Caros,

O Estadão de hoje emplacou várias matérias sobre as dificuldades que o país vem enfrentando com o crédito escasso.  Apesar de domingo de carnaval não ser o melhor dia para se apoquentar com crédito, a comunidade que luta pela transparência do crédito agradece! Sigamos:

Crédito escasso freia o consumo, por Leandro Modé

O argumento é que o crédito não se regularizou, apesar da solene afirmação feita por Henrique Meirelles e já comentada – e destruída – aqui no blog. Me digam, custava o BC ser mais transparente com um assunto tão importante para a população e empresas? Até a Febraban, que é entidade de classe, foi muito mais correta neste ponto! O BC sim tinha essa obrigação, mas pisou na bola – e feio.

A reportagem é focada no varejo. Todos concordam que o setor mais afetado foi o comércio. Eu concordo e vou mais longe:  aos olhos de quem financia, o comércio é o setor menos transparente no Brasil. Não gostam de dar balanços para análise e quando os dão…lembram de Star Trek, Star Wars e outras ficções? Conheço muito bem o setor e algumas de suas associações de classe…enquanto não mudarem sua forma de encarar crédito e o relacionamento com bancos, financeiras, etc., vão sempre pagar os juros mais altos.

Quem não é transparente com banco sempre passa impressão de má qualidade de risco, então as linhas são escassas e, portanto, o empresário não tem  como barganhar. Conclusão, pagam o que é cobrado, i.e. juro alto.

 BC e Febraban admitem dificuldades , por Leandro Modé

Pelo que diz a reportagem, o BC enviou uma nota apenas. Que feio! Bem, acho que ninguém do BC resistiria a duas perguntas bem feitas sobre o tema. Seria nocaute na certa. A tal nota foi “de sobrevivência”. 🙂

Acho que o destaque desta matéria é a conclusão do próprio jornalista, a respeito da visão do BC: Por ora, o BC entende que as dificuldades se devem a própria crise, que fez os bancos serem naturalmente mais cautelosos na concessão de empréstimos. Se essa percepção mudar, o contra-ataque será diferente”, ele escreve com precisão.

Exigências dos bancos excluem empresas médias, por Marianna Aragão

Confesso que não entendi a lógica desta manchete, mas a matéria explica que as empresas de médio e pequeno porte estão encontrando problemas para fornecer todas as garantias exigidas pelos bancos. Não custa lembrar o ‘caminho do inferno’ nestes momentos de alta percepção de risco:

  • Piora a percepção de risco da empresa?
  • Diminui o volume de linhas de crédito ofertadas.
  • E menos ofertas é igual a preço mais alto, sempre!
  • Pior, os prazos das linhas são encurtados.
  • Muito pior, mais garantias são solicitadas.

A matéria aborda também as dificuldades de empresas de serviços, que não tem ativos ou recebívies. Como conseguir crédito? Bem, no Brasil isto sempre foi quase impossível, só tendo havido um refresco nestes anos recentes de exuberância irracional do crédito verde-amarelo.

Eu sei que é duro para quem tinha acabado de se acostumar com a oferta de crédito (ainda que a custo proibitivo). Mas o crescimento recente do crédito no Brasil não era normal – e não era saudável. Se nada cresce 30% a.a., por vários anos, por que o crédito doméstico, em reais, deveria? De repente o risco empresarial ficou tão maravilhoso assim, ou as famílias ficaram tão abastadas e seguras? Ou os bancos aprenderam a dar crédito pra valer, renunciando a um passado absurdamente conservador? Nah…foi exuberância irracional.

Agora, voltamos à velha ordem natural das coisas. Só que de forma abrupta, machucando muita gente inocente.

Factoring vira tábua de salvação, por Marcelo Rehder

Finalmente, ufa, quanta matéria sobre crédito. Até para um veterano obsecado como eu tem coisa demais para ler e comentar. Esta matéria, até pelo próprio título, saúda a existência das empresas de factoring, tantas vezes demonizadas (até por bancos…).

Meus amigos da ANFAC comentam que o volume de negócios aumentou 40%, se comparado com o pré-crise. Notem que não me surpreendo com um provavel aumento da demanda por factoring. Mas me surpreendo sim com o aumento dos negócios. Por que?

  • De onde saiu o funding para as empresas de factoring passarem a descontar tantos títulos a mais?
  • Estariam elas com caixa sobrando, à espera de bons negócios?
  • A única certeza que eu tenho é que os bancos não passaram a dar mais funding para elas.

O custo do factoring é naturalmente mais alto do que os juros bancários, por dois motivos: (a) o custo de funding para as factorings é consideravelmente mais caro que o dos bancos, (b) as factorings sofrem uma cunha fiscal que as torna menos competitivas que os bancos. Em outras palavras, as factorings – na média – correm mais risco, cobram mais caro e lucram menos. Este é um fenômeno do capitalismo financeiro…

Nossa Caixa – esta reportagem traz a declaração de um empresário que reclama de ter sido injustamente protestado pela Nossa Caixa, tendo ficado com o nome sujo e com enormes dificuldades para tomar empréstimos em outros bancos. É óbvio que eu não quero fazer juízo de valor da Nossa Caixa ou do empresário, mas aqui mesmo no blog já registramos uma tremenda reclamação contra a Nossa Caixa, por motivo similar. Haverá algum problema por lá?

Abraços, Fernando

PS: concluir este post foi uma obra de amor à arte de blogar. Quando o mesmo já estava quase pronto, eu fui salvá-lo, mas o patético serviço da dupla Telefonica/Speedy me fez perder tudo! Deu vontade de jogar o notebook pela janela! Fica aqui a minha vingança: que nenhum dos 23 leais seguidores deste blog jamais usem quaisquer serviços da Telefonica/Speedy!

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Caros,

Este assunto me irrita. E deve irritar muito mais os milhares de brasileiros que enfrentam problemas sérios com as suas dívidas (bancárias ou não). Já escrevi textos mal humorados porque vejo a FIESP, o BC, o Ministério da Fazenda e a mídia inteira bater sempre na mesma tecla – …na tecla errada. Os exemplos dos últimos dias:

  1. O BC finalmente tornou pública – de forma transparente – a tabela de juros dos bancos. Só que o próprio BC irá rever a metodologia, pois gerou uma gritaria sem fim.
  2. O Sr. Paulo Skaf, da FIESP, foi à loucura ao pregar cadeia para o…quem?…HSBC, que segundo a lista do BC cobra os juros mais altos do mercado.
  3. O Presidente do BC, Henrique Meirelles, diz para os políticos que vai pegar pesado pela queda dos juros bancários. Que é isso? Palanque para o governo de Goiás?

Os fatos são:

  1. Um triste fato da vida é que as empresas brasileiras estavam mais estocadas do que nunca, porque o país crescia muito rápido (acima de 6,5% a.a., em setembro) e o Natal chegava. E por conta disso todas tinham mais dívida do que o normal.
  2. O cidadão brasileiro também estava mais endividado do que nunca – porque a oferta era grande e o brasileiro não faz conta, i.e. compra uma geladeira na Casas Bahia ou no Magazine Luiza, e faz as famílias Klein e Trajano felizes porque pagam a geladeira e um fogão (de juros).
  3. Quanto as linhas externas secaram para os bancos brasileiros e para o grande empresário local que se endividava lá fora, houve um grande gargalo no crédito doméstico.
  4. Eu, você, o Bradesco e a Petrobras estamos com menor oferta de crédito e  – só por isso – pagamos juros mais altos. Exemplos:
  5. Juros para uma das maiores multinacionais do mundo: 125% do CDI
  6. Juros para um dos maiores grupos empresariais do Brasil: 160% do CDI.
  7. Juros para um grupo brasileiro que fatura mais de R$ 1 bilhão: 188% do CDI.
  8. Juros pagos para o F.Blanco, segundo oferta por escrito, de um banco internacional (ex-primeira linha): 105% do CDI.

Nota: CDI é a taxa média dos juros interbancários e costumava ser semelhante à SELIC (taxa básica do BC).

Deu pra notar a situação? Como lutar contra isso?

A Petrobras e o Bradesco estão se virando para conseguir mais crédito. O cidadão e a pequena/média empresa brasileiros, não o fazem direito. Reclamam, xingam os bancos, etc. Nada disso adianta.

Vejam este post do J.P.Kupfer. O post é bom e pronto, mas o “””destaque””” aqui vai para os comentaristas. É uma falastrice sem fim, que não ajuda em nada a vida de ninguém. Se o tempo que perdem berrando palavras de ordem, fosse usado para fazer uma boa pesquisa de preços e serviços, aí sim se dariam melhor. E o mesmo raciocínio é válido para empresários.

Eu já falei com meia FIESP/CIESP sobre como as empresas podem e devem se defender dos juros altos! Alguém me ligou? Não! Até parece que não querem solucionar o problema. Afinal, se não houver problema não haverá microfones à disposição para a gritaria de sempre, né?

Mas é óbvio que não é isso. Ou será que é ? Skaf e companhia querem a solução do problema. Só não sabem como fazer…e desprezam ajuda externa.

Olhem aqui a famosa lista do BC. Separei dois exemplos: Pessoa Física – CréditoPessoal e Pessoa Jurídica – Capital de Giro Pré. Compare  os bancos e compare o quanto você paga. Vá na agência e converse com o seu gerente, para tentar entender os juros que você paga e o que o BC publica. E assunte por que outros bancos cobram menos.

Mas atenção: compare banana com bananas. Exemplo: eu e você não teremos crédito jamais no Banco Itaú BBA, que é voltado para grandes empresas. E se quiserem procurar os bancos, este link da Febraban ajuda.

E leiam aqui no Blog a sessão Melhore o seu Crédito. Lá tem boas dicas, palavra de escoteiro.

Perguntem, critiquem, etc., mas sempre voltado à busca de solução, pois do contrário é perda de tempo.

Abraços, F.

Caros,

O nosso BC não cansa de surpreender o país! Lá estava eu em Paris, cercado de gente importante a elogiar o Brasil, dizendo que éramos os mais preparados para enfrentar a crise… e olhe que a gringolândia se baseava no fato de que aqui “nem era necessário baixar os juros, como no resto do mundo”.

E de repente, não mais que de repente, vem o choque: COPOM derruba os juros em 1%. Assim, à vista, sem prestações! Até me engasguei com o croissant!!

Lembram, quando todos clamavam por uma redução da SELIC por conta da crise, o BC a aumentou; agora que todos achavam que a taxa cairia o,5% eles socaram 1%! Acho que existe uma banda de pagode chamada Só pra Contrariar, não é?! Taí, pode ser o apelido do COPOM… 🙂

O lance agora é apreciar como isso irá atingir os juros na ponta (aquele que pagamos). Os bancos – a maioria, pelo menos – já anunciou mini-reduções na taxa mensal (que compõe 1% de redução na taxa anual). Esta redução se dá na “tabela cheia” que o gerente enxerga na tela dele. A taxa que nós pagamos pode e deve ser mais baixa do que esta. Mas às vezes é até mais alta… se você marcar bobeira, prepare-se para pagar o que o gerente quiser! Atenção: ele não faz isso por ser sádico ou malvado, mas porque tem que atingir metas de resultado e isso é o problema dele; o seu é brigar por juros menores.

A história mostra que os juros (i.e. os spreads) cairão mais lentamente do que a SELIC. A tendência é que este processo seja ainda mais lento agora, por conta da crise de confiança que toma conta do nosso e de todos os sistemas financeiros do mundo.

O Valor Econômico deste final de semana, em matéria de Fernando Travaglini, traz a manchete “Incerteza mantém spread elevado”. Vamor reler e dar mais precisão a esta manchete: “Incerteza quanto à capacidade de repagamento das empresas aumenta o conservadorismo dos comitês de crédito e, portanto, reduz a oferta de crédito, sendo que este fato reduz fortemente o poder de barganha dos tomadores de crédito, permitindo que os spreads se mantenham elevados”. É só isso… ou melhor, tudo isso.

Nesta matéria, o economista-chefe da FEBRABAN, Rubens Sardenberg (irmão mais novo do famoso jornalista da CBN e da Globo Carlos Alberto) saiu-se bem ao dizer – de forma direta – que o cenário é incerto e que a queda da SELIC não significa que os spreads cairão. Gostei! Parabéns! Eu já disse isso aqui: os mercados financeiro e  segurador (em geral) tem que aprender a dar más notícias de forma transparente. Acho que é a mão do Fabio Barbosa na FEBRABAN, mudando o estilo da casa.

BB, CEF, BNDES, BNB e BASA – no embalo do COPOM e na necessidade de dar uma resposta à sociedade civil, o Presidente Lula reuniu seu alto comando econômico e os Presidentes dos bancos federais, para dar-lhes uma ordem: os bancos estatais tem que sair na frente na guerra pela redução dos juros e do spread bancário.

Já abordei este tema aqui. Juros não caem por decreto, nem no grito. Os executivos e gerentes desses bancos tem metas a cumprir – e bônus a receber pelo seu devido cumprimento. Outro ponto: depois, se esses bancos lucrarem menos que os privados, vão cair de pau neles dizendo que são mal administrados, que há corrupção, etc. Será que vão lembrar que foi o Big Boss que mandou?!

Anotem aí: os juros desses bancos só cairão pra valer se houver algum tipo de ordenamento jurídico adequado, tipo publicação no Diário Oficial, etc. Do contrário, farão uma redução cosmética apenas, só para agradar Lula.

Erro – voltando à reportagem do Valor, o jornalista foi na conversa de acadêmicos que insistem em “fatiar” o spread bancário, como se houvesse uma fórmula mágica para determiná-lo. A reportagem explica que o spread bancário é composto da seguinte forma:

  • 37,4% Inadimplência
  • 26,9% Resíduo liquído
  • 13,5% Custo administrativo
  • 10,5% Impostos diretos
  • 8,1% Tributos e taxas
  • 3,6% Custo do compulsório

A soma, se Deus quiser, dá 100%. Bonito, não?! Pois é, tão bonito quanto errado. Cansei de precificiar empréstimos – i.e. embutir spreads – pra cima e pra baixo única e exclusivamente por conta do que o mercado estava precificando. Ninguém fica fazendo conta “ah, vou cobrar mais 0,075% a.a. porque a inadimplência subiu 0,0009% este mês e precisamos compensar…”. Essas análises são feitas de trás pra frente e perdem a validade 1 segundo após serem publicados porque as condições de mercado mudam.

Ou alguém acha que quando a inadimplência cai, os bancos reduzem angelicalmente as taxas que cobram? E quando o BC liberou o compulsório, alguém baixou a taxa? Ou quando Itaú e Unibanco cortarem zilhões de reais em custos, após a fusão, irão reduzir o spread que cobram? É mercado! Esta análise serve para dar uma noção num determinado momento e olhe lá.

Enfim, boa sorte para todos nós – do meu lado, as empresa sobre as quais corro risco de crédito, precisam de mais linhas de crédito e mais baratas, do contrário elas não pagarão os meus clientes e eu tenho que indenizá-los. Dureza…

Abraços e uma ótima semana!

Fernando

Este post foi inspirado nos – e é dedicado aos – novos amigos que chegaram ao Blog através das ferramentas de busca. Eles vêm solicitando explicações sobre o tema e abaixo eu estruturo o texto conforme perguntaram para o “Oráculo Google”. Para os que ainda não a encontraram…

1. Primeiro passo para obter Crédito

> Pessoa Física:

  • Conhecer a geração de caixa do seu negócio
  • Ter um fluxo de caixa futuro detalhado
  • Saber demonstrar claramente para o banco como e quando irá pagá-lo
  • Preparar um Plano de Negócio da sua empresa, e.g. o que a empresa faz, como faz, estrutura operacional, mercado em que atua (clientes, regiões, produtos), estratégia do negócio, análise da concorrência, quadro acionário e equipe de executivos, plano de sucessão (se fizer sentido), números (balanço, demonstrativo de resultados, fluxo de caixa), perspectivas do negócio, análise dos riscos do seu negócio
  • Saber apresentar e discutir tudo isso com o seu banco
  • Ter capricho na apresentação, i.e. qualidade do papel, correção ortográfica, limpeza, etc.
  • Procurar vários bancos, para poder escolher a melhor oferta de crédito e serviços (preços e prazos)
  • Se possível, conseguir que alguém bem próximo (que lhe conheça bem e que conheça bem alguém do banco) faça a apresentação – referência é algo muito importante
  • Não demonstrar ansiedade, pressa…isto é o pior inimigo do endividado
  • Demonstrar profissionalismo, seriedade, integridade e conhecimento
  • Ter o nome limpo na praça – ou limpá-lo com urgência

> Pessoa Física

  • Aqui não se aplica a descrição do Plano de Negócio, mas você deve apresentar claramente para os bancos como é a sua estrutura financeira, i.e. quanto ganha, quanto gasta, as dívidas que tem, como pretende equacionar o seu furo de caixa, etc.
  • Todo o resto se aplica!

2. Linha de Crédito para empresa investir

  • Um dos principais fatores para que nosso país não tenha ainda deslanchado rumo ao conceito de País Desenvolvido, é o fato não termos fontes de crédito para investimento
  • A imensa maioria das empresas – com destaque para as PME’s – procuram tais linhas, não as encontram e se contentam com linhas de capital de giro de curto-prazo, correndo um imenso risco de quebrarem no meio do caminho, porque a linha não foi renovada ou o foi parcialmente e com custo muito alto
  • O BNDES é a grande opção, com suas linhas de FINAME, POC e outras – visite o site www.bndes.gov.br
  • O BB, a CEF e outros bancos federais e regionais sempre tem algum tipo de linha de fomento. Vale a pena procurar nos sites. Clique no site da Febraban e descubra esses bancos
  • O leasing é outra opção para aquisição de alguns equipamentos
  • Em épocas de liquidez e apetite de risco elevado, os bancos oferecem outras linhas de longo-prazo para investimento. Exemplos: pré-pagamento de exportação, capital de giro longo (em geral descontando contratos e recebíveis)
  • Existem outras opções mais complexas e voltadas para empresas maiores e que são de difícil acesso
  • Exemplos: Eximbank (se você está importando um equipamento, o seu fornecedor poderá te ajudar), emissão de títulos de dívida (e.g. debentures, euronotes)

Lamento dizer, mas é só isso. Eu divido com vocês a “inspiração”, mas a “transpiração” fica por conta de cada um… especialmente nestes dias confusos e de retração do apetite de risco.

Tomar crédito hoje, no Brasil e no mundo, é tarefa de guerra. Tem que se apresentar ao banco de forma muito profissional, estudada, treinada, etc. Não é chegar lá, encostar a barriga no balcão e falar com o gerente amigo:

“E aí, amigão, o caixa apertou, você sabe, né…a crise pegou todo mundo de surpresa e vou ter que tomar um papagaio…”.

O IBAMA adverte: o papagaio é espécie em extinção e não será concedido para tomadores de crédito que não transmitam absoluta segurança para o banco!

Espero ter ajudado. Abraços, F.

Caros – Deus, em sua infinita sabedoria e misericórdia, ouviu as minhas preces e, finalmente, foi publicada uma entrevista lúcida de um banqueiro de peso. E ninguém melhor do que o Fabio Barbosa que preside a Febraban (além do Santander/Real). Vocês sabem que em vários posts eu vinha criticando a ‘falta de pegada’ das entrevistas.

Nesta, publicada na Folha de hoje, a repórter Sheila D’Amorim deu um show. Abaixo, o link (de novo) e os principais destaques da mesma, com comentários que julgo pertinentes.

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi1111200802.htm

  1. “Não tem reais suficientes para atender a essa nova demanda das pessoas [nde: ele quis dizer ‘empresas’] que migraram de dólar para reais”: o mercado financeiro e os tomadores de crédito estão perdendo na medida que vão vencendo os empréstimos em aberto, algo como 20% (estimativas) da oferta de recursos (funding) que vinham dos bancos e investidores internacionais. Então, todas as demandas de crédito externo vêm migrando para captações em reais e, naturalmente, não tem dinheiro para todo mundo.
  2. “…o crédito vai voltar, mas não como antes…a sensação de falta de crédito ficará”: é a tal história da desaceleração. As empresas e as pessoas vinham investindo, comprando e, portanto, se endividando baseadas num cenário de crescimento de 6% a.a. (imaginemos que isto é igual a um carro a 120 Km/h). Agora, a variável endividamento vai ser reduzida na marra – por falta de funding. Portanto, igualmente na marra, investimentos e compras serão reduzidos também. Eu aposto num crescimento perto de 2,5% em 2009 (algo como o nosso carro vir de 120 km/h para 30 km/h). Vai ser uma senhora brecada; não haverá batida no carro da frente… mas nascerá um ‘galo’ na testa, pois a cabeça vai bater no vidro!
  3. “Não sei de onde saiu essa idéia de que banco ganha mantendo dinheiro em título público”: esta é uma das broncas favoritas da esquerda brasileira e tem sua origem na década de 80 – no famoso “open market”. Na época, os bancos tomavam dinheiro via depósitos nas agências e investiam grande parte em títulos emitidos pelo BC e pelo Tesouro (os mais velhos lembrarão das ORTNs, OTNs, LTNs, LFTs, BBCs, etc.). Hoje é diferente, pois o custo que os bancos pagam pelo nosso dinheiro numa aplicação de CDB pode facilmente passar de 100% do CDI. Em outras palavras, não é um bom negócio para eles, não.
  4. “Ele [o BC] colocou o dinheiro [nos bancos] e está dizendo: ‘não é para você fazer o que quer, mas para usar direcionado'”: ele quer dizer que o BC liberou os recursos do compulsório para que os bancões comprem as carteiras de crédito dos bancos menores com problemas, i.e. não liberou para que eles saiam emprestando para quem quiserem. E tem meio-mundo confundindo tudo: metade achando que os bancos estão escondendo o dinheiro e a outra metade achando que o BC está irrigando a economia. Os 100% estão errados. Espero que com essa entrevista a turma entenda o que está acontecendo de fato.
  5. “Não existe dinheiro de longo prazo”: verdade. Ou melhor, só tem aquele dinheiro santo do BNDES, mas que também está no limite do limite. O resto vinha de fora, de linhas de bancos e de investidores, via emissão de eurobonds. Secou tudo. E mesmo o capital de giro diminuiu de prazo. E como as mega operações tinham funding externo (em dólares), as mega empresas agora competem com as PME’s pelos mesmos reais. Complicado para elas, não?!

O que faltou na entrevista: para ficar perfeita, faltou abordar a questão do conservadorismo dos comitês de crédito; como o Fabio enxerga o atual processo de decisão de crédito, à luz da recessão externa, etc. A lógica seria a seguinte:

  • Falta funding para os bancos emprestarem.
  • Por emprestarem menos a economia crescerá menos.
  • Com a desaceleração econômica, famílias e empresas perdem renda.
  • Menos renda, menor chance de repagar os empréstimos.
  • Os bancos reduzem ou cortam linhas e…
  • …o processo se retroalimenta.

Grande lição desta entrevista: os empresários, de todos os portes, estão lutando pelo mesmo recurso, que é finito e escasso atualmente. Conseguirá crédito adequado aquele empresário que demonstrar para os bancos que seu risco é baixo e que oferecerá boas oportunidades de negócio no futuro. Do contrário, perderá linha para outro. Virou lei da selva. Voltaremos ao tema.

Mas a Sheila D’Amorim mandou muito bem. O Oscar de Melhor Entrevista de Presidente de Banco vai para ela!

Abraços, F.

Foi um dia cheio de coisas acontecendo. Nenhuma notícia ou decisão que promova uma virada no mau momento em que vivemos (não irei publicar/comentar nenhuma má notícia hoje). Ainda assim, foram várias iniciativas, aqui e ali, positivas.

1. Swap de Moedas: o Banco Central acertou com o FED americano uma operação de USD 30 bilhões. Essa medida se encontra na polêmica Medida Provisória 443; a tal que dá poderes para o governo federal comprar bancos, empresas, padarias, etc. Pelo que deu pra entender, o BC brasileiro poderá sacar USD 30 bi do governo americano que ficaria com o equivalente em reais para seu uso.

O acordo é positivo para o Brasil, pois aumenta o poder de fogo do governo para combater ataques ao real, como vem ocorrendo. Já para o Bush… o que ele iria fazer com R$ 70 bi? O governo quer mostrar que não irá deixar sangue rolar pela rampa do Palácio do Planalto. Tem uma turma especulando forte, jogando pesado contra as empresas que se entubaram com aqueles derivativos cambiais. Acho que o governo está com ódio viceral desse pessoal, mas não quer manchetes de jornal dizendo que meia-dúzia de grandes empresas (ou bancos) quebraram por conta de “especularem com derivativos” (e nem foi isso precisamente).

http://www.bancocentral.gov.br/noticias/Noticias.asp?noticia=1&idioma=P&cod=1905

2. COPOM/SELIC: o nosso BC já provou que é macho. Ele peita mercado, imprensa, ministros e quem mais se apresentar. Desta vez resolveu não mexer na taxa da SELIC, mantida nas alturas de 13,75% a.a. Na verdade, o BC ficou entre a gritaria da indústria que clama pela redução da taxa e uma ala de monetaristas radicais, que apostam na existência de uma severa inflação em gestação e que, por não subir a SELIC agora, terão de subí-la mais lá na frente.

Não concordaram? Entrem no blog A Mão Visível aqui ao lado e tentem entender porque o Alexandre Schwartsman e seus seguidores acreditam nisso. Eu não consegui. Por onde olho e falo só vejo desaquecimento na indústria. Não chegou no varejo, mas vai chegar em janeiro. Não entendo que inflação é essa que estão vendo. Será que o câmbio teria tanta força? A ver (e sentir).

3. As bolsas: apesar do mercado de ações ainda não ter condições de refletir minimamente para onde vai a economia real, o simples fato da BOVESPA não ter caído 10% nesta 4af é positivo. Talvez queime minha língua e ela caia 15% na 5af… Chamou a atenção a festa européia, onde todas as bolsas relevantes subiram mais de 8%, enquanto NY ‘andou de lado’, com leve queda. O que posso dizer? Já está barato além da lógica dos números para quem quer comprar com visão de longo prazo, mas Nouriel Roubini Primeiro e Único diz que ainda pode cair + 30% (e mostra números para isso!). Para quem gosta de dar uma especulada é o momento ideal.

4. Bancos: comento dois assuntos, sendo um chato e outro interessante. O interessante primeiro: o crédito bancário cresceu nos últimos 12 meses alguma coisa como 30%, mas os lucros dos bancos não cresceram na faixa dos 20% a 30% (anualizados) neste trimestre como vinha acontecendo há anos, trimestre a trimestre. Não tive tempo para analisar, mas isso chamou a minha atenção. Talvez estejam perdendo muito, ainda que temporariamente, com as operações de derivativos – os bancos têm que pagar a chamada margem na BMF (despesa) enquanto seus clientes negociam uma reestruturação das dívidas com derivativos (receita pendente). A chatice é essa interminável lenga-lenga de que os bancos não liberam o crédito, etc. Já falei sobre isso aqui umas 100 vezes. Não adianta reclamar: banco algum vai dar crédito enquanto estiver na dúvida sobre a solidez dos clientes, sobre os setores dos clientes e sobre a tendência macro daqui pra frente. Para a choradeira da FIESP, do Ministro Mantega, do Papa Bento XVI, etc., sabe o que FEBRABRAN faz? Leiam o link abaixo…pura “mensagem institucional”…

http://www.febraban.org.br/noticias1.asp?id_texto=376

5. Lula Papai Noel: foi anunciado o pacote de R$ 3 bilhões que a Caixa utilizará para dar crédito para construtoras com problemas de liquidez. A MP 443 também criou a CaixaPar que poderá comprar participação em empresas do setor. Já falamos disso aqui. A dúvida que eu tenho é como irão diferenciar o joio do trigo. Mutuários em situação complicada existem aos milhões, mas como definir qual empresa terá ajuda? Por que o Condomínio Véu da Noiva do meu amigo continuará a subir e o meu, o Chateaux Magoux ficará parado? Em tese, a ajuda é para evitar uma crise que prejudique o povo. Por outro lado, talvez beneficie maus empresários que descasaram ativos e passivos, só têm terrenos e nada no caixa, etc.

http://www1.folha.uol.com.br/folha/dinheiro/ult91u461905.shtml

E no Salão do Automóvel, aqui em SP, o Presidente Lula disse que irá ajudar este setor também. Juro que não sabia que havia tanto dinheiro disponível assim. Sério, a intenção é maravilhosa, mas a execução de tais medidas são tão complexas e arriscadas…parece-me impossível que não se cometam injustiças sérias. Deus o ajude.

http://www1.folha.uol.com.br/folha/dinheiro/ult91u461978.shtml

6. Despesas Financeiras: a notícia é velha, mas vale a pena comentar. O repórter Toni Sciarreta, da Folha, escreveu nesse último domingo sobre um estudo da consultoria Economática. Lá diz que, neste terceiro trimestre, na média, 70% do resultado operacional das empresas de capital aberto será utilizado para pagamento de juros. A mini-máxi desvalorização do real ajuda, mas a alta dos juros é fundamental. Detalhe: o estudo não contempla as tais operações com derivativos.

Então, administrar o passivo bancário é ou não é importante? É… mas poucos empresários dão valor para isso. A mídia? Não quer nem saber. Eu tenho falado sozinho sobre o tema. Depois reclamam que a SELIC sobe. Só que esquecem que o problema não é os 13,75%, da SELIC, mas sim os 35% que são pagos pela maioria das empresas brasileiras (e nem percebem, porque não fazem conta…).

Abraços, F.

Nesta 2af, tive a honra de participar, como convidado, do Conselho Superior de Assuntos Estratégicos (CONSEA) da FIESP. Este belíssimo orgão, que promove debates do mais alto nível, é presidido pelo Dr. Ruy Martins Altenfelder Silva. O meu relacionamento com a FIESP/CIESP começou há três anos, através do Núcleo de Jovens Empresários (NJE), da CIESP, um grupo dinâmico que sempre busca melhorias para a gestão empresarial.

No evento de hoje o palestrante foi o Presidente da Confederação Nacional das Instituições Financeiras – CNF -, Dr. Gabriel Jorge Ferreira, que discorreu sobre o tema Reforma Tributária na Visão dos Bancos e Agentes Financeiros. Também estavam presentes os senadores Roberto Konder Bornhausen e Rodolpho Tourinho.

Reporto abaixo os aspectos que mais chamaram a minha atenção, tanto ao longo do evento como durante o almoço com empresários, que aconteceu em seguida:

1. O Congresso irá aprovar a Reforma “possível”, ao invés da “ideal”. A encruzilhada de impostos, taxas e regras parece ser complexa demais para que possa ser “desmontada” e refeita de uma vez só. Há muitos interesses envolvidos, públicos e privados, e isto, num país complicado como o nosso, é assunto para uma década ou mais.

2. Os bancos brasileiros estão absolutamente sólidos, segundo o Presidente da CNF. Eu concordo com ele.

3. Fiquei muito satisfeito com duas observações do Gabriel Ferreira:

  • O importante tema das regras de alavancagem dos bancos, segundo o acordo conhecido como Basiléia II, ainda não entrou na órbita de preocupação dos empresários. Ele afirmou taxativamente que, quando de sua implementação integral, os pequenos e médios tomadores de crédito sofrerão com essas regras – e ninguém parece se preocupar com isso, disse. EU CONCORDO 100% COM ELE.
  • No Brasil, a informalidade contábil das empresas de médio porte para menor atrapalha decididamente a concessão de crédito. Ele sugere que entidades ligadas à contabilidade no Brasil se unam no sentido de criar um padrão mínimo de demonstrações financeiras das empresas. ESTE TEMA TAMBÉM É RECORRENTE EM MINHAS PALESTRAS E TEXTOS.

4. Sem rodeios, deixou claro que o crédito está sendo decidido de forma mais conservadora pelos bancos. Nada de novo para os nossos amigos participantes do blog, mas ainda existe muita falação na imprensa e na blogosfera, como se os bancos estivessem tomando dinheiro barato do Banco Central (via redesconto) e aplicando este mesmo recurso no mesmo Banco Central…e ainda obtendo lucros.

5. Visões sobre a crise durante o almoço: não poderia haver mais diversidade à mesa. Enquanto um deles comentava que nunca vendeu tanto como em setembro último, outro disse que seus clientes (do setor de autopeças) estão revendo suas encomendas há meses. Está cada vez mais patente que esta crise pegou no alto da cadeia (e.g. bancos e grandes corporações) e menos na pessoa física e no varejo.

Um assunto engraçado que o Jorge, que também é ex-presidente da Febraban comentou, é que os americanos impuseram ao mundo o mais rigoroso padrão de reporte financeiro jamais sonhado, conhecido como SoXa. Com 50 (!!) anos de carreira no Unibanco, ele contou o trabalho absurdo que tiveram para implantar o SoXa no banco, pois do contrário não poderiam operar suas ações (ADRs) nas bolsas americanas.

Concluiu dizendo: “Se os bancos americanos tivessem implementado o SoXa pra valer e se os auditores e autoridades de lá tivessem prestado atenção nos relatórios que eles mesmos ajudaram a criar, o mundo não estaria do que jeito que está…”. Verdade absoluta e inquestionável.

Abraços, Fernando