Amigos,

Quem acompanhou este blog durantes os dias agudos da crise sabe bem que eu sou fã do Paul Krugman, professor de Princeton e Prêmio Nobel.

Pois ontem eu tive a experiência única de almoçar com ele durante a Expo Management, onde ele foi um dos convidados top. É que a Coface fechou um acordo com a HSM, que promove a Expo Management, e ofereceu um almoço com Paul Krugman para 40 clientes, que puderam fazer perguntas, debater. Uma experiência única para todos, de fato.

E por conta da minha posição na empresa pude “tietar” o nosso palestrante à vontade. 🙂

Algumas conclusões:

  1. O cara é uma simpatia e bastante simples – nada de “super star”!
  2. Como ele mesmo me disse, é bem mais baixo do que a gente espera. 🙂
  3. Como todo ser inteligente demais e com muita informação na cabeça, ele demonstra uma certa dificuldade para organizar as idéias para responder perguntas de…”mortais” como eu e você.

Ele me disse que após 2 dias no Brasil estava com o espírito mais otimista.  Só que como ontem mesmo voaria de volta para os EUA, para participar de uma reunião com o Grupo de Assessores Econômicos de Obama, em Washington,  seu otimismo voltaria ao normal rapidamente, i.e. pessimista…

O ano vai chegando ao fim e posso me orgulhar de uma coisa boba: em 2009 eu tive encontros reservados com dois (dos 30) assessores econômicos oficiais de B.Obama. Primeiro foi com o Keneth Rogoff, em janeiro, e agora com o Krugman.

Quando comentei este fato, ele me respondeu: “Rogoff has been doing a great analytical work, but he is more negative than I am”. É que Rogoff acredita que a economia americana andará de lado durante 10 anos (crescendo ao redor de 1% a.a.).

A seguir, leiam a visão de Paul Krugman neste link da Expo Management.

Abraços, F.

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Caros – destaco reportagem do jornalista Leandro Modé, do Estadão de hoje, que trata dos calotes que os exportadores brasileiros vêm levando. Este humilde escriba é citado, pois a minha Coface vem segurando parcela considerável destes calotes.

A situação é feia, pois os calotes não vêm de países da “periferia”, mas do Reino Unido, Alemanha, Itália, etc.

Não bastasse isso, nossos empresários enfrentam mercados enfraquecidos pela crise – e competição desigual com a China, que desova seus produtos a preço de banana – e ainda tem o câmbio jogando contra.

Eu realmente não me conformo com a liberdade que o governo dá para que investidores internacionais invadam nosso mercado, baguncem a taxa de câmbio e a economia real, para depois zarparem ao primeiro sinal de crise – bagunçando tudo e novo.

Crédito – os bancos que dão crédito para exportadores estão de olho, e não é de hoje, para a geração de caixa destas empresas. Estas devem ficar atentas e explicar direitinho a sua situação, antes que percam o crédito.

Com a minha simpatia para os nossos valorosos empresários, que buscam mercado lá fora, abraços! F.

Amigos,´

É com satisfação que divido com vocês esta entrevista que o meu CEO, o francês Jerome Cazes, deu para o jornalista Fernando Dantas, do Estadão, e que foi publicada hoje.

Minha leitura é que ele tem uma visão levemente positiva para a crise mundial, ainda que deixe claro que há espaço para mais uma derrapada traiçoeira (e esta viria do lado dos bancos americanos!).

Eu o acho um sujeito diferenciado, que domina uma massa de informações sem igual, e sugiro a leitura.

Abraços e boa semana! F.

Caros – você já devem ter lido neste blog alguns comentários pouco elogiosos que faço a certos “analistas” que mudam de idéia (e projeções) como mudam de roupa. Pois bem, eu não sou analista mas também sou obrigado a fazer algumas projeções para a minha matriz, na França.

Somos uma seguradora de crédito, com necessidades específicas de entendimento. Não precisamos acertar “a asa direita do mosca verde”, como acontece com o pessoal que opera com bolsa e futuros.

Enfim como não há nada de excepcional nas nossas projeções, assim como não há nada que meus concorrentes possam ler aqui que eu não falaria para eles durante um almoço, resolvi dividi-las com vocês.

Talvez sirva como curiosidade, em especial pela forma pouco “ortodoxa” que eu as comunico. Projeções deste tipo, em momentos como estes que vivemos, não podem ser levadas “tão a sério” e tem muito “analista” que se leva muito a sério…

Abaixo a tradução do que mandei para Paris, nesta última 6af.

1. Estado Geral da Economia:

Estimamos um crescimento próximo de zero, não nos surpreendendo se for levemente negativo. No Brasil, não temos propriamente uma crise macroeconômica clássica, haja visto que os fundamentos gerais da economia estão bem.

Temos sim uma sucessão de crises microeconômicas, geradas por duas causas principais:

  • Redução do comércio internacional, com consequente queda nas exportações (em volume e preço).
  • Redução da oferta de crédito: (a) internacional, que afeta o financiamento do comércio exterior brasileiro e grandes projetos em andamento, (b) doméstico, por conta da redução do apetite de risco dos bancos que operam no Brasil, que afeta o capital de giro das empresas.

2. Setores Impactados

Diferentente de muito países, os bancos brasileiros mostram-se saudáveis e reduziram sua exposição a risco justamente pelo perfil conservador que sempre tiveram. No momento, os setores mais afetados parecem ser:

  • Setores exportadores com dificuldade para redirecionar sua produção para o mercado interno (e.g. mineração, aço)
  • Construção civi e sua cadeia
  • Bens de capital, máquinas e equipamentos
  • Bens de consumo durável, de alto valor agregado e demandador de financiamento
  • Certos setores do varejo que estavam estocados em excesso no Natal e agora encontram dificuldade para rolar suas dívidas.

3. Inadimplência

Tanto os sinistros de crédito declarados à Coface, como os indicadores divulgados pela SERASA e outras entidades, demonstram uma aceleração da inadimplência. Na nossa visão, esta ainda vai piorar nos próximos 2 trimestres, antes de vermos uma reversão deste quadro.

4. Variáveis Macroeconômicas

  • Câmbio: é baixo o risco de uma nova maxidesvalorização do real frente ao dólar. O pior já passou. Atualmente, a taxa anda ao redor dos R$ 2,25 e poderá flutuar até R$ 2,50, salvo se uma nova hecatombe de más notícias surgir.
  • Juros: a tendência dos juros básicos (SELIC) é de baixa, podendo atingir 10% ao final deste ano (não acredito em menos do que isso em 2009). Mais complexa é a análise dos juros cobrados pelos bancos, pois aí dependemos do apetite de risco destes. A tendência é de queda, porém mais lentamente do que a queda da SELIC.
  • Crédito: continua restrito para empresas e famílias que não demonstram com transparência sua situação financeira e formas de repagamento do empréstimo. Mas já notamos um pequeno movimento de distensão, ainda que seja na direção de empréstar mais para os agentes que precisam menos (“flight-to-quality”).
  • Déficit e Dívida Pública: o país vem mantendo suas contas em constante superavit primário, mas este quadro tende a se modificar, agora que a arrecadação caiu. De qualquer forma, o Brasil nunca enfrentou maiores problemas para financiar sua dívida interna, em reais, até porque faltam outras opções de aplicação para os investidors domésticos.

É isso. Obrigado + abraços,

Fernando

PS: esta minha visão, por mais honesta que seja, tem tanta chance de estar errada como qualquer outra. Portanto, fiel seguidor de Blog, não se anime a sair tomando decisões de vida por conta destas projeções.

Retorno de uma jornada de dois dias em Brasilia. Foi uma viagem rica, pois conversei com muita gente boa e senior, dos setores público e privado. Deu para sedimentar algumas visões importantes, as quais divido com os amigos:

I. A Origem da Crise do Crédito no Brasil

  1. Ela NÃO começou no dia 15 de setembro de 2008, quando o Lehman Brothers quebrou nos EUA.
  2. Ela APENAS se desnudou naquele momento.
  3. A inadimplência já subia consistentemente naqueles dias, só que era mascarada pelo crescimento dos ativos de crédito na economia.
  4. Já estava claro para muitos bancos que haviam emprestado mais do que deviam para gente/empresas que não tinham estofo para tamanho endividamento.
  5. A quebra do banco americano, com o consequente corte nas linhas externas, apenas acelerou o processo voraz de corte de linhas.
  6. Isto retroalimentou o processo de inadimplência já em curso.
  7. Agora que o estoque de crédito não cresce mais, a inadimplência não pára de crescer (em reais e na proporção do estoque de crédito).

II. Perspectiva da Crise de Crédito no Brasil

  1. A morosidade para a retomada do crédito no Brasil, não se dá, portanto, em função da recessão que está aqui instalada.
  2. Se dá – e continuará se dando – porque os bancos estão – e continuarão – ajustando seus portfolios de crédito. Em outras palavras, reduzirão o crédito para muitos clientes, cobrarão integralmente os empréstimos de outros tantos, etc.
  3. O Fabio Barbosa (CEO Santander/Real e Febraban) já disse – com propriedade – que o crédito não voltará a ser o que era antes, pois não há funding disponível para tanto tomador de crédito. Ele não disse e eu complemento, que não haverá oferta de crédito para muita gente, simplesmente porque os bancos e financeiras (e seguradoras de crédito) aprenderam que estes tomadores não eram suficientemente sólidos.

Portanto, concluo que a retomada do crédito – e da atividade econômica como um todo – se dará de forma mais lenta e gradual. Mas, se Deus quiser, de forma mais consistente.

III. Outras histórias/conclusões tiradas da minha viagem

  1. Senti preocupação séria por parte dos maiores bancos financiadores do comércio exterior brasileiro.
  2. Não me foi dito explicitamente, mas macaco velho cheira estas coisas: espera-se algumas grandes perdas de crédito no mercado. Outro dia o grande frigorífico Independência entrou em recuperação judicial. Senti que gente bem maior, neste e em outros setores, terão problemas.
  3. Há tempos eu brinco (sério) que todas as empresas tomarão um belo calote de um cliente que jamais imaginariam. Parece que eu não sou o único a acreditar nisto…
  4. Bom saber que o Banco do Brasil não parece ter problemas de funding. Mas caiu a demanda por linhas, porque cairam as exportações e o valor destas (principalmente das commodities).
  5. Outra coisa que venho ouvindo de bancos em geral: “Funding tem, o que não tem é bom tomador de crédito“. Os bancos estão muito refratários e tem a ver com o item  I deste post. E eu os entendo, porque aqui na Coface o volume de sinistros (i.e. empresas que dão calote nos meus clientes) cresceu barbaramente!
  6. O exportador brasileiro gostaria de tomar linhas de longo-prazo, para arrumar o seu passivo bancário, só que não há linha longa disponível, muito menos apetite dos bancos em oferecê-la.
  7. Outro fator: muitos exportadores estão sem ‘lastro’ para novos financiamentos curtos (ACC’s-ACE’s). Tomaram linha demais e não estão exportando suficiente. Isto é muito ruim.

É isso. Cautela e canja de galinha quando o assunto é crédito: seja dando prazo nas suas vendas, ou contando com o crédito para o seu capital de giro! Procure por linhas de crédito ANTES de precisar delas desesperadamente!

Abraços, Fernando

Amigos, este post estava incubado há meses. O top favorite blog do Brad Setser sempre fez “marcação serrada” na economia chinesa, mas como seus posts são mais densos, eu sempre deixava para outro dia.

Muita gente inteligente e bem intencionada pregava, ao longo de 2008, que a China e os BRICs compensariam a queda no consumo e na produção do mundo rico. Eu fiquei com esta impressão durante boa parte do ano passado, mas já havia jogado a toalha quando as exportações chinesas começaram a cair no último trimestre de 2008 e o PIB deles cedeu para “apenas” 8% de crescimento.

Xeretando a web, porém, deparei-me como este texto curtinho do Wall Street Journal, que, para melhorar, trata da essência deste blog: a nobre arte do Crédito. Pois é, a China está com problemas de crédito também.

“Lenders fear Chinese insolvencies

HONG KONG — Foreign lenders who rushed into China in recent years are watching nervously as a number of companies there teeter on the brink of insolvency. Their worry: The nation’s bankruptcy laws may leave them with virtually nothing.

Several big Western investors — Citigroup Inc., hedge-fund manager Citadel Investment Group LLC, Credit Suisse Group and CLSA Capital Partners — are seeking to get back between $100 million and $200 million in loans extended to a Chinese steelmaker, according to people familiar with the matter. While they might recoup some of the money under a restructuring, a liquidation could wipe …

Detalhe: Chinês, assim como brasileiro, não está acostumado a emprestar e a se endividar. Isso é coisa recente por lá e, na primeira virada da economia, a turma está se atrapalhando para gerenciar a situação. Aqui, porém, as regras e as relações financiador – financiado são mais claras e estáveis do que na China – e isso faz muita diferença na hora da inadimplência!

Uma breve história da China – a China é uma encicloplédia de desequilibrios, pois os tem de todos os tipos. Aliás, o país só existe da forma que conhecemos graças à mão de ferro do Partido Comunista, que administra tudo por lá: da cotação da moeda, à ocupação da terra (no campo e nas cidades), ao custo da bala que a família do executado tem de pagar, etc.

Um destes imensos desequilibrios, construídos ao longo destes 20 anos de crescimento meteórico, é o fato da tão festejada  indústria chinesa ter sido projetada e construída para atender APENAS o resto do mundo. Em outras palavras, ela é mega-dimensionada se for para atender apenas o pequeno (ainda que crescente) consumo do cidadão chinês. Sucede que o mundo parou e está com o freio de mão puxado. E aí a indústria chinesa não tem para quem exportar e, portanto, não precisa produzir tanto.

Resultado: milhares (sim, várias milhares) de fábricas fechadas e muitas dezenas de cidades-fantasmas, que nasceram e cresceram em torno daquelas fábricas voltadas à exportação (e que agora fecharam).

As empresas chinesas, muitas delas montadas em parcerias com multinacionais americanas e européias (principalmente), estão endividadas porque estavam crescendo rapidamente: e dá-lhe necessidade de crédito para capital de giro, assim como crédito para os investimentos para expansão das fábricas e estrutura logística.

O lado trágico: parou de vender, parou de entrar caixa, parou de pagar dívida. E tem a retroalimentação: aumenta a inadimplência, reduz-se a oferta de crédito e os juros aumentam automaticamente.

A minha Coface, que segura os pagamentos entre empresas no mundo todo, opera forte na China e Hong Kong. As perdas com crédito empresarial aumentaram muito lá também. A coisa está cinza, bem cinza na China. E não se esqueçam: China crescendo 5% a.a. é equivalente ao Brasil crescendo 0% (zero porcento).

Pacote de Estímulo Made in China – vocês hão de lembrar que quando virou moda, no final do ano passado, todos os governos anunciarem algum tipo de pacote fiscal (foi a 1a. safra destes pacotes, pois agora estamos na 2a. safra destes – muito maiores!), os chineses se apressaram em anunciar um “PAC Made in China” no valor de USD 585 bi. Foi um auê sem limites na mídia mundial e local também. Aí começaram a surgir os comentários cínicos: os chineses simplesmente estariam reempacotando outros projetos já orçamentados, i.e. tinha pouca ou nenhuma novidade/dinheiro novo. Alguns chamariam isto de farsa, mas deixa o radicalismo pra lá.

Olha o que saiu na Bloomberg desta 4af:, palavras do Premier Wen Jiabao:

We face unprecedented difficulties and challenges,” Wen told delegates to China’s parliament in Beijing today. The nation needs to “reverse the economic slide as soon as possible,” he said, without announcing an increase to the government’s 4 trillion yuan ($585 billion) stimulus package.

Até Tú, Confúcio?! Sim, até ele…

Abs, FB

O que dizer de uma semana que começa como esta:

  • A FIESP fala em 130 mil demissões na indústria paulista em 2008 – e na Globonews, o diretor Paulo Francini me pareceu realmente preocupado. O baque na indústria foi tão forte que o setor acabou o ano com menos empregados do que que começou – e olha que o ano foi muito forte!
  • O Serasa nos mostra números péssimos: a inadimplência de novembro ’08 vs ’07 aumentou a bagatela de 28%!! E o valor médio das dívidas bancárias não pagas também aumentou: 7%.

Naturalmente, esses números só irão piorar neste primeiro trimestre. As empresas viraram o ano estocadas, sem necessidade de produzir, até porque a demanda também caiu. E o caixa está apertado para todo mundo (e o crédito escasso). Isso vai gerar mais desemprego e este irá alimentar a inadimplência.

Este círculo vicioso só terá fim quando:

  • Ações de estímulo à produção e ao consumo fizerem efeito – e isto é com o governo
  • O crédito voltar a irrigar a economia real (empresas e famílias) – e isto é com o governo também, com os bancos estatais e finalmente com os privados (nesta ordem)

Coface – sabiam que a nossa seguradora registrou 122 avisos de sinistros em dezembro, contra uma média de 60 ao longo do ano? É outro indicador de quão ruim está o nível de atrasos nos pagamentos e a quebradeira na economia real.

É o fim do mundo? Por mais negativo que eu venha sendo – e acertando, infelizmente -, acho que estamos vendo o pico do processo de desemprego. As empresas precisam parar e ajustar as suas estruturas operacionais para o Brasil de…2006, talvez? Estimo que este processo vá até março. Isso gera comoção e uma grande desorganização na economia. Porém, em breve tudo se estabilizará, ainda que num patamar de produção e geração de riquezas mais baixos do que nos acostumamos nos últimos anos.

Calote – de qualquer forma, saiba que eu, você e todo mundo conviveremos com calotes inimagináveis. Aquela história do “eu conheço o meu cliente”...vai ter quebra grande, em vários setores. Quais? Não sei. Falo por experiência e lógica. Por que? Porque quero influenciá-los para que sejam cautelosos com crédito, só por isso!

Adiantamentos para fornecedores, construtoras, fabricantes de máquinas e similares são decisões de alto risco neste momento.

E lá fora – 70 mil anúncios de demissões. Até o meu ex-querido empregador ING, da Holanda, anunciou 7 mil cortes. Lá fora está pior que aqui, sem dúvida.

Chega por hoje…muito negativismo!

Abraços, F.