Não é à toa que já flagaram os primeiros fios ‘prateados’ na até então intocada cabeleira negra de Barack Obama. Ou cresceram os primeiros fios ou simplemente vem faltando tempo para Mr. Obama passar aquele bom e velho Grecin 2000.

Hoje o dia foi quente nos EUA, mas ele foi ao ataque:

1. Liberou geral: O FED usará USD 1 trilhão para aquisição de títulos do Tesouro, visando dar liquidez aos mercados, reduzir os juros de longo-prazo e mostrar que não faltará financiamento para as agências hipotecárias federais (Fannie Mae e Freddie Mac, cujos papéis também serão comprados pelo FED). Agora, será apenas a mais inconveniente das coincidências o fato de Brad Setser haver postado este artigo sobre a diminuição do apetite dos estrangeiros pelos títulos de longo-prazo do Tesouro americano? Ah, e de onde vem o dinheiro do FED para tal aquisição? O NTY fala claramente em emissão de moeda…

2. “Ninguém mexe com o meu guri! Ele tá prestigiado!”: seria mais ou menos assim a tradução da coletiva que Barack Obama deu hoje, nos jardins da Casa Branca, e que eu assisti ao vivo pela CNN. O garoto em tela é Tim Geithner, seu Secretário do Tesouro (ou Ministro da Economia). Ele vem, de fato, se atrapalhando demais na execução do programa de resgaste dos bancos e, injustamente, está apanhando por conta do bônus da AIG. O cúmulo do desprestígio é ter sua demissão negociada em contratos futuros (via internet e fora da bolsa, naturalmente). A turma aposta na data da saída e o contrato de junho parece ser o mais líquido.

De qualquer forma, os mercados reagiram bem. Vivemos dias de busca descomunal por boas notícias.

Saudações, F.

Anúncios

Primeiramente, espero que as folias momescas tenham servido para diversão ou relaxamento da melhor espécie.

Agora, que discurso “de campanha” este de Barack Obama, quando ele abriu o ano legislativo do Congresso americano. Eu não gostei. Não que ele deva prometer o que não pode cumprir, ou sei lá o que. Mas o fato é que não gostei! A Miriam Leitão disse que ele foi “Vibrante como na campanha”. Perfeito, mas agora é mostrar como irá fazer…

Leiam e/ou vejam o vídeo – e muito mais – aqui, no blog da Casa Branca. Não, não é brincadeira!

Mas pior mesmo foi a nova dupla econômica Geithner e Bernanke. O governo Obama, que tem estes dois senhores à frente do lado financeiro, chegou à conclusão que não deve estatizar (ou nacionalizar, como eles dizem por lá) – parece que eles vivem em outro planeta, onde os bancos são saudáveis e críveis. Leiam aqui na Bloomberg.

As últimas que chegam de lá é dão a impressão os bancos é que escolherão se querem dinheiro público – como se pudessem escolher ou tivessem credibilidade para decidir qualquer coisa. E dizem também que eventuais investimentos públicos serão feitos via ações preferenciais conversíveis em ordinárias, i.e. o governo não quer mandar nos bancos que quebrarem e que precisem de dinheiro público. Ai que saudades do nosso PROER…

Mais que isso, Bernanke, o todo-poderoso chefe do FED, diz achar que o sistema não está tão mal assim, que a maioria dos bancos tem capital em excesso. Me tira o tubo…

Assistam aqui um breve vídeo com Bernanke.

E aqui outro com o Geithner. (quase 9 minutos)

Quer saber, mais cedo ou mais tarde essa turma vai cair na real e nacionalizar boa parte do sistema financeiro americano (não os 6 mil bancos, mas aqueles que representam 90% dos depósitos e ativos do sistema, que devem ser uns 20, não mais).

Por enquanto, o espírito liberal americano e anti-estatizante está falando mais alto, mas se o crédito não for retomado e a economia continuar deprimida eles tomarão alguma decisão mais drástica.

Abraços,

Analisar a evolução das decisões dos bancos centrais brasileiro e americano é uma graça (ou será desgraça?)!

Os dois podem ser acusados de tudo, menos de serem inconsistentes em relação às suas visões e interpretações sobre a situação econômica e os ‘remédios’ a serem aplicados.

Tanto o Brasil como os EUA sofrem do mesmo mal: falta crédito e falta confiança nos agentes econômicos. Naturalmente, as causas da doença são diferentes. Nos EUA, eles criaram o vírus em laboratório e depois, por uma falha de ‘vedação’, o vírus se espalhou causando uma contaminação em massa. Lá, o estado do paciente é gravissímo, pois a doença o destrói por dentro há mais de um ano.

Já o Brasil sofreu contágio por contato. Não que esse contato fosse tão próximo assim, mas como a transmissibilidade é alta, também pegamos a doença, que se apresenta em seu estágio inicial, mas já demonstra ser muito séria.

Estranhamente, porém, cada Banco Central resolveu trabalhar o clássico ‘antídoto’ anti-crise, as taxas de juros, de forma inversa:

1. Nos EUA, o FED entende que precisa zerar os juros básicos. E o fez. A decisão de ontem criou uma banda que varia entre zero e 0,25% a.a. – em outras palavras, é zero mesmo. O pior é que o efeito será (como vem sendo) nulo. A economia não se aquecerá por causa disso. Afinal, os juros já eram baixos demais. Vai dar, sim, um alívio mínimo aos endividados, que são muitos, mas isso se os bancos repassarem essa queda para os seus clientes. Duvido.

2. No Brasil, o BC acredita que o fantasma da inflação ainda nos ronda e a SELIC não sai dos 13,75%. E o pior é que aqui o efeito será nulo também. Não teremos mais ou menos inflação porque os juros da SELIC estão nesse nível ou em 10% a.a. Produtos importados subirão de preço com ou sem alta dos juros, pois nossa moeda se desvalorizou 50% este ano. Para compensar, todas as commodities despencaram de preço. Ainda assim, os juros que nós e nossas empresas pagam na ponta equivalem a várias SELICs, i.e. não seria 1% ou 2% que fariam a diferença na decisão de compra de ninguém.

Alguns “super analistas” já estão dizendo que os juros cairão no Brasil em 2009. Genial, não?! Mas o BC irá esperar sinais claros e cristalinos de que não há inflação ‘escondida atrás do armário’ e que a economia está de fato nocauteada. De qualquer forma, os spreads bancários não irão cair, pelo contrário, irão subir, pois a SELIC cairá e os juros na ponta ficarão nesse patamar, i.e. maiores lucros para o sistema financeiro. Os bancos dirão que é para compensar o aumento da inadimplência.

Nos EUA, até o não-economista, President Elected Barack Obama diz que o ‘armamento’ do FED está acabando. Acabou de fato. O negócio agora é injetar dinheiro na veia do sistema, seja através de rebates fiscais, compras de ativos (podres ou não), perdão (ou rebate) de dívida dos mutuários do sistema hipotecário, etc. Aqui também, mas assim como nos EUA (e na Europa e na Ásia), a recuperação do paciente será lenta e longa (ver último post).

Com meu abraço,

Fernando

Acho que não há tema no mundo, neste momento, que me cause maior interesse intelectual do que as fórmulas pensadas/utilizadas para tirar os bancos internacionais do buraco, salvando, portanto, a economia global de uma depressão – e talvez o próprio capitalismo como nós o conhecemos.

Primeiro foi a idéia de Paulson & Bernanke que achavam que com meros USD 700 bi eles comprariam “ativos tóxicos” dos bancos, criariam um fundo de papéis podres e o mercado iria negociar esses papéis e tudo continuaria como antes. Em outras palavras, conseguiriam restabelecer a confiança do/no mercado. Nada aconteceu, conforme havíamos previsto aqui.

Depois evoluíram para onde eu achava que tinham que seguir: comprar participações acionárias dos bancos problemáticos. O FED e o Tesouro seguiram a prática britânica e o fizeram, só que de forma lenta e limitada. Não resolveu nada também, até para minha surpresa.

E por que? Está cada vez mais claro que o mercado (incluindo a Mrs. Mary, viúva do Kentucky, e o Mr. Smith, aposentado da Flórida) sabe que o conjunto de ativos podres dos bancos é grande demais. Qualquer solução que lance esses ativos a perdas, dilapidará o capital desses bancos, o que limitará sua capacidade de alavancagem (i.e. de emprestar). Além da falta de apetite de risco, teriam falta de capital regulatório mesmo! E o fato do FED/Tesouro entrar no capital dos bancos como minoritários não resolveria a questão, pois o governo seria acionista e isso não garante que o banco não quebraria (o capital injetado pelo governo viraria pó se os ativos fossem lançados a perdas).

OK, é confuso mesmo, lamento dizer.

Agora, no caso do Citibank, lançaram um terceiro modelo de resgate de banco que mistura dois instrumentos, como se um médico decidisse receitar uma combinação de dois antibióticos fortes, pois notara que um só não consegue debelar a doença.

O modelo:

  1. O governo continua injetando dinheiro vivo, pois precisa dar liquidez ao banco para que este possa honrar os depósitos que são resgatados.
  2. Mas agora o governo decidiu também garantir os ativos podres do banco. Em outras palavras, se o devedor do banco não pagar, o governo paga o banco.
  3. Essa solução restabelece o “trading” desses ativos podres criando-se um mercado para eles, pois o garantidor é o Estado.
  4. Melhor ainda, os bancos poderão tomar empréstimos (“repo”), oferecendo tais ativos garantidos pelo governo como colateral.
  5. A coisa toda foi estruturada como um seguro de crédito, com co-seguro (90% é risco governo, 10% é risco Citi). O prazo é de 10 anos, o que é longo o suficiente.

O link abaixo nos leva ao Financial Times, onde Laurence Kotlikoff e Perry Mehrling (economistas de Boston e Columbia), dois craques convidados do também-craque Martin Wolf, discorrem sobre o tema. Vale a leitura (em inglês).

http://blogs.ft.com/wolfforum/2008/11/finally-system-risk-insurance/#more-263

Então, “seus problemas acabaram”, como diriam os Cassetas? Não. Resolveu-se, aparentemente, o problema do Citi, mas existem outros milhares de bancos combalidos, de todos os tamanhos e dos dois lados do Atlântico. Francamente não sei como segurar tudo isso sem uma contrapartida monetária, i.e. um lastro do governo (como era o ouro). Estamos falando de um belo naco do PIB dos EUA!!

Também falta criar um sistema que classifique os ativos em função de sua real qualidade de crédito – esqueçam os ratings da Moody’s e S&P. Esses ativos serão (espero!) negociados por uma fração do seu valor de face e esse percentual dependerá da qualidade do risco. Na medida que a economia melhorar e os devedores começarem a repagar suas hipotecas (e os imóveis se valorizarem), naturalmente o valor desses ativos subirá e quem os detiver (“buy-and-hold”) ganhará dinheiro (em especial com o custo quase zero de financiar as posições).

E no fim das contas, não deixa de ser o velho e mal-falado “prejuízo socializado”. Afinal, sempre que um ativo der calote, o governo (i.e. o contribuinte) é que salvará a pele do investidor e do banco.

Ah, um dos meus heróis contemporâneos, Nobel Prize Winner Professor Paul Krugman ficou furioso com esse plano. Leiam abaixo.

http://krugman.blogs.nytimes.com/2008/11/24/citigroup/

E a economia real? Se esse modelo destravar o trauma dos bancos que pararam de emprestar uns para os outros, assim como tranqüilizar seus gestores quanto ao futuro da própria instituição, poderemos ver o crédito voltar a irrigar a economia real. Nunca como antes, mas muito mais que agora. Quando? Mais 6 meses de sombras, pois a máquina demora “a pegar no tranco”. Teríamos mais 1 ano de recessão, mas escaparíamos da depressão mundial.

Meus amigos, essa combinação de ativismo governamental e criatividade é heavy metal. É como jogar uma bomba atômica no olho do furacão da crise. Se isso não funcionar – e nada garante que irá funcionar – seremos todos funcionários públicos. Já pensou, o Lada (da extinta URSS) sendo carro oficial em Washington? 🙂

Gorbachov para Presidente…do Mundo!

Abraços esperançosos!

Fernando

PS: mas que ninguém pense que eu acho que deve-se resolver o imbróglio e ficar por isso mesmo. Tem que processar e prender quem fez coisa errada, cortar o bônus desse povo, etc., etc.

Depois de férias forçadas (feriados e uma séria contratura muscular nas costas), o blog volta com notícias impensáveis até outro dia: num domingo que entrará para a história do capitalismo (anotem aí: 23 de novembro de 2008), o governo americano decidiu:

  1. Garantir a bagatela de USD 306 bilhões (quase a metade do já finado Plano Paulson de USD 700 bi) de ativos podres do Citigroup. Em outras palavras, significa que o banco está garantido contra default que esses ativos possam gerar, arruinando ainda mais sua precária liquidez.
  2. Injetar mais USD 20 bilhões de caixa no banco (recentemente o Citi já havia recebido USD 25 bi, junto com outros 8 mega bancos americanos – nota-se, portanto, que esta grana não deu nem para a saída). Sim, o banco enfrenta sérios problemas de liquidez, originado por resgates dos clientes e por má performance dos seus ativos (má qualidade, insolvência).

Fala-se abertamente em venda do lendário banco americano que já foi sinônimo do poderio econômico do país. Um outro ícone, a GM, também agoniza. O “Império” está em coma econômico. Acho que nem Nouriel Roubini imaginava que a coisa afundaria tão rapidamente quando escreveu O Declínio do Império Americano.

Bem… As bolsas européias gostaram das notícias – ou pelo menos estão especulando bem enquanto eu escrevo. A Bloomberg reporta que as ações do Citi subiram mais de 40% hoje cedo (depois de terem caído 60% ao longo da semana passada). Tenho bons amigos – ex-Citibank da velha guarda brasileira – que compraram ações do banco há meses, quando valiam o dobro do que valem hoje. Por que? Parecia que o fundo do poço já tinha sido atingido à época. Parecia…

http://www.bloomberg.com/apps/news?pid=20601087&sid=aBdUcxoRPkp4&refer=home

E o seu crédito? O apetite de risco deste gigantesco banco está combalido. E o de muitos outros também. Com a retração sistêmica do crédito, a economia desacelera e todos nós sofremos em nossos negócios. E o emprego e a renda sofrem junto. O processo se retroalimenta. Mas acho que isto todos nós já sabemos.

Amigos, não tenho mais dúvida: a saída para a continuidade do capitalismo passará pela transformação do atual “ativismo governamental” para uma séria semi-estatização de bancos e empresas. O modelo/sistema está sem forças para reagir sozinho. Que coisa!

Abraços + boa semana, que será de contínuas emoções!

Fernando

“Os bancos irão emprestar ou entesourar os recursos do Tesouro?” – será uma frase de efeito para a mídia, vinda do Ministro Mantega… ou terá mais o estilo do Paulo Skaf, da FIESP…?

Que nada! Essa é a manchete desta matéria da Business Week!!!! E é sobre o crédito nos EUA!!

http://www.businessweek.com/magazine/content/08_45/b4107026056954.htm

No entanto, a coisa ficou preta mesmo é na França. Eu já disse antes que francês não gosta do “financismo” que tomou conta do capitalismo global. Mas eu não fazia idéia que o Presidente Sarkozy estava tão furioso com o sistema financeiro do seu país.

Olhem a manchete de hoje do importante jornal francês Le Monde: “Os bancos franceses sob a ameaça de uma nacionalização parcial”.

http://www.lemonde.fr/economie/article/2008/10/31/les-banques-francaises-sous-la-menace-d-une-nationalisation-partielle_1113161_3234.html#ens_id=1099210

A matéria acima (em francês) traz os seguintes comentários do Presidente Sarkozy, todos fortíssimos:

  1. Eu chamo os bancos às suas responsabilidades. Por conta das condições muito excepcionais que estamos atravessando, as empresas, especialmente as menores, mais do que nunca precisam de previsibilidade e estabilidade nas suas finanças bancárias. Eu vos demando, portanto que, salvo exceções incontestáveis, não renegociem os termos e condições dos negócios atuais”.
  2. Sarkozy criou uma função pública chamada Mediador de Crédito e, sem qualquer cerimônia, sugeriu que este vá à mídia e que diga na televisão “…os exemplos de restrições inaceitáveis de crédito em cada região da França. Todos compararão aqueles [bancos] que fazem o seu trabalho e aqueles que não o fazem”.

Já um assessor muito próximo de Nicolas Sarkozy teria declarado ao jornal: “O Presidente foi muito claro: se os bancos não jogarem o jogo, ele utilizará a bomba atômica”.

O meu mantra é o seguinte:

  1. A crise global de crédito começou porque os bancos americanos perderam muito dinheiro por conta de créditos de péssima qualidade, ficando insolventes. 
  2. A falta de liquidez do sistema, portanto, lançou o mundo às portas da recessão.
  3. Em seguida, a liquidez dos bancos foi parcialmente restaurada por conta das linhas de redesconto e de liquidez dos BC’s e da capitalização realizada pelos Tesouros nacionais.
  4. Mas aí os bancos reduziram seu apetite de crédito e aumentaram seus spreads porque: (a) Haviam perdido confiança decisorial (por conta de suas próprias perdas de crédito) (b) Perderam a confiança na solidez da economia real.

É o que chamo de processo de RETROALIMENTAÇÃO DA CRISE DE CONFIANÇA.

No Brasil, lamentavelmente, também encontramos uma situação de parcial restrição ao crédito, ainda que com tipologia diferente. A conjuntura econômica (interna) e a estrutura do sistema financeiro aqui são incomparavelmente melhores do que nos EUA e Europa e não deveríamos estar passando por isso. Nosso país não convive com nenhuma “bolha” sistemicamente séria (como nos EUA), nem nossas famílias e empresas decidiram “fechar para balanço” e ‘produzir’ uma recessão como fizeram na Europa ocidental.

No Brasil a complicação começou com a restrição das linhas externas (20% do funding total, segundo alguns), mas essa situação evoluiu rapidamente para a aversão ao risco e aumento do custo de crédito, por conta das seguintes incertezas (na ótica dos bancos):

  • Capacidade de refinanciamento de dívidas das empresas e famílias.
  • Viabilidade de exportadores por conta do novo patamar do câmbio.
  • Eventuais ‘esqueletos’ nos balanços das empresas gerados pelas operações com derivativos.

O governo brasileiro vem tomando decisões de apoio ao sistema quase que diariamente, mas estarão elas sendo suficientes? Nos EUA, o FED passou a financiar empresas diariamente. Sarkozy faz ameaças explícitas, em público, de nacionalizar o sistema financeiro. Se a irrigação do crédito não evoluir a contento, podemos contar com uma das duas opções:

  1. Uma brutal desaceleração, com efeito equivalente a uma bela recessão.
  2. Uma ação governamental forte – não me arrisco, porém, a especular sobre o perfil desta…

Comentários, críticas e sugestões são muito bem-vindos.

Abraços,

Fernando

Foi um dia cheio de coisas acontecendo. Nenhuma notícia ou decisão que promova uma virada no mau momento em que vivemos (não irei publicar/comentar nenhuma má notícia hoje). Ainda assim, foram várias iniciativas, aqui e ali, positivas.

1. Swap de Moedas: o Banco Central acertou com o FED americano uma operação de USD 30 bilhões. Essa medida se encontra na polêmica Medida Provisória 443; a tal que dá poderes para o governo federal comprar bancos, empresas, padarias, etc. Pelo que deu pra entender, o BC brasileiro poderá sacar USD 30 bi do governo americano que ficaria com o equivalente em reais para seu uso.

O acordo é positivo para o Brasil, pois aumenta o poder de fogo do governo para combater ataques ao real, como vem ocorrendo. Já para o Bush… o que ele iria fazer com R$ 70 bi? O governo quer mostrar que não irá deixar sangue rolar pela rampa do Palácio do Planalto. Tem uma turma especulando forte, jogando pesado contra as empresas que se entubaram com aqueles derivativos cambiais. Acho que o governo está com ódio viceral desse pessoal, mas não quer manchetes de jornal dizendo que meia-dúzia de grandes empresas (ou bancos) quebraram por conta de “especularem com derivativos” (e nem foi isso precisamente).

http://www.bancocentral.gov.br/noticias/Noticias.asp?noticia=1&idioma=P&cod=1905

2. COPOM/SELIC: o nosso BC já provou que é macho. Ele peita mercado, imprensa, ministros e quem mais se apresentar. Desta vez resolveu não mexer na taxa da SELIC, mantida nas alturas de 13,75% a.a. Na verdade, o BC ficou entre a gritaria da indústria que clama pela redução da taxa e uma ala de monetaristas radicais, que apostam na existência de uma severa inflação em gestação e que, por não subir a SELIC agora, terão de subí-la mais lá na frente.

Não concordaram? Entrem no blog A Mão Visível aqui ao lado e tentem entender porque o Alexandre Schwartsman e seus seguidores acreditam nisso. Eu não consegui. Por onde olho e falo só vejo desaquecimento na indústria. Não chegou no varejo, mas vai chegar em janeiro. Não entendo que inflação é essa que estão vendo. Será que o câmbio teria tanta força? A ver (e sentir).

3. As bolsas: apesar do mercado de ações ainda não ter condições de refletir minimamente para onde vai a economia real, o simples fato da BOVESPA não ter caído 10% nesta 4af é positivo. Talvez queime minha língua e ela caia 15% na 5af… Chamou a atenção a festa européia, onde todas as bolsas relevantes subiram mais de 8%, enquanto NY ‘andou de lado’, com leve queda. O que posso dizer? Já está barato além da lógica dos números para quem quer comprar com visão de longo prazo, mas Nouriel Roubini Primeiro e Único diz que ainda pode cair + 30% (e mostra números para isso!). Para quem gosta de dar uma especulada é o momento ideal.

4. Bancos: comento dois assuntos, sendo um chato e outro interessante. O interessante primeiro: o crédito bancário cresceu nos últimos 12 meses alguma coisa como 30%, mas os lucros dos bancos não cresceram na faixa dos 20% a 30% (anualizados) neste trimestre como vinha acontecendo há anos, trimestre a trimestre. Não tive tempo para analisar, mas isso chamou a minha atenção. Talvez estejam perdendo muito, ainda que temporariamente, com as operações de derivativos – os bancos têm que pagar a chamada margem na BMF (despesa) enquanto seus clientes negociam uma reestruturação das dívidas com derivativos (receita pendente). A chatice é essa interminável lenga-lenga de que os bancos não liberam o crédito, etc. Já falei sobre isso aqui umas 100 vezes. Não adianta reclamar: banco algum vai dar crédito enquanto estiver na dúvida sobre a solidez dos clientes, sobre os setores dos clientes e sobre a tendência macro daqui pra frente. Para a choradeira da FIESP, do Ministro Mantega, do Papa Bento XVI, etc., sabe o que FEBRABRAN faz? Leiam o link abaixo…pura “mensagem institucional”…

http://www.febraban.org.br/noticias1.asp?id_texto=376

5. Lula Papai Noel: foi anunciado o pacote de R$ 3 bilhões que a Caixa utilizará para dar crédito para construtoras com problemas de liquidez. A MP 443 também criou a CaixaPar que poderá comprar participação em empresas do setor. Já falamos disso aqui. A dúvida que eu tenho é como irão diferenciar o joio do trigo. Mutuários em situação complicada existem aos milhões, mas como definir qual empresa terá ajuda? Por que o Condomínio Véu da Noiva do meu amigo continuará a subir e o meu, o Chateaux Magoux ficará parado? Em tese, a ajuda é para evitar uma crise que prejudique o povo. Por outro lado, talvez beneficie maus empresários que descasaram ativos e passivos, só têm terrenos e nada no caixa, etc.

http://www1.folha.uol.com.br/folha/dinheiro/ult91u461905.shtml

E no Salão do Automóvel, aqui em SP, o Presidente Lula disse que irá ajudar este setor também. Juro que não sabia que havia tanto dinheiro disponível assim. Sério, a intenção é maravilhosa, mas a execução de tais medidas são tão complexas e arriscadas…parece-me impossível que não se cometam injustiças sérias. Deus o ajude.

http://www1.folha.uol.com.br/folha/dinheiro/ult91u461978.shtml

6. Despesas Financeiras: a notícia é velha, mas vale a pena comentar. O repórter Toni Sciarreta, da Folha, escreveu nesse último domingo sobre um estudo da consultoria Economática. Lá diz que, neste terceiro trimestre, na média, 70% do resultado operacional das empresas de capital aberto será utilizado para pagamento de juros. A mini-máxi desvalorização do real ajuda, mas a alta dos juros é fundamental. Detalhe: o estudo não contempla as tais operações com derivativos.

Então, administrar o passivo bancário é ou não é importante? É… mas poucos empresários dão valor para isso. A mídia? Não quer nem saber. Eu tenho falado sozinho sobre o tema. Depois reclamam que a SELIC sobe. Só que esquecem que o problema não é os 13,75%, da SELIC, mas sim os 35% que são pagos pela maioria das empresas brasileiras (e nem percebem, porque não fazem conta…).

Abraços, F.