Caros, o crédito veio com força na mídia impressa hoje. Os diários Estadão, Folha de SP e Valor Econômico trouxeram vários artigos sobre o tema, todos na mesma direção: mais crédito e juros mais baixos no Brasil.

Destaque para o Banco do Brasil, que anunciou a liberação de mais de R$ 13 bilhões em crédito, para 10 milhões de clientes. A reportagem da Folha diz que este crédito foi adicionado automaticamente às linhas já existentes destes clientes.

Isto significa que são linhas para pessoas físicas e pequenas empresas, pois as grandes têm seus limites definidos caso-a-caso em comitês de crédito. Também me é claro que este aumento de limites não se deu de forma homogênea para todos os 10 milhões de atingidos. Tem gente que ganhou mais linha e outros menos, sempre dependendo do perfil de risco de cada cliente, com base no chamado credit/behavior score.

De qualquer forma, esta pode ser uma ótima oportunidade para cidadãos e empresas que já têm conta no BB, assim como dívidas em outras bancos e financeiras. Explico: como tais clientes devem estar pagando juros mais altos em outros bancos, deveriam negociar crédito novo no BB e repagar tais dívidas.

Outros bancos também vêm anunciando melhores condições para empréstimos imobiliários e para financiamento de automóveis – com prazos bem dilatados. No entanto, o processo de concessão está mais rígido! Tais créditos não serão dados para qualquer um – ver post anterior.

E mais, eu não acredito que este movimento seja apenas um “soluço”, ou seja, temporário, como alguém declarou no Estadão. Acho que a oferta de crédito começa a se ajustar num novo patamar, que é mais baixo do que nos dias da farra pré-crise e acima do quase contingenciamento pós-15 de setembro.

Mas e os bancos, ficaram bonzinhos de repente? Não…apenas detectaram que o risco de crédito não ficou tão ruim como esperavam, limparam as carteiras de maus neoendividados e, finalmente, detectaram que estavam lucrando menos que o desejado.

Mercado de bonds internacionais – outra boa notícia vem do mercado de capitais internacional, com o aumento do apetite de risco dos investidores para títulos (bonds) emitidos por empresas brasileiras de grande porte e solidez comprovada. Apesar dos juros ainda altos (para o padrão internacional, destaque-se), os volumes são grandes (até USD 100 mi) e os prazos longos (3 a 5 anos neste momento), o que é quase impossível de se obter no Brasil de hoje.

Com a reabertura deste mercado, as grandes empresas brasileiras – que estão no meio de projetos de expansão – poderão captar recursos no exterior, deixando de competir com as empresas de menor porte, por recursos escassos.

Concluindo, caminhamos consistentemente para um aumento da oferta de crédito bancário no Brasil, forçando com isso a queda dos juros/spreads. Ainda está caro. Mas,  quanto menos crédito você demonstrar precisar, mais barato pagará por ele. Não se esqueça desta regra de ouro!

Abraços, F.

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Caro – a entrevista abaixo saiu na coluna Mercado Aberto, do Guilherme Barros, na Folha de São Paulo desta 4af, dia 22. Ela foi ‘picotada’ demais e não parece muito simpática, mas a mensagem é: AS EMPRESAS PODEM PAGAR JUROS MENORES…SE QUISEREM! Abraços, Fernando

Tomador tem culpa por “spread”, diz especialista

A culpa pelo alto “spread” cobrado pelos bancos é também do tomador. A opinião é de Fernando Blanco, presidente da seguradora de crédito Coface no Brasil. Para Blanco, a maioria das empresas brasileiras não sabe pesquisar taxas e negociar.
“Muitas entregam aos bancos o detalhamento das contas no papel de pão. Na hora de negociar taxas, os dados são incompletos, os balanços, mal costurados, e a barganha, fraca.” Isso provoca aumento das taxas.
“Outras, que detalham as contas, recebem mais limite com mais bancos. Paga menor “spread” quem tem excesso de oferta de crédito, ou seja, você precisa de R$ 100 e tem R$ 200 de oferta.”
Blanco diz que as empresas deveriam estimular a competitividade. “A solução é capacitação creditícia e profissionalização das relações bancárias, por parte do empresariado. Não adianta só reclamar, há uma dinâmica de risco na transação.”
Para Blanco, a concentração dos bancos também não é o vilão. “No Brasil recente, a concentração é notória. Mas, na Holanda, o “spread” pago pelo cidadão é muitas vezes um terço do pago pelo americano. E a Holanda tem só três bancos dignos de menção, enquanto os EUA têm 7.000.” O motivo, diz ele, é que o holandês poupa muito e se endivida pouco, ou seja, os bancos tentam emprestar a qualquer preço.

com JOANA CUNHA, MARINA GAZZONI

Bom dia,

Mas o que será que o crédito, o nosso Banco Central e o finado (e lendário) MOBRAL teriam em comum? Muita coisa. Resumindo, temos:

  1. O BC lançou às vésperas do Natal os números do crédito no país (ver link a seguir). O citado relatório não mostra nada de bom, mas nos induz a pensar que o crédito está, de fato, em expansão no país. http://www.bcb.gov.br/?ECOIMPOM
  2. Focando-se na expansão do crédito, ele nos mostra uma realidade ATÉ POSITIVA, se nos limitarmos a uma rápida análise QUANTITATIVA .
  3. Porém, a realidade é RUIM se fizermos uma análise QUALITATIVA, adicionando outras informações que passaram ao largo do citado relatório oficial.
  4. Economistas, “analistas”, empresários, líderes de todo tipo, gente do governo e jornalistas (*) passaram batido, como de hábito, nos fatos mais relevantes porque não dominam e pouco se interessam por crédito.

(*) O jornalista Carlos Alberto Sardenberg e os ouvintes da rádio CBN viram uma luz diferente sobre o tema, por conta da entrevista que este nada modesto escriba deu para a rádio no último dia 23 (link abaixo).

Entrevista com Fernando Blanco, presidente da seguradora de crédito Coface, ex-diretor de crédito do banco ING e ex-diretor comercial do banco ABN no Brasil

(*) e a ótima jornalista Sheila d’Amorin escreveu o seguinte, no caderno Dinheiro, da Folha de S.P. (edição do dia 24/12): “Este resultado [o aumento do crédito] está inflado pela incorporação de juros e pelo impacto da desvalorização de 10,3% do real em relação ao dólar no mês, sobretudo nos créditos em dólar concedidos pelo BNDES…”.

Note que os 10,3% de desvalorização do dólar que ela menciona, significaram mais de R$ 20 bilhões de aumento no estoque de crédito da economia, sem que um único centavo tivesse sido desembolsado!!

Ah, sim, e o MOBRAL? – o governo militar, que ‘gerenciou’ o país a partir de 1964, lançou o Movimento Brasileiro de Alfabetização – MOBRAL, cujo objetivo era reduzir o alarmante índice de analfabetismo da nossa população (o link informa mais). http://pt.wikipedia.org/wiki/Mobral

Pois muito bem, como cidadão e contribuinte, eu lanço a campanha para que o Governo reviva o MOBRAL,  objetivando a erradicação do analfabetismo financeiro e creditício do Brasil.

“Fala-se muito, muda-se pouco!”   mas é lógico, pois empresários, executivos e gente do governo não entende como o mundo do crédito funciona! E olha que eu já tentei aproximação (formal!) com um mundo de entidades de classe, políticos, etc., e…nada! Todos acham interessante o que eu digo, mas o tema sai da pauta mental desses senhores na velocidade da luz.

“Mas por que o BC não resolve isso?” – o BC entende muito de um monte de coisas, mas não é um oráculo. Por exemplo, os altos escalões e os funcionários de carreira de uma autarquia, como o BC, ou de um ministério, como o da Fazenda, não dominam o modus operandi de um banco e do seu processo de aprovação de crédito. E não interessa quantos diplomas de PhD o cidadão tenha: falta-lhe vivência! Não é burrice, mas sim falta de experiência em crédito (e isto não está escrito em livro algum, por sinal).

Em suma, para quem não tiver paciência para ouvir e ler os links, aqui vai o meu resumo:

  1. O crédito aumentou no Brasil, mas não da forma que interessa a mim, a você, a nossas empresas e ao país.
  2. O Brasil precisa do crédito crescendo (ou até diminuindo), mas de forma harmônica por todo o sistema, i.e. PF, PJ grande e pequena, etc. Sobressaltos em volumes e custo, assim como migrações de um segmento para o outro, são daninhos para o sistema!
  3. O que ocorreu (I) é que muitas mega-empresas substituíram o crédito externo pelo doméstico. Então, enquanto 1.000 empresas têm suas linhas de crédito reduzidas ou cortadas, uma única empresa, como a Petrobras, saca um único empréstimo e pode dar a falsa impressão de que está tudo normal.
  4. O que ocorreu (II) é que está aumentado a rolagem de dívidas não pagas, com os juros incluídos. Como os juros são altíssimos, o valor do novo “principal” é muito maior do que o “principal” anterior.
  5. O que ocorreu (III) é que os créditos dolarizados (e.g. Res. 63, Lei 4131, ACC/ACE/EPP, etc.) aumentaram muito em valor nominal em reais (conforme entrevista à CBN e Sheila d’Amorim).

O crédito até aumentou contabilmente, mas diminuiu e encareceu para a maioria.

Notem que é um festival de tecnicalidades, mas nada difícil de entender. Se eu e você entendemos, o governo, o BC, as entidades de classe, etc., deveriam entender também. Mas tem que querer entender e ter vontade de comunicar direito…

Crédito é tão importante no Brasil que deveríamos ter o Ministério do Crédito!

Bom último final de semana de 2008 + abraços,

Fernando

Olá  – a Folha deste domingo trouxe duas matérias escritas pela Cristiane Barbieri, top do jornalismo econômico brasileiro. Eu, como presidente da seguradora de crédito Coface, sou entrevistado e divido com os leitores da Folha – e agora com a blogosfera – alguns números dantescos. Outros profissionais são entrevistados também.

Boa leitura + abraços, Fernando

Sem caixa, redes varejistas já dão calote

Asfixiados pela falta de crédito e pelo consumo menor, lojistas deixam de pagar a indústrias, que acionam seguradoras

Atingidas pela retração, concessionárias de carros e redes de eletroeletrônicos e têxteis negociam a sua venda para grupos maiores

CRISTIANE BARBIERI
DA REPORTAGEM LOCAL

Nos primeiros 19 dias de dezembro, a seguradora de crédito Coface teve de pagar a 103 companhias que forneceram seus produtos, mas não receberam de seus clientes. Do total, 80% das empresas que não honraram seus compromissos eram redes de varejo – concessionárias de carros, pequenas cadeias de supermercados, eletroeletrônicos e têxteis, que compraram, mas não conseguiram pagar aos fornecedores.
Nos meses anteriores, a Coface tinha pago, em média, 60 sinistros ao mês. Até o fim de dezembro, a seguradora espera ter 115 deles, sendo que o volume de reservas – a quantia de dinheiro que separa para pagar as perdas dos segurados – foi quatro vezes superior às reservas médias do ano. “Houve quebras de grandes varejistas regionais e, por isso, as reservas aumentaram”, diz Fernando Blanco, presidente da Coface, que detém quase 50% do mercado de seguro de crédito no país. “Alguns deles tinham faturamento anual de R$ 300 milhões a R$ 500 milhões.”
Na Crédito y Caución, que também segura valores que serão recebidos pelas empresas, houve 20 sinistros de agosto a novembro, 125% a mais do que no mesmo período de 2007. A maior parte, foram pequenos varejistas das áreas de eletroeletrônicos e têxtil.
Como parte do mesmo cenário, as grandes redes têm recebido ofertas de cadeias pequenas que querem ser compradas. As mesmas oportunidades têm sido oferecidas a fundos de investimento e estão em consultorias que têm mandatos de negociação para vendê-las.
“Como a economia vinha crescendo forte, os varejistas estavam muito estocados, com o caixa baixo e dívidas bancárias altas”, afirma Blanco. “Mas os bancos chamaram o crédito que concediam, os consumidores pararam de comprar e o varejo vive um momento de asfixia de liquidez.”
Apesar de a maioria dos especialistas não acreditar em uma quebradeira generalizada no setor nem esperar a derrocada imediata de uma grande rede de varejo, os sinais de crise estão por todos os lados.
A inadimplência no comércio, medida pelo número de inscritos no SCPC (Serviço Central de Proteção ao Crédito), não só cresceu em dezembro como, pela primeira vez desde 2003, teve número maior de novos registros do que de pessoas que renegociam a dívida. Além disso, tanto as consultas para vendas à vista (pelo Usecheque), como as feitas para vendas a prazo (no SPC) caíram em novembro.
A queda na venda de carros de 29,5% em novembro em relação a outubro também foi forte, apesar de parcialmente minimizada pela redução do IPI anunciada pelo governo.

Crédito farto compensava ineficiências

Redes de varejo começam a reestruturar operações, mas empresas mais fragilizadas deverão passar por consolidação

Linha da CEF para varejistas tem 40 redes interessadas; empresas irão administrar dia-a-dia e buscarão crédito com a própria indústria

Robson Ventura-13.nov.08/Folha Imagem
 

Concessionária de veículos em SP, um dos setores mais afetados

DA REPORTAGEM LOCAL

A oferta de crédito farto e a demanda em alta, provocada pela entrada de novos consumidores na classe média, encobriam ineficiências do varejo, segundo especialistas do setor. “Com a contenção do crédito, tais ineficiências vieram à tona e as redes ficaram desnudas”, diz Fernando Blanco, presidente da seguradora Coface, que teve mais de 80 sinistros de redes varejistas em dezembro.
Entre os problemas apontados estão estrutura de capital inadequada, resultado de uma relação entre dívida e capital próprio desproporcional. Também há o descasamento de ativos e passivos, que são os recebimentos e as obrigações das empresas. Há ainda erros em planejamento estratégico, principalmente ligados a processos de expansão acelerada.
“Tudo isso funciona com o crédito abundante e o consumo em alta”, afirma Blanco. “Mas quando se pára de pedalar abruptamente, como aconteceu agora, a bicicleta cai.”
As compras de fim de ano e as promoções para desovar estoques deverão garantir capital de giro para o início do ano. A partir daí, os especialistas acreditam que a administração do negócio será literalmente diária, sem qualquer condição de planejamento no longo prazo.
“As empresas estão agindo como se houvesse a volta do processo inflacionário”, afirma Adalberto Viviani, sócio da consultoria Concept. “Cortaram estoques, aumentaram as entradas para 50% e estão apostando na volta do consórcio”, completa.
A intenção evidente é girar o caixa, ao mesmo tempo em que tentam reduzir a inadimplência. “Temos incentivado os varejistas a vender todo o seu estoque, a fazer caixa e evitar a todo custo ir a bancos”, diz Fábio Campos, gerente de serviços financeiros do Sebrae-SP (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas).
Segundo Campos, depois de ver como as vendas se comportarão no Natal, a instrução é que os pequenos comerciantes passem a negociar os prazos de financiamento com a própria indústria. “A reposição de estoques será menor, e os negócios serão administrados no dia-a-dia”, diz Campos.
Viviani cita, como exemplo, o caso de um de seus clientes da área de embalagens, que tinha recebido 50% das encomendas habituais para dezembro. Depois de quatro dias, os pedidos tinham chegado a 65% do normal e, na última semana, estavam em 85%.
“A expectativa tem sido pior do que a realidade, pelo menos por enquanto”, afirma Viviani.

Indicadores confusos
Isso porque, mesmo os indicadores que mostram aumento no consumo, podem esconder, na verdade, uma tendência de queda futura.
“A venda de eletroeletrônicos, principalmente computadores, só não mostrou sinais de queda porque os consumidores resolveram antecipar a compra frente a alta do dólar”, diz Claudio Felisoni, coordenador do Provar (Programa de Administração do Varejo) da FEA-USP. “Vamos identificar sinais evidentes de crise, principalmente nas lojas que vendem produtos mais caros e dependem do crédito ao consumidor.”
Felisoni exemplifica a teoria falando das concessionárias. Se até três meses atrás um carro usado de R$ 30 mil era comprado pelo lojista com deságio de 17%, hoje ele paga 30% menos sobre o valor de tabela.
“A situação das concessionárias só não é uma hecatombe porque a indústria administra sua cadeia de distribuição de forma muito profissional”, diz Blanco. Já na área de eletroeletrônicos, que teve historicamente as piores quebras do varejo brasileiro, a Coface parou de aceitar pedidos de seguros.
“Acendeu a luz amarela naqueles segmentos que dependem de financiamento”, diz Eugênio Foganholo, diretor da consultoria especializada em varejo Mixxer. “Em muitas delas, boa parte da lucratividade vinha de receita financeira conseguida nos crediários, que diminuíram muito.”
Segundo levantamento do Corecon (Conselho Regional de Economia), o varejo movimenta R$ 15 bilhões em financiamentos de compras por ano. Mas 65% dos varejistas dependem de parcerias com bancos para financiar o consumidor.

Janela estreita
Mesmo com a situação de crédito mais escasso e caro, a CEF (Caixa Econômica Federal) abriu uma linha de crédito voltada especialmente ao varejo. A CEF financia o consumidor de determinadas redes, que até então parcelavam com capital próprio suas vendas.
Por enquanto, no entanto, a linha funciona apenas em projeto-piloto, testado com sete varejistas, com exceção do Estado de Santa Catarina, para o qual foi totalmente aberto em função das enchentes. No total, são 1.600 lojas atendidas.
Com R$ 2 bilhões disponíveis, a estimativa é que a linha de crédito seja oferecida em todo o país a interessados no fim de janeiro. Por enquanto, há 40 redes na fila.
“Não desenhamos essa operação por causa da crise, até porque uma estrutura dessa levou um ano e meio para ser montada”, afirma Milton Krueger, superintendente da CEF. “Pretendemos atender a 250 redes e 11 mil lojas.”

Consolidação do setor
Com poucas alternativas, no entanto, os consultores da área esperam que 2009 seja marcado por fusões e aquisições. “É bastante provável que haja consolidações no setor”, diz Luiz Fernando Biasetto, sócio da consultoria GSMD. “As empresas que estiverem capitalizadas certamente encontrarão boas oportunidades nas que estão mais frágeis.”
Enquanto isso não acontece, os consultores dizem que a demanda por prestação de serviços ligados a reestruturações começou a crescer desde novembro. “As vendas menores e situações como a substituição tributária obrigam os varejistas a buscar eficiência de maneira mais intensa do que durante a época em que o crédito era farto”, diz Biasetto.
Para alguns deles, o momento é importante para essa reorganização, uma vez que, passada a onda de compras de Natal, pode haver um recrudescimento da crise. “O agravamento da crise é inevitável”, diz Blanco. “O único antídoto é o investimento do governo em atividades produtivas, mas isso demorará meses até ser executado. Antes de melhorar, as coisas vão piorar.” (CRISTIANE BARBIERI)

 Amigos – na edição de hoje da Folha de S.Paulo, eu e outros executivos de seguradoras de crédito fomos entrevistados pela Cristiane Barbieri que fez uma reportagem 100% focada no tema, mas por conta da crise.

Em suma:

  1. Empresas exportadoras estão perdendo dinheiro porque seus importadores nos EUA e na Europa (destaque para o Reino Unido) enfrentam sérias dificuldades financeiras.
  2. Empresas também perderão dinheiro no mercado doméstico porque seus clientes internos também terão dificuldade para pagar pelas mercadorias/serviços que comprarem.
  3. O seguro de crédito é um produto que reduz tais perdas em condições normais de mercado.
  4. Neste momento de crise aguda, todas as seguradoras estão muito conservadoras e não será fácil conseguir seguro.

Num comentário recente aqui no blog, o Paco Debonnaire, que coincidentemente trabalha com seguro de crédito na França (não na Coface), nos dá a sua visão. De fato, a procura pelo seguro aumentou muito e o negócio aqui no Brasil tende a crescer. Ele é extremamente popular na Europa e na Ásia, mas ainda engatinha por aqui. No entanto, não adianta as empresas quererem proteção quando já está tudo escancarado.

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi1611200822.htm

Boa leitura + abraços,

Fernando

Caros – Deus, em sua infinita sabedoria e misericórdia, ouviu as minhas preces e, finalmente, foi publicada uma entrevista lúcida de um banqueiro de peso. E ninguém melhor do que o Fabio Barbosa que preside a Febraban (além do Santander/Real). Vocês sabem que em vários posts eu vinha criticando a ‘falta de pegada’ das entrevistas.

Nesta, publicada na Folha de hoje, a repórter Sheila D’Amorim deu um show. Abaixo, o link (de novo) e os principais destaques da mesma, com comentários que julgo pertinentes.

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi1111200802.htm

  1. “Não tem reais suficientes para atender a essa nova demanda das pessoas [nde: ele quis dizer ‘empresas’] que migraram de dólar para reais”: o mercado financeiro e os tomadores de crédito estão perdendo na medida que vão vencendo os empréstimos em aberto, algo como 20% (estimativas) da oferta de recursos (funding) que vinham dos bancos e investidores internacionais. Então, todas as demandas de crédito externo vêm migrando para captações em reais e, naturalmente, não tem dinheiro para todo mundo.
  2. “…o crédito vai voltar, mas não como antes…a sensação de falta de crédito ficará”: é a tal história da desaceleração. As empresas e as pessoas vinham investindo, comprando e, portanto, se endividando baseadas num cenário de crescimento de 6% a.a. (imaginemos que isto é igual a um carro a 120 Km/h). Agora, a variável endividamento vai ser reduzida na marra – por falta de funding. Portanto, igualmente na marra, investimentos e compras serão reduzidos também. Eu aposto num crescimento perto de 2,5% em 2009 (algo como o nosso carro vir de 120 km/h para 30 km/h). Vai ser uma senhora brecada; não haverá batida no carro da frente… mas nascerá um ‘galo’ na testa, pois a cabeça vai bater no vidro!
  3. “Não sei de onde saiu essa idéia de que banco ganha mantendo dinheiro em título público”: esta é uma das broncas favoritas da esquerda brasileira e tem sua origem na década de 80 – no famoso “open market”. Na época, os bancos tomavam dinheiro via depósitos nas agências e investiam grande parte em títulos emitidos pelo BC e pelo Tesouro (os mais velhos lembrarão das ORTNs, OTNs, LTNs, LFTs, BBCs, etc.). Hoje é diferente, pois o custo que os bancos pagam pelo nosso dinheiro numa aplicação de CDB pode facilmente passar de 100% do CDI. Em outras palavras, não é um bom negócio para eles, não.
  4. “Ele [o BC] colocou o dinheiro [nos bancos] e está dizendo: ‘não é para você fazer o que quer, mas para usar direcionado'”: ele quer dizer que o BC liberou os recursos do compulsório para que os bancões comprem as carteiras de crédito dos bancos menores com problemas, i.e. não liberou para que eles saiam emprestando para quem quiserem. E tem meio-mundo confundindo tudo: metade achando que os bancos estão escondendo o dinheiro e a outra metade achando que o BC está irrigando a economia. Os 100% estão errados. Espero que com essa entrevista a turma entenda o que está acontecendo de fato.
  5. “Não existe dinheiro de longo prazo”: verdade. Ou melhor, só tem aquele dinheiro santo do BNDES, mas que também está no limite do limite. O resto vinha de fora, de linhas de bancos e de investidores, via emissão de eurobonds. Secou tudo. E mesmo o capital de giro diminuiu de prazo. E como as mega operações tinham funding externo (em dólares), as mega empresas agora competem com as PME’s pelos mesmos reais. Complicado para elas, não?!

O que faltou na entrevista: para ficar perfeita, faltou abordar a questão do conservadorismo dos comitês de crédito; como o Fabio enxerga o atual processo de decisão de crédito, à luz da recessão externa, etc. A lógica seria a seguinte:

  • Falta funding para os bancos emprestarem.
  • Por emprestarem menos a economia crescerá menos.
  • Com a desaceleração econômica, famílias e empresas perdem renda.
  • Menos renda, menor chance de repagar os empréstimos.
  • Os bancos reduzem ou cortam linhas e…
  • …o processo se retroalimenta.

Grande lição desta entrevista: os empresários, de todos os portes, estão lutando pelo mesmo recurso, que é finito e escasso atualmente. Conseguirá crédito adequado aquele empresário que demonstrar para os bancos que seu risco é baixo e que oferecerá boas oportunidades de negócio no futuro. Do contrário, perderá linha para outro. Virou lei da selva. Voltaremos ao tema.

Mas a Sheila D’Amorim mandou muito bem. O Oscar de Melhor Entrevista de Presidente de Banco vai para ela!

Abraços, F.

Leiam abaixo um artigo do Clóvis Rossi, da Folha de SP. Ele não é um especialista em crédito, mas nos ajuda a refletir.

Tenho apenas um comentário: quando ele fala que a PJ leva em conta os juros….hum…nem todas, na verdade, muito poucas. A maioria delas é administrada por uma PF, que pouco conhecimento tem do tema, pouco tempo tem para se dedicar ao tema e, pior, por não gostar do tema se afasta ainda mais do mesmo. Abs, FB

 

O besouro e o crédito

Clóvis Rossi

 

SÃO PAULO – Diz-se do besouro que não pode voar, pela sua aerodinâmica. No entanto voa. Daria para dizer a mesma coisa sobre o crédito no Brasil: na teoria, o aumento dos juros deveria derrubar a demanda por crédito. Na prática, o crédito voa -ou alcança um recorde após o outro. Em julho, chegou ao nível máximo desde que começaram a ser coletados os dados pelo Banco Central.
É mais fácil explicar por que a demanda por crédito continua subindo, apesar do aumento do custo do dinheiro, do que explicar por que o besouro voa: brasileiro não leva em conta o nível dos juros, mas o valor da prestação. Se cabe no bolso, pega dinheiro, mesmo pagando mais.
É verdade que são as pessoas jurídicas que estão buscando mais crédito -e, em tese, elas, sim, levam em conta a taxa de juros. De todo modo, fica evidente que o aquecimento da economia tende a se manter, na medida em que o crédito é um dos combustíveis mais importantes para o consumo.
Logo, é igualmente evidente que se torna mais e mais ingrata a tarefa do Banco Central de derrubar a demanda via aumento dos juros.
O que, por sua vez, significa que soa bem provável a previsão da grande maioria dos economistas de que os juros continuarão subindo e subindo. “Uma Selic [taxa de referência do BC] de 14,75% em dezembro é muito provável, assim como sua manutenção por uns quatro a seis meses, entrando em 2009”, escreve, por exemplo, José Francisco de Lima Gonçalves, professor da Faculdade de Economia e Administração da USP e economista-chefe do Banco Fator, para o número mais recente do boletim da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas, também da USP.
Vai acabar levando a inflação para o centro da meta em 2009. Mas, acrescenta Lima Gonçalves, “o custo será a redução do crescimento do PIB de 5% para 3,5%”.
É um bom negócio?