Amigos, este post é dedicado aos – e inspirado pelos – amigos da  Monitor Investimentos e do Armando Pinto, que havia nos enviado dois comentários bastante pertinentes.

1. Que crise é essa

# É uma Crise de Crédito, na origem e no seu desenrolar.

# A Crise se iniciou por conta de crédito mal dado, por excesso de confiança.

# A Crise se multiplicou por conta da toxidade da securitização e derivativos.

# A Crise se perpetuou por conta da falta de crédito, por desconfiança generalizada.

# Falar em crise econômica, crise financeira e outras menos cotadas é incorreto.

2. E a Crise de Confiança?

# Confiança não é algo que se discute tecnicamente, pois é emocional. Mas…

# Bancos e investidores perderam a confiança no proprio sistema.

# Empresas perderam a confiança na capacidade da economia reagir: não investem.

# As famílias perderam a confiança no emprego, então pararam de consumir.

# Bancos não emprestam por não confiarem na economia e em seus balanços

3. A visão dominante para a solução

A macroeconômia nos ensina que demanda agregada é Y = C + I + G + (X – M), onde:

  • C = Consumo das famílias, depende de confiança, crédito e renda
  • I = Investimentos da empresas, depende de confiança e crédito
  • G = Gastos e investimentos do governo, depende da política fiscal
  • (X – M) = Balança Comercial do país
  • X = Exportações, depende do câmbio, crédito e da demanda internacional
  • M = Importações, depende do câmbio, crédito e da demanda doméstica

# Como dá para notar, “C”, “I” e “X” sofrem por falta de confiança e de crédito. “M” estará comprometido por conta do dólar caro no Brasil e da recessão doméstica que está se instalando aos poucos – e graças a Deus!

# Isto posto, só o Governo (“G”)  tem força para fazer a economia ‘pegar no tranco’. É por isso que o Presidente Obama lutou muito para que seu pacote de USD 787 bilhões fosse aprovado (ele queria USD 825 bi). É por isso que, para o Presidente Lula, tudo é PAC. E até a China lançou um pacote – fajuto, segundo muitos – de mais de USD 500 bilhões em obras. Na China e no Brasil, todo e qualquer programa ou obra fica “batizado” de pacote de estímulo ao crescimento (o nosso tem nome, PAC, e até mãe, a Dona Dilma).

# O que os governantes se propõe a fazer é construir ou reformar tudo o que puderem, visando gerar empregos, para que as pessoas voltem a gastar. Só isto – e com uma forcinha de redução e devolução de impostos (estilo Bush) – é que fará as empresas voltarem a produzir. Note que, por estarmos em Economia de Depressão, baixar os juros não é suficiente para que as empresas voltem a investir ou as pessoas a consumir (pois o medo do desemprego é alto).

# Qual é a mágica? Para cobrir os imensos deficits fiscais que surgirão, os governos provavelmente cobrarão mais impostos de quem pode pagar, e desonerar quem está na pior. Tais deficits terão de ser cobertos por investimentos estrangeiros (e.g. da China, do Oriente Médio) em títulos do governo americano ou haverá impressão de moeda, com risco futuro de inflação.

O Brasil – temos um belo, e agora inútil, superavit primário, mas um mega deficit quando adicionamos os juros da dívida público. Se a recessão pegar firme no país e o governo quiser debela-la com gastos públicos, terá que reduzir os juros da dívida governamental (SELIC pra baixo ou calote parcial) ou imprimir reais. Nenhuma solução simples.

As obras do Pacote de Estímulo de Obama e do PAC de Lula visam:

  • Gerar emprego e renda para o trabalhador.
  • Recuperar a sua confiança no emprego e na capacidade de consumir.
  • Em função disto, a indústria retomará a sua confiança e investirá.
  • Em função de tudo isto, os bancos retomam a confiança na economia.

Mas…ainda falta limpar o sistema financeiro (Americano, pois o nosso está bem), para que este, além de retomar a confiança, tenha capital para voltar a emprestar. Mas isso fica para o próximo post, ok?!

Abraços e bom domingo a todos.

Fernando

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Olá – eu ia escrever sobre câmbio, exportações e assemelhados, mas após ler com atenção o Estadão de  hoje, fui tomado por irresistível desejo de escrever sobre o consumo das famílias – importantíssimo elemento da demanda agregada da economia e, portanto, peça fundamental para o crescimento econômico.

Começo por meu próprio exemplo – ontem, dia 29 de novembro, eu comprei a minha primeira TV de tela plana (uma Toshiba, 37 pol., LCD). Eu devia ser o ÚNICO alto executivo do Brasil que não tinha NENHUMA TV de plasma ou LCD. E não é que faltem televisores na minha casa (somos uma família de 5 pessoas). É que até bem recentemente todos os aparelhos funcionavam  bem o suficiente. Para que trocar, então?  Bom, o aparelho do meu quarto perdeu a qualidade e então motivei-me pela troca.

E o pagamento? Logicamente, à vista! Mas com todos os descontos que a boa negociação em dias de crise permite. Mas sem cair no ridículo que alguns praticam, num processo que mistura auto-humilhação e ameaça ao vendedor.

De volta ao jornal de hoje: a página 11 do caderno B de Economia está impagável. Não sei se o Editor fez de propósito, mas ela traz apenas duas matérias: uma entrevista da correspondente internacional (na China) Cláudia Trevisan e a tradicional coluna do lendário jornalista econômico Alberto Tamer. Quanta disparidade num espaço tão pequeno!

O entrevistado foi o economista Michal Pettis, professor da Universidade de Pequim, que escreveu VERDADES, como:

  • “O excesso de produção da China era consumido pelo excesso de demanda americana”
  • “Havia certo equilíbrio [na equação acima], mas ele era insustentável”
  • “O consumo privado nos Estados Unidos não vai aumentar”
  • “As famílias precisam poupar mais e consumir menos”

Já a coluna do senhor Tamer, apesar de nos dar uma boa dica de consulta ( www.time.com/mail_of_america ), concluiu da seguinte forma:

  • O que resta? Esperar que o consumidor americano siga comprando e consumindo cada vez mais, gastando USD 13 trilhões por ano [nde: equivalente ao PIB americano]. Assim, eles poderão continuar importando dos países que, ameaçados pela recessão, não tem mais para quem vender o excesso do que produzem”

Deus meu! Parece comentário de Mesa Redonda de futebol, de final de domingo. Virou torcida! E já que comparei economia com futebol, a fala dele é equivalente a esta abaixo, muito minha:

  • O que resta? O Santos FC ganhar hoje do Atlético e domingo próximo do Náutico, torcer contra todos os 12 clubes que estão na nossa frente na tabela do campeonato, para sermos campeões”

Desculpa Fernando “Santista Roxo”  Blanco, mas fica pro ano que vem, tá bom? Afinal, é matematicamente impossível o Santos FC sequer se classificar para G-4 da Libertadores, quanto mais ser campeão! O mesmo vale para a “análise” (i.e. torcida) econômica do articulista. É impossível que o americano compre/consuma USD 13 trilhões por umas 10 razões irrefutáveis que não tratarei neste post, mas que ele deveria bem saber. OK, darei a dica da mais óbvia: FALTA CRÉDITO!!!

E o jornal de hoje segue em frente com o caderno. Aliás, trazendo a reprodução de um artigo, publicado no The New York Times, escrito por Stephen Roach, chairman do conselho do Morgan Stanley para a Ásia. Apesar do Sr. Roach ser “sócio” da imensa crise que vivemos, pois é um senior officer de uma instituição-chave do capitalismo financeiro internacional, ele escreveu um artigo perfeito. Destaco:

  • O título da matéria: “Depois da orgia do consumo”
  • O subtítulo: “Os americanos precisam economizar”
  • “Eles [os americanos] não precisam de mais uma TV de tela plena fabricada na China”
  • “…aquela estratégia [consumir demais e se endividar demais] fracassou por completo”
  • “Não surpreende que o consumo tenha caído de forma tão acentuada”

Olha, não tenho nenhum prazer em tripudiar em cima do jornalista, mesmo tendo ele sido de uma infelicidade só comparavel com outros artigos dele mesmo. Nestes, mais antigos, sua frase favorita era “o pior já passou”, ou “os EUA estão prontos para dar a volta por cima e comandar a virada…”.

Ora, viés tem limite. Otimismo tem limite. Se eu, que “cismei” – desde o início – que a crise é séria for levado a sério pelos meus 15 leitores não fará muita diferença no agregado. Mas alguém que conta com espaço nobre num jornal de tamanha circulação… é inaceitável.

Mas pior mesmo é o Presidente Lula que vem num discurso irresponsável de “não parem de consumir”. Eu não sigo o “conselho” dele. Presidente algum deveria jogar gasolina na fogueira, instruindo que os menos favorecidos (que o escutam) sigam para o abatedouro do endividamento é… francamente… Deixa pra lá.

Tem que gastar quem pode gastar, quem tem poupança para enfrentar a adversidade, quem tem emprego minimamente estável, renda adequada para o gasto, pouca ou nenhuma dívida. E fecho com o exemplo dos…americanos: sim, eles mesmos! Acordaram e agora, nos EUA, só está vendendo a loja que oferece mega descontos.

Abraços, F.