É o que nos conta, com ironia, Joel Nocera neste artigo do NYT.

O texto diz que as vítimas de Madoff foram, numa grande extensão, cúmplices deste charlatão. Alguns motivos:

  1. Muitos cacifaram toda (ou quase toda) sua poupança com ele. Pecado: não se concentra todo o seu dinheiro com um fundo independente, ou com um banco pequeno ou de 2a. linha. Ou põe tudo num grandão (quase) à prova de quebra, ou distribui em vários.
  2. Não se investe com NINGUÉM que faz a própria custódia e compensação financeira. Em outras palavras, você pode até correr o risco de má gestão de um gestor independente (*), mas não correrá o risco de investir num fundo que não tem papéis (ou tem menos do que deveria), ou ainda, que o seu pagamento irá para a conta pessoal do dono do fundo.

(*) não conheço nenhum estudo que demonstre que fundos de bancões ou de gestores independentes sejam melhores ou piores. O que discuto aqui é a questão do risco de contraparte.

Estas coisas básicas aconteceram aos zilhões no caso Madoff. E a SEC (que é a CVM dos EUA) deixou isso correr solto (principalmente o item 2, que deveria ser proibido) – não é à toa que a SEC está sendo processada por um monte de investidores!

Existe uma dramática lei do mundo dos negócios: só tem alto retorno quem corre alto risco. Não existe alto retorno com baixo risco. É como um pêndulo. Exemplos:

  1. “Um cliente que sempre comprou 10 unidades por mês resolveu comprar 100 agora”. Por que? Por conta dos seus olhos azuis? Mais provável que ele esteja querendo encher o estoque e aplicar um calote (nosso amigo Álvaro Stefani escapou de uma dessas outro dia!).
  2. “Um banco te oferece uma taxa de juros bem abaixo do mercado”. Assim, do nada? Bem, tem um derivativo acoplado que…ou tem uma cláusula no contrato que permite ao banco acelerar o repagamento se… – não tem almoço grátis nesta vida!
  3. “Um sujeito quer comprar algo seu, paga o dobro dos outros…mas quer um prazo de 12 meses para pagar”. Se paga tanto e pede tamanho prazo, é porque no fundo não quer pagar.
  4. “Financiamento de carros com juros quase zero”. Tá certo que as montadoras querem vender, custe o que custar, mas você deve sempre checar se o preço do carro não está encarecido por conta dos juros baixos. Muitas vezes o juro é baixo, mas o preço do carro (ou do imóvel, da bicicleta, etc.) está caro demais!

Conservadorismo x Arrojo x Crédito = esta é uma equação simples. Quando mais conservadorismo você conseguir demonstrar e comprovar, mais crédito conseguirá obter. Saiba que bancos não gostam de gente “esperta” e “arrojada demais”, que sempre sai ganhando. É gente de alto risco.

Eu já disse aqui neste espaço, que sou muito conservador com o meu suado dinheirinho. Ele dorme em paz, em fundo de renda fixa ou CDB de um grande banco. Também não compro nada a prazo. Choro por descontos e só compro o que posso pagar. Nunca ficarei rico. Nem pobre. Questão de estilo pessoal.

Se todo mundo fosse como eu o mundo cresceria 1% a.a. e o Brasil 3% a.a. A vida seria mais sem graça e com menos sobressaltos.

Abraços, F.

Caros – eu já ia desligar o computador e ir pra casa, mas trombei com dois temas que me animaram a ficar mais um pouco.

GMAC – o braço financeiro (leasing) da GM recebeu autorização do FED para virar banco, só para poder receber um ‘quinhão’ do pacotão de Paulson & Bernanke – os tais USD 700 bi, lembram-se? Pois bem, o agora GMAC Bank acaba de receber USD 6 bi. E para comemorar, anunciaram uma mega promoção – em conjunto com a montadora – para financiar veiculos. O Financial Times nos reporta que para várias linhas os juros serão 0% (atenção: lá é 0% mesmo, não como aqui!) e os critérios de aprovação serão “afrouxados”, segundo o porta-voz da companhia.

O Blog do Crédito diz o seguinte: já erraram – e muito – ao deixarem a GM chegar à beira da falência. Agora, despejam esta fortuna no seu banco para que este empreste para qualquer um! Qual será o objetivo deles? “Escapamos de quebrar por iliquidez na montadora, mas vamos quebrar por insolvência no banco!!”. Será que esse povo tem como meta e é pago para fazer bobagem?!

Crédito mal dado quebra empresa (lembram-se de varejistas como Arapuã, Casa Centro, etc.?) e bancos também (Nacional, Bamerindus, a lista é longa). A GM parece quebrar como empresa e como banco também. Ver o link abaixo:

http://www.ft.com/cms/s/0/fa819104-d679-11dd-9bf7-000077b07658.html?nclick_check=1

Lehman Brothers – o finado banco de investimento americano, cuja quebra iniciou tudo isso que está aí, volta às manchetes por querer mais prazo para apresentar o seu plano de recuperação da falência. O Lehman alega que o prazo dado inicialmente, janeiro/09, foi curto demais e agora pede uma extensão até julho/09.

Mas será que é tão complicado assim? Dêem uma olhada abaixo e no link:

  1. São 76 unidades do Lehman, espalhadas em 15 países diferentes (todos com contabilidade e legislações fiscais, trabalhistas, etc., específicas).
  2. Com a falência decretada (Chapter 11, nos EUA), foram cancelados a bagatela de 900 mil contratos de derivativos. Os que tinham a receber irão se ‘conformar’?…
  3. A Lehman já teria reconhecido USD 200 bilhões em dívidas para com seus clientes. Não se sabe o quanto poderá fazer de caixa, após vender seus negócios (duvido que chegue a USD 10 bi).
  4. Passados três meses, os funcionários, auditores, autoridades, etc., conseguiram recuperar apenas 50% dos dados e informações relativos ao processo…

http://www.bloomberg.com/apps/news?pid=20601087&sid=ajb9ng97Df4Y&refer=home

Essa imensidão de dívidas não pagas afeta brutalmente a vida de quem esperava recebê-las. Afinal, essas outras empresas e famílias também tinham outras dívidas para pagar e por aí segue o maior ‘efeito dominó’ da história do capitalismo!

Abraços,

Nem a lendária personagem do Verissimo, a Velhinha de Taubaté, acreditaria que o governo tomou todas aquelas medidas de ontem “só por precaução”.

Hoje eu tive a confirmação de que o “bicho vai pegar” no final do mês no tradicional “Comprados vs. Vendidos” na BMF… É, aquela história da Sadia que depois teve Aracruz e Votorantim, ainda não acabou…

É aquela coisa: se alguém levar um nocaute, o hospital já estará montado, com alvará de funcionamento, pronto para atender feridos da maior gravidade. Agora, acho que não fariam isso por conta de alguém pequenoserá que tem gente grande com risco de ser nocauteado?

Lembram do post de hoje cedo? Complementando, é assim:

  1. Os bancos não montaram posições especulativas. Não ficaram posicionados em dólar (“comprado” ou “vendido”).
  2. Mas os bancos venderam estruturas com derivativos de dólar para os seus clientes em quantias multi-bilionárias.
  3. Não era para acontecer, mas aconteceu: os clientes perderam rios de dinheiro…
  4. E muitas dessas empresas não querem pagar e estão renegociando (parcial ou integralmente, etc.).
  5. Voltando ao item 1 acima, os bancos haviam montado posições opostas no mercado (e.g. BMF), zerando sua exposição.
  6. Se o cliente não honra o pagamento devido no derivativo (como parece ser o caso agora), o banco fica em APUROS, pois ele deve um pagamento equivalente para a outra ponta.
  7. Isto é o que se chama de counterpart risk. Em outras palavras, o banco estava zerado no risco de mercado, pois comprou e vendeu riscos idênticos (no valor, no prazo, etc.).
  8. Mas para tudo dar certinho, os parceiros do negócio têm que honrar as condições do negócio. Como o credor do banco vai exigir sua parte, o devedor do banco também DEVERIA pagá-lo…
  9. Em condições normais, ninguém deveria quebrar por isso mas, pelo jeito, as quantias são tão bestiais que…vai saber…

Acompanhar o fechamento dos futuros de câmbio no final do mês será emocionante.

Scary, spooky!

Fernando

O link abaixo traz uma boa análise + alguns links, que ajudam a entender a motivação das autoridades americanas para salvar os bancos de Wall Street. Não entro na questão ideológica, mas na técnica apenas.

Atentem para um número: USD 62 trilhões é o volume de contratos (CDS) em aberto. Naturalmente, conforme expliquei num artigo anterior, o valor em risco é muito menor. Porém, acredita-se que este valor em risco é altamente concentrado em Bear Sterns, Lehman e outros que, segundo eu soube hoje, logo estarão em cartaz.

E o que isto tem a ver com o nosso crédito: estes bancos sempre foram os maiores underwriters do mercado de renda fixa (fixed-income bonds). Neste momento, nem eles nem seus investidores estão com “cabeça” para investir em países como o nosso. E isso atrasa a nossa vida. Os bancos comerciais internacionais, que correm imensos riscos de contraparte com eles, idem, porque não sabem o tamanho do prejuízo que os aguarda e estão todos sem apetite de risco.

O estrago na Europa é menor, mas é considerável também.

Oremos. Abraços, F.

http://www.rgemonitor.com/econo-monitor/253566/would_lehmans_default_be_a_systemic_cds_event

Este tema nos parece pouco usual no dia-a-dia das nossas vidas, mas há um alto potencial de ocorrência, principalmente para pessoas jurídicas.

O risco de contraparte, até como o nome sugere, envolve duas partes (ou mais). Porém, para surpresa de muitos, não envolve risco de crédito. Crédito é quando alguém adianta recursos, bens ou serviços para outra parte e esta não paga o valor devido na data do vencimento. Há uma perda potencial de 100% do valor em risco.

No caso do risco de contraparte a perda potencial é, em 99,9% das vezes, apenas parcial e depende da variação de preço do ativo negociado. Vamos aos exemplos:

1. O empresário contrata um corretor de imóveis para vender um galpão. O preço de mercado era de R$ 1 milhão. Por incompetência do corretor, várias propostas de negócios foram perdidas, porque o e-mail deste não funcionou durante a semana. Quando o problema foi descoberto, coincidentemente ocorre o lançamento de dois empreendimentos similares, na mesma região, derrubando o valor do tal galpão para R$ 800 mil. Esta perda de R$ 200 mil foi gerado pela contraparte e pode ocorrer numa infinidade de situações cotidianas.

2. Uma empresa importa uma máquina por US$ 1 milhão. Como ela não tem um centavo de vendas em USD, a empresa tem um descasamento cambial, i.e. tem receitas em reais e uma dívida em dolar, ficando exposta a perdas caso nossa moeda se desvalorize. Para minimizar este risco, ela fecha um derivativo com um banco (pode ser um contrato futuro na BMF, um opção, um swap, etc.). Ocorre que o trader lá na mesa de operações, muito mais preocupado com mega transações acima dos USD 100 milhões, acaba por esquecer de fechar a operação do nosso empresário. Quando se deu conta, no dia seguinte, o dolar tinha se valorizado contra o real em 2%. Moral da estória, nosso empresário pagou 2% a mais por conta da falha da contraparte.

Da mesma forma, há uma infinidade de operações financeiras que geram este tipo de risco. Todos devem estimar o risco potencial, determinar limites máximos por exposição com as contrapartes e controlar o risco ao longo da vida da operação.

Os bancos americanos de investimentos e toda a comunidade financeira internacional correm gigantescos riscos de contraparte uns com os outros. O mercado acredita que o Bear Sterns seria o banco que mais devia dinheiro para seus contrapartes – por conta de derivativos com papéis hipotecários – e seria por isso que o governo americano tanto fez que ajudou que fosse absorvido. Similar história ocorre agora com o Lehman Brother. A negociação está bem mais difícil.

Dúvidas, discordâncias, comentários, etc., são bem vindos. Abraços, FB

No melhor estilo Shakespeareano, a resposta é complexa e sujeita a visão política de cada um – e também da posição que você está no momento da quebra. Não há esquerdista, anti-capitalista, piqueteiro de porta de banco, que resista à tese da salvação se ele/ela estiver com o salário e sua poupança presos no banco que acaba de quebrar e prestes a perde-los.

Bom, tirando este “pequeno” casuísmo moral, discutamos questões técnicas:

  1. Bancão de varejo não deve quebrar, nunca, em lugar nenhum do mundo. Eles administram a poupança alheia e a sua terminação acarreta enorme desorganização no sistema de pagamentos e na vida das pessoas e empresas. A solução brasileira do PROER foi criativa e vencedora na ótica dos poupadores. Não foi perfeita, pois vários bancos sem ‘lastro’ acabaram absorvendo bancos quebrados e quebraram junto, pouco tempo depois. Sorte que, à época, muitos bancos estrangeiros queriam se estabelecer no Brasil e acabaram comprando-os, com e sem ajuda do PROER. Uma coisa é certa: banqueiros e altos executivos que praticam atos irresponsáveis devem ser processados na forma da lei.
  2. Instituições como as americanas Fannie Mae e Freddie Mac também não. São mistos de agências e bancos e garantem trilhões de empréstimos de outros bancos. Se quebram, desorganizariam todo o sistema financeiro americano. O fato de investidores do mundo inteiro terem investido em seus títulos e ações é o de menos. Falamos aqui de proteção para o sistema hipotecário, que se sustenta em torno destas duas mega organizações.
  3. Bancos de investimentos, como Bear Sterns (já absorvido pelo J.P.Morgan) e Lehman Brothers (que hoje está no olho do furacão), além de outros da mesma estirpe e que também estão mal falados: em tese, não há nenhum motivo social para que este tipo de banco seja preservado, afinal, sua estratégia de negócio é centrada em grandes operações estruturadas, fusões e aquisiçõe e mercado de capitais. E este tipo de negócio pode muito bem ser feito por concorrentes sobreviventes a esta hecatombe. Como eles não captam poupança do cidadão comum, nem fazem negócios com pequenas e médias empresas, não haveria nenhum motivo político para preservá-los. Então por que salvaram o Bear Sterns e tanto debatem sobre o Lehman? O nome técnico para a dúvida que paira no ar chama-se Counterparty Risk. Cálculos preliminares apontam que se os bancos de investimentos de Wall Street deixarem de honrar os derivativos que têm em aberto, centenas (várias) de bancos americanos quebram junto.

Voltarei ao tema de Counterparty Risk mais tarde. De qualquer forma, ficaremos na dúvida, pois não temos acesso aos números destes bancos – e creio que nem eles mesmos o tenham, afinal, juntar as planilhas de Excel de centenas de traders dá um trabalhão…

Abraços, Fernando

PS: este texto é lastreado no conhecimento adquirido por este escriba, ao longo de 15 anos de Risk Management e uma meia-dúzia de crises deste tipo, só que com magnitudes menores (graças a Deus…).