Antigamente, quando eu era trainee de banco (e os bichos falavam), para se descobrir, por exemplo, a oferta e a demanda de papel e celulose, só indo na associação brasileira desta indústria. Aí,  um bom trainee como eu tiraria ‘xerox’ do relatório anual da associação e, já de volta ao banco, concluiria algo inteligente que pudesse ajudar na decisão de crédito da instituição.

Hoje vivemos celebramos o oposto, pois há tanta informação de tanta coisa, saindo tudo ao mesmo tempo, que é impossível acompanhá-las corretamente, salvo se o sujeito só fizer isso na vida. São segmentos variados do mesmo setor, prazos de coleta diferentes, metodolodias de análise diferentes, um instituto querendo ‘furar’ o outro e por aí vai.

A Miriam Leitão escreveu um post legal hoje, que dá uma visão sobre os últimos números do varejo – e isto é importante: clique aqui e saiba mais.

Crédito – hoje os jornais publicaram que a inadimplência caiu, segundo números da Serasa/Experian. Eu confio muito nesse pessoal, mas não é o que sinto e ouço. A ver. Os bancos continuam sem apetite de crédito justamente por que a inadimplência na PF e na PJ pequena está altíssima.

Já o desemprego parece estar domado. E isso é fundamental para que as expectativas se estabilizem e, aos poucos, o otimismo seja retomado.

Ministro Mantega – ele que achava tanto que cresceríamos 4% este ano resolveu jogar a toalha de vez: “Cresceremos entre 0% e 2%”. Eu acho que está mais para – 0,5% e + 5%. Já o taxista de ontem acha que…

Abraços e bom fim de semana, F.

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Pego carona no blog da Miriam Leitão, que nos ajuda a refletir sobre a recuperação da economia brasileira. É só ver abaixo.

Continuo com a minha tese:

  1. Comparações ano-contra-ano são inúteis (e.g. Mar/98 vs. Mar/08), pois o tombo é grande demais.
  2. Nestes dias de recessão aguda, o que vale é notar que a produção cresce contra o mês anterior. Esta é a minha opinião, mesmo sabendo que isto desrespeita os impactos sazonais.
  3. A produção industrial do primeiro trimestre de 2009 foi pior do que a do último trimestre de 2008. A princípio isto choca, mas tem uma explicação: apesar do parto da crise ter sido em 15 de setembro, ainda havia uma inércia grande nas fábricas, muitas produzindo para o Natal.
  4. Ainda assim – e graças a Deus -, acho batemos no fundo do poço.
  5. Voltamos a crescer timidamente.
  6. O processo de retomada será lento e longo.
  7. Só teremos mais vigor econômico quando o crédito bancário voltar pra valer e, no campo institucional, quando governo + congresso mudarem as leis que atravancam o país.

Abaixo, o post da jornalista Miriam Leitão. Abraços, F.

Produção industrial: mais um degrau na longa escada

O gráfico abaixo é uma boa síntese da produção industrial do país: houve uma queda muito forte por causa da crise no final do ano, com uma recuperação lenta, mês a mês. Reparem que apesar da curva estar em trajetória ascendente, os três primeiros meses do ano ainda foram mais fracos que os últimos três de 2008 (queda de 7,9%).

Para caber na telinha do blog, o gráfico precisou ser reduzido, mas cada ponto vermelho representa o resultado bruto de cada mês (as barrinhas são a média móvel trimestral). O último resultado é de março, o anterior é fevereiro e por aí vai. Vejam que em outubro e novembro, o desempenho da indústria ainda estava bem melhor do que agora. Foi isso que fez o resultado do 4º trimes ser melhor que o do 1º tri de 2009. 

Olá, o tema do crescimento do PIB em 2009 gerou alguma controvérsia. E com justiça, pois o tema é complexo (i.e. ninguém sabe, tudo mundo acha).

Já Paul Krugman advoga a tese de que todo processo de depressão costuma ser interrompido por alguns ‘suspiros’ de aquecimento. Estas aparentes recuperações são seguidas de mais queda do produto. Vejam este post dele.

Será que é isso que estamos sentindo por aqui? Vários índices estão sinalizando que a economia começa a se recuperar – ainda que timidamente -, mas será que em breve teremos mais deterioração? Não gostei da fala do Henrique Meirelles…soturno demais, especialmente para alguém do governo, que tende a esbanjar confiança.

Eu continuo achando que tendemos a um crescimento entre zero e + 1% do PIB, ainda que sem crescimento relevante do nível de emprego e com consideravel nível de inadimplência.

Ainda no campo do desemprego, achei no blog da Miriam Leitão este gráfico – atribuído ao Bradesco. Não entendi bem o milagre, mas o Bradesco acredita que mesmo com o Brasil crescendo ZERO % este ano, o país gerará 300 mil empregos em 2009.

Tomara II, A Missão! Abs, F.

<< editado em 18 ABR 20009>>

Chover no molhado pode ser útil – às vezes, poucas vezes.

Este post da Miriam Leitão traz informações que ela recebeu da equipe econômica do Banco Santander/Real. O gráfico abaixo, porém, vale o post.

Ele mostra como os setores do varejo que são mais dependentes de crédito cresceram fortemente, durante os anos de expansão do crédito no Brasil, assim como despencaram brutalmente depois de setembro do ano passado.

Parcece “chover no molhado”, pois deve ser óbvio para todo mundo que o crédito foi o anabolizante mais utilizado pelas economias nacionais na Olímpiada do Consumo global. O Brasil usou menos, mas ainda assim usou muito e repentinamente. Salvo falha da memória, em 2008, em apenas 12 meses, a relação crédito/PIB subiu de 32% para 42%. Anormal e perigoso, como eu já dizia há séculos.

Mas o que interessa aqui é destacar o seguinte:

  1. Os bancos sabem que ‘puxaram demais a corda’ do crédito e, na medida que forem enxergando que o mundo não acabou, voltarão a emprestar.
  2. Apesar mais comedidamente do que em 2006, ’07 e ’08, o crédito voltará em volumes suficientes para fazer a economia doméstica voltar a produzir em volumes que minimizem o risco de recessão e estabilizem o desemprego onde está (por volta dos 9%).

Notem bem, eu, que tinha uma visão horrorosa deste ano, já começo a imaginar até um crescimento POSITIVO do PIB (até 1%). Porém, mais do que nunca, devemos olhar menos para a macroeconomia e muito mais para a MICROeconomia, pois será um crescimento bem irregular.

Devem ser perdedores setores e cadeias ligados à exportação de manufaturados para países ricos (que estarão mais pobres) e o de máquinas & equipamentos (porque os investimentos continuarão anêmicos). Vencedores? Hum…alimentos, eletroeletrônicos, celular, automóveis (será?), petróleo (se Deus quiser)…enfim, tudo aquilo que é iminentemente doméstico.

Abraços, F.

Caros – eu nunca vesti a carapuça de “pessimista”, nem mesmo nos dias em que dizia que os piores dias estavam à nossa frente. Era realismo puro e, lamentavelmente, eu estava certo.

Agora, o meu novo cenário é de que, finalmente, o pior já passou no Brasil.

Este post da Miriam Leitão mostra uns gráficos interessantes sobre a indústria e o comércio. Vale a visita.

O emprego também melhorou, conforme previsto no mês passado pelo Ministro Lupi – que eu havia chamado de “vidente”, lembram? O movimento ainda é discreto, tímido, mas parece-me que é tendência, o que é positivo (mesmo continuando tímido).

Como estamos vivendo uma retomada em função de ajuste de estoques na economia, não veremos grandes arrancadas, afinal, não há crescimento global nem crédito vigoroso aqui dentro.

Mas estou confiante que iniciamos um círculo virtuoso. Espero estar certo de novo.

Com meu abraço, F.

E o G-20 acabou.

Lá embaixo, leiam o resumão da Miriam Leitão – aliás, o blog dela mais parecia uma agência de notícias, pois foi o dia todo postando sobre o evento. Cool. Mas antes disso, vamos para a minha visão crítica da coisa:

1. De relevante mesmo para o seu negócio, há um bloco (o item 10 do link que segue) que marca para mim o  Comuniqué dos Líderes. Alí é dito que o FMI já prevê que em 2010 o mundo voltará a crescer 2% e que os líderes do G-20 estão comprometidos com isso. Para bom entendedor isso quer dizer: “Esqueçam 2009, porque este ano não tem conserto! É recessão global, com umas poucas e honrosas exceções. Tudo o que decidimos aqui e o que já estamos fazendo é para 2010 e além”.

2. Apesar do G-20 pressupor um grupo que propõe ações conjuntas e as implementa como tal, não tem nada disso. De coletivo mesmo só tem a imensa injeção de capital no FMI, Banco Mundial e outros (USD 1,1 trilhão), mais a promessa de agilizarem o desembolsos desta dinheirama (o que não será simples de se fazer, pois tem muito tomador…). O resto é com os países individualmente, sendo o principal exemplo os pacotes fiscais (os EUA tem seu mega pacote de estímulo fiscal e a Europa seguirá com sua doutrina frugal).

3. Falou-se muito de uma nova dinâmica de regulação bancária internacional, mas não poderiam ter sido mais vagos os nossos líderes globais. Se os maiores banqueiros do mundos – os americanos – estão sofrendo há 6 meses para organizar seu pacote de resgate dos bancos, como organizar uma nova fórmula global?

4. Um assunto que vem sendo tratado sem maiores detalhes ou destaque – e que, para minha surpresa, foi alvo do G-20 (item 15) – é o que trata dos Paraísos Fiscais (aquelas ilhas e pequenos países onde a grana da sonegação e do tráfico de drogas, armas, seres humanos, etc., é depositada). O Comuniqué diz: “The era o bank secrecy is over”. Gostei, pois meus impostos saem direto do holerite e nunca tive um centavo nestes paraísos.

5. Não há dúvida que o papel dos países emergentes mudou radicalmente – e para melhor. E o Brasil tem destaque nisso. Como o Marcio comentou há pouco, a popularidade do Lula correu o mundo, ou nem tanto, mas Obama demonstra intimidade com ele, faz graça, etc. De mais prático mesmo, agora fazemos (todos do G-20, até a Argentina…) parte do Financial Stability Board e participaremos da escolha dos gestores das IFI (instituições financeiras internacionais, da sigla em inglês), como FMI e Banco Mundial. Isso não nos dá direito de decidir nada, mas de influenciar em tudo – e isso não é pouco!

6. Ah, e as agências de ratings terão suas rédeas mais curtas, pois serão supervisionadas, controladas, etc. Sabe Deus como, mas deixaram claro que os dias de liberdade excessiva para agirem com conflitos de interesse estão perto do fim.

O resto, amigos, é bla-bla-bla diplomático, recheado de boas intenções, mas de efeito prático e celeridade baixos. Tudo vai depender da boa-vontade dos líderes e da capacidade deles gerenciarem estes desafios politicamente em seus países.

É isso. Gostaria de ouvi-los.

Abraços, Fernando

Os pontos mais importantes do anúncio do G-20 (segundo Miriam Leitão)

Os pontos mais importantes do anúncio do G-20, feito agora a pouco pelo primeiro-ministro inglês, Gordon Brown:

1 – O total de aporte na economia mundial chegará a US$ 5 trilhões até o fim do ano que vem. Isso contando o que já foi feito e o que ainda será.

2 – Os recursos disponíveis para que o FMI ajude países com problemas serão triplicados, passarão de US$ 250 bilhões para US$ 750 bi.

3 – Serão reservados US$ 250 bilhões para financiar o comércio internacional.

4 – Os países que fazem parte dos “paraísos fiscais” serão regulados e muitos e terão que transmitir informações fiscais e tributárias. Haverá incentivos para que isso aconteça e sanções aos que não concordarem.

5- Haverá maior regulação no sistema financeiro. Os bancos terão limite menor para alavancagem, e terão que correr menos riscos. Isso inclui as agências de risco e os fundos de investimento hedge.

6 – Haverá estímulos para diminuição do consumo de carbono e ações para a criação de “empregos verdes”.

7- A Rodada Doha será reaberta com novas negociações sobre o comércio internacional.

Data Estelar: 14 de março de 2009

Participantes:

. Arminio Fraga Neto, Gavea Investimentos (ex-Presidente do BC e ex-executivo de George Soros)

. Afonso Celso Pastore, Consultor (ex-Presidente do BC)

. José Luiz Alqueres, CEO da Light

. José Rubens de la Rosa, CEO da Marcopolo

Formato:

A Miriam Leitão fazia perguntas aos 4 convidados. Simples, direto e sem debate.

Destaques:

Abaixo eu destaco as frases de maior destaque (quase tudo, por sinal). Em negrito/itálico a minha opinião complementar.

  1. Pastore: são várias crises combinadas, uma dentro da outra. e.g. cambial no Leste europeu, financeira nos EUA e UK, queda de exportações na Ásia, etc. <<concordo, ainda que a origem e a solução final passe pelo crédito>>
  2. Arminio: devemos ter uma mudança na forma de pensar do americano; fim da visão equivocada de riqueza “virtual”, poupança zero, dívida alta e consumo acelerado. << isto irá fazer com que as economias crescam mais lentamente>>
  3. De la Rosa: governo havia começado bem, mas faltou senso de urgência. <<sem dúvida, mas não é exclusividade do nosso – acontece com todos, pois a burocracia emperra a evolução>>
  4. Alqueres: a crise acabou e vivemos em um novo patamar. Minha empresa está se preparando para atuar e crescer num novo ambiente. Mundo novo. <<pura lucidez! O mundo encolherá de tamanho para muitos, ou permanecerá como está para outros. Seguramente não crescerá como antes>>
  5. Pastore: cita que a volatilidade baixa reduz a percepção de risco e que a importação de deflação chinesa suportou que a alavancagem dos bancos crescesse e as bolhas surgissem. Houve erro coletivo; Brasil se beneficiou desta crise. <<concordo>>
  6. J.R.Mendonça de Barros (gravado em off): commodities agrícolas irão melhor do que as metálicas, pois comer o povo não vai parar, mas os investidores reduzirão investimentos em fábricas. <<concordo>>
  7. De la Rosa: neste momento, não há alternativa, mas só os governos irão nos ajudar a sair desta crise em que falta comida na mesa. <<concordo>>
  8. Arminio: queda das commodities machuca a conta-corrente do país, mas o Brasil sairá melhor da crise. E tem que ficar de olho nas fontes de financiamento. O país precisa pouco, mas tem de ficar atento. <<é isso. O país pode não quebrar, mas o câmbio se descontrola e isto é muito nocivo para o planejamento empresarial>>
  9. Pastore: acha que o governo tem de manter superavit primário, até porque o país tem como usar política monetária (juros, compulsório, etc.). Espera juros reais por volta de 4% (SELIC a 8%!). Banco não pode emprestar com o risco mais alto, pois não cabe a ele fazer política contra-cíclica. Governo tem competência limitada em investir; só gasta. <<verdade>>
  10. De la Rosa: não demitiu no Brasil, mas fechou uma fábrica na Rússia. Lá não há financiamento deste outubro. E não vai reabri-la porque o novo patamar será diferente, mais baixo, com uma fábrica só vai dar. Índia deu uma parada geral e só agora está retomando. México vai muito mal. O real está menos forte, mas muitas moedas também perderam muito valor, o que relativiza o ganho de competitividade do Brasil, até porque o câmbio empobreceu os demais países (em USD). <<quadro feio>>
  11. Arminio: Obama está lutando contra a herança maldita. Aprovaram o pacote fiscal, mas o financeiro está complicado porque não conseguem aplicar o ‘proer’ deles (i.e. assumir o controle) nos grandes bancos; não conseguem nem preencher as posições do Tesouro. A situação é extraordinariamente difícil. Os membros do governo são pessoas arrojadas e se não conseguem é porque é difícil mesmo. Estão com dificuldade para sair da estratégia e operacionalizar. <<já falamos muito disso aqui>>
  12. Pastore: precisam de pessoas que saibam manejar com bancos, mas o governo dos EUA nao podem contratar ex-executivos de bancos. <<esta é estranha, pois o Tesouro estava lotado de ex-Goldman Sachs, que foram junto com Paulson>>
  13. Alqueres: recessão não chegou com queda do consumo, mas os clientes estão procurando se financiar na Light, porque não há crédito no mercado. Aumentou a inadimplência da PF. Queda de 4 ou 5% na adimplência (agora está em 92%). Idem para as empresas que compram no atacado. <<informação importante e que surpreende, em se tratando de uma utilidade pública. As grandes empresas estão fazendo as vezes dos bancos>>
  14. Arminio: Nos iludimos porque as commodities continuaram subindo, apesar da desalavancagem financeira já estar ocorrendo há um ano. Nosso crescimento não era sustentável. Há decepção conjuntural, mas virá a decepção estrutural também. <<verdade pura. Todos nós nos iludimos de alguma forma. Faltou o espírito crítico que sobrou para o Roubini>>
  15. Pastore: recessão é uma convençao, tem de ter dois trimestres com crescimento negativo, etc., mas este primeiro trimestre será negativo no Brasil também, porque o investimento e as exportações serão fracos. PIB 2009 será perto de zero.

É isso. Nada de realmente novo, mas foi bom ouvi outros personagens de 1a. linha comentando a crise.

Abraços, F.

PS: lamento a demora na publicação, mas o dia foi difícil…