Caros – o BC reduziu os juros básicos (SELIC) em 1,5%, baixando-os para 11,25% (atingindo, de novo, a menor taxa da história). Como a inflação deverá andar por volta dos 4,25%, os juros reais cravarão 6 pontos percetuais, o que ainda é muito.

A repercussão desta decisão (via rádio e TV) foi unânime: poderiam ter feito isto em dezembro. O destaque vai para o Paulo Skaf, que conclamou o BC a “reduzir a SELIC para, no máximo, 8%” foi no programa da CBN, agora a noite. Foi uma demanda tão factível como seria eu pedir ao Marcelo Teixeira, Presidente do meu Santos FC, que contrate de volta Robinho, Diego e companhia, para sermos campeões de tudo em 2009. Não dá, é impossível…

Ouço que vários bancos já reduziram certas taxas de juros. Coisa de mostrar para a sociedade que não querem aumentar o spread. Mas não esperem nenhuma queda relevante nos juros na ponta, pois os comitês de crédito dos bancos estão prá lá de conservadores. E com a oferta de crédito baixa os juros não caem…nem com a SELIC derretendo.

Temo que 2009 esteja perdido – crescimento do PIB ao redor de zero é a minha aposta.  A contração econômica do final de 2008 lançou uma inércia gigantesca na economia e esta só irá pegar no tranco se os bancos retomarem seu apetite para emprestar. Vai demorar alguns trimestres. Lá de fora não virá notícia boa – e grana! – tão cedo.

Sigamos o jogo, com foco na gestão das contas pessoais, sem contar com grandes promoções, ou sonhos de investir para “acabar com a concorrência”, etc. É ano de cautela, de perder pouco. Esta é a regra, crescer é exceção.

Abraços, FB

PS 1: hoje almocei com o amigo e comentarista-mór deste blog, o empresário Álvaro Stefani, que me deu algumas lições de gestão empresarial. A primeira é trabalhar com ética e só se relacionar com gente ética.

PS2: o Ministro Mantega declarou que “será difícil o Brasil atingir a meta de crescimento do PIB de 4% em 2009”. Mas ainda bem que ele não disse IMPOSSÍVEL, pois assim ainda resta uma esperança…

Caríssimos,

Poucos temas são tão importantes na economia como uma adequada estimativa do crescimento da demanda agregada, ou PIB. Isso vale tanto para o empresário (que precisa planejar sua oferta e seus investimentos), quanto para o cidadão, que antes de se meter em grandes dívidas, poderia estimar a probabilidade de manter seu emprego.

Por outro lado, a evolução do PIB nos dá apenas a direção do AGREGADO da economia. Em outras palavras, ela não é capaz de nos dizer muito sobre o nosso setor de atividade, sobre nossa empresa ou nosso emprego. Até porque tem setor que irá bem, mesmo com a economia indo mal e tem setor que irá mal, mesmo com a economia indo bem. E o mesmo vale para empresas, pois tem companhia perdedora em setor sólido e companhia vencedora em setor ruim.

Isto posto, temos:

1. O Banco Central nos informa mensalmente o resultado da pesquisa que ele faz junto aos departamentos de análise macroeconômica dos bancos – conhecida como Focus. Sigamos: todos sabem que a crise atual mostrou sua cara no dia 21 de janeiro último. De lá para cá, apenas tivemos novas evidências do que já deveria ser óbvio para quem vive de estudar a economia e o sistema de crédito. Pois bem, olhem os resultados da projeção do crescimento do PIB para 2009, segundo a pesquisa Focus ao longo deste ano:

  • Mar: 4,06%
  • Ago: 3,60%
  • Out: 3,10%
  • Nov: 2,80% 

Francamente…em apenas 1 mês, o pessoal reduziu em 0,3% o crescimento econômico do ano que vem! O que aconteceu de novo de outubro para novembro? Repito, francamente!

2. Enquanto isso, em Brasília, o Ministro Mantega, i.e. o Governo, continua achando que cresceremos 4% em 2009. Como não é ele quem calcula esses números, creio que ele está mal assessorado. O seu colega do Planejamento, Ministro Paulo Bernardo, vem justificando essa estimativa porque o governo “não ficará de braços cruzados”.

3. Leio hoje que o famoso economista Edmar Bacha (atualmente consultor econômico do Itaú) estima um crescimento do PIB ao redor de 2,8% para 2009. Até aí tudo bem. O pior é que ele estima este valor (ou qualquer outro valor) e depois diz o seguinte: há duas correntes de pensamento. Uma que fala que estamos numa situação semelhante aos anos 30 com destruição do sistema financeiro, e que aponta para uma demora maior na retomada. A outra, mais otimista, diz que já foram destruídos os excessos criados pelo sistema financeiro paralelo e sem adequada regulação, o que acelerará a retomada. “Ainda não sabemos quem está com a razão”, ele conclui.

É assim: ele tem razão em dizer que não sabemos mesmo quem tem razão. Ele não exagera ao sugerir que, sim, é possível que ainda venhamos a ver – em breve – a ruína do sistema financeiro internacional do jeito que conhecemos hoje. Os 2,8% que Bacha estima para 2009 valem apenas para a hipótese mais otimista.

4. O produto brasileiro crescerá algo como 5,2% em 2008, mas isso graças ao enorme “carry-over” de otimismo que tomou conta do país no primeiro semestre do ano. Como essa crise global nasceu no centro do capitalismo (EUA e Europa), sua irradiação é mais lenta e, portanto, só chegou aqui neste 4o. trimestre. Muitos dizem que haverá outro “carry-over” para 2009. Sei não. Tem uns poucos economistas sérios que acham que teremos crescimento ZERO neste quarto trimestre, i.e. não haverá crescimento inercial para ajudar 2009 a “pegar no tranco“!

Muito cuidado, portanto, com as previsões de analistas e dos “analistas”. Eles(as), quando projetam,  o fazem a partir dos dados disponíveis no momento da análise e sempre as atualizam (i.e. jogam fora a anterior!). Só que você, empresário/cidadão, quando toma suas decisões de vida não pode se dar ao luxo de apertar a tecla DELETE no meio do projeto, e retomá-lo do início, pois as dívidas já foram contraídas, as pessoas foram contratadas, etc.

Vida de analista é bem mais simples do que a sua, empresário e cidadão comum!

Abraços! F.

“Os bancos irão emprestar ou entesourar os recursos do Tesouro?” – será uma frase de efeito para a mídia, vinda do Ministro Mantega… ou terá mais o estilo do Paulo Skaf, da FIESP…?

Que nada! Essa é a manchete desta matéria da Business Week!!!! E é sobre o crédito nos EUA!!

http://www.businessweek.com/magazine/content/08_45/b4107026056954.htm

No entanto, a coisa ficou preta mesmo é na França. Eu já disse antes que francês não gosta do “financismo” que tomou conta do capitalismo global. Mas eu não fazia idéia que o Presidente Sarkozy estava tão furioso com o sistema financeiro do seu país.

Olhem a manchete de hoje do importante jornal francês Le Monde: “Os bancos franceses sob a ameaça de uma nacionalização parcial”.

http://www.lemonde.fr/economie/article/2008/10/31/les-banques-francaises-sous-la-menace-d-une-nationalisation-partielle_1113161_3234.html#ens_id=1099210

A matéria acima (em francês) traz os seguintes comentários do Presidente Sarkozy, todos fortíssimos:

  1. Eu chamo os bancos às suas responsabilidades. Por conta das condições muito excepcionais que estamos atravessando, as empresas, especialmente as menores, mais do que nunca precisam de previsibilidade e estabilidade nas suas finanças bancárias. Eu vos demando, portanto que, salvo exceções incontestáveis, não renegociem os termos e condições dos negócios atuais”.
  2. Sarkozy criou uma função pública chamada Mediador de Crédito e, sem qualquer cerimônia, sugeriu que este vá à mídia e que diga na televisão “…os exemplos de restrições inaceitáveis de crédito em cada região da França. Todos compararão aqueles [bancos] que fazem o seu trabalho e aqueles que não o fazem”.

Já um assessor muito próximo de Nicolas Sarkozy teria declarado ao jornal: “O Presidente foi muito claro: se os bancos não jogarem o jogo, ele utilizará a bomba atômica”.

O meu mantra é o seguinte:

  1. A crise global de crédito começou porque os bancos americanos perderam muito dinheiro por conta de créditos de péssima qualidade, ficando insolventes. 
  2. A falta de liquidez do sistema, portanto, lançou o mundo às portas da recessão.
  3. Em seguida, a liquidez dos bancos foi parcialmente restaurada por conta das linhas de redesconto e de liquidez dos BC’s e da capitalização realizada pelos Tesouros nacionais.
  4. Mas aí os bancos reduziram seu apetite de crédito e aumentaram seus spreads porque: (a) Haviam perdido confiança decisorial (por conta de suas próprias perdas de crédito) (b) Perderam a confiança na solidez da economia real.

É o que chamo de processo de RETROALIMENTAÇÃO DA CRISE DE CONFIANÇA.

No Brasil, lamentavelmente, também encontramos uma situação de parcial restrição ao crédito, ainda que com tipologia diferente. A conjuntura econômica (interna) e a estrutura do sistema financeiro aqui são incomparavelmente melhores do que nos EUA e Europa e não deveríamos estar passando por isso. Nosso país não convive com nenhuma “bolha” sistemicamente séria (como nos EUA), nem nossas famílias e empresas decidiram “fechar para balanço” e ‘produzir’ uma recessão como fizeram na Europa ocidental.

No Brasil a complicação começou com a restrição das linhas externas (20% do funding total, segundo alguns), mas essa situação evoluiu rapidamente para a aversão ao risco e aumento do custo de crédito, por conta das seguintes incertezas (na ótica dos bancos):

  • Capacidade de refinanciamento de dívidas das empresas e famílias.
  • Viabilidade de exportadores por conta do novo patamar do câmbio.
  • Eventuais ‘esqueletos’ nos balanços das empresas gerados pelas operações com derivativos.

O governo brasileiro vem tomando decisões de apoio ao sistema quase que diariamente, mas estarão elas sendo suficientes? Nos EUA, o FED passou a financiar empresas diariamente. Sarkozy faz ameaças explícitas, em público, de nacionalizar o sistema financeiro. Se a irrigação do crédito não evoluir a contento, podemos contar com uma das duas opções:

  1. Uma brutal desaceleração, com efeito equivalente a uma bela recessão.
  2. Uma ação governamental forte – não me arrisco, porém, a especular sobre o perfil desta…

Comentários, críticas e sugestões são muito bem-vindos.

Abraços,

Fernando

Hoje fui muito perguntado sobre a razão de ser dessa Medida Provisória (MP): se havia algo de esquisito nela, se algo estava ocorrendo no mercado bancário, etc.

O link abaixo, do Ministério da Fazenda, traz um comentário bastante genérico da mesma.

http://www.fazenda.gov.br/

A MP trata de três temas:

  1. Dá poderes ao Banco do Brasil (BB) e à Caixa Econômica Federal (CEF) para comprarem bancos com dificuldades de liquidez.
  2. Permite que a CEF crie empresa de participações acionárias para que possa comprar construtoras/incorporadoras em dificuldade (seria a CaixaPar, num conceito muito similar ao BNDESPar).
  3. Autoriza o Banco Central a realizar operações de SWAPs em países detentores de moedas de alta conversibilidade.

O item 3 não me parece controverso, pois apenas agrega mais um instrumento de gestão de trading de moedas para a mesa de operações do Banco Central. Normal, bacana, pronto.

Agora, as duas primeiras…achei-as desnecessárias e questionáveis. Quanto à aquisição de bancos pelo BB e pela CEF, eu digo:

  1. Lançar mão desse tipo de expediente e dizer que “não há ninguém quebrado”  (Ministro Mantega) é achar que as pessoas são alienadas. Especialmente por fazê-lo após forte injeção de liquidez e outras medidas voltadas à aquisição de carteiras de crédito de bancos de pequeno e médio portes.
  2. Na verdade, o governo passou recibo de que (a) as medidas anteriores não funcionaram, (b) sim, os tais bancos continuam precisando de dinheiro e (c) talvez a situação não tenha retorno (“paciente terminal”).
  3. O que de fato estará acontecendo? O governo quis criar um mecanismo de pressão para os bancões comerciais comprarem logo esses banquinhos “antes que o governo o faça”?  Terá o governo feito isso porque quer se livrar logo do problema (do redesconto)? Ou será que é porque o Banco do Brasil quer aumentar sua participação de mercado?
  4. Sabemos que os bancos em apuros não sobreviverão sem mudança de controle acionário e/ou venda substancial de suas carteiras. Conforme já disse antes, não me consta que tais bancos tenham problema de solvência (i.e. carteira de crédito ruim), mas sim de liquidez. Porém, talvez as negociações com possíveis/prováveis compradores não estejam ocorrendo em boa ordem.
  5. Corre no mercado que quando o finado Banco Santos entrou em colapso, aconteceu um episódio idêntico a este, i.e. o Banco Central chamou os bancões e os teria “aconselhado” para comprarem as carteiras de crédito dos pequenos. Assim foi feito e logo em seguida tudo voltou ao normal, etc.
  6. Mas, aparentemente, teriam havido alguns ‘acordos de cavalheiros’ entre certos bancos que assim que a poeira baixasse o banco X compraria o banco Y e assim por diante. Diz a ‘lenda urbana’ que alguns bancos a serem vendidos fugiram do acordo, teriam pedido mais do que valiam, etc.
  7. Como alguns bancões teriam ficado na mão, estaria agora ocorrendo uma retaliação. Fofocas, meus caros, rumores, nada de concreto, mas é impressionante como tudo se encaixa direitinho…

Vários “analistas” de mercado logo trataram de dizer que essa MP bagunçou a cabeça dos investidores, que trouxe volatilidade para a bolsa, etc. Minha opinião? Bobagem! Mas que gera um ‘frisson’ desnecessário, isso gera. Se eu sou o governo, só emitiria uma medida dessas se fosse para testá-la no ato, i.e. já comprava logo uns dois bancos!

Concluindo esta parte, essa Medida Provisória reforça a tese defendida no blog: no Brasil, banco algum quebra tão cedo.

Quanto à CEF poder comprar participações em construtoras/incorporadoras, olha, não tenho palavras. Meu post de ontem foi bem direto. É Operação Hospital”… E logo esse governo que tanto falou do PROER, acaba de lançar dois de uma vez só! E feita pra gente pequena que deveria se acertar no mercado, pois traz baixo risco sistêmico. Vai dar o que falar!

https://blogdocredito.wordpress.com/2008/10/22/construcao-civil-mais-um-subprime-verde-amarelo/

Saudações, Fernando

Caros – venho conversando (por dever de ofício e também por causa do blog) com algumas feras do mercado de crédito. Abaixo reporto algumas visões, percepções e verdades absolutas:

1. Linhas de Comércio Exterior:

Como é conhecido, esta foi a primeira fonte que secou. Os bancos internacionais que davam linhas para os nossos bancos repassarem para as empresas brasileiras, ou que emprestavam diretamente para as mega empresas, pararam de emprestar. Como estes bancos estão sem liquidez nas suas próprias matrizes (no seu “mercado local”), foi natural cortarem linhas para o exterior.

Sabemos que muito cliente brasileiro simplesmente não está pagando a linha de volta para o banqueiro brasileiro – sim, está em “default”. Sabem que se pagarem não terão a linha rolada (esta externa, ou outra local em reais).

Muita gente – SEM NOÇÃO DO QUE DIZ – quer minimizar o problema, dizendo que as linhas externas são apenas “10% do total do mercado de crédito brasileiro”. Sim, mas representa muito mais do que 10% das linhas de crédito que empresas-chave da nossa economia tomam – em muitas delas pode representar até 30%, e isso é muito! E essa escassez também gera uma tremenda desorganização no sistema, pois a linha externa será – possivelmente – substituída por uma linha doméstica que poderá ser tirada de outra empresa que também precisa!

O Governo começa a tentar solucionar o problema.

a. BNDES

Mudaram algumas regras internas da sua linha de pré-embarque visando apoiar empresas maiores também. O BNDES, que estava com seu orçamento prá lá de tomado (conforme antecipado aqui no blog), passou a contar com uma linha extra do Tesouro Nacional de USD 5 bilhões. O BNDES me informou o seguinte:

  • É uma linha similar a um ACC, usualmente tomado diretamente dos bancos aqui instalados.
  • A linha vem do BNDES, mas a transação é intermediada por um banco aqui instalado, i.e. o empresário precisa convencer o seu banco de relacionamento a aprovar o crédito (pois esse banco irá garantir o empréstimo junto ao BNDES) e tocar o processo junto ao banco federal.
  • O processo é bem rápido, tipo 10 dias a partir da entrada junto ao BNDES.
  • O custo não me foi informado, mas será bem mais caro, pois o custo do BNDES encareceu consideravelmente.

b. Banco Central

Cria uma linha de crédito para bancos captarem diretamente das reservas cambiais do país. Abaixo eu passo o link da Resolução 3.622. Minha leitura é que o Banco Central está mais liberal e flexível na aceitação de garantias. A regulamentação é confusa, pois diz que pode-se oferecer uma ampla variedade de ativos em garantias, mas em outra parte diz que no primeiro leilão aceitará apenas Global Bonds…

Outros pontos relevantes:

  • O Banco Central é mais duro do que qualquer banco privado no que concerne ao volume de garantias aceitas, pois exige 120% do valor do empréstimo se o ativo tiver o rating AA (o melhor possível pelas regras do Brasil), chegando até 140% se o rating for B.
  • Prazo máximo: 360 dias, i.e. bye-bye recursos externos para financiar investimentos. Agora ‘só’ dá para financiar o giro do negócio e olhe lá.
  • Custo da linha: será definido em leilão, o que é justo. O primeiro será na 2af, dia 20. Tá em cima da hora, mas dá para correr atrás do seu banco logo cedo.
  • Não foi anunciado o volume a ser colocado à disposição, mas nossas reservas estão grandes…

PS: taí o Fundo Soberano que o nosso Ministro Mantega tanto queria criar. O Brasil, ao invés de aplicar as suas reservas internacionais em títulos do Tesouro dos EUA, agora as está aplicando para salvar as nossas exportações – perfeito, na minha opinião. Ou quase…: podia ser menos restritivo e acho que o custo vai ficar salgado…

http://www.bancocentral.gov.br/noticias/Noticias.asp?noticia=1&idioma=P&cod=1890

Melhorando o seu crédito: o amigo exportador/importador já sabe que disputará a tapas um recurso muito escasso. Para conseguir ‘abocanhar um naco desse bolo que será pequeno para tanta gente faminta’, eu sugiro:

  • Negocie forte e use o seguinte argumento: “Hoje o mercado está seco e eu [empresário] não tenho para onde correr, mas logo o mercado estará líquido, cheio de oferta para a minha empresa, e será natural que no futuro venhamos a dar preferência aos bancos que foram parceiros e nos apoiaram neste momento difícil…”
  • Essa frase – ou similar – é para ser dita com firmeza e profissionalismo. A maioria das empresas de médio e pequeno prazos o dizem “com vergonha” ou “com agressividade”. Ambas inapropriadas. O gerente do banco tem que sentir que perderá um cliente importante se não atendê-lo direito.
  • Em tempos bicudos no mundo do crédito, você tem que maximizar a transparência com os bancos, visando minimizar a percepção de risco que eles terão de você e da sua empresa. Aqui ao lado, clique em “Melhorando seu Crédito” e encontre várias dicas.
  • Mostre todo o potencial de negócios que você e sua empresa têm a oferecer para o banco (vale tudo, até a sua conta-corrente PF, sem falar nas dos seus funcionários, seguros, etc.). Isso é uma moeda de troca, pois o gerente irá temer perder tudo isso assim que a crise acalmar.

2. Mercado doméstico:

Adoraria ter boas notícias, mas não as tenho. O que apurei:

a. Banco Central:

Continua no seu esforço de liberar liquidez. Essa prática, conforme venho informando, ganhará o Oscar de Medida Econômica de Governo Pior Entendida do Ano.

O link abaixo mostra a mais nova regulamentação do Banco Central que aumenta o leque de ativos que permite maior liberação de compulsório. No entanto, nada muda na essência da iniciativa: é para ajudar os bancões a comprarem carteiras de crédito dos “banquinhos” (de até R$ 7 bilhões de Patrimônio Líquido!!!)para que estes possam ter liquidez e pagar seus depositantes.

http://www.bancocentral.gov.br/noticias/Noticias.asp?noticia=1&idioma=P&cod=1888

E por que tais compras estão acontecendo a passo de tartaruga manca? Por que os bancões estão com apetite de risco BAIXÍSSSIMO!!! Se eles mal estão dando crédito para os seus clientes antigos e conhecidos, porque iriam comprar créditos de empresas/pessoas desconhecidas?

b. Crédito consignado:

A alta do custo do dinheiro torna pouco atraente este tipo de empréstimo que foi a coqueluche do mercado brasileiro nos últimos 5 anos. Como muitos bancos pequenos e médios querem vender esse tipo de carteira, eu imagino que terão que fazê-lo com algum prejuízo e isso eles também não querem…

c. Crédito privado (dos bancos conhecidos):

O crédito está escasso, porque os bancos, i.e. os seus comitês de crédito, estão muito conservadores. Ponto. Não há nada nem ninguém que os fará mudar de opinião nesse momento difícil. E como temos alguns grandes bancos estrangeiros no Brasil, o conservadorismo de suas matrizes poderá atrapalhar nessa hora. Algumas informações colhidas:

  • Para muitos bancos não existe mais limite aprovado para vários setores de maior risco, limites mais altos (e.g. R$ 10 milhões), prazos acima de 1 ano, etc.
  • Em outras palavras, para cada emprésimo o comitê se reúne e delibera à luz do momento (econômico e de caixa). Isso atrasa e muito o processo e poderá levar empresas a situação de iliquidez.
  • O spread bancário mais que dobrou de preço. Se a SELIC é perto de 1% a.m., a empresa que pagava pouco acima disso agora paga 2% a.m…
  • Os executivos de bancos têm ordens explícitas de reduzir o risco, mas não de reduzir os lucros, i.e. os juros serão muito salgados nos próximos 12 meses.
  • Os bancos com quem conversei estão refazendo os seus orçamentos, já prevendo aumento das perdas de crédito.

Como evitar ficar sem linha e/ou pagar muito mais caro? ^Vale a mesma regra acima. Negocie duro.

Concluo dizendo que o momento é difícil para todos – e se servir de consolo, está sendo para todo tipo de empresa (o que é raro acontecer num capitalismo tão piramidal como o nosso). Redobre a sua atenção na hora de:

  1. Assumir compromissos com clientes, e.g. aceitar um grande e desejado pedido (que aumentará a sua fatia de mercado, mas que poderá destruir o seu capital de giro e quebrar a sua empresa – cansei de ver isso).
  2. Dar crédito, i.e. vender a prazo por períodos longos e/ou para quem você não está muito certo da solidez, etc. Falo isso com seriedade, pois a Coface vive de segurar esse tipo de risco e nós reduzimos o nosso apetite. Razão: por conta das grandes perdas que estão acontecendo no mundo todo – será que não vai chegar aqui?…
  3. Deixar para tomar crédito em cima da hora. Essa prática, tão comum em nosso país, é um veneno para qualquer empresa – especialmente neste momento.

Meu abraço, esperançoso que essa crise passe logo e que os amigos do blog saiam-se bem desta fase difícil.

Fernando

Caríssimos:

É difícil escolher por onde começar. Depois de baterem cabeça durante 6 meses, os líderes do nosso Planeta Azul (incluindo os brasileiros) decidiram resolver tudo em uma semana, mais precisamente em um único fim-de-semana.

Agenda cheia – enquanto os 15 principais eurolíderes se reuniram extraordinariamente em Paris para tratar da crise deles, os ministros das finanças do G7 e do G20 se reuniram em Washington para discutr a crise do mundo todo – e neste último jamboree até o nosso Ministro Mantega participou e discursou. Para arrematar, também aconteceu a reunião anual do FMI e do Banco Mundial.

Algumas notas relevantes

1. A BOA NOTÍCIA – HOUVE CONVERGÊNCIA À TESE DE SE CAPITALIZAR OS BANCOS COM DINHEIRO PÚBLICO, AO INVÉS DO EXÓTICO PLANO PAULSON (i.e. comprar ativos podres, criação de fundos, mercado secundário, etc. OS EUA IRÃO SEGUIR O REINO UNIDO E A EUROPA DO EURO VAI JUNTO.

2. Mas por que demoram tanto para decidir sobre o óbvio?

  • Já dissemos que ultra-liberais como Bush et caterva têm imensa resistência de anexar às suas já surradas biografias palavras como “…durante o seu mandato foi responsável pela estatização dos bancos americanos...”;
  • OK, o governo decide comprar ações dos bancos, mas e o resto, e os detalhes? (i) quais bancos? (ii) a que preço? (iii) qual o percentual de controle? (iv) com quais direitos? (v) como e quando desmontar tais operações, etc. A lista de complexidades e dúvidas é imensa para qualquer um;
  • O lado político, com ou sem eleição [Obama vs. McCain].

Imaginem a situação abaixo descrita pela Bloomberg, i.e. o governo americano tendo que injetar capital para salvar o Morgan Stanley, banco de investimentos mega-protagonista nesta hecatombe financeira. Imagine a situação do Henri Paulson tendo que explicar isso para os eleitores, para os seus vizinhos, filhos, etc.

Morgan Stanley “Urgently needs rescue” by the U.S. Treasury, which should buy preferred stock to help protect Mitsubishi UFJ Financial Group Inc.’s stake in the investment bank, George Soros wrote in the Financial Times today.

Notem que até o George Soros dá palpite. Logo ele, que de tanto especular quebrou o Bank of England em 1992, desvalorizou a Libra Esterlina e ganhou USD 1 bilhão em um único dia, segundo diz a lenda.

E esta outra abaixo: além dos bancos, seguradoras, investidores e fundos de investimentos, muitos Estados americanos também estão ‘beijando a lona’  (como se diz no mundo do boxe).

California, Alabama and Massachusetts are urging the Fed and Treasury to include their securities in rescue plans designed for banks and businesses. The $2.66 trillion U.S. market for state and city bonds has been all but frozen since Lehman Brothers Holdings Inc., weighed down by losses in mortgage-backed bonds, declared history’s largest bankruptcy on Sept. 15.

A Califórnia, ensolaradao estado governado pelo Governator Arnold Schwarzenegger, precisa de UD 7 bilhões, do contrário faltará merenda escolar nas escolas públicas, entre outras amenidades – não é piada!

California has said it needs to sell as much as $7 billion in notes to maintain its schools, health system and other public services. The Bush administration said it is reviewing the states’ financial positions.

Enquanto isso na Europa…

…entre um gole de Veuve Clicquot e um naco de terrine de fois gras, os líderes europeus cedem ao:

  • Charme de Nicola Sarkozy, Presidente da França e, conforme já escrevi aqui, candidato ao futuro cargo de Presidente do Mundo. Ele está aproveitando como ninguém sua passagem como Presidente em Exercício da União Européia – cargo itinerante, que muda de mãos a cada seis meses.
  • Pragmatismo de Gordon Brown, escocês que lidera o Reino Unido que teve ‘guts’ para lançar o plano de capitalização, i.e. estatização dos bancos britânicos. E que agora é copiado por todos! Detalhe: a carreira política dele estava com os dias contados e talvez agora ganhe uma sobrevida.

Abaixo, dois textos de primeira qualidade em inglês (lamentavelmente), sobre o affair Europa. O primeiro link é da Business Week e o segundo é do Wall Street Journal.

http://www.nytimes.com/2008/10/13/business/13europe.html?pagewanted=1&hp

http://online.wsj.com/article/SB122381862224826507.html

E o Brasil até que mandou bem

Gostemos ou não do governo Lula e/ou do Ministro Mantega, o fato é que partiu do próprio Henry Paulson a indicação para que o nosso Ministro da Fazenda fosse o ‘chairman’ da reunião do G20 – e isso é algo muito positivo. Pelo que eu li na imprensa daqui e lá de fora Mantega não empolgou, mas também não decepcionou. Fez um discurso politicamente correto a partir da ótica de uma nação emergente que já fez muita lambança no passado, que levou muitos pitos internacionais em público, mas que agora está bem arrumadinho e sofrendo do mesmo jeito que antes. “Assim não dá, né, Bush!”…

Brazilian Finance Minister Guido Mantega suggested the IMF should “establish a new set of measures to strengthen and protect” the world financial system, shifting focus away from the U.S. and European models it has long championed.

“The world is watching incredulously as the crisis reveals serious systemic weaknesses and policy limitations in what used to be considered model countries, countries that were presented as the reference point for good governability, as examples to be emulated,” he said. “We need a new financial structure, with more controls and less favoritism.”

Brazil has for years pushed for an IMF restructuring that would increase its sway in the institution’s decisions.

Mantega chaired a Saturday meeting of leaders from the G20, a group of the world’s biggest economies, including the European Union, Brazil, Mexico and Argentina. The group will meet again in Sao Paulo on Nov. 8 and 9 to further address the economic crisis.

http://www.businessweek.com/ap/financialnews/D93P67S81.htm

Uma nota sobre o FMI – há 25 anos eu escuto a esquerda brasileira esculhambar com o FMI – lá atrás tinha a famosa frase “Fora FMI” (que alguns saudosistas ainda usam, talvez ignorando que o Fundo já se foi…). Agora temos o presidente Lula (um dos que mais a usou) vociferando esta semana: “Cadê o FMI??? Agora que o problema é lá na casa deles, cadê o FMI???” – acho que foi um desopilar de fígado de várias décadas de ódio retido…

O fato é que o FMI tornou-se uma organização patética. No passado, seja lá qual for o viés político de cada um e o grau de entendimento das suas constantes “visitas” ao Brasil, o fato é que o Fundo tinha um missão clara e a exercia com galhardia: país de terceiro mundo quebrou? Precisa de dinheiro de longo prazo? O FMI ajuda, mas o país terá que engolir um receituario de política econômica duríssimo (juro alto, recessão, sem inflação, corte de gastos públicos, etc.).

Agora que países como o Brasil e boa parte do resto do mundo arrumaram a própria casa, o tal do FMI passou a fazer projeções econômicas ridículas: sempre errando pra cima, tornaram-se os bastiões do otimismo. Quer dizer, até o mundo derreter semana passada, pois agora o managing director do Fundo, o francês Dominique Strauss-Kahn, passou a dizer frases de efeito e fora do tempo, como: “O sistema financeiro mundial está à beira do abismo”. Faça-me o favor, eu quero novidade!

Uma nova liderança mundial

Os chefes de estado do mundo (quase) todo clamaram neste final-de-semana por uma nova arquitetura das finanças internacionais, ou como disse alguém, “para novos tempos, uma nova governança”. Mas como bem disse outro líder, “é difícil achar uma solução global quando temos problemas locais”. É isso mesmo. A natureza do problema é similar no mundo todo, mas todos os detalhes são locais e cada país tem os seus para resolver – em particular as injunções políticas.

Curisiosidade final – vocês sabiam que o FMI é sempre liderado por um europeu e o Banco Mundial sempre por um americano? É uma convenção internacional, não escrita, mas é assim que vem funcionando desde sempre.

Abraços e que tenhamos todos uma semana menos turbulenta!

Fernando

A Miriam Leitão nos pergunta que decisão o COPOM tomará na próxima semana em mais um round da luta do início de século Mantega X Meirelles.

A queda da inflação coloca dúvidas sobre quais fatores de fato contribuíram para a queda nos preços. A economia já terá desaquecido? Ou a redução da especulação com commodities teria sido fator preponderante? Ninguém sabe, esta que é a verdade.

Na dúvida, portanto, o BC subirá a SELIC. Minha aposta é 0,5%. Quem dá mais?

Abraços e boas apostas, F.

http://oglobo.globo.com/economia/miriam/post.asp?t=o_que_fara_copom_na_semana_que_vem&cod_Post=123559&a=495