…parece que estamos falando de lideranças empresariais que vivem em planetas diferentes, né?! Os dois têm razão – parcialmente – e os dois dão o tom que lhes convém, cá entre nós. E como já comentei antes, nenhum jornalista consegue abordar a questão sob a ótica correta. E dá-lhe zona de conforto para o banqueiro.

Mas até achei engraçado como o tom dessa entrevista foi mais leve e otimista do que aquelas feitas com o Marcio Cypriano, do Bradesco, e com o Fabio Barbosa, do Santander/Real.

Acho que o R. Setubal estava mais tranqüilo, seguro e confiante. O M.Cypriano não me pareceu a fim de ser criticado. Já o F.Barbosa me pareceu desconfortável, talvez porque também dirige a FEBRABAN e porque há duas semanas a crise estava numa fase mais aguda que agora.

Agora, temos mais é que torcer para que o otimismo demonstrado pelo Roberto Setubal seja reverberado no comitê de crédito do seu banco. É lá no comitê, e não na sala da Presidência, que acontecem as decisões de crédito de cada empresa, expandindo ou brecando os negócios – do banco e do país.

Aguardem um post que consolidará essas entrevistas, onde pretendo desmistificar certas visões deturpadas que circulam por aí.

Abraços, FB

”Vamos comprar as carteiras de crédito dos bancos pequenos”

Segundo Setubal, os grandes bancos estão atendendo à determinação do BC para injetar recursos nas instituições menores

Ricardo Grinbaum

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O Banco Central anunciou na semana passada uma medida para forçar os grandes bancos a injetar recursos em instituições financeiras de menor porte. A medida prevê um corte na remuneração dos depósitos compulsórios – dinheiro dos bancos depositados no BC – que não forem usados pelos grandes bancos para comprar carteiras de crédito das instituições menores.

O presidente do banco Itaú, Roberto Setubal, diz que a medida é correta. Setubal afirma que os grandes bancos ainda não compraram todas as carteiras esperadas pelo BC porque as negociações levam tempo. “A medida do BC vai eventualmente acelerar ou dar mais incentivos para que isso ocorra”, disse Setubal, na seguinte entrevista.

Como o sr. avalia a medida do BC?

A medida está correta e vai eventualmente acelerar ou dar mais incentivos para que isso ocorra. A liquidez está melhorando. No caso do Itaú, a gente vai usar esse compulsório plenamente, provavelmente em duas semanas. Imagino que todos os bancos estão numa situação semelhante.

A medida do governo parece uma punição aos bancos grandes por não estarem comprando as carteiras de crédito dos bancos menores. O que está acontecendo?

Há certa dificuldade operacional para implementar esse uso do compulsório. Há um procedimento operacional que é complicado, trocar carteiras, não é como comprar um CDB. Tem que analisar a carteira, trocar ativos, fazer transferência da cobrança, demora um pouco mais. Na medida que o tempo passa, a gente consegue resolver essas dificuldades. Os bancos estão procurando usar seus compulsórios. Porque é mais interessante para o banco comprar carteira de bancos pequenos do que deixar depositado no Bacen. A medida do BC vai, talvez, agilizar um pouco isso, porque a penalidade aumentou ou, pelo menos, a vantagem de comprar carteiras aumentou.

Existe uma cobrança para que os bancos normalizem a situação do crédito. Qual é a situação atual?

Houve um certo constrangimento do crédito. O BC tomou uma série de medidas e a liquidez está voltando. Isso não se refere só à questão dos bancos pequenos, mas ao sistema em geral. Os empréstimos estão voltando. No caso do Itaú, em momento algum deixamos de emprestar. A carteira de pessoa jurídica, por exemplo, teve em outubro o segundo maior crescimento do ano. O volume de empréstimos para pequenas e médias empresas cresceu acima de 5%, que é um número alto.

Como se explica que esse crescimento teria ocorrido no auge da crise, quando mais se falava da falta de liquidez?

Pois é. Acho que há uma certa dessintonia. Imagino que os bancos menores, que tiveram problema maior de liquidez, estavam sem condições de oferecer crédito para seus clientes. Isso dificultou, causou certa apreensão, certo travamento. Mas os bancos grandes de forma geral tiveram uma operação normal no mês. Vou dar um exemplo. Vamos fazer mais de R$ 2 bilhões este mês em financiamentos para compra de automóveis, que é um número alto, mas um pouco menor do que vinha sendo. O que mudou em relação ao mês anterior? Em relação às propostas que recebemos, aprovamos e liberamos uma quantidade de financiamentos praticamente igual ao mês anterior. No entanto, o número de propostas caiu.

E as outras operações de crédito do banco?

Foi tudo praticamente normal. O que está havendo um pouco é um limite para grandes operações, em que um único cliente pede R$ 1 bilhão. Para R$ 1 bilhão, vamos devagar, porque a liquidez não está tão folgada assim. Quando um único cliente quer levar valores muito elevados, temos que dividir entre dois, três bancos.

O sr. diz que o crédito está praticamente normal, com exceção dos bancos pequenos e médios. Então por que houve tanta reação?

Houve um aperto de liquidez no começo do mês, o governo passou a soltar os compulsórios. Então nas notícias há uma mistura de efeitos sérios e uma situação normal. Acho que em duas semanas vai estar tudo normalizado.

Como está a situação dos bancos pequenos e médios?

Não consigo avaliar exatamente. Quem pode avaliar melhor isso é o Bacen.

O crédito vai melhorar para eles?

Minha expectativa é que os grandes bancos vão usar todo o seu compulsório, e isso vai melhorar bastante a situação. Agora, se vai normalizar, não sou capaz de avaliar.

E na economia em geral, o pior já passou?

Por uma série de coincidências, as duas semanas anteriores a esta que estamos terminando agora foram ruins. Foram ruins no exterior e no Brasil houve esse problema de câmbio e derivativos que atrapalhou bastante. O BC administrou muito bem os problemas de câmbio, derivativos e de liquidez. Criou as condições para a situação se normalizar. A tendência é de melhora. Também há uma questão de expectativas. Todo mundo quer as coisas para ontem. Mas entre o BC entender o problema, fazer seu plano e aprovar as medidas, demora um, dois, três dias. Aí os bancos recebem aquilo, discutem o que fazer e agem. Tudo isso leva três, quatro, cinco dias. É como tomar um remédio. Demora um tempo para fazer efeito. As condições internacionais também estão caminhando para uma melhora. No meio daquelas semanas críticas, os governos da Europa tomaram medidas muito importantes, garantindo todo o sistema financeiro. Isso também está tirando a tensão dos mercados.

Qual é a dimensão do problema com os derivativos?

Acho que a mídia amplificou muito o problema. Houve um exagero. O fato de ter tido dois ou três casos, em específico o da Aracruz, que foram muito exagerados, passou uma impressão de que aquilo era a regra e não a exceção. Era exceção. Não existe e não haverá nenhum outro caso com números próximos aos que vimos de duas ou três empresas. É evidente que o caso Aracruz é um equívoco inimaginável, de uma dimensão incompatível com a realidade. Daqui para a frente, haverá uma redução nos números. Para a maioria das empresas – ou pelo menos aquelas envolvendo grandes valores -, os exageros já foram fechados. As empresas estão liquidando suas operações. Tudo isso vai se normalizar. No caso do Itaú, anunciamos que tínhamos 96 empresas. Essas operações já caíram para 79. E tem mais empresas reduzindo e refinanciando suas operações. De forma geral, a maior parte das operações que foram feitas estão num nível adequado para as exportações das empresas.

Foi por isso que o Itaú antecipou a divulgação de seus resultados financeiros?

Nesse período da tempestade, o mercado estava com muitos boatos e informações trocadas. O fato de os três grandes privados terem antecipado suas divulgações de resultados em relação ao cronograma original até ajudou a acalmar o mercado. Foi uma excelente medida. Todo mundo viu que os bancos estavam bem, com exposição relativamente pequena a esses problemas de derivativos, e que o problema era muito menor do que se chegou a especular.

Qual sua perspectiva para a economia brasileira em 2009?

É positiva. A economia brasileira está fazendo um ajuste. Com a queda no preço das commodities e da demanda internacional e o recuo de volume de investimentos, é preciso ajustar a balança de pagamentos. Isso se dá via desvalorização cambial. No caso brasileiro, acho que já ocorreu. O câmbio a R$ 2,10 ou R$ 2,20 é suficiente para reequilibrar a balança de pagamentos.

Pode haver uma crise no Brasil?

Não vejo crise, de jeito nenhum.

Qual a sua expectativa em relação ao crescimento?

Continuo achando que o Brasil vai crescer por volta de 3% no ano que vem.

Muitas empresas estão suspendendo investimentos. Como o sr. vê essa situação?

Na medida em que a demanda internacional recua, exportadores recuam seus investimentos. O crescimento da economia será um pouco menor. Mas não vejo crise. O mercado financeiro vai encontrar novos patamares, mais baixos que os anteriores, mas as coisas tendem a se normalizar.

A notícia não é tão “fresca”, mas a análise e o analista ajudam a convencer os mais céticos:

1. A Libor começou a cair ontem, i.e. o mercado de crédito interbancário começou a melhorar. Libor mais baixa = bancos menos conservadores.

2. A frase é do Paul Krugman, Prêmio Nobel de Economia (o troféu ainda está com a tinta fresca): “mas não se esqueçam que isso apenas salva o mercado de crédito do colapso; a economia real ainda está acelerando ladeira abaixo”.

Abraços,

Better

Many signs this morning that the money markets are unfreezing. John Jansen gives us this table for LIBOR:

10/20 10/17 Change
OVERNIGHT 1.51250 1.66875 -.15625
1 WEEK 2.71875 3.15625 -.43750
2 WEEKS 3.08125 3.49375 -.41250
1 MONTH 3.75125 4.18125 -.43000
2 MONTH 3.93375 4.30625 -.37250
3 MONTH 4.05875 4.41875 -.36000
4 MONTH 3.99250 4.29500 -.30250
5 MONTH 3.90125 4.20375 -.30250
6 MONTH 3.82875 4.13000 -.30125
9 MONTH 3.76875 4.02250 -.25375
12 MONTH 3.71250 3.97250 -.26000

Thank you, Mr. Brown!

But bear in mind that this just stops the credit markets from collapsing; the real economy is still rushing downhill.

Esqueçam as previsões dos analistas. Conforme já devo ter dito umas 500 vezes, aqui, em reuniões e na mídia:

1. Não há liquidez em lugar nenhum do mundo, o que inviabiliza compras pra valer de ações ou de qualquer outro ativo – por outro lado, o atual momento favorece muito qualquer tipo de vendas.

2. Não há mais dúvida que a recessão mundial já chegou (EUA e Europa). A dúvida é se esta será dura ou muito dura e quanto tempo durará (em anos, não meses).

3. Não há referência de preços na economia global: o petróleo está caro ou barato? O dólar está caro ou barato? A ação da Vale está…? Esqueçam, ninguém sabe!

Isso posto, não há como se tomar uma posição direcional, i.e. “compra e senta em cima do papel”. Quem está jogando agora é a turma da especulação (sem juízo de valor!) que entra comprando e depois frita os papéis. Tem também alguns desavisados que só perdem nesses momentos de volatilidade.

Como estou quase ganhando o apelido de “Roubini Brasileiro”, tamanho negativismo que devo transmitir nessas páginas, segue abaixo uma visão otimista. Sabem né, é aquela coisa do livre arbítrio… Pois é, cada um com seu julgamento e decisão:

http://web.infomoney.com.br//templates/news/view.asp?codigo=1403420&path=/investimentos/

Eu discordo brutalmente de várias afirmações deste articulista.

Abraços, Fernando

Meus caros,

Em 22 de janeiro, o Valor Econômico publicava uma manchete que dizia algo como “Coface prevê um banho de sangue”. A top jornalista Cristiane Perini Lucchesi escrevia a matéria de Paris onde participava a meu convite do Seminário Global de Risco Paris que nossa companhia promove anualmente (lá, aqui e em vários outros países). Nesta 4af encontrei-me com ela, por acaso, num restaurante, e nosso comentário foi: “Puxa, na época parecia uma manchete bombástica, mas foi premonitória e nada exagerada“…

Talvez por conhecer bem demais as entranhas do processo de decisão dos bancos, eu sempre achei que esta crise seria diferente, pior do que qualquer outra, mas nem nos meus dias mais apocalípticos eu previa tamanho massacre.

Hoje, dia 10/10, 6af – leio e ouço (quase) surpreso que o mercado asiático derreteu espetacularmente (link do Terra, abaixo http://br.invertia.com/noticias/noticia.aspx?idNoticia=200810100648_RED_77520107 e que a Europa segue pelo mesmo caminho.

Mas por que isso? Estão seguindo o Dow Jones, em NY? Não! Explico:

  1. O mercado acionário é 100% globalizado. Os fundos de investimentos e os asset managers – ambos gerenciam os trilhões que seguradoras e fundos de pensão têm em caixa – investem em ações (e outros ativos) em todas as bolsas (e através de outros mecanismos) do mundo todo.
  2. Quando têm que fazer caixa na sua unidade matriz (a maioria está no EUA onde a liquidez está mais apertada), começam a vender nos lugares onde já realizaram lucro (para mostrar resultado). A coisa chegou num ponto que estão vendendo em toda parte.
  3. Não faz sentido econômico a Ásia e o Brasil caírem tanto, pois é onde a crise pegou mais levemente, mas os estrangeiros precisam fazer caixa, estão vendendo e pronto. A coisa é simples e qualquer explicação mais “inteligente” é balela.
  4. Também é simples por que mesmo estando menos afetado nosso mercado muitas e muitas vezes cai mais do que o afetadíssimo mercado americano. O nosso mercado (assim como todos os outros) é muito menor do que o americano. Se alguém colocar uma ordem de venda de USD 100 mi de ADRs da Petrobras em NY, não faz nem cócegas no índice Dow Jones, mas se vender R$ 100 mi de ações de Petrobras aqui, a casa cai.

A expressão “O céu é o limite” definitivamente deve ser substituida pelo “O magma é o limite”. http://pt.wikipedia.org/wiki/Magma

Reparem também no seguinte: reforço minha visão de que esta crise “maior” está sendo alimentada por uma crise crise “menor” que é a falta de liquidez do cidadão comum. Notem que:

  1. A crise bancária tem início na insolvência dos bancos americanos e britânicos. Este assunto já está (em tese) equacionado. Porém, a crise de liquidez no mercado interbancário, não – e nem irá se equacionar, salvo se a federalização dos bancos acontecer! Mas o Bush não quer, está resistindo e está sózinho, pois até o liberal-libertário-libertino Henri Paulson já se engajou na tese dos “marxistas-leninistas” Roubini e Krugman.
  2. A consequência óbvia do processo acima todos sabemos: é a crise de crédito que já nos atinge no dia-a-dia. Só que essa crise de liquidez, que para o cidadão americano é muito mais aguda, está forçando-o a resgatar todos os investimentos que permitam fazer caixa rapidamente.
  3. E lá não se investe “na poupança” como aqui. O John Smith, do meio do Kentucky, tem carteira de ações com o banco local. Só que o banco local investe numa carteira da Merril Lynch, que por sua vez comprou ações em Kuala Lumpur, na Malásia, e na Bovespa, do Brasil. Quando Mr. Smith precisa trocar uma peça do seu trator e arrumar a cerca da fazenda, e o First National Bank of Kentucky diz para ele, “Sorry, sir, no credit”, ele tem que ‘fritar’ sua carteira de ações e inicia (juntos com outros milhões de cidadãos do mundo todo) o tsunami que testemunhamos (e que está afogando muitos de nós).

Ouço no rádio que “analistas” (aqueles, que tanto “respeito”…) dizem que A CRISE É DE CONFIANÇA. Sim, existe a crise de confiança, mas isso não é mais o centro gravitacional da crise maior: a coisa agora “progrediu” para crise de caixa mesmo, por conta da ausência generalizada de crédito.

Uma noite com a indústria – ontem palestrei e conversei reservadamente com muitos empresários e me surpreendi com algumas informações que obtive:

  • Uma pesquisa informal mostrou que 48% dos participantes de um determinado evento já sentiam os efeitos da crise no financiamento bancário de suas empresas. Meu intelocutor – um líder empresarial – cinicamente me disse: “É que os outros 48% ainda não foram ao banco pedir empréstimos este mês”. Corretíssimo.
  • Vários empresários me perguntaram, em público e reservadamente: “Qual é o risco de bancos brasileiros quebrarem?”. Notem que são pessoas esclarecidas e que estão acompanhando o esforço do Banco Central em garantir que aqui não falte liquidez e mesmo assim há uma legítima preocupação. Procurei tranqüilizá-los, pois acho que nosso sistema é solvente, mas impressiona o poder que uma crise dessas tem de assustar a sociedade.
  • Um empresário cuja empresa fatura R$ 25 milhões (i.e. uma empresa do chamado Middle Market e que não tem, portanto, uma equipe financeira formada na NASA), recebeu uma oferta de um banco estrangeiro de grande porte (lá e aqui – não, não é o meu ex-ABN) para FAZER A MESMA OPERAÇÃO DE ALTA COMPLEXIDADE E RISCO QUE A SADIA FEZ E ONDE PERDEU RIOS DE DINHEIRO E DE CREDIBILIDADE. Esta foi a pérola do ano para mim. O gerente que fez a oferta e seus superiores que o autorizaram deveriam ser presos ou banidos do mercado financeiro (para que ter certificação da ANBID se é para usar seu conhecimento de forma IRRESPONSÁVEL?). A Sadia, pelo porte e prestígio que tem, conseguiu linhas rapidamente para cobrir o rombo e refazer seu caixa. A empresa do meu amigo estaria quebrada hoje se o empresário não fosse esperto e negasse.

E vamos que vamos porque este será mais um dia quente por aqui.

Saudações, Fernando

E o nosso Banco Central também teve que entrar em cena pra valer, apesar dos “bons presságios” que Lula & Mantega nos transmitiam. A nota abaixo, da Reuters, foi o que eu achei de mais completo sobre a edição da Medida Provisória que dá certas ‘liberdades’ para o Banco Central atuar na compra de carteiras de crédito visando dar liquidez a bancos e empresas (?) afetadas por falta de liquidez.

As medidas foram anunciadas com um grau de generalidade pouco usual. A impressão que me dá é que estas ainda não foram 100% detalhadas nem mesmo nos gabinetes de Brasília. Talvez tenham apenas decidido o “jeitão” da coisa, mas a operacionalização deverá ser fechada somente noite adentro.

Uma coisa parece-me certa, no entanto: com USD 200 bi em caixa e com uma legislação mais ‘blindada’ juridicamente, o sistema financeiro e os exportadores estarão mais confiantes de que poderão contar com o respaldo do governo. Mas falta detalhar muita coisa ainda.

E eu concordo com a visão de H.Meirelles quando ele diz que nossos bancos menores (e o sistema como um todo) não sofrem de insolvência, mas sim de falta de liquidez.

Abraços, F.

MP autoriza BC a socorrer bancos em dificuldade

segunda-feira, 6 de outubro de 2008 22:17 BRT
 

Por Isabel Versiani

BRASÍLIA (Reuters) – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou nesta segunda-feira medida provisória que autoriza o Banco Central a adquirir carteiras de crédito de bancos no país por meio de operações de redesconto.

A autoridade monetária também poderá fazer empréstimos em moeda estrangeira a instituições financeiras. Caberá ao Conselho Monetário Nacional definir as garantias a serem aceitas nessas operações.

O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, afirmou que a MP ajuda a preservar a economia brasileira dos efeitos da crise financeira global, mas que, no momento, ele não vê necessidade de as operações serem postas em prática.

“Hoje não vemos necessidade de exercer essa prerrogativa, na medida em que já foram tomadas outras medidas que permitem aos bancos maiores adquirirem as carteiras dos bancos menores”, afirmou Meirelles a jornalistas.

“Mas a boa técnica prudencial diz que é importante que um país tenha um emprestador de última instância com todos os recursos necessários.”

O BC atualmente já empresta recursos para bancos, mas as operações são de curtíssimo prazo, geralmente overnight.

A Lei de Responsabilidade Fiscal já permitia operações de redesconto em prazos mais longos, disse Meirelles, mas a MP era necessária para dissipar questionamentos jurídicos, principalmente no que diz respeito às garantias oferecidas pelos bancos.

Agora, o CMN fará nos próximos dias uma reunião extraordinária para estabelecer os ativos que podem ser oferecidos pelos bancos em garantia a essas operações, que serão feitas “na medida da necessidade”, segundo Meirelles.

Na semana passada, o BC flexibilizou a regra do recolhimento compulsório de depósitos bancários a prazo, para permitir que os bancos utilizassem parte desses recursos para adquirir carteiras de crédito dos bancos pequenos e médios.

Segundo Meirelles, “uma série” de operações nesse sentido foram fechadas nesta segunda-feira, mas ele não deu detalhes.

A MP também permite que as empresas de leasing sejam autorizadas a emitir títulos de crédito denominados Letra Arrendamento Mercantil.

Mais cedo, o presidente do BC já havia anunciado em uma primeira entrevista coletiva à imprensa que o BC passará a usar parte dos recursos das reservas para adquirir títulos “de primeira qualidade” de bancos brasileiros no exterior, por meio de leilão, com o compromisso de revenda.

Meirelles afirmou que as mudanças da MP não foram também anunciadas mais cedo porque o presidente Luiz Inácio Lula da Silva quis primeiro discutir as mudanças com as lideranças da base aliada com quem se reuniu no Palácio do Planalto durante a tarde.

As primeiras informações sobre a MP foram anunciadas a jornalistas por deputados que participaram do encontro.

Meirelles reiterou que o sistema financeiro não vive um problema de solvência e está sofrendo apenas com a falta de liquidez “importada” do exterior.

“Temos que reagir ao que acontece no mercado internacional, o problema é externo.”

Segundo uma fonte do governo, que pediu para não ser identificada, o foco principal da possibilidade de o BC comprar carteiras de bancos visa principalmente ajudar as instituições menores.

(Reportagem adicional de Natuza Nery)

 

Já sabemos que os políticos americanos estão se degladiando como…gladiadores romanos. A maioria não quer assinar um “bill” (lei) em que dinheiro do seu eleitor irá financiar bancos quebrados – bem, não é isso que irá ocorrer, mas é isso que o povão pensa que vai. E vivemos e morremos por conta de percepções.

O que eu acho que vai acontecer com o Plano Paulson: ELE SERÁ APROVADO COM ESTE NOME OU OUTRO; MUITO OU POUCO MODIFICADO. E ISTO DEVERÁ ACONTECER PORQUE OS POLÍTICOS NÃO TERÃO CORAGEM DE DEIXAR O SISTEMA ENTRAR EM COLAPSO POR FALTA DE AÇÃO – SERÃO CULPADOS PELA DEPRESSÃO QUE VIRÁ PELA FRENTE. ENTÃO, O NEGÓCIO É BRIGAR ATÉ A MORTE POR MUDANÇAS QUE DESCARACTERIZEM QUE ISTO SERÁ UMA AJUDA AOS BANCOS E BANQUEIROS. TEM QUE PARECER QUE É UMA AJUDA PARA O POVO. E MAIS: AGUARDAM BUSH DECLARAR-SE CULPADO PELA CRISE.

E depois que for aprovado este (ou qualquer outro Plano): O SISTEMA FINANCEIRO AMERICANO RUIU. ESTÁ QUEBRADO E JÁ ESTÁ FEDERALIZADO. LI NA BLOOMBERG QUE O FED JÁ DESPEJOU MAIS DE USD 600 BI EM LINHAS DE LIQUIDEZ PARA O SISTEMA, I.E. QUASE O PACOTE EM SI. SE MARCAREM-A-MERCADO OS ATIVOS DOS BANCOS, ELES FICARÃO INSOLVENTES (I.E. QUEBRADOS); SE NÃO FOR DADA LIQUIDEZ, ELES QUEBRAM (OU MELHOR, JÁ TERIAM QUEBRADO). O GOVERNO IRÁ TENTAR SALVÁ-LOS (VIA PLANO), MAS NÃO EVITARÁ UMA TREMENDA RECESSÃO POR CONTA DO CRÉDITO APERTADO (AMERICANO SÓ PODE COMPRAR FIADO, POIS NÃO TEM RENDA DISPONÍVEL HÁ ALGUNS ANOS).

Então por que o mercado está nervoso? O MERCADO ESTÁ NEGOCIANDO (APOSTANDO) NA APROVAÇÃO DO PLANO E EM MAIS NADA! DEPOIS QUE FOR APROVADO, COMEÇARÁ UMA OUTRO APOSTA, I.E. SE OS BANCOS (E QUAIS) SE SALVARÃO OU NÃO. E COMO ISSO NÃO SERÁ UMA APOSTA PONTUAL – SERÁ UM PROCESSO LONGO E PENOSO -, A VOLATILIDADE CONTINUARÁ PRESENTE POR MUITO TEMPO!

Hoje, os mercados derreteram com gosto:

  • O real perdeu valor, atingindo R$ 1,964 real (dólar em alta de 5,99%)
  • A Bovespa perdeu 9,75%, fechando em 45.833 pontos
  • Enquanto escrevo, o índice Dow Jones cai 6,98%; a Nasdaq derrete 9,14% e o índice Standard & Poor’s 500 despencou 8,79%.

ATENÇÃO: É PRECIFICAÇÃO DE FIM-DO-MUNDO, MAS EU NÃO ACREDITO QUE CHEGAREMOS LÁ AGORA – SÓ MAIS PRA FRENTE.

BOA PARTE DESSA QUEDA FOI PROVOCADA POR ESPECULAÇÃO E NÃO POR PÂNICO PURO. QUANDO ALGUM PLANO FOR APROVADO, AS COTAÇÕES VOLTARÃO PARA UM PATAMAR APENAS RUIM – E NÃO PÉSSIMO COMO ESTÁ AGORA. MAS A VOLATILIDADE VEIO PARA FICAR.

A América não será mais a mesma depois da crise do subprime. Pode anotar.

Um abraço, Fernando

Caros,

Muito tem se falado que o BNDES estará pronto para financiar o investimento privado, que supostamente não conseguirá funding externo caso a crise continue, blá, blá, blá.

Fatos:

  1. Existem muitas fontes de funding internacional para as empresas brasileiras financiarem seus investimentos produtivos. Algumas dessas linhas estarão indisponíveis por algum tempo, como por exemplo: pré-pagamento de exportação, syndicated loans, eurobonds – enfim, todas aquelas que dependem de bancos comerciais e de investidores cheios de apetite de risco. Existem outras fontes, no entanto que, em tese, não teriam razão para cortar linhas para o Brasil, muito pelo contrário! Exemplos: IFC, BID, EIB, entre outros organismos multi-laterais de crédito. Conseguir esse tipo de linha, no entanto, é complicado.
  2. Acontece que essas linhas raramente são oferecidas para empresas de médio porte (e nunca para as pequenas). O empresário terá que negociar forte para que o seu gerente de contas leve o seu caso adiante.
  3. O BNDES é sempre uma excelente opção. Meus comentários:

(a) Antes da crise piorar, já se falava que o BNDES precisava de mais capital (funding), pois não dava conta de tantos pedidos de empréstimos. Chegou até a emitir, de forma surpreendente, um mega CDB para levantar recursos e pagou caro por isso (acima de 100% do CDI)! Atenção: o banco não estava insolvente ou ilíquido! Ele tinha era muita demanda para empréstimos e precisava de mais funding para bancar essa demanda motivada pelo (positivo) boom de investimentos no país.

(b) Agora, com a crise comendo solta – e piorando diariamente aqui também -, supostamente mais empresários irão buscar recursos no BNDES. Se o banco federal já precisava de aporte do governo antes, o que dirá agora? Será que o Ministério da Fazenda vai utilizar-se de recursos do Tesouro para bancar empréstimos para o setor privado? Não é usual, mas seria bem razoável. Afinal, o momento é de crise e o empresariado merece que uma solução emergêncial e “heterodoxa” seja aplicada. Afinal, estes são importantes contribuintes, sem falar que os benefícios chegarão na população (igualmente contribuinte) que terá mais emprego e menos inflação.

(c) Um drama que já foi exposto aqui neste blog é que empresas que recorrem ao BNDES têm que amargar um longo período entre a decisão de recorrer por suas linhas e o dinheiro ser desembolsado. Nunca menos de 6 meses. Imagino agora, com demanda extra. Se existe uma instituição pública que merece ter mais funcionários é o BNDES. Mas o banco também deveria mudar a forma de processar crédito e de originação. É muito longo e nem sempre os bancos comerciais – que intermediam boa parte das demandas – têm interesse de levar os processos pra frente (muito trabalho e pouco spread).

(d) Como declara o presidente do BNDES (link abaixo), em geral, o banco financia 1/3 das necessidades de capital do projeto, sendo que os outros 2/3 devem ser providos por capital próprio e pelo mercado de capitais (i.e. bonds, debentures, syndicated loans, etc.). Considerando que esse mercado estará fechado por algum tempo, o risco de projetos pararem é enorme.

http://www.estadao.com.br/economia/not_eco248597,0.htm

Sobra a banca privada, fazendo empréstimos de longo prazo em reais – igualmente raros e caros, especialmente neste momento. Os bancos fazem esses empréstimos longos, em geral, com fundos da Res. 2770, i.e. quando eles mesmos captam recursos no mercado internacional (e.g. eurobonds), ou se a empresa for exportadora, fazendo repasse de linhas de trade finance (o famoso Pré-Pagamento de Exportação). Como os bancos não terão essas linhas também, a coisa vai ficar apertada para o empresário que tem projetos em andamento e ainda precisa de recursos.

Daí a necessidade do BNDES buscar dinheiro no Tesouro e criar linhas alternativas – tipo “empréstimos-pontes” -, que seriam repagos quando os mercados reabrirem na plenitude. Prazo para isto: 12 a 18 meses.

ATENÇÃO: ACHO UM PERIGO TOCAR UM PROJETO QUE SEJA DE CAPITAL INTENSIVO COM EMPRÉSTIMOS DE CURTO-PRAZO, CARÍSSIMOS. REDOBRO MEU AVISO NUM MOMENTO COMO ESTE EM QUE A CRISE DE CRÉDITO CONTINUARÁ E PROVOCARÁ UMA DESACELERAÇÃO NA ATIVIDADE ECONÔMICA NO BRASIL TAMBÉM.

Cada um sabe onde lhe aperta o calo, mas uma estratégia errada de captação (e.g. tocar um projeto com funding de curto-prazo) poderá, inclusive, causar retração de linhas de crédito de outros bancos que poderão (e deverão) identificar aumento na percepção de risco da empresa.

Eu mesmo já neguei muito crédito por isSo. Acertei várias e errei outro tanto. O fato é que o risco é ENORME neste momento de quase certeza que o quadro só irá se deteriorar!

Abaixo, mais um link (este de hoje) sobre a pressão que estão fazendo sobre o BNDES.

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20080928/not_imp249518,0.php

De qualquer forma, acho que empresas de médio e até de grande portes – mas que não atuem em setores definidos como estratégicos pelo governo – não terão vida fácil.

Abraços, F.