Caros – o BC reduziu os juros básicos (SELIC) em 1,5%, baixando-os para 11,25% (atingindo, de novo, a menor taxa da história). Como a inflação deverá andar por volta dos 4,25%, os juros reais cravarão 6 pontos percetuais, o que ainda é muito.

A repercussão desta decisão (via rádio e TV) foi unânime: poderiam ter feito isto em dezembro. O destaque vai para o Paulo Skaf, que conclamou o BC a “reduzir a SELIC para, no máximo, 8%” foi no programa da CBN, agora a noite. Foi uma demanda tão factível como seria eu pedir ao Marcelo Teixeira, Presidente do meu Santos FC, que contrate de volta Robinho, Diego e companhia, para sermos campeões de tudo em 2009. Não dá, é impossível…

Ouço que vários bancos já reduziram certas taxas de juros. Coisa de mostrar para a sociedade que não querem aumentar o spread. Mas não esperem nenhuma queda relevante nos juros na ponta, pois os comitês de crédito dos bancos estão prá lá de conservadores. E com a oferta de crédito baixa os juros não caem…nem com a SELIC derretendo.

Temo que 2009 esteja perdido – crescimento do PIB ao redor de zero é a minha aposta.  A contração econômica do final de 2008 lançou uma inércia gigantesca na economia e esta só irá pegar no tranco se os bancos retomarem seu apetite para emprestar. Vai demorar alguns trimestres. Lá de fora não virá notícia boa – e grana! – tão cedo.

Sigamos o jogo, com foco na gestão das contas pessoais, sem contar com grandes promoções, ou sonhos de investir para “acabar com a concorrência”, etc. É ano de cautela, de perder pouco. Esta é a regra, crescer é exceção.

Abraços, FB

PS 1: hoje almocei com o amigo e comentarista-mór deste blog, o empresário Álvaro Stefani, que me deu algumas lições de gestão empresarial. A primeira é trabalhar com ética e só se relacionar com gente ética.

PS2: o Ministro Mantega declarou que “será difícil o Brasil atingir a meta de crescimento do PIB de 4% em 2009”. Mas ainda bem que ele não disse IMPOSSÍVEL, pois assim ainda resta uma esperança…

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Neste momento, numa galaxia distante,

Líderes do mal exploram os habitantes de um planetóide azul

Extraem valor enquanto podem e os descartam quando não mais precisam deles

Mas surgiu um paladino da justiça, munido de cargo público, discurso populista e muitos microfones à disposição

“O Império contra ataca”

Estrelando:

  • Skaf Vader, no papel de vilão
  • Lupi Skywalker, no papel de mocinho

Inconformado com a série de demissões, Lupi Skywalker declarou, para quem quisesse ouvir Universo afora, que: “Tem empresa esperta tirando vantagem da situação”.

O intrépido neo-jedai cresceu assombrosamente desde que Mestre Lula Yoda o promoveu. Primeiro chamou para si – e para seu Mestre, porque não é bobo – as glórias do recorde de empregos gerados em 2008. Afoito e nada humilde, não soube reconhecer que o país vivia tamanha bonança por estar inserido na tal Globalização (ou seria Galaxiação, ou Universalização?).

Quis o destino, porém, que uma tremenda chuva de asteróides varresse a economia da dita galáxia, gerando desemprego generalizado em todos os planetas, inclusive no planetóide em que vivem nossos heróis.

Lupi Skywalker, no entanto, não perde a pompa de jovem jedai e sai para o ataque: “As liberações de recursos que tínhamos que fazer já foram colocadas. Agora, aqui no Ministério do Trabalho, [empréstimos] com recursos do FGTS e do FAT têm que estar amarrados com a garantia dos empregos. Se não tiver, isso eu garanto, não sai mais um centavo”.

O que Lupi não esperava, porém, é que o Império decidisse dar um basta em suas pretensões. Skaf Vader, líder do Império dos Espertos, reuniu ontem, na Estrela do Mal da Avenida Paulista, seu comando maior. Tinha de tudo lá: o presidente da Vale (que lucrou muito no passado recente, mas que sofrerá muito agora), o presidente da FEBRABAN (não entendi a razão de tal presença!), Lawrence Pih (o empresário mais PTista do país), o Senador Tourinho, etc.

Skaf Vader, cheio de razão, largou o verbo:

“Salvar empresas é diferente de reduzir IPI, como foi feito pelo governo com a indústria automotiva recentemente. Temos uma carga tributária de 37% sobre o PIB [Produto Interno Bruto] no Brasil. Essa carga tributária aumentou muito nos últimos 20 anos. (…) O governo desonerar [impostos], isso ele sempre fez. Assim como aumenta a carga, faz política setorial e desonera imposto. Não quero crer que isso signifique estar salvando empresas com recursos públicos”.

Segundo o presidente da Fiesp, o ministro não pode estar se referindo a “eventuais empréstimos”, feitos no Banco do Brasil, por exemplo, com elevados custos. “Qualquer um aqui aplica seu dinheiro no Banco do Brasil, que toma aqui e empresta ali. Não me parece que isso sejam recursos públicos”, disse.

“O ministro Lupi precisa me explicar. Eu gostaria de conhecer a lista das empresas salvas e a origem dos recursos e a autoridade que está usando dinheiro público para salvar empresas. Eu desconheço empresas sendo salvas com recursos públicos”.

A luta promete. A galáxia está atônita, pois a situação econômica acabou de ficar ruim – e só irá piorar -, mas já estão neste nível de bate-boca! Vindo para o escritório hoje cedo, este blogueiro captou um sinal intergalático no rádio, onde uma liderança da CUT, cujo codinome era Banha, dizia que “as empresas que recebem subsídios do governo não podem demitir, reduzir salários, etc”. O dito senhor Banha é da CUT de S.J.dos Campos, onde fica uma unidade da GM que demitiu funcionários recentemente. Subsídios? Onde, de quem, para quem? Viu só, o jedai de Brasilia fala e a patuléia galáxia afora repete. Olha o perigo de uma guerra integalática aí gente!!

A grande dúvida fica por conta da postura de Mestre Yoda Lula. Nosso Mestre é sábio, apesar do pouco estudo e da aversão estomacal que declarou ter à leitura de jornais. Apesar do seu passado operário e de ter muito lutado para que os governos passados se portassem exatamente como seu ministro Lupi Skywalker o fêz,  i.e. ameaçar os empresários do mal, Mestre Yoda mudou muito.

Ele aprendeu que o país não anda sem empresas sólidas e não deverá partir para – ou patrocinar uma – luta de classes fraticida.

Aguardemos os próximos capítulos desta saga trabalhista interestelar!

Fernando “George Lucas” Blanco

PS: tudo aqui é ficção científica, tá bom?!…

Olá amigos!

Eu tenho a impressão que somos mal informados quase o tempo todo. Explico:

  • As notícias diárias são frias e sem contexto histórico (exemplo: por não confrontar a visão de um mesmo entrevistado pouco tempo atrás, quando este defendia visão oposta).
  • As análises de especialistas ficam em cima do muro, pois ninguém quer confrontar ninguém – sem falar na ‘síndrome do pensamento único’ vigente no país.
  • Os editoriais são politizados.

Sinto falta do jornalista que deixa o entrevistado sem graça, que o confronta (com educação) sobre suas posições antigas, etc.

Enfim, é por essas e por outras que, vez por outra, eu “Interpreto a Notícia”.

Espero que gostem. Abraços,

Fernando

1. Até banqueiro quer que juros caiam

A matéria abaixo, do Estadão desta 5af traz “aspas” do Sr. Marcio Cypriano, em que ele teria dito que acha que os juros deveriam cair. Bom, não sei se ele disse isso ou o que quis dizer, mas eu explico como isto funcionará.

  • Enquanto os juros não caem, o governo e os bancos ficam na mira da sociedade, que os criticam com gosto.
  • Para os bancos, quando a SELIC está alta eles ganham, principalmente, em cima de quem deixa dinheiro na conta-corrente sem aplicá-lo.
  • Mas quando a SELIC cai os bancos não reduzem – imediatamente e para todo mundo – os juros lá na ponta (aquele que empresas e pessoas pagam). Isto está provado e comprovado.
  • Em suma, o SELIC cai mas o spread sobe para o cliente, i.e. o banco ganha mais.

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20090108/not_imp304070,0.php

2. Vendas e produção de automóveis em 2008

O Estadão on-line desta 4af traz várias notícias sobre o balanço do ano automotivo, conforme divulgado pela associação das montadoras (ANFAVEA).

O que é melhor?

  • As vendas de 2009 cresceram em relação ao 2008, o país bateu recorde de produção e subirá no ranking mundial do setor? ou
  • As vendas deste último trimestre despencaram em relação ao trimestre anterior e também se comparado ao mesmo período do ano anterior?

A segunda, sem dúvida. Mas, conforme antecipamos aqui, a tragédia absoluta constatada em novembro não deverá ser o padrão. A economia travou de repente e pegou o mercado estocado e sem crédito para giro. Agora, aos poucos, a vida retorna ao normal…de 2005 ou 2006.

http://www.estadao.com.br/geral/not_ger304260,0.htm

3.  FIESP e Força Sindical vão discutir o emprego

Estas duas entidades políticas vão discutir o óbvio e dificilmente se entenderão:

  • Ambas gostam e terão holofotes, mas defendem posições tão antagônicas que não se entenderão (ao menos no momento).
  • O empresariado, com razão, pede flexibilização da legislação trabalhista. Sindicato algum irá concordar, pois até Lula já deixou claro que não quer se envolver nisso.
  • Já pensou, o primeiro presidente operário ser justamente aquele que liberará as conquistas de Getúlio e da Constituição de 88? Impossível!

O capitalismo vive os seus piores momentos, por diversos motivos. E um deles é a questão do emprego, motivado, entre outras boas razões, pelo fato do “mercado”, “analistas”, “acionistas”, “mídia”, etc., exigirem que as empresas reajam às crises e a redução da demanda, cortando custos ‘na carne’ para ganharem sempre, lucrarem sempre mais.

Antigamente, um ano ruim não era motivo para desespero, para demissões em massa, etc. Se houvesse a crença de que as coisas retomariam seu curso, os lucros acumulados nos períodos anteriores seriam mais do que suficientes para manter empregos e projetos.

Ok, esta crise não é normal e não acabará tão cedo, então não estou advogando que se deixe tudo como está e pronto. Todos terão de reduzir custos (e cortar funcionários ou horas de produção estão aí incluídos).

Concluo dizendo: se por um lado flexibilizar para preservar empregos será inevitável, as empresas – que tanto ganharam nos últimos anos de bonança – também deveriam usar parte desta ‘gordura’ acumulada e cortar o menor número de pessoas possível.

http://www.estadao.com.br/economia/not_eco304336,0.htm

E o Sr. Fernando Blanco, CEO da Coface? Será que ele pratica o que prega? Sim, para desapontamento dos cínicos. Meu orçamento para 2009, definido pela matriz, me pede que cresça apenas 4%. Este número poderia ser atingido com menos 10% da equipe. Cresceremos o número de colegas, porque entendemos que é necessário prestar melhores serviços para nossos clientes, para compensar a redução dos valores segurados. Poderíamos lucrar mais, mas acho que esta tática seria boa para 2009, mas seria uma má estratégia para 2010, 2011 e além.

Notem que eu não quero ensinar ninguém a gerir o seu negócio, até porque cada mercado tem a sua dinâmica e isto requer táticas e estratégias diferentes. A regra universal aqui é seguinte: preserve os seus clientes, porque eles não se esquecerão dos bons ou maus tratos recebidos nestes tempos difíceis.

Forte abraço da tórrida Bahia!

Fernando

O Estadão entrevistou o Presidente da FIESP, Paulo Skaf que, como de hábito, criticou o status-quo da relação entre bancos e indústrias. Reclamar da pescaria magra, sem ensinar o empresário a pescar não vai ajudar nada – como nunca ajudou a indústria. Eu tenho freqüentado o sistema FIESP/CIESP e sei do que estou falando.

Vamos à entrevista:

1. Equívocos espetaculares:

  • Nesse momento eu diria que os grandes bancos só estão ganhando”. Os bancos estão ganhando muito menos que antes. Eles adorariam emprestar mais como faziam antes e ganhar muito mais…
  • “Esse mesmo espírito de penalidade deveria ser usado pelo BC para obrigar os grandes bancos a emprestarem”. Não se pode forçar banco a emprestar, especialmente num momento turbulento como este.

2. Golaços:

  • [sobre a liberação dos compulsórios dos bancos] “Isso não irriga o mercado, só ajuda o banco pequeno”…”Os recursos não chegam à indústria, ao comércio e ao consumidor”. Taí, este é o gigantesco equívoco do BC e do governo como um todo. E acontece aqui e no mundo todo, como venho reportando. Vejam o post de 6af.

Concluindo, a indústria, o varejo, o atacado e todo mundo tem que aprender a negociar com os bancos. Reclamar através da imprensa…não resolve nada…se resolvesse os juros brasileiros eram negativos como nos EUA e no Japão…

Abraços, Fernando

Domingo, 02 de Novembro de 2008 | Versão Impressa

 

”Bancos estão ganhando com a crise”

Empresário quer medidas mais duras do BC para impedir que os grandes bancos retenham dinheiro que deve ir para o crédito

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Paulo Skaf, presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), diz que a sua “paciência está esgotada”. Durante as inúmeras reuniões com os dirigentes do Banco Central (BC) nas últimas semanas, ele ouviu insistentemente que era preciso paciência para que as medidas adotadas pela autoridade monetária surtissem efeito no restabelecimento do fluxo de crédito para as empresas. “Só que a paciência agora se esgotou, porque a situação está se agravando.” O que falta, na opinião de Skaf, para que a crise de crédito seja debelada é o BC punir os grandes bancos privados e públicos que estão “dormindo em cima do dinheiro e estão ganhando com a crise”. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Como o sr. avalia o impacto da crise financeira na indústria?

Até setembro a atividade da indústria foi absolutamente normal, com setores batendo recordes de faturamento e de rentabilidade. Mas, a partir da primeira quinzena de outubro, começamos a sentir a falta de crédito, primeiro nos setores dependentes de financiamento. Na segunda quinzena, notamos que outros setores não dependentes diretamente de crédito começaram a se ressentir.

A crise atual de crédito é a pior dos últimos tempos?

O crédito no Brasil nunca foi farto. O que assistimos agora foi a redução repentina e um aumento de custo muito grande. Não me lembro que tenho ocorrido algo parecido nos últimos 20 anos.

Por que ninguém quer emprestar?

É uma boa pergunta para ser feita aos bancos. Certamente eles devem estar numa situação cômoda porque têm como aplicar em títulos do Tesouro com taxa Selic, obviamente uma taxa mais baixa do que pegariam no mercado, mas com segurança absoluta.

O que falta para irrigar o mercado de crédito?

O que está faltando é o Banco Central pressionar o setor financeiro, principalmente os grandes bancos. Não posso culpar os pequenos bancos porque eles não estão com recursos disponíveis. Por isso, uma saída seria uma forte redução na taxa Selic, não a manutenção da taxa em 13,75% ao ano, como ocorreu na reunião da semana passada. Com isso, a remuneração ficaria pouco atrativa. Outra alternativa seria o governo penalizar o banco que não estiver emprestando no mercado. Vai custar caro essa atitude de o setor financeiro não emprestar e continuar nessa situação cômoda, dormindo em cima do dinheiro, emprestando dinheiro para o governo e o governo aceitando essa situação. É hora de o BC reagir fortemente, pressionando os grandes bancos. Quando falo em grandes bancos incluo o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal a emprestarem a custos razoáveis. O Banco do Brasil está cheio de dinheiro, a Caixa Econômica Federal está cheia de dinheiro, grandes bancos particulares estão cheios de dinheiro e o mercado, não só a indústria, está com muita dificuldade de obter crédito, sejam empresas grandes ou pequenas.

Os bancos estão em situação melhor na crise?

Nesse momento eu diria que os grandes bancos só estão ganhando.

O BC acaba de editar uma medida que pune os bancos que não comprarem a carteira de instituições menores. Isso resolve?

Isso não irriga o mercado, só ajuda o banco pequeno. É uma medida para preservar o sistema financeiro e algum banco pequeno que esteja desencaixado. Os recursos não chegam à indústria, ao comércio e ao consumidor. Esse mesmo espírito de penalidade deveria ser usado pelo BC para obrigar os grandes bancos a emprestarem. É hora de o BC reagir fortemente. Faz três semanas que tivemos várias reuniões com o BC e inúmeras vezes eu disse que não adiantava somente as medidas serem tomadas se os recursos não fossem repassados às empresas. O que eu ouvi nessas reuniões era que tivéssemos paciência, porque as medidas eram muito novas e havia necessidade de alguns dias para que elas fossem efetivadas e virassem realidade. Só que a paciência agora se esgotou porque a situação está se agravando.

Como o sr. avalia a intenção de 57% da indústria de cortar investimento em 2009?

Se houver crédito, será possível atenuar a redução dos investimentos.

“Os bancos irão emprestar ou entesourar os recursos do Tesouro?” – será uma frase de efeito para a mídia, vinda do Ministro Mantega… ou terá mais o estilo do Paulo Skaf, da FIESP…?

Que nada! Essa é a manchete desta matéria da Business Week!!!! E é sobre o crédito nos EUA!!

http://www.businessweek.com/magazine/content/08_45/b4107026056954.htm

No entanto, a coisa ficou preta mesmo é na França. Eu já disse antes que francês não gosta do “financismo” que tomou conta do capitalismo global. Mas eu não fazia idéia que o Presidente Sarkozy estava tão furioso com o sistema financeiro do seu país.

Olhem a manchete de hoje do importante jornal francês Le Monde: “Os bancos franceses sob a ameaça de uma nacionalização parcial”.

http://www.lemonde.fr/economie/article/2008/10/31/les-banques-francaises-sous-la-menace-d-une-nationalisation-partielle_1113161_3234.html#ens_id=1099210

A matéria acima (em francês) traz os seguintes comentários do Presidente Sarkozy, todos fortíssimos:

  1. Eu chamo os bancos às suas responsabilidades. Por conta das condições muito excepcionais que estamos atravessando, as empresas, especialmente as menores, mais do que nunca precisam de previsibilidade e estabilidade nas suas finanças bancárias. Eu vos demando, portanto que, salvo exceções incontestáveis, não renegociem os termos e condições dos negócios atuais”.
  2. Sarkozy criou uma função pública chamada Mediador de Crédito e, sem qualquer cerimônia, sugeriu que este vá à mídia e que diga na televisão “…os exemplos de restrições inaceitáveis de crédito em cada região da França. Todos compararão aqueles [bancos] que fazem o seu trabalho e aqueles que não o fazem”.

Já um assessor muito próximo de Nicolas Sarkozy teria declarado ao jornal: “O Presidente foi muito claro: se os bancos não jogarem o jogo, ele utilizará a bomba atômica”.

O meu mantra é o seguinte:

  1. A crise global de crédito começou porque os bancos americanos perderam muito dinheiro por conta de créditos de péssima qualidade, ficando insolventes. 
  2. A falta de liquidez do sistema, portanto, lançou o mundo às portas da recessão.
  3. Em seguida, a liquidez dos bancos foi parcialmente restaurada por conta das linhas de redesconto e de liquidez dos BC’s e da capitalização realizada pelos Tesouros nacionais.
  4. Mas aí os bancos reduziram seu apetite de crédito e aumentaram seus spreads porque: (a) Haviam perdido confiança decisorial (por conta de suas próprias perdas de crédito) (b) Perderam a confiança na solidez da economia real.

É o que chamo de processo de RETROALIMENTAÇÃO DA CRISE DE CONFIANÇA.

No Brasil, lamentavelmente, também encontramos uma situação de parcial restrição ao crédito, ainda que com tipologia diferente. A conjuntura econômica (interna) e a estrutura do sistema financeiro aqui são incomparavelmente melhores do que nos EUA e Europa e não deveríamos estar passando por isso. Nosso país não convive com nenhuma “bolha” sistemicamente séria (como nos EUA), nem nossas famílias e empresas decidiram “fechar para balanço” e ‘produzir’ uma recessão como fizeram na Europa ocidental.

No Brasil a complicação começou com a restrição das linhas externas (20% do funding total, segundo alguns), mas essa situação evoluiu rapidamente para a aversão ao risco e aumento do custo de crédito, por conta das seguintes incertezas (na ótica dos bancos):

  • Capacidade de refinanciamento de dívidas das empresas e famílias.
  • Viabilidade de exportadores por conta do novo patamar do câmbio.
  • Eventuais ‘esqueletos’ nos balanços das empresas gerados pelas operações com derivativos.

O governo brasileiro vem tomando decisões de apoio ao sistema quase que diariamente, mas estarão elas sendo suficientes? Nos EUA, o FED passou a financiar empresas diariamente. Sarkozy faz ameaças explícitas, em público, de nacionalizar o sistema financeiro. Se a irrigação do crédito não evoluir a contento, podemos contar com uma das duas opções:

  1. Uma brutal desaceleração, com efeito equivalente a uma bela recessão.
  2. Uma ação governamental forte – não me arrisco, porém, a especular sobre o perfil desta…

Comentários, críticas e sugestões são muito bem-vindos.

Abraços,

Fernando

Nesta 2af, tive a honra de participar, como convidado, do Conselho Superior de Assuntos Estratégicos (CONSEA) da FIESP. Este belíssimo orgão, que promove debates do mais alto nível, é presidido pelo Dr. Ruy Martins Altenfelder Silva. O meu relacionamento com a FIESP/CIESP começou há três anos, através do Núcleo de Jovens Empresários (NJE), da CIESP, um grupo dinâmico que sempre busca melhorias para a gestão empresarial.

No evento de hoje o palestrante foi o Presidente da Confederação Nacional das Instituições Financeiras – CNF -, Dr. Gabriel Jorge Ferreira, que discorreu sobre o tema Reforma Tributária na Visão dos Bancos e Agentes Financeiros. Também estavam presentes os senadores Roberto Konder Bornhausen e Rodolpho Tourinho.

Reporto abaixo os aspectos que mais chamaram a minha atenção, tanto ao longo do evento como durante o almoço com empresários, que aconteceu em seguida:

1. O Congresso irá aprovar a Reforma “possível”, ao invés da “ideal”. A encruzilhada de impostos, taxas e regras parece ser complexa demais para que possa ser “desmontada” e refeita de uma vez só. Há muitos interesses envolvidos, públicos e privados, e isto, num país complicado como o nosso, é assunto para uma década ou mais.

2. Os bancos brasileiros estão absolutamente sólidos, segundo o Presidente da CNF. Eu concordo com ele.

3. Fiquei muito satisfeito com duas observações do Gabriel Ferreira:

  • O importante tema das regras de alavancagem dos bancos, segundo o acordo conhecido como Basiléia II, ainda não entrou na órbita de preocupação dos empresários. Ele afirmou taxativamente que, quando de sua implementação integral, os pequenos e médios tomadores de crédito sofrerão com essas regras – e ninguém parece se preocupar com isso, disse. EU CONCORDO 100% COM ELE.
  • No Brasil, a informalidade contábil das empresas de médio porte para menor atrapalha decididamente a concessão de crédito. Ele sugere que entidades ligadas à contabilidade no Brasil se unam no sentido de criar um padrão mínimo de demonstrações financeiras das empresas. ESTE TEMA TAMBÉM É RECORRENTE EM MINHAS PALESTRAS E TEXTOS.

4. Sem rodeios, deixou claro que o crédito está sendo decidido de forma mais conservadora pelos bancos. Nada de novo para os nossos amigos participantes do blog, mas ainda existe muita falação na imprensa e na blogosfera, como se os bancos estivessem tomando dinheiro barato do Banco Central (via redesconto) e aplicando este mesmo recurso no mesmo Banco Central…e ainda obtendo lucros.

5. Visões sobre a crise durante o almoço: não poderia haver mais diversidade à mesa. Enquanto um deles comentava que nunca vendeu tanto como em setembro último, outro disse que seus clientes (do setor de autopeças) estão revendo suas encomendas há meses. Está cada vez mais patente que esta crise pegou no alto da cadeia (e.g. bancos e grandes corporações) e menos na pessoa física e no varejo.

Um assunto engraçado que o Jorge, que também é ex-presidente da Febraban comentou, é que os americanos impuseram ao mundo o mais rigoroso padrão de reporte financeiro jamais sonhado, conhecido como SoXa. Com 50 (!!) anos de carreira no Unibanco, ele contou o trabalho absurdo que tiveram para implantar o SoXa no banco, pois do contrário não poderiam operar suas ações (ADRs) nas bolsas americanas.

Concluiu dizendo: “Se os bancos americanos tivessem implementado o SoXa pra valer e se os auditores e autoridades de lá tivessem prestado atenção nos relatórios que eles mesmos ajudaram a criar, o mundo não estaria do que jeito que está…”. Verdade absoluta e inquestionável.

Abraços, Fernando