasileiro” não me é exatamente reconfortante…

Dois posts atrás eu dizia da ineficiência das iniciativas “ATIVISTAS” dos governos. Olha que a China injetar quase USD 600 bilhões em sua economia é uma senhora notícia! Mas que nada, tem tanta má notícia sendo divulgada – e ainda a divulgar -, sem falar nos ‘esqueletos’ que ninguém sabe exatamente quais e quantos são, mas que todo mundo sabe que existem aos montes por aí…

É isso por hora…

Abraços, F.

ENTREVISTA: FABIO BARBOSA
Crédito cresce de maneira ordenada no país
Para presidente da Febraban, presão salarial pode dificultar freada da inflação
GUILHERME BARROS
COLUNISTA DA FOLHA
O presidente da Febraban (Federao Brasileira dos Bancos) e do Santander no Brasil, Fabio Barbosa, 53, afirma que os bancos brasileiros estão preparados para trabalhar com volumes crescentes de empréstimos e juros decrescentes.

O que é necessário, a seu ver, é melhorar o sistema de informação sobre as pessoas para os bancos terem mais segurança ao concederem empréstimos.

Por isso, considera importante a aprovação do cadastro positivo de crédito (informações compartilhadas sobre bons pagadores) pelo Congresso. “Os bancos teriam mais possibilidades de ampliar a inserção social das camadas que ainda não estão consumindo ou tomando dinheiro emprestado”, diz.

Sobre a redução recente dos índices de inflação, Barbosa afirma que esse fato é extremamente positivo, mas ele acha que é cedo para apostar todas as fichas nessa queda. O grande problema, segundo ele, será a pressão dos salários.

 

>FOLHA – A crise global vai afetar o Brasil?
FABIO BARBOSA – Sempre acaba afetando um pouco, mas acho que o grande determinante será a economia chinesa. Ela tem um peso muito grande na economia mundial e continua crescendo num ritmo forte. Há 30 anos que a economia cresce a uma média de 10% ao ano e há 29 anos nós dizemos que esse ritmo de expansão não é sustentável. Muita gente acha que a China vive muito das exportações para os EUA, o que não se comprova pelos números. A China vai produzir, neste ano, por volta de 8 milhões de automóveis e não exporta carros para os mercados americano e europeu. É só mercado interno. Nós temos dificuldades em compreender a extensão do mercado interno chinês. A desaceleração que se fala da China que o crescimento vai cair de 11,9%, que foi a expanso em 2007, para 9,5%, neste ano. Ou seja, na média dos 10%.

FOLHA – Não é uma contradição o Banco Central continuar subindo os juros se a inflação está em queda?
BARBOSA – Olha, esse um assunto delicado. A inflação está mostrando sinais de desaceleração, o que é muito bom. Estamos vivendo agora uma época de reajustes salariais e é importante que eles não contaminem a economia e dificultem esse processo de desaceleração de preços. Por isso, é positivo o fato de o governo estar atento e segurar um pouco a economia, para que não haja repasse de custos para os preços finais.
FOLHA – Mas a alta dos juros não pode frear o crescimento?
BARBOSA – No corremos o risco de vôo de galinha. O governo está atento a isso, até porque o BC agiu de forma firme, na hora em que precisou agir. As contas públicas estão sendo gerenciadas já há bastante tempo de forma responsável. Esse risco não existe. O preço da previsibilidade é a eterna vigilância.
FOLHA – Os números da economia do Brasil são bastante positivos, mas os juros no país ainda são incompatíveis para um país que quer fazer parte do Primeiro Mundo. Por que juros tão altos?
BARBOSA – Já vi vários estudos de pessoas que se dedicaram ao assunto muito mais do que eu e não foram capazes de explicar por que a economia brasileira só se equilibra numa taxa de juros mais elevada de que as dos demais pases. O fato é que, quando a taxa começa a cair e atinge patamares internacionais, a economia tende a ficar muito aquecida, em descompasso com a sua capacidade de produção, e, nessa hora, os juros voltam a subir. Mas, ainda assim, os juros hoje estão muito mais baixos do que que já estiveram no passado. Trabalhar com juro real de um dígito é uma grande novidade para o Brasil. Estamos na direção certa, mas ainda precisamos mais para que possamos manter o ritmo de crescimento da economia acima de 5%.

FOLHA – Os bancos esto preparados para uma queda dos juros?
BARBOSA – Essa pergunta já vem sendo feita desde a época do Plano Real. Na época do Plano Real, algumas instituições tiveram dificuldade, mas a resposta para essa pergunta é que os bancos estão preparados para trabalhar com volumes crescentes de emprsétimos e taxas de juros decrescentes. O que é necessário, na medida em que você trabalha com juros mais baixos, na medida em que você vai atingindo outras camadas da população, que as instituições tenham um sistema de informação melhor, e por isso que eu insisto na importância de instrumentos como o cadastro positivo. Daria para os bancos oferecerem ainda mais possibilidades de promover a inserção social dessas camadas que ainda não estão consumindo ou tomando dinheiro emprestado.

FOLHA – Mas os bancos ainda ganham muito com os juros?
BARBOSA – Os bancos estão cada vez mais ampliando suas carteiras de crédito para compensar a queda nas aplicações em títulos públicos. E esse crescimento do crédito que tem viabilizado essa expansão da economia, além de também estar aumentando a rentabilidade dos bancos. A instituição está cumprindo o seu papel. O banco existe para três razões. Para proteger e rentabilizar a poupança das pessoas; para financiar o consumo e o investimento; e para prestar os servios de pagamentos e recebimentos da sociedade. E os bancos estão fazendo isso.

FOLHA – A rentabilidade dos bancos brasileiros foi duas vezes maior do que a dos americanos neste ano. Só a crise financeira explica essa diferena?
BARBOSA – Os bancos americanos, assim como muitos da Europa, vêm apresentando problemas desde meados do ano passado. São problemas sérios e felizmente o sistema bancário brasileiro no está passando por isso. A rentabilidade maior dos bancos brasileiros é, portanto, uma boa notícia. Não deveria merecer preocupação. Na medida em que os bancos têm problema de rentabilidade, até de perda, eles começam a reconsiderar um pouco seus planos de expansão dos empréstimos. Emprestam menos. Ao emprestarem menos, isso condiciona um crescimento menor da economia. Esse é o primeiro preço que a sociedade paga. O banco tem menos apetite para crédito e isso segura o crescimento econômico. Isso já está acontecendo nos Estados Unidos, na Europa e no Japão. O efeito multiplicador de uma crise bancária é muito maior do que o efeito multiplicador de uma crise provocada por um setor industrial ou qualquer outra atividade de serviço. É por isso que, em muitos casos, o governo tem que socorrer algumas instituições financeiras, como ocorreu recentemente no Reino Unido. Quer dizer, acaba se usando dinheiro público para isso. É por isso que deveríamos buscar sempre as condições para que o sistema financeiro continue forte. Sistema financeiro fraco implica um problema para o crescimento da economia.

FOLHA – O sr. vê com preocupao esse crescimento do crédito no Brasil ao ritmo de 30%?
BARBOSA – Não. O crédito vem crescendo de maneira ordenada, em cima de operações de crédito consignado, que acho que foi a modalidade que mais se expandiu, e de financiamento de veculos, que são feitos a prazos compatíveis de 36, 48 meses. As operações de veículos que são feitas com prazo acima disso são pouquíssimas, não são representativas. O crédito imobiliário também está se expandindo, após a melhora do arcabouço jurídico. Eu não vejo preocupaço maior. O que acho necessário é a aprovação do cadastro positivo pelo Congresso. O que é cadastro positivo? Cadastro positivo é um projeto que vem sendo trabalhado para permitir que o sistema financeiro tenha melhores informações sobre o cliente para poder tomar decisões melhores sobre os empréstimos.