Caros – há um ano o FMI se debatia, agonizava, em função da falta de papel que o lendário (e antipatizado) Instituto tinha na economia mundial. Suas projeções eram totalmente descarrilhadas, pois a crise já estava em trabalho de parto e o FMI custava a admitir sua inseminação.

O tempo passou, a crise foi parida – e provou ser por demais robusta -, os líderes mundiais concluiram que só com coordenação internacional conseguiriam domá-la e não acharam instituição melhor que o FMI para cumprir esta tarefa.

Tal qual a fênix, eis que o FMI ressurgiu das cinzas – e com galhardia. Mas este post não quer filosofar sobre o tema, mas apenas dividir com vocês a análise e as projeções do Fundo para a economia mundial.

Diferentemente das anteriores, então excessivamente otimistas, estas projeções parecem-me bem realistas e sem catastrofismos.

Boa leitura + abraços, F.

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E o G-20 acabou.

Lá embaixo, leiam o resumão da Miriam Leitão – aliás, o blog dela mais parecia uma agência de notícias, pois foi o dia todo postando sobre o evento. Cool. Mas antes disso, vamos para a minha visão crítica da coisa:

1. De relevante mesmo para o seu negócio, há um bloco (o item 10 do link que segue) que marca para mim o  Comuniqué dos Líderes. Alí é dito que o FMI já prevê que em 2010 o mundo voltará a crescer 2% e que os líderes do G-20 estão comprometidos com isso. Para bom entendedor isso quer dizer: “Esqueçam 2009, porque este ano não tem conserto! É recessão global, com umas poucas e honrosas exceções. Tudo o que decidimos aqui e o que já estamos fazendo é para 2010 e além”.

2. Apesar do G-20 pressupor um grupo que propõe ações conjuntas e as implementa como tal, não tem nada disso. De coletivo mesmo só tem a imensa injeção de capital no FMI, Banco Mundial e outros (USD 1,1 trilhão), mais a promessa de agilizarem o desembolsos desta dinheirama (o que não será simples de se fazer, pois tem muito tomador…). O resto é com os países individualmente, sendo o principal exemplo os pacotes fiscais (os EUA tem seu mega pacote de estímulo fiscal e a Europa seguirá com sua doutrina frugal).

3. Falou-se muito de uma nova dinâmica de regulação bancária internacional, mas não poderiam ter sido mais vagos os nossos líderes globais. Se os maiores banqueiros do mundos – os americanos – estão sofrendo há 6 meses para organizar seu pacote de resgate dos bancos, como organizar uma nova fórmula global?

4. Um assunto que vem sendo tratado sem maiores detalhes ou destaque – e que, para minha surpresa, foi alvo do G-20 (item 15) – é o que trata dos Paraísos Fiscais (aquelas ilhas e pequenos países onde a grana da sonegação e do tráfico de drogas, armas, seres humanos, etc., é depositada). O Comuniqué diz: “The era o bank secrecy is over”. Gostei, pois meus impostos saem direto do holerite e nunca tive um centavo nestes paraísos.

5. Não há dúvida que o papel dos países emergentes mudou radicalmente – e para melhor. E o Brasil tem destaque nisso. Como o Marcio comentou há pouco, a popularidade do Lula correu o mundo, ou nem tanto, mas Obama demonstra intimidade com ele, faz graça, etc. De mais prático mesmo, agora fazemos (todos do G-20, até a Argentina…) parte do Financial Stability Board e participaremos da escolha dos gestores das IFI (instituições financeiras internacionais, da sigla em inglês), como FMI e Banco Mundial. Isso não nos dá direito de decidir nada, mas de influenciar em tudo – e isso não é pouco!

6. Ah, e as agências de ratings terão suas rédeas mais curtas, pois serão supervisionadas, controladas, etc. Sabe Deus como, mas deixaram claro que os dias de liberdade excessiva para agirem com conflitos de interesse estão perto do fim.

O resto, amigos, é bla-bla-bla diplomático, recheado de boas intenções, mas de efeito prático e celeridade baixos. Tudo vai depender da boa-vontade dos líderes e da capacidade deles gerenciarem estes desafios politicamente em seus países.

É isso. Gostaria de ouvi-los.

Abraços, Fernando

Os pontos mais importantes do anúncio do G-20 (segundo Miriam Leitão)

Os pontos mais importantes do anúncio do G-20, feito agora a pouco pelo primeiro-ministro inglês, Gordon Brown:

1 – O total de aporte na economia mundial chegará a US$ 5 trilhões até o fim do ano que vem. Isso contando o que já foi feito e o que ainda será.

2 – Os recursos disponíveis para que o FMI ajude países com problemas serão triplicados, passarão de US$ 250 bilhões para US$ 750 bi.

3 – Serão reservados US$ 250 bilhões para financiar o comércio internacional.

4 – Os países que fazem parte dos “paraísos fiscais” serão regulados e muitos e terão que transmitir informações fiscais e tributárias. Haverá incentivos para que isso aconteça e sanções aos que não concordarem.

5- Haverá maior regulação no sistema financeiro. Os bancos terão limite menor para alavancagem, e terão que correr menos riscos. Isso inclui as agências de risco e os fundos de investimento hedge.

6 – Haverá estímulos para diminuição do consumo de carbono e ações para a criação de “empregos verdes”.

7- A Rodada Doha será reaberta com novas negociações sobre o comércio internacional.

Ou A Luta Inglória de Timothy Geithner!

Pra começar, ele poderia ter um nome fácil – eu já grafei o nome dele de umas 3 formas diferentes. Sorry.

A tarefa deste jovem (bio na Wikipedia) Secretário do Tesouro é gigantesa, seja pelo tamanho, importancia, complexidade, etc.

Ontem ele falou muito. Foi tempo em excesso (19 minutos) para dizer tão pouco. Geithner fez um discurso político, nada técnico. Acho que disse pouco, porque o aspecto-chave deste imbróglio bancário-creditício é de difícil comunicação. Ou melhor, difícil mesmo é assumir e dizer qual é a real situação do sistema e o que tem de ser feito. Lembram dos meus posts sobre Pensamento Único e sobre Denial (ou Negação)? Pois é, Geithner, você e eu encontramos enormes dificuldades para aceitar e comunicar esta crise por que:

  1. Ninguém – e não é jogo de palavras – sabe como avaliar os ativos dos ativos bancários atualmente. Existem milhões de papéis ‘empacotados’ sob a forma de Collateralized Debt Obligations (CDO’s), garantidos por Credit Default Swaps (CDS’s). E não existem dois títulos iguais: num deles o lastro pode ser a hipoteca da minha casa e num outro ser a hipoteca da sua casa – e como você e eu temos perfis de risco diferentes, e nossas casas tem valores diferente, os CDO’s e os CDS’s que contém nossos ativos têm valores diferentes.
  2. Ao fazer a coisa certa, i.e. ao marcar-a-mercado estes CDO’s e CDS’s o capital de centenas (ou chegaremos aos milhares?) será pulverizado, e estes não terão capacidade de fazer novos empréstimos.
  3. Sem firulas, o sistema financeiro americano quebrou – e quando isto for assumido, o sistema britânico quebra junto e sabe Deus quantos outros. Nota do blogueiro: e o nosso sistema financeiro brasileiro é muito sólido e ficará ainda mais conservador.
  4. O sistema financeiro americano terá que ser estatizado. Mas como fazê-lo? São 6 mil bancos. Se “apenas” 600 estiverem quebrados (10% do total), como é que o governo americano administrará um número tão grande de instituições. Não há gente suficiente, nem há expertise suficiente.

Mr. Geithner fala em criar um fundo, que comprará os chamados “ativos tóxicos” (CDO’s, CDS’s) dos bancos, com capital público e privado. É uma alquimia inovadora – mas só um pouco. Explico:

  1. A idéia boa é que ao permitir que investidores privados – e.g. Hedge Funds – possam investir neste fundo de títulos podres, o governo reduz o volume de dinheiro do contribuinte investido nesta recuperação.
  2. Todo o resto continua o mesmo (Ver os itens acima, de 1 a 4).

Os valores envolvidos – o número consolidado varia entre USD 2 e USD 2,5 trilhões. No meu entendimento a conta fecha assim:

• USD 350 bilhões: recursos que sobraram do programa TARP (by Paulson & Bernanke).

• Entre USD 500 bi e USD 1 trilhão: fundo “público-privada”, que comprará os ativos.

• USD 1 trilhão de dinheiro novo (i.e. recém impresso) para comprar (investir em) ativos securitizados (lastreados em cartões de crédito, empréstimos estudantis, etc).

Será que dá? – Ninguém sabe e ninguém se arrisca a estimar o tamanho do rombo dos bancos – nem os próprios (PS: o FMI diz que será USD 2,2 trilhões, mas o FMI não conta, vamos combinar?). O total de empréstimos bancários nos EUA soma USD 7 trilhões.

Para encerrar: as palavras de ordem neste tema são as seguintes:

  1. Eles ainda não sabem os detalhes (até porque são muitos e complexos).
  2. Eles não tem confiança que a coisa vá funcionar (e não podem errar).
  3. Nenhuma das medidas (não) anunciadas forçará os bancos a emprestarem. A fera do The New York Times Floyd Norris aborda esta questão e eu antecipo e já resumo/traduzo a parte chave do texto: “Ordenar os banqueiros a emprestar é simples e nos traz satisfação. Mas isto não irá consertar a economia ou o sistema financeiro”.
  4. Continuaremos no temível jogo da “Tentativa e Erro”.

Abraços e oremos, pra valer. Fernando

Mais um lote de previsões, desta feita por conta de Dani Rodrik, professor de Harvard e especialista em economia internacional (o blog dele está aqui ao lado). Aproveitem! Abraços diretamente da Bahia (blogueiro em mini-férias!)

  • “O mundo estará procurando por uma nova ordem econômica internacional, mas a desordem virá primeiro…” [brilhante!]
  • “Os 4 fatores abaixo é que determinarão o quão ruim será o ano de 2009” [ele não tem dúvida que será ruim…]

Os 4 fatores de Dani Rodrik:

  1. A política econômica de Obama será suficientemente arrojada? Apesar de Obama et al anteciparem um grande estímulo fiscal ‘keynesiano’, Rodrik diz que é preciso ir além para restaurar a confiança do consumidor americano (e do europeu, do japonês). Assim como os bancos não estão emprestando por falta de confiança, o trabalhador que teme ser demitido também não gasta. Ele sugere ações para preservar o emprego. [esta é novidade: não li ou ouvi ninguém dizer nada a respeito]
  2. A Europa se organizará? A Europa poderia ser a grande vencedora num momento em que os EUA estão severamente feridos e tendo que arrumar a própria casa. Mas, para tirar proveito dessa situação, os países líderes da União Européia deveriam demonstrar e praticar um mínimo de união em torno da proposta de estímulo fiscal. E esta é a última coisa que estão fazendo, lamentavelmente. [correto – acho que o fim do mandato semestral da França na UE, com Sarkozy, será negativo para o processo, pois agora assume o inexpressivo presidente checo]
  3. A China vai se aguentar? Rodrik nos conta que a China tem um mundo de tensões e fraturas no tecido social, prontas para explodir se uma crise econômica se instalar no país. Ele sabe que cada analista estima um crescimento mínimo necessário para manter a China estável (6%? 7%? 8%?…). Ele está negativo e acha que o governo chinês não terá sucesso em manter ‘a panela de pressão’ perfeitamente fechada em 2009. [assustador!]
  4. Haverá suficiente cooperação global? – sua tese é que quando a situação nacional é emergencial, a cooperação internacional sofre. O FMI se reposicionou e está emprestando dinheiro de curto-prazo para quem precisar. E, lamentavelmente, o Organização Mundial do Comércio (a OMC) perdeu o momento com o que ele chama de irrelevante Rodada Doha. A OMC deveria focar-se nas intenções do G-20 que, recentemente, hipotecou compromisso para manter o comércio internacional com um mínimo de barreiras. [fácil discursar, difícil executar]

E encerra com mega-sinismo: “Eu desejei Feliz Ano Novo?”

Looking forward to 2009?

It will be a watershed year, ushering a new world economic order–with the disorder most likely coming first.  I just don’t have the foggiest idea what this new order will look like.

It will be a time when we will all have to change our tune and have to think out of the box. I for one will worry more about growth in the advanced countries than in the developing world, will be warning against the dangers of protectionism, will be singing the praises of the IMF (if its recent actions and pronouncements are a guide), and will fret about too much state intervention. Changing times require changing lines…

Here are four things that will determine how much doom and gloom is yet to come:

Will the U.S. policy response be “bold” enough? Barack Obama has promised that it will be, echoing at least part of FDR’s famous call for “bold, persistent experimentation” at the height of the Great Depression in 1932. In particular, he will need to go beyond Keynesian policies of fiscal stimulus to heal the deep wounds to economic confidence that lie at the root of the present crisis. So far, confidence-building measures have been limited to financial markets,  but the needs of Main Street are no less important. Workers who worry about being laid off are unlikely to go on a spending spree regardless of how much money fiscal stimulus puts in their pockets. Just as banks are hoarding cash, households will try to preserve wealth by increasing their saving. To counter this, incentives targeted directly at preserving employment will have to be part of the solution.

Will Europe get its act together? This could have been Europe’s moment. After all, the crisis originated in the U.S. and left American policy focused on its domestic troubles, opening up room for global leadership by others. Instead, the crisis has demonstrated the deep divisions within Europe—on everything from financial regulation to the requisite policy response. Germany has dragged its feet on fiscal stimulus, stymieing what should have been the second leg of a globally-coordinated fiscal action plan. Alas, the best that can be hoped at this stage is that Europe will not undermine the global fiscal stimulus which even the International Monetary Fund—the guardian of fiscal orthodoxy—regards as absolutely essential.

Will China hold together? China is a country of enormous tensions and cleavages beneath the surface, and these will find more occasion to erupt into open conflict in difficult economic times. Experts on China differ in their estimate of the rate of economic growth the country needs to create employment for the millions that flock into its urban areas every year. But it is virtually certain that China will fall short of this threshold in 2009. The question is whether policy actions to date will do enough to stem a socially and politically dangerous slowdown in the economy.  Whichever way the Chinese leadership responds, future generations may remember 2009 less for its global economic and financial crisis than for the momentous transformation it will have caused in China.

Will there be enough global economic cooperation? When domestic needs become paramount, global economic cooperation suffers. But the costs of protectionism in trade and finance are especially large at moments like these. So far the International Monetary Fund has reacted with new-found vigor, establishing a much-needed short-term lending facility and warning against too little fiscal stimulus. The World Trade Organization, meanwhile, has wasted valuable time on the irrelevant Doha round. It should have focused its efforts on monitoring and implementing the commitment made by the Group of 20 countries not to raise trade barriers.

Did I say happy new year?

Caríssimos:

É difícil escolher por onde começar. Depois de baterem cabeça durante 6 meses, os líderes do nosso Planeta Azul (incluindo os brasileiros) decidiram resolver tudo em uma semana, mais precisamente em um único fim-de-semana.

Agenda cheia – enquanto os 15 principais eurolíderes se reuniram extraordinariamente em Paris para tratar da crise deles, os ministros das finanças do G7 e do G20 se reuniram em Washington para discutr a crise do mundo todo – e neste último jamboree até o nosso Ministro Mantega participou e discursou. Para arrematar, também aconteceu a reunião anual do FMI e do Banco Mundial.

Algumas notas relevantes

1. A BOA NOTÍCIA – HOUVE CONVERGÊNCIA À TESE DE SE CAPITALIZAR OS BANCOS COM DINHEIRO PÚBLICO, AO INVÉS DO EXÓTICO PLANO PAULSON (i.e. comprar ativos podres, criação de fundos, mercado secundário, etc. OS EUA IRÃO SEGUIR O REINO UNIDO E A EUROPA DO EURO VAI JUNTO.

2. Mas por que demoram tanto para decidir sobre o óbvio?

  • Já dissemos que ultra-liberais como Bush et caterva têm imensa resistência de anexar às suas já surradas biografias palavras como “…durante o seu mandato foi responsável pela estatização dos bancos americanos...”;
  • OK, o governo decide comprar ações dos bancos, mas e o resto, e os detalhes? (i) quais bancos? (ii) a que preço? (iii) qual o percentual de controle? (iv) com quais direitos? (v) como e quando desmontar tais operações, etc. A lista de complexidades e dúvidas é imensa para qualquer um;
  • O lado político, com ou sem eleição [Obama vs. McCain].

Imaginem a situação abaixo descrita pela Bloomberg, i.e. o governo americano tendo que injetar capital para salvar o Morgan Stanley, banco de investimentos mega-protagonista nesta hecatombe financeira. Imagine a situação do Henri Paulson tendo que explicar isso para os eleitores, para os seus vizinhos, filhos, etc.

Morgan Stanley “Urgently needs rescue” by the U.S. Treasury, which should buy preferred stock to help protect Mitsubishi UFJ Financial Group Inc.’s stake in the investment bank, George Soros wrote in the Financial Times today.

Notem que até o George Soros dá palpite. Logo ele, que de tanto especular quebrou o Bank of England em 1992, desvalorizou a Libra Esterlina e ganhou USD 1 bilhão em um único dia, segundo diz a lenda.

E esta outra abaixo: além dos bancos, seguradoras, investidores e fundos de investimentos, muitos Estados americanos também estão ‘beijando a lona’  (como se diz no mundo do boxe).

California, Alabama and Massachusetts are urging the Fed and Treasury to include their securities in rescue plans designed for banks and businesses. The $2.66 trillion U.S. market for state and city bonds has been all but frozen since Lehman Brothers Holdings Inc., weighed down by losses in mortgage-backed bonds, declared history’s largest bankruptcy on Sept. 15.

A Califórnia, ensolaradao estado governado pelo Governator Arnold Schwarzenegger, precisa de UD 7 bilhões, do contrário faltará merenda escolar nas escolas públicas, entre outras amenidades – não é piada!

California has said it needs to sell as much as $7 billion in notes to maintain its schools, health system and other public services. The Bush administration said it is reviewing the states’ financial positions.

Enquanto isso na Europa…

…entre um gole de Veuve Clicquot e um naco de terrine de fois gras, os líderes europeus cedem ao:

  • Charme de Nicola Sarkozy, Presidente da França e, conforme já escrevi aqui, candidato ao futuro cargo de Presidente do Mundo. Ele está aproveitando como ninguém sua passagem como Presidente em Exercício da União Européia – cargo itinerante, que muda de mãos a cada seis meses.
  • Pragmatismo de Gordon Brown, escocês que lidera o Reino Unido que teve ‘guts’ para lançar o plano de capitalização, i.e. estatização dos bancos britânicos. E que agora é copiado por todos! Detalhe: a carreira política dele estava com os dias contados e talvez agora ganhe uma sobrevida.

Abaixo, dois textos de primeira qualidade em inglês (lamentavelmente), sobre o affair Europa. O primeiro link é da Business Week e o segundo é do Wall Street Journal.

http://www.nytimes.com/2008/10/13/business/13europe.html?pagewanted=1&hp

http://online.wsj.com/article/SB122381862224826507.html

E o Brasil até que mandou bem

Gostemos ou não do governo Lula e/ou do Ministro Mantega, o fato é que partiu do próprio Henry Paulson a indicação para que o nosso Ministro da Fazenda fosse o ‘chairman’ da reunião do G20 – e isso é algo muito positivo. Pelo que eu li na imprensa daqui e lá de fora Mantega não empolgou, mas também não decepcionou. Fez um discurso politicamente correto a partir da ótica de uma nação emergente que já fez muita lambança no passado, que levou muitos pitos internacionais em público, mas que agora está bem arrumadinho e sofrendo do mesmo jeito que antes. “Assim não dá, né, Bush!”…

Brazilian Finance Minister Guido Mantega suggested the IMF should “establish a new set of measures to strengthen and protect” the world financial system, shifting focus away from the U.S. and European models it has long championed.

“The world is watching incredulously as the crisis reveals serious systemic weaknesses and policy limitations in what used to be considered model countries, countries that were presented as the reference point for good governability, as examples to be emulated,” he said. “We need a new financial structure, with more controls and less favoritism.”

Brazil has for years pushed for an IMF restructuring that would increase its sway in the institution’s decisions.

Mantega chaired a Saturday meeting of leaders from the G20, a group of the world’s biggest economies, including the European Union, Brazil, Mexico and Argentina. The group will meet again in Sao Paulo on Nov. 8 and 9 to further address the economic crisis.

http://www.businessweek.com/ap/financialnews/D93P67S81.htm

Uma nota sobre o FMI – há 25 anos eu escuto a esquerda brasileira esculhambar com o FMI – lá atrás tinha a famosa frase “Fora FMI” (que alguns saudosistas ainda usam, talvez ignorando que o Fundo já se foi…). Agora temos o presidente Lula (um dos que mais a usou) vociferando esta semana: “Cadê o FMI??? Agora que o problema é lá na casa deles, cadê o FMI???” – acho que foi um desopilar de fígado de várias décadas de ódio retido…

O fato é que o FMI tornou-se uma organização patética. No passado, seja lá qual for o viés político de cada um e o grau de entendimento das suas constantes “visitas” ao Brasil, o fato é que o Fundo tinha um missão clara e a exercia com galhardia: país de terceiro mundo quebrou? Precisa de dinheiro de longo prazo? O FMI ajuda, mas o país terá que engolir um receituario de política econômica duríssimo (juro alto, recessão, sem inflação, corte de gastos públicos, etc.).

Agora que países como o Brasil e boa parte do resto do mundo arrumaram a própria casa, o tal do FMI passou a fazer projeções econômicas ridículas: sempre errando pra cima, tornaram-se os bastiões do otimismo. Quer dizer, até o mundo derreter semana passada, pois agora o managing director do Fundo, o francês Dominique Strauss-Kahn, passou a dizer frases de efeito e fora do tempo, como: “O sistema financeiro mundial está à beira do abismo”. Faça-me o favor, eu quero novidade!

Uma nova liderança mundial

Os chefes de estado do mundo (quase) todo clamaram neste final-de-semana por uma nova arquitetura das finanças internacionais, ou como disse alguém, “para novos tempos, uma nova governança”. Mas como bem disse outro líder, “é difícil achar uma solução global quando temos problemas locais”. É isso mesmo. A natureza do problema é similar no mundo todo, mas todos os detalhes são locais e cada país tem os seus para resolver – em particular as injunções políticas.

Curisiosidade final – vocês sabiam que o FMI é sempre liderado por um europeu e o Banco Mundial sempre por um americano? É uma convenção internacional, não escrita, mas é assim que vem funcionando desde sempre.

Abraços e que tenhamos todos uma semana menos turbulenta!

Fernando

Não.

Explico:

1. Segundo cálculos do FMI, nos últimos 30 anos, as crises bancárias nacionais custaram aos seus países a bagatela de 16% do PIB. Em se tratando apenas de termos econômicos é uma enormidade.

2. Porém, imaginem o transtorno que isto gera em termos práticos, no dia-a-dia do cidadão. Contas bloqueadas; investimentos congelados; ninguém paga e ninguém recebe de ninguém. Caos!

No entanto, a blogosfera – daqui e dos EUA também – está recheada de ataques ao plano que está sendo estruturado nos EUA, para salvação da banca americana. As críticas daqui chegam a ser pueris, com velhos chavões contra o capitalismo, anti-americanismo, abaixo os especuladores, a hipocrisia neoliberal, etc. Em outras palavras, há pouquíssimo comprometimento com uma discussão de alto nível que independa da visão de mundo de cada um.

Bom, gostem ou não – agora falando da blogosfera americana, até porque isto não é problema nosso – o provável custo desta crise sem precedentes será da ordem de USD 500 a 800 bilhões. Isto representa algo como 4% do PIB americano. E, sim, sairá dos caixa do Tesouro, que é devidamente abastecido com o dinheiro do contribuinte.

Numa conta rápida, já calcularam que o custo para resgatar os bancos custará apenas 25% do que custaria deixá-los afundar. E para este fato, que afeta o bolso de todos os americanos, a blogosfera Made in USA ainda não acordou.

Concluo repetindo o que digo como um mantra: deixar o mercado assumir este nível de risco foi irresponsabilidade crônica e generalizada. E acho que os responsáveis devem ser punidos exemplarmente. Agora, o ódio ao capitalismo e aos seus banqueiros/especuladores não justifica fazer um mal negócio para o próprio bolso. Se fosse vivo, Karl Marx estaria bradando em praça pública “contra o nefasto capitalismo financeiro”, mas, em private, certamente pegaria o seu celular Nokia último tipo e faria algumas ligações para líderes do governo e hipotecaria o seu apoio…

Abraços e bom final de semana! F.

O link abaixo disponibiliza vários vídeos, mas os meus favoritos são os que dizem respeito a:

1. Instituições financeiras internacionais não evitam crises (e.g. FMI, BIS, etc.). É fato e é obvio, mas a abordagem dela é legal.

2. A crise americana acabou? Nem de perto (e ainda vai piorar), apesar de alguns irresponsáveis dizerem que “está tudo melhorando”, só porque a mídia reduziu o número de laudas cobertas de sangue.

3. O mundo vai ter que reduzir o crescimento! A inflaçao é global e epidêmica, forçando uma alta planetária dos juro, com consequente redução do crescimento econômico.

http://oglobo.globo.com/economia/miriam/video/2008/6378/default.asp

Para os leitores antigos do blog, nada disso é novidade, mas é sempre bom ver que a ‘antenada-e-conectada’ Miriam Leitão captou estes sinais também. Vocês também sabem que eu acho que falta uma abordagem séria sobre os efeitos negativos, que estes fatos irão gerar na nossa economia – e na oferta e no custo do crédito.

Era isso que os jornais, TVs e rádios deveriam informar e debatar. Lamentavelmente, o que vemos é um mal uso de espaço nobre por conta da “ausência de consenso do mercado” sobre a alta da SELIC, que será anunciada amanhã. “Meus Deus, será 0,5% ou 0,75%? Puxa, não há consenso. E agora? A SELIC chegará a 13,5% ou passará disso?”.

Abraços, FB