Duas estrelas, ainda que de constelações e em momentos de vida diferentes, estiveram na mídia desta 3af.

1. F.Barbosa

Aqui no Brasil, o Estadão traz ótima entrevista, do D.Friedlander e do L.Modé, com o Fabio Barbosa (Presidente da Febraban e do Santander) – pena que o Estadão tenha metido um cadeado na versão eletrônica. Com sua desconcertante educação e franqueza, o Fabio está saindo-se cada vez melhor na hercúlea tarefa de humanizar o satanizado mercado financeiro brasileiro.

Reproduzo (i.e. digito) o destaque da versão imprensa:

“A sociedade não quer aceitar, mas o crédito não vai voltar a ser como antes. O que se faz? Busca-se um culpado. Não vai voltar, não adianta. Foi o excesso de crédito que criou o problema de crédito que temos hoje. Não tem dinheiro para todo mundo. O crédito está voltando, mas não como antes. Cobrem do Bush, do Obama, mas não de mim. As empresas que antes pegavam dinheiro no mercado internacional agora estão pegando aqui dentro. Não tem dinheiro para todo mundo. Agora, se a minha carteira de empréstimos está crescendo, como é que alguém pode dizer que o banco não está emprestando? É lógico que estamos emprestando.

 2. Alan Greenspan

Já o Financial Times traz o outrora eudeusado – e agora achincalhado – Alan Greenspan. Ele (eu e em breve até a Torcida Jovem do Santos) concorda com a NACIONALIZAÇÃO dos bancos americanos. O diferente da análise de Greenspan é que ele sugere que os senior bondholders (alguém que comprou um título/ação preferêncial) sejam preservados, sob pena desta modalidade de investimento ficar desacreditada no mercado, dificultando futuras captações dos bancos.

3. A Visão do Blogueiro

O Fabio tem toda razão no que diz. No entanto, a bronca é outra e como não foi perguntada (ou publicada), ele não respondeu, ao menos diretamente. Ele deixa claro – e eu concordo – que falta funding para o estoque de credito que havia antes do Big Break (“A Grande Freada”), mais a demanda adicional que ele cita, i.e. tomadores, como Petrobras, que passaram a disputar os centavos disponíveis comigo e com você, amigo do blog.

Então, os bancos, com mais jeito ou truculência, acabam reduzindo ou cortando as linhas de quem eles acham que:

  1. Representa risco demais para o seu capital – culpa da crise.
  2.  Não é um cliente tão relevante assim – culpa da limitação de funding.

Lembram do filme A Escolha de Sofia? É só isso, os bancos estão fazendo “escolhas de Sofia” diariamente.

O corte de linhas é forte, me dizem empresários e amigos dos próprios bancos. E se o volume de crédito cresce é porque estão emprestando mais para as grandes empresas (que tomavam dinheiro lá fora) do que estão cortando dos pequenos e médios, de mim e de você. Portanto, no consolidado o crédito cresce, mas na pulverização ele piora. Aliás, o Henrique Meirelles usou este mesmo argumento para dar a entender que o “crédito está se normalizando”. Não está. Uma coisa é uma coisa; outra coisa é outra coisa. Acho que o H.Meirelles podia ter ficado sem essa, pois não ajudou em nada a biografia dele…

E o que acontece quando a oferta de crédito (ou de tomate, pasta de dente ou minério de ferro) é menor do que a demanda? O preço sobe, não é?! Pois é, spread é o nome do preço do dinheiro. É só por isso que o spread bancário andou subindo, apesar da SELIC ter caído.

Esta é um fotografia fidedigna do quadro atual. Soluções possíveis ficam para um próximo post, mas não há nada muito heterodoxo para se inventar, lamentavelmente…

Saudações, FB

PS: este post acabou solapando o recém publicado L.C.Mendonça de Barros, Bad Bank, Good Bank . Vale a pena conferir, pois foi baseado numa dúvida de um amigo do blog.

Prezados,

Na noite desta 5af, o canal 40 da TV a cabo foi inundado por dois FB’s, Fernando Blanco (eu) e Fabio Barbosa (Presidente dos bancos Santander e Real, além da Febraban). Eu fui entrevistado no programa Conta Corrente e o Fabio o foi num Globonews Painel, com a Miriam Leitão no comando.

Foi uma overdose de crédito, juros e crise econômica. Só faltou terem recomendado que pessoas com propensão à depressão se medicassem (com Prozac, Eufor, Efexor, Cymbalta, etc.) antes do “show” ou que saissem da sala.

20:30 – Conta Corrente, com F.Blanco: Discussão geral sobre as condições de mercado, crédito, exportações, etc. Ressalto o que lá disse:

  1. Ninguém sabe, nem tem como estimar, como esta crise irá se desenvolver ou terminar. Esta é uma crise genuinamente de crédito e ninguém sabe como lidar com ela.
  2. Existe mais torcida do que propriamente técnica, quando dizem “no segundo semestre a coisa vai melhorar”.
  3. Os maiores bancos do mundo estão em crise e sem condição de retomar os financiamentos.
  4. Desta forma, as principais economias do mundo não conseguem se reerguer.
  5. Investidores – em ações ou empresas – perderam muito dinheiro e sem financiamento – antes abundante – também não conseguirão estimular as economias (em especial as emergentes).
  6. Grandes empresas também sofreram forte baque e adiaram investimentos produtivos.
  7. O cidadão americano está endividado em excesso, sem credito e com a confiança em baixa (europeus e japoneses idem, salvo o fato que seu endividamento é mais baixo).
  8. O Brasil só ter sua situação melhorada quando as seguintes situações acontecerem: (a) houver uma retomada do crédito bancário, (b) a economia mundial se aquecer (melhorando comércio exterior e fluxo de investimentos para o mundo emergente). Quando? Jogue um tarot, ou buzios, para descobrir e depois me conte.
  9. Vivemos de esquizofrênia credíticia no país, pois o mesmo conservadorismo dos bancos, que nos fez sofrer menos nesta crise e que nos fará acelerar mais rapidamente ao final da mesma, agora atrapalha o quadro econômico, pois os bancos conservadores não emprestam como se esperaria. Moral da história: é melhor não emprestar e ter o sistema financeiro sólido, ou emprestar errado e depois ver-se deteriorado na hora da ‘re-largada”?

21:30 – Espaço Aberto, com Fabio Barbosa: Se no meu programa a coisa correu solta, sem embate, neste programa a Miriam Leitão tinha uma missão: arrancar do Presidente da Febraban “uma confissão de que os spreads são altos mesmos”. Ela tentou pra valer, foi por vezes indelicada, não deixava ele concluir o raciocínio, usou e abusou de vídeos que batiam nos bancos, jogou o peso de décadas (umas duas e meia apenas) de militância no jornalismo econômico e…

  1. Não arrancou a tão desejada confissão. Mas tentou com galhardia. Poucos jornalistas teriam sido tão incisivos como ela foi – sem medo algum de ‘perder a fonte’.
  2. É impossível brigar com o Fabio, porque ele não briga. É educado demais! Eu o apelidei de Dalai Lama do mercado financeiro um dia – acho que falei isso pra ele um dia.
  3. O Fábio nos antecipou algo muito positivo: a Febraban passará a informar os juros cobrados por cada instituição financeira.
  4. Adorei quando ele comparou a dinâmica de “compra” de dinheiro (i.e. empréstimo) com a compra de uma geladeira. Em minhas exageradas palavras, eu quis dizer o seguinte: quando o Warren Buffet e o engraxate dele vão tomar um café ali na esquina, os dois pagam o mesmo preço pelo café. Mas se os dois forem até uma agência do Bank of America pedir um empréstimo de USD 1.000, por 180 dias, Mr. Buffet pagará juros bem mais baixos do que o engraxate. Dinheiro é uma das únicas “mercadorias” em que o preço muda dependendo do comprador e que o vendedor (i.e. o banco) até se recusa a vender. Outro negócio que tem esta mesma natureza é o seguro. É porque crédito e seguro têm risco embutido na essência da transação e o risco muda de cliente para cliente – simples.
  5. Ela não perguntou e ele não abordou: (a) funcionamento do comitê de crédito do banco; este sim é o fórum que dá a direção para onde o banco seguirá no crédito, (b) por que tem empresa que paga até 3 vezes mais spreads do que outra, do mesmo porte e setor? (c) o que o cliente do banco pode fazer para pagar menos juros…belas oportunidades perdidas!

Espero que os videos funcionem – estou com dificuldade para assistir o do Espaço Aberto – porque foram bem legais.

Por favor, critiquem, comentem, etc. Abraços, F.

Caros,

O nosso BC não cansa de surpreender o país! Lá estava eu em Paris, cercado de gente importante a elogiar o Brasil, dizendo que éramos os mais preparados para enfrentar a crise… e olhe que a gringolândia se baseava no fato de que aqui “nem era necessário baixar os juros, como no resto do mundo”.

E de repente, não mais que de repente, vem o choque: COPOM derruba os juros em 1%. Assim, à vista, sem prestações! Até me engasguei com o croissant!!

Lembram, quando todos clamavam por uma redução da SELIC por conta da crise, o BC a aumentou; agora que todos achavam que a taxa cairia o,5% eles socaram 1%! Acho que existe uma banda de pagode chamada Só pra Contrariar, não é?! Taí, pode ser o apelido do COPOM… 🙂

O lance agora é apreciar como isso irá atingir os juros na ponta (aquele que pagamos). Os bancos – a maioria, pelo menos – já anunciou mini-reduções na taxa mensal (que compõe 1% de redução na taxa anual). Esta redução se dá na “tabela cheia” que o gerente enxerga na tela dele. A taxa que nós pagamos pode e deve ser mais baixa do que esta. Mas às vezes é até mais alta… se você marcar bobeira, prepare-se para pagar o que o gerente quiser! Atenção: ele não faz isso por ser sádico ou malvado, mas porque tem que atingir metas de resultado e isso é o problema dele; o seu é brigar por juros menores.

A história mostra que os juros (i.e. os spreads) cairão mais lentamente do que a SELIC. A tendência é que este processo seja ainda mais lento agora, por conta da crise de confiança que toma conta do nosso e de todos os sistemas financeiros do mundo.

O Valor Econômico deste final de semana, em matéria de Fernando Travaglini, traz a manchete “Incerteza mantém spread elevado”. Vamor reler e dar mais precisão a esta manchete: “Incerteza quanto à capacidade de repagamento das empresas aumenta o conservadorismo dos comitês de crédito e, portanto, reduz a oferta de crédito, sendo que este fato reduz fortemente o poder de barganha dos tomadores de crédito, permitindo que os spreads se mantenham elevados”. É só isso… ou melhor, tudo isso.

Nesta matéria, o economista-chefe da FEBRABAN, Rubens Sardenberg (irmão mais novo do famoso jornalista da CBN e da Globo Carlos Alberto) saiu-se bem ao dizer – de forma direta – que o cenário é incerto e que a queda da SELIC não significa que os spreads cairão. Gostei! Parabéns! Eu já disse isso aqui: os mercados financeiro e  segurador (em geral) tem que aprender a dar más notícias de forma transparente. Acho que é a mão do Fabio Barbosa na FEBRABAN, mudando o estilo da casa.

BB, CEF, BNDES, BNB e BASA – no embalo do COPOM e na necessidade de dar uma resposta à sociedade civil, o Presidente Lula reuniu seu alto comando econômico e os Presidentes dos bancos federais, para dar-lhes uma ordem: os bancos estatais tem que sair na frente na guerra pela redução dos juros e do spread bancário.

Já abordei este tema aqui. Juros não caem por decreto, nem no grito. Os executivos e gerentes desses bancos tem metas a cumprir – e bônus a receber pelo seu devido cumprimento. Outro ponto: depois, se esses bancos lucrarem menos que os privados, vão cair de pau neles dizendo que são mal administrados, que há corrupção, etc. Será que vão lembrar que foi o Big Boss que mandou?!

Anotem aí: os juros desses bancos só cairão pra valer se houver algum tipo de ordenamento jurídico adequado, tipo publicação no Diário Oficial, etc. Do contrário, farão uma redução cosmética apenas, só para agradar Lula.

Erro – voltando à reportagem do Valor, o jornalista foi na conversa de acadêmicos que insistem em “fatiar” o spread bancário, como se houvesse uma fórmula mágica para determiná-lo. A reportagem explica que o spread bancário é composto da seguinte forma:

  • 37,4% Inadimplência
  • 26,9% Resíduo liquído
  • 13,5% Custo administrativo
  • 10,5% Impostos diretos
  • 8,1% Tributos e taxas
  • 3,6% Custo do compulsório

A soma, se Deus quiser, dá 100%. Bonito, não?! Pois é, tão bonito quanto errado. Cansei de precificiar empréstimos – i.e. embutir spreads – pra cima e pra baixo única e exclusivamente por conta do que o mercado estava precificando. Ninguém fica fazendo conta “ah, vou cobrar mais 0,075% a.a. porque a inadimplência subiu 0,0009% este mês e precisamos compensar…”. Essas análises são feitas de trás pra frente e perdem a validade 1 segundo após serem publicados porque as condições de mercado mudam.

Ou alguém acha que quando a inadimplência cai, os bancos reduzem angelicalmente as taxas que cobram? E quando o BC liberou o compulsório, alguém baixou a taxa? Ou quando Itaú e Unibanco cortarem zilhões de reais em custos, após a fusão, irão reduzir o spread que cobram? É mercado! Esta análise serve para dar uma noção num determinado momento e olhe lá.

Enfim, boa sorte para todos nós – do meu lado, as empresa sobre as quais corro risco de crédito, precisam de mais linhas de crédito e mais baratas, do contrário elas não pagarão os meus clientes e eu tenho que indenizá-los. Dureza…

Abraços e uma ótima semana!

Fernando

Caros – Deus, em sua infinita sabedoria e misericórdia, ouviu as minhas preces e, finalmente, foi publicada uma entrevista lúcida de um banqueiro de peso. E ninguém melhor do que o Fabio Barbosa que preside a Febraban (além do Santander/Real). Vocês sabem que em vários posts eu vinha criticando a ‘falta de pegada’ das entrevistas.

Nesta, publicada na Folha de hoje, a repórter Sheila D’Amorim deu um show. Abaixo, o link (de novo) e os principais destaques da mesma, com comentários que julgo pertinentes.

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi1111200802.htm

  1. “Não tem reais suficientes para atender a essa nova demanda das pessoas [nde: ele quis dizer ‘empresas’] que migraram de dólar para reais”: o mercado financeiro e os tomadores de crédito estão perdendo na medida que vão vencendo os empréstimos em aberto, algo como 20% (estimativas) da oferta de recursos (funding) que vinham dos bancos e investidores internacionais. Então, todas as demandas de crédito externo vêm migrando para captações em reais e, naturalmente, não tem dinheiro para todo mundo.
  2. “…o crédito vai voltar, mas não como antes…a sensação de falta de crédito ficará”: é a tal história da desaceleração. As empresas e as pessoas vinham investindo, comprando e, portanto, se endividando baseadas num cenário de crescimento de 6% a.a. (imaginemos que isto é igual a um carro a 120 Km/h). Agora, a variável endividamento vai ser reduzida na marra – por falta de funding. Portanto, igualmente na marra, investimentos e compras serão reduzidos também. Eu aposto num crescimento perto de 2,5% em 2009 (algo como o nosso carro vir de 120 km/h para 30 km/h). Vai ser uma senhora brecada; não haverá batida no carro da frente… mas nascerá um ‘galo’ na testa, pois a cabeça vai bater no vidro!
  3. “Não sei de onde saiu essa idéia de que banco ganha mantendo dinheiro em título público”: esta é uma das broncas favoritas da esquerda brasileira e tem sua origem na década de 80 – no famoso “open market”. Na época, os bancos tomavam dinheiro via depósitos nas agências e investiam grande parte em títulos emitidos pelo BC e pelo Tesouro (os mais velhos lembrarão das ORTNs, OTNs, LTNs, LFTs, BBCs, etc.). Hoje é diferente, pois o custo que os bancos pagam pelo nosso dinheiro numa aplicação de CDB pode facilmente passar de 100% do CDI. Em outras palavras, não é um bom negócio para eles, não.
  4. “Ele [o BC] colocou o dinheiro [nos bancos] e está dizendo: ‘não é para você fazer o que quer, mas para usar direcionado'”: ele quer dizer que o BC liberou os recursos do compulsório para que os bancões comprem as carteiras de crédito dos bancos menores com problemas, i.e. não liberou para que eles saiam emprestando para quem quiserem. E tem meio-mundo confundindo tudo: metade achando que os bancos estão escondendo o dinheiro e a outra metade achando que o BC está irrigando a economia. Os 100% estão errados. Espero que com essa entrevista a turma entenda o que está acontecendo de fato.
  5. “Não existe dinheiro de longo prazo”: verdade. Ou melhor, só tem aquele dinheiro santo do BNDES, mas que também está no limite do limite. O resto vinha de fora, de linhas de bancos e de investidores, via emissão de eurobonds. Secou tudo. E mesmo o capital de giro diminuiu de prazo. E como as mega operações tinham funding externo (em dólares), as mega empresas agora competem com as PME’s pelos mesmos reais. Complicado para elas, não?!

O que faltou na entrevista: para ficar perfeita, faltou abordar a questão do conservadorismo dos comitês de crédito; como o Fabio enxerga o atual processo de decisão de crédito, à luz da recessão externa, etc. A lógica seria a seguinte:

  • Falta funding para os bancos emprestarem.
  • Por emprestarem menos a economia crescerá menos.
  • Com a desaceleração econômica, famílias e empresas perdem renda.
  • Menos renda, menor chance de repagar os empréstimos.
  • Os bancos reduzem ou cortam linhas e…
  • …o processo se retroalimenta.

Grande lição desta entrevista: os empresários, de todos os portes, estão lutando pelo mesmo recurso, que é finito e escasso atualmente. Conseguirá crédito adequado aquele empresário que demonstrar para os bancos que seu risco é baixo e que oferecerá boas oportunidades de negócio no futuro. Do contrário, perderá linha para outro. Virou lei da selva. Voltaremos ao tema.

Mas a Sheila D’Amorim mandou muito bem. O Oscar de Melhor Entrevista de Presidente de Banco vai para ela!

Abraços, F.

…parece que estamos falando de lideranças empresariais que vivem em planetas diferentes, né?! Os dois têm razão – parcialmente – e os dois dão o tom que lhes convém, cá entre nós. E como já comentei antes, nenhum jornalista consegue abordar a questão sob a ótica correta. E dá-lhe zona de conforto para o banqueiro.

Mas até achei engraçado como o tom dessa entrevista foi mais leve e otimista do que aquelas feitas com o Marcio Cypriano, do Bradesco, e com o Fabio Barbosa, do Santander/Real.

Acho que o R. Setubal estava mais tranqüilo, seguro e confiante. O M.Cypriano não me pareceu a fim de ser criticado. Já o F.Barbosa me pareceu desconfortável, talvez porque também dirige a FEBRABAN e porque há duas semanas a crise estava numa fase mais aguda que agora.

Agora, temos mais é que torcer para que o otimismo demonstrado pelo Roberto Setubal seja reverberado no comitê de crédito do seu banco. É lá no comitê, e não na sala da Presidência, que acontecem as decisões de crédito de cada empresa, expandindo ou brecando os negócios – do banco e do país.

Aguardem um post que consolidará essas entrevistas, onde pretendo desmistificar certas visões deturpadas que circulam por aí.

Abraços, FB

”Vamos comprar as carteiras de crédito dos bancos pequenos”

Segundo Setubal, os grandes bancos estão atendendo à determinação do BC para injetar recursos nas instituições menores

Ricardo Grinbaum

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O Banco Central anunciou na semana passada uma medida para forçar os grandes bancos a injetar recursos em instituições financeiras de menor porte. A medida prevê um corte na remuneração dos depósitos compulsórios – dinheiro dos bancos depositados no BC – que não forem usados pelos grandes bancos para comprar carteiras de crédito das instituições menores.

O presidente do banco Itaú, Roberto Setubal, diz que a medida é correta. Setubal afirma que os grandes bancos ainda não compraram todas as carteiras esperadas pelo BC porque as negociações levam tempo. “A medida do BC vai eventualmente acelerar ou dar mais incentivos para que isso ocorra”, disse Setubal, na seguinte entrevista.

Como o sr. avalia a medida do BC?

A medida está correta e vai eventualmente acelerar ou dar mais incentivos para que isso ocorra. A liquidez está melhorando. No caso do Itaú, a gente vai usar esse compulsório plenamente, provavelmente em duas semanas. Imagino que todos os bancos estão numa situação semelhante.

A medida do governo parece uma punição aos bancos grandes por não estarem comprando as carteiras de crédito dos bancos menores. O que está acontecendo?

Há certa dificuldade operacional para implementar esse uso do compulsório. Há um procedimento operacional que é complicado, trocar carteiras, não é como comprar um CDB. Tem que analisar a carteira, trocar ativos, fazer transferência da cobrança, demora um pouco mais. Na medida que o tempo passa, a gente consegue resolver essas dificuldades. Os bancos estão procurando usar seus compulsórios. Porque é mais interessante para o banco comprar carteira de bancos pequenos do que deixar depositado no Bacen. A medida do BC vai, talvez, agilizar um pouco isso, porque a penalidade aumentou ou, pelo menos, a vantagem de comprar carteiras aumentou.

Existe uma cobrança para que os bancos normalizem a situação do crédito. Qual é a situação atual?

Houve um certo constrangimento do crédito. O BC tomou uma série de medidas e a liquidez está voltando. Isso não se refere só à questão dos bancos pequenos, mas ao sistema em geral. Os empréstimos estão voltando. No caso do Itaú, em momento algum deixamos de emprestar. A carteira de pessoa jurídica, por exemplo, teve em outubro o segundo maior crescimento do ano. O volume de empréstimos para pequenas e médias empresas cresceu acima de 5%, que é um número alto.

Como se explica que esse crescimento teria ocorrido no auge da crise, quando mais se falava da falta de liquidez?

Pois é. Acho que há uma certa dessintonia. Imagino que os bancos menores, que tiveram problema maior de liquidez, estavam sem condições de oferecer crédito para seus clientes. Isso dificultou, causou certa apreensão, certo travamento. Mas os bancos grandes de forma geral tiveram uma operação normal no mês. Vou dar um exemplo. Vamos fazer mais de R$ 2 bilhões este mês em financiamentos para compra de automóveis, que é um número alto, mas um pouco menor do que vinha sendo. O que mudou em relação ao mês anterior? Em relação às propostas que recebemos, aprovamos e liberamos uma quantidade de financiamentos praticamente igual ao mês anterior. No entanto, o número de propostas caiu.

E as outras operações de crédito do banco?

Foi tudo praticamente normal. O que está havendo um pouco é um limite para grandes operações, em que um único cliente pede R$ 1 bilhão. Para R$ 1 bilhão, vamos devagar, porque a liquidez não está tão folgada assim. Quando um único cliente quer levar valores muito elevados, temos que dividir entre dois, três bancos.

O sr. diz que o crédito está praticamente normal, com exceção dos bancos pequenos e médios. Então por que houve tanta reação?

Houve um aperto de liquidez no começo do mês, o governo passou a soltar os compulsórios. Então nas notícias há uma mistura de efeitos sérios e uma situação normal. Acho que em duas semanas vai estar tudo normalizado.

Como está a situação dos bancos pequenos e médios?

Não consigo avaliar exatamente. Quem pode avaliar melhor isso é o Bacen.

O crédito vai melhorar para eles?

Minha expectativa é que os grandes bancos vão usar todo o seu compulsório, e isso vai melhorar bastante a situação. Agora, se vai normalizar, não sou capaz de avaliar.

E na economia em geral, o pior já passou?

Por uma série de coincidências, as duas semanas anteriores a esta que estamos terminando agora foram ruins. Foram ruins no exterior e no Brasil houve esse problema de câmbio e derivativos que atrapalhou bastante. O BC administrou muito bem os problemas de câmbio, derivativos e de liquidez. Criou as condições para a situação se normalizar. A tendência é de melhora. Também há uma questão de expectativas. Todo mundo quer as coisas para ontem. Mas entre o BC entender o problema, fazer seu plano e aprovar as medidas, demora um, dois, três dias. Aí os bancos recebem aquilo, discutem o que fazer e agem. Tudo isso leva três, quatro, cinco dias. É como tomar um remédio. Demora um tempo para fazer efeito. As condições internacionais também estão caminhando para uma melhora. No meio daquelas semanas críticas, os governos da Europa tomaram medidas muito importantes, garantindo todo o sistema financeiro. Isso também está tirando a tensão dos mercados.

Qual é a dimensão do problema com os derivativos?

Acho que a mídia amplificou muito o problema. Houve um exagero. O fato de ter tido dois ou três casos, em específico o da Aracruz, que foram muito exagerados, passou uma impressão de que aquilo era a regra e não a exceção. Era exceção. Não existe e não haverá nenhum outro caso com números próximos aos que vimos de duas ou três empresas. É evidente que o caso Aracruz é um equívoco inimaginável, de uma dimensão incompatível com a realidade. Daqui para a frente, haverá uma redução nos números. Para a maioria das empresas – ou pelo menos aquelas envolvendo grandes valores -, os exageros já foram fechados. As empresas estão liquidando suas operações. Tudo isso vai se normalizar. No caso do Itaú, anunciamos que tínhamos 96 empresas. Essas operações já caíram para 79. E tem mais empresas reduzindo e refinanciando suas operações. De forma geral, a maior parte das operações que foram feitas estão num nível adequado para as exportações das empresas.

Foi por isso que o Itaú antecipou a divulgação de seus resultados financeiros?

Nesse período da tempestade, o mercado estava com muitos boatos e informações trocadas. O fato de os três grandes privados terem antecipado suas divulgações de resultados em relação ao cronograma original até ajudou a acalmar o mercado. Foi uma excelente medida. Todo mundo viu que os bancos estavam bem, com exposição relativamente pequena a esses problemas de derivativos, e que o problema era muito menor do que se chegou a especular.

Qual sua perspectiva para a economia brasileira em 2009?

É positiva. A economia brasileira está fazendo um ajuste. Com a queda no preço das commodities e da demanda internacional e o recuo de volume de investimentos, é preciso ajustar a balança de pagamentos. Isso se dá via desvalorização cambial. No caso brasileiro, acho que já ocorreu. O câmbio a R$ 2,10 ou R$ 2,20 é suficiente para reequilibrar a balança de pagamentos.

Pode haver uma crise no Brasil?

Não vejo crise, de jeito nenhum.

Qual a sua expectativa em relação ao crescimento?

Continuo achando que o Brasil vai crescer por volta de 3% no ano que vem.

Muitas empresas estão suspendendo investimentos. Como o sr. vê essa situação?

Na medida em que a demanda internacional recua, exportadores recuam seus investimentos. O crescimento da economia será um pouco menor. Mas não vejo crise. O mercado financeiro vai encontrar novos patamares, mais baixos que os anteriores, mas as coisas tendem a se normalizar.

O presidente da Febraban e do Santander/Real, Fabio Barbosa, tem sido bastante requisitado para comentar a crise. Conheço o Fabio há muito tempo e o que se lê em suas entrevistas é a mais perfeita tradução da sua conduta diária: sereno, equilibrado e verdadeiro.

Diferentemente dos banqueiros do passado, Fabio Barbosa não foge de questões polêmicas e não fantasia a resposta. O exemplo perfeito é quando deixa claro que a sociedade vai pagar a conta. E não dá para ser diferente, lamentavelmente. Outro exemplo é quando diz que banco grande não pode quebrar – e não pode mesmo, gostemos ou não. É um fato da vida econômica.

Boa leitura. Abs, F.

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20080921/not_imp245447,0.php

Presidente da Febraban diz que cena da liquidez no Brasil é tranqüila

SÃO PAULO – O agravamento da crise financeira global nos últimos dias e as incertezas associadas a ela não trouxeram ainda impactos para o setor bancário nacional, que é “supersólido”. A afirmação foi feita hoje pelo presidente da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) e também presidente do Banco Real, Fábio Barbosa, para quem o cenário é “muito tranqüilo em relação à liquidez”.

No entanto, mesmo não havendo problemas de liquidez, Barbosa diz haver uma tendência de encurtamento de prazos de financiamento.

Ele destaca que empréstimos mais longos, como o consignado e o para compra de veículos, continuam acontecendo normalmente. Ainda assim, em função da crise externa, “existe uma tendência de encurtamento de prazos”. Segundo ele, devido aos acontecimentos recentes, como a quebra de bancos americanos, é natural que as instituições não façam operações de cinco anos do mesmo jeito que faziam até então. “Existe tendência, mas hoje não dá para dizer que tenha uma redução de prazo significativa que tenha impacto na economia”, ressalva o executivo.

Os empréstimos mais afetados pelo encurtamento de prazo, segundo ele, são aqueles de dependem de “funding “internacional, como operações de empresas exportadoras de longo prazo. O banqueiro lembra no entanto, que o Brasil depende pouco de recursos externos e que o “funding “no Brasil deriva prioritariamente de operações locais.

Segundo Barbosa, o reflexo mais imediato e óbvio da crise externa para o Brasil está focado no setor acionário, onde agentes internacionais encerram posições para fazer frente a prejuízos externos, que estão se ampliando nos últimos tempos. “Não há nenhum questionamento sobre o andamento (do sistema bancário) por aqui.” A título de comparação, Barbosa acha importante lembrar que a crise foi desencadeada pelo setor imobiliário, que representa 70% do volume de crédito nos Estados Unidos e equivale a apenas 2,5% no Brasil. Além disso, ele cita que as reservas internacionais brasileiras, acima de US$ 200 bilhões são uma cobertura importante para o país.