Antigamente, quando eu era trainee de banco (e os bichos falavam), para se descobrir, por exemplo, a oferta e a demanda de papel e celulose, só indo na associação brasileira desta indústria. Aí,  um bom trainee como eu tiraria ‘xerox’ do relatório anual da associação e, já de volta ao banco, concluiria algo inteligente que pudesse ajudar na decisão de crédito da instituição.

Hoje vivemos celebramos o oposto, pois há tanta informação de tanta coisa, saindo tudo ao mesmo tempo, que é impossível acompanhá-las corretamente, salvo se o sujeito só fizer isso na vida. São segmentos variados do mesmo setor, prazos de coleta diferentes, metodolodias de análise diferentes, um instituto querendo ‘furar’ o outro e por aí vai.

A Miriam Leitão escreveu um post legal hoje, que dá uma visão sobre os últimos números do varejo – e isto é importante: clique aqui e saiba mais.

Crédito – hoje os jornais publicaram que a inadimplência caiu, segundo números da Serasa/Experian. Eu confio muito nesse pessoal, mas não é o que sinto e ouço. A ver. Os bancos continuam sem apetite de crédito justamente por que a inadimplência na PF e na PJ pequena está altíssima.

Já o desemprego parece estar domado. E isso é fundamental para que as expectativas se estabilizem e, aos poucos, o otimismo seja retomado.

Ministro Mantega – ele que achava tanto que cresceríamos 4% este ano resolveu jogar a toalha de vez: “Cresceremos entre 0% e 2%”. Eu acho que está mais para – 0,5% e + 5%. Já o taxista de ontem acha que…

Abraços e bom fim de semana, F.

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Dados: ABPO, via Blog da Miriam Leitão

Primeiramente, espero que todos tenham tido uma Feliz Páscoa!

O gráfico acima mostra três coisas:

  • Duas curiosidades: o pico das vendas de 2008 foi mais alto do que nos anos anteriores e a queda também foi muito mais vertiginosa.
  • Uma importante: a curva de vendas começa a se recuperar.

O papelão ondulado é um item que nos ajuda a entender a atividade econômica, pois é chamado de “embalagem das embalagens”. Quase tudo é embalado em papelão ondulado. Quando se produz e vende-se muito, há muito o que se embalar e, portanto, o papelão ondulado vende que nem ‘pão quente’. A recíproca é 100% verdadeira.

Hoje, Márcia De Chiara, do Estadão, nos traz duas matérias bastante ilustrativas sobre a produção no Brasil. Ver a seguir: Economia dá sinais de recuperação e Nocauteada, indústria perde R$25 bilhões em 6meses.

A segunda matéria ilustra o trágico último trimestre de 2008, com perda de rentabilidade. A reportagem não aborda, mas a indústria perdeu crédito também – volume e prazo, com custo mais alto – e é isto que atrasa a retomada dos negócios.

Já a primeira matéria demonstra o que o gráfico acima torna transparente: muito setores voltaram a produzir. A razão é simples e fundamental: os estoques estão se ajustando. As liquidações de Natal e pós-Natal fizeram efeito e as prateleiras e armazéns começaram a ficar vazios.

Atenção, ninguém – que eu saiba – está investindo! Estamos falando de retomada da produção básica, mas isto é importante para manter e recuperar aos poucos os empregos perdidos. A retomada dos investimentos em novas fábricas, linhas de produção, etc., dependerá do otimismo do consumidor e do empresariado – e em seguida dos banqueiros! Estamos londe disso ainda. Teremos um projeto aqui e outro alí, motivados por um ou outro empresário visionário, arrojado e capitalizado. Se faltar qualquer um destas três características, não tem expansão.

O crédito está se recuperando, aos poucos, via empréstimos para as grandes empresas, que repassam sua liquidez para fornecedores e clientes (via prazo de pagamento). Os bancos começam a analisar os balanços e notam que, apesar da hecatombe do final de 2008, as empresas estavam suficientemente capitalizadas. Isto viabilizará a retomada do crédito para capital de giro.

Spreads – estes só cairão na medida que a oferta de crédito ultrapassar a demanda. A demanda anda fraca – porque os negócios andam devagar -, mas para as empresas transparentes e profissionais no Relacionamento Bancário os spreads JÁ ESTÃO CAINDO – E RÁPIDO!

Amigos, o crédito voltará para o seu negócio – em volume, prazo e preço mais baixo – mais rapidamente se você for transparente com seus bancos. Só isto funciona. Palavra de escoteiro!

Abraços e ótima semana!

Fernando

PS: a inadimplência (em geral) está muito alta e continuará subindo. Na minha opinião, este processo só se reverterá a partir de junho/julho.

Retorno de uma jornada de dois dias em Brasilia. Foi uma viagem rica, pois conversei com muita gente boa e senior, dos setores público e privado. Deu para sedimentar algumas visões importantes, as quais divido com os amigos:

I. A Origem da Crise do Crédito no Brasil

  1. Ela NÃO começou no dia 15 de setembro de 2008, quando o Lehman Brothers quebrou nos EUA.
  2. Ela APENAS se desnudou naquele momento.
  3. A inadimplência já subia consistentemente naqueles dias, só que era mascarada pelo crescimento dos ativos de crédito na economia.
  4. Já estava claro para muitos bancos que haviam emprestado mais do que deviam para gente/empresas que não tinham estofo para tamanho endividamento.
  5. A quebra do banco americano, com o consequente corte nas linhas externas, apenas acelerou o processo voraz de corte de linhas.
  6. Isto retroalimentou o processo de inadimplência já em curso.
  7. Agora que o estoque de crédito não cresce mais, a inadimplência não pára de crescer (em reais e na proporção do estoque de crédito).

II. Perspectiva da Crise de Crédito no Brasil

  1. A morosidade para a retomada do crédito no Brasil, não se dá, portanto, em função da recessão que está aqui instalada.
  2. Se dá – e continuará se dando – porque os bancos estão – e continuarão – ajustando seus portfolios de crédito. Em outras palavras, reduzirão o crédito para muitos clientes, cobrarão integralmente os empréstimos de outros tantos, etc.
  3. O Fabio Barbosa (CEO Santander/Real e Febraban) já disse – com propriedade – que o crédito não voltará a ser o que era antes, pois não há funding disponível para tanto tomador de crédito. Ele não disse e eu complemento, que não haverá oferta de crédito para muita gente, simplesmente porque os bancos e financeiras (e seguradoras de crédito) aprenderam que estes tomadores não eram suficientemente sólidos.

Portanto, concluo que a retomada do crédito – e da atividade econômica como um todo – se dará de forma mais lenta e gradual. Mas, se Deus quiser, de forma mais consistente.

III. Outras histórias/conclusões tiradas da minha viagem

  1. Senti preocupação séria por parte dos maiores bancos financiadores do comércio exterior brasileiro.
  2. Não me foi dito explicitamente, mas macaco velho cheira estas coisas: espera-se algumas grandes perdas de crédito no mercado. Outro dia o grande frigorífico Independência entrou em recuperação judicial. Senti que gente bem maior, neste e em outros setores, terão problemas.
  3. Há tempos eu brinco (sério) que todas as empresas tomarão um belo calote de um cliente que jamais imaginariam. Parece que eu não sou o único a acreditar nisto…
  4. Bom saber que o Banco do Brasil não parece ter problemas de funding. Mas caiu a demanda por linhas, porque cairam as exportações e o valor destas (principalmente das commodities).
  5. Outra coisa que venho ouvindo de bancos em geral: “Funding tem, o que não tem é bom tomador de crédito“. Os bancos estão muito refratários e tem a ver com o item  I deste post. E eu os entendo, porque aqui na Coface o volume de sinistros (i.e. empresas que dão calote nos meus clientes) cresceu barbaramente!
  6. O exportador brasileiro gostaria de tomar linhas de longo-prazo, para arrumar o seu passivo bancário, só que não há linha longa disponível, muito menos apetite dos bancos em oferecê-la.
  7. Outro fator: muitos exportadores estão sem ‘lastro’ para novos financiamentos curtos (ACC’s-ACE’s). Tomaram linha demais e não estão exportando suficiente. Isto é muito ruim.

É isso. Cautela e canja de galinha quando o assunto é crédito: seja dando prazo nas suas vendas, ou contando com o crédito para o seu capital de giro! Procure por linhas de crédito ANTES de precisar delas desesperadamente!

Abraços, Fernando

Amigos, este post estava incubado há meses. O top favorite blog do Brad Setser sempre fez “marcação serrada” na economia chinesa, mas como seus posts são mais densos, eu sempre deixava para outro dia.

Muita gente inteligente e bem intencionada pregava, ao longo de 2008, que a China e os BRICs compensariam a queda no consumo e na produção do mundo rico. Eu fiquei com esta impressão durante boa parte do ano passado, mas já havia jogado a toalha quando as exportações chinesas começaram a cair no último trimestre de 2008 e o PIB deles cedeu para “apenas” 8% de crescimento.

Xeretando a web, porém, deparei-me como este texto curtinho do Wall Street Journal, que, para melhorar, trata da essência deste blog: a nobre arte do Crédito. Pois é, a China está com problemas de crédito também.

“Lenders fear Chinese insolvencies

HONG KONG — Foreign lenders who rushed into China in recent years are watching nervously as a number of companies there teeter on the brink of insolvency. Their worry: The nation’s bankruptcy laws may leave them with virtually nothing.

Several big Western investors — Citigroup Inc., hedge-fund manager Citadel Investment Group LLC, Credit Suisse Group and CLSA Capital Partners — are seeking to get back between $100 million and $200 million in loans extended to a Chinese steelmaker, according to people familiar with the matter. While they might recoup some of the money under a restructuring, a liquidation could wipe …

Detalhe: Chinês, assim como brasileiro, não está acostumado a emprestar e a se endividar. Isso é coisa recente por lá e, na primeira virada da economia, a turma está se atrapalhando para gerenciar a situação. Aqui, porém, as regras e as relações financiador – financiado são mais claras e estáveis do que na China – e isso faz muita diferença na hora da inadimplência!

Uma breve história da China – a China é uma encicloplédia de desequilibrios, pois os tem de todos os tipos. Aliás, o país só existe da forma que conhecemos graças à mão de ferro do Partido Comunista, que administra tudo por lá: da cotação da moeda, à ocupação da terra (no campo e nas cidades), ao custo da bala que a família do executado tem de pagar, etc.

Um destes imensos desequilibrios, construídos ao longo destes 20 anos de crescimento meteórico, é o fato da tão festejada  indústria chinesa ter sido projetada e construída para atender APENAS o resto do mundo. Em outras palavras, ela é mega-dimensionada se for para atender apenas o pequeno (ainda que crescente) consumo do cidadão chinês. Sucede que o mundo parou e está com o freio de mão puxado. E aí a indústria chinesa não tem para quem exportar e, portanto, não precisa produzir tanto.

Resultado: milhares (sim, várias milhares) de fábricas fechadas e muitas dezenas de cidades-fantasmas, que nasceram e cresceram em torno daquelas fábricas voltadas à exportação (e que agora fecharam).

As empresas chinesas, muitas delas montadas em parcerias com multinacionais americanas e européias (principalmente), estão endividadas porque estavam crescendo rapidamente: e dá-lhe necessidade de crédito para capital de giro, assim como crédito para os investimentos para expansão das fábricas e estrutura logística.

O lado trágico: parou de vender, parou de entrar caixa, parou de pagar dívida. E tem a retroalimentação: aumenta a inadimplência, reduz-se a oferta de crédito e os juros aumentam automaticamente.

A minha Coface, que segura os pagamentos entre empresas no mundo todo, opera forte na China e Hong Kong. As perdas com crédito empresarial aumentaram muito lá também. A coisa está cinza, bem cinza na China. E não se esqueçam: China crescendo 5% a.a. é equivalente ao Brasil crescendo 0% (zero porcento).

Pacote de Estímulo Made in China – vocês hão de lembrar que quando virou moda, no final do ano passado, todos os governos anunciarem algum tipo de pacote fiscal (foi a 1a. safra destes pacotes, pois agora estamos na 2a. safra destes – muito maiores!), os chineses se apressaram em anunciar um “PAC Made in China” no valor de USD 585 bi. Foi um auê sem limites na mídia mundial e local também. Aí começaram a surgir os comentários cínicos: os chineses simplesmente estariam reempacotando outros projetos já orçamentados, i.e. tinha pouca ou nenhuma novidade/dinheiro novo. Alguns chamariam isto de farsa, mas deixa o radicalismo pra lá.

Olha o que saiu na Bloomberg desta 4af:, palavras do Premier Wen Jiabao:

We face unprecedented difficulties and challenges,” Wen told delegates to China’s parliament in Beijing today. The nation needs to “reverse the economic slide as soon as possible,” he said, without announcing an increase to the government’s 4 trillion yuan ($585 billion) stimulus package.

Até Tú, Confúcio?! Sim, até ele…

Abs, FB

Atenção:

  1. O Banco Central informou (e este blog repassou) que a inadimplência da PF aumentou do mês passado para cá.
  2. Eu acabo de almoçar com amigo (não “colega”) do mercado, da área de PF de banco grande, que confirmou que a inadimplência subiu.

Estou consumido pela seguinte dúvida: a inadimplência da PF subiu porque o cidadão está endividado demais e com a alta dos juros – que afetou dívidas roladas – acabou se encalacrando. Ou será que esta deflação do IGP-M tem algum componente a mais do que  a simples queda do preço da cebola e do tomate, i.e. desaquecimento?

By the way, esta deflação está esquisita, mas se a tendência da inflação reverter será ótimo para todos, pois isto reverterá também a alta dos juros.

Aceito opiniões em contrário. Abraços, FB

Olha aí, pessoal: notícia fresquinha! Minha análise vem a seguir (e o link do Banco Central está lá embaixo):

  1. O volume de crédito na economia cresceu um pouquinho, de 36,6% do PIB para 37%, para um estoque de R$ 1,086 trilhões – em julho de 2007 era 32,4%. O Banco Central estima que chegaremos a 40% no final do ano.
  2. As operações com Pessoas Jurídicas cresceram 1,3% no mês (40,9% em 12 meses).
  3. Já as com Pessoas Físicas cresceram 1,2% no mês (20% em 12 meses) – estão desacelerando, graças a Deus!
  4. Ainda na PF, mal sinal: o Consignado (que é menos caro) representou 55,5% do total do Crédito Pessoal (vindo de 56,2%) – é o início da reação dos bancos ao esmagamento do spread nestas operações (que têm a taxa de juros fixada pelo Banco Central). O próximo relatório mostrará queda adicional.
  5. A inadimplência aumentou: depois da estranha queda do mês passada, registrou-se um aumento na PF para 7,3% (+ 0,3 p.p. no mês), enquanto que na PJ a inadimplência permaneceu estável em saudáveis 1,7%.
  6. Os juros estão em alta 2X: primeiro porque  a SELIC vem – e continuará – subindo, mas também porque o spread que os bancos colocam em cima da SELIC também está em alta. Números:
  • PJ – Taxa de juros (média): 27,5% (+ 0,9 p.p. no mês)
  • Spread PJ médio: 25,6 p.p., com alta de 1,1 p.p. no mês
  • PF – Taxa de juros (média): 51,4% (+ 2,3 p.p. no mês)
  • Spread PF médio: 36,6 p.p., com alta de 1,9 p.p. no mês

Nota: p.p. = pontos percentuais

Nenhuma surpresa. Vejam que este não é um quadro que indique hecatombe. Porém, é inegável que teremos uma desaceleração do crescimento combinada (e do emprego e da renda) com juros em alta: dá para ser pior para que se endividou de forma “amadora”?

http://www.bcb.gov.br/?ECOIMPOM

Abraços, F.

Prezados, acabo de dar uma entrevista na Bloomberg TV, que será retransmitida ao longo do dia.

Basicamente, eu informei que:

  • Há uma grande deterioração no crédito corporativo (empresa dando calote em empresa) nos EUA, o que não deveria ser surpresa para ninguém. Houve um pico no primeiro trimestre, mas ainda constatamos um aumento na inadimplência 110% pior do que 12 meses atrás.
  • A Europa caminha para um cenário de recessão e deterioração de crédito também.
  • Quanto ao Brasil, eu disse que acho que a situação econômica e de crédito no Brasil vai piorar consideravelmente em 2009.

Abaixo, eu divido com vocês uma breve análise do Professor Nourial Roubini, da NYU e da RGE Monitor:

The Perfect Storm of a Global Recession

 Nouriel Roubini | Aug 11, 2008

There is now an increasing probability that the global economy – not just the US – will experience a serious and protracted recession. Macro developments in the last few weeks suggest that now all of the G7 economies (the group of the major advanced economies including US, UK, Japan, Germany, France, Italy and Canada) are already in a recession or close to tipping into one. Other advanced economies or emerging markets (the rest of the Eurozone including Spain. Ireland the the other Euro members; New Zealand, Iceland, Estonia, Latvia and some other South-East Europe economies) are also on the tip of a recessionary hard landing.

And once this group of twenty plus economies enters into a recession there will be a sharp growth slowdown in the BRICs (Brazil, Russia, India and China) and other emerging market economies. The IMF defines a global recession as a global growth rate below 2.5% as emerging market economies usually grow much faster (6%) than advanced economies where growth averages about 2%. For example, a country like China – that even with a growth rate of 10% plus has officially thousands of riots and protests a year – needs to move 15 million poor rural farmers to the modern urban industrial sector with higher wages every year just to maintain the legitimacy of its regime; so for China a growth rate of 6% would be equivalent to a recessionary hard landing. It now looks like that, by the end of this year or early 2009, the global economy will enter a recession.