Olá, vamos discutir duas notícias recém divulgadas:

  1. Fato 1: “O crédito cresceu 19% no Brasil, na comparação com os últimos 12 meses”.
  2. Fato 2: “O crédito cresceu 1,5% no Reino Unido, na comparação com os últimos 12 meses”.

Qual é a melhor notícia? Lendo assim, de sopetão, qualquer um diria que deveríamos comemorar a situação do Brasil. E foi exatamente este o tom da manchete do Estadão desta semana. Já no Reino Unido, ela foi recebida com a ressalva de que foi a menor taxa de crescimento dos últimos anos, i.e. uma recepção negativa!

Acontece que as duas taxas são muito similares (19% e 1,5%) em termos de crescimento efetivo do crédito para a sociedade. Explico:

  • Primeiramente, tivemos em 15 de setembro uma machadada na oferta de crédito no Brasil, pois aqui os empréstimos são de curto-prazo. Lá fora o crédito enxugou também, mas muito menos do que aqui.
  • No Reino Unido e no resto dos países industrializados, o volume de crédito é gigantesco faz tempo e é pouco sujeito a oscilações de oferta. No Brasil é o contrário. Crédito para empresas pequenas e para o povão é novidade por aqui.
  • Como o nosso estoque de crédio vinha crescendo a uma taxa de 25% a.a., estes 19% acumulados junho ’09 x ’08 significa uma drástica redução do crescimento da oferta.
  • No fundo, esta informação é inútil se não for comparada com nada: se comparada com o mês anterior mostra que o crescimento efetivo foi pífio ou negativo; se compararmos com os 12 meses findos em maio ou qualquer outro mês, veremos que a redução é grande.
  • Já no Reino Unido, que teve o seu sistema financeiro quase dizimado – ao contrario daqui -, a oferta cresceu “vegetativamente”, i.e. perto da inflação do período.

A comparação do estoque de crédito da economia ano a ano, só voltará a ser útil e relevante a partir do próximo mês de outubro, quando os efeitos do corte brutal da oferta de crédito novo, a partir de 15 de setembro de 2008, já tiverem sido absorvidos pelas estatísticas.

Portanto, e reforçando o óbvio, cuidado com as estatísticas! Dependendo da base de comparação utilizada elas são mentirosas ou gozadoras.

Abraços, F.

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Calma, os lucros NÃO cairam porque o juros foram reduzidos! Muito pelo contrário, lamentavelmente…

Iniciemos com alguns axiomas:

  1. Banqueiro, mais do que qualquer outra espécie do ecossistema capitalista, tem intolerância para lucrar menos do que lucrou antes.
  2. Ninguém (fora o Controller do banco) pode dizer com certeza o quão preciso é o balanço publicado de um banco. Fraude? Não! Julgamento apenas (e.g. provisões para devedores duvidosos).
  3. Gerente de banco é obcecado por entregar resultado, para ganhar mais bonus, e precisa dar crédito e conquistar novos clientes.

Mas é fato que os bancos brasileiros estão convivendo com muito mais inadimplência. Por outro lado, não seria politicamente correto demonstrar que estão lucrando mais com a crise, enquanto reduzem a oferta e aumentam o custo do crédito.

De todo modo, assumindo que o que lemos é a mais pura expressão da verdade contábil, temos:

  1. Os bancos irão buscar mais resultados a partir de agora.
  2. Eles vão querer emprestar mais, só que para as maiores empresas.
  3. E toparão emprestar para empresas menores, desde que com garantia de clientes grandes (tipo Adiantamento a Fornecedores), ou descontando recebíveis acima de qualquer suspeita.
  4. Desta forma, aos poucos, o spread cairá junto com a Selic

Analise este cenário e use-o a seu favor. Mas vá para a negociaçao de forma profissional, recheado de informações sobre você e sua empresa, para reduzir a percepção de risco que  banco tem do seu negócio.

Saudações, FB

Prezados,

Finalmente saiu o número que todo mundo queria saber: a economia brasileira recuou 3,6% no último trimestre de 2008. Um senhor tombo! Esto dado ofusca o saudável crescimento do PIB acumulado de 2008 de 5,1%. Afinal, se por um lado o pequeno “retrovisor” mostra que fomos bem até o 3o. trimestre, o imenso parabrisa frontal não engana: os tempos são difíceis.

A indústria brasileira expirementou uma retração de assombrosos 17% (janeiro’09 vs.’08) e um crescimento de apenas 2% contra o combalidíssimo mês de dezembro último. Estes péssimos números foram apenas um reflexo dos números agora divulgados pelo IBGE.

E os juros – a taxa SELIC (que, em geral, só importa para quem é aplicador ou para uns poucos grandes grupos econômicos que pagam [ou pagavam] juros anuais perto da SELIC), ao que tudo indica, irá cair entre 1,5% e 2% na reunião do COPOM de amanhã. Virá para algo ao redor de 11%. Se é 10,75% ou 11,25%, isto só interessa para os traders de juros futuros na BMF. Ah, sim, e para o governo também, pois sua dívida pública nos remunera à base de SELIC, i.e. quanto mais ela cair, mais o Tesouro economiza no pagamento de juros, podendo construir escolas, hospitais, distribuir bolsa-família, etc.

Enfim, seja 1%, 2% ou 3%, esta queda de juros se dará porque o BC estará convencido que a atividade econômica está de joelhos e que, portanto, não há chance da inflação voltar a assombrar o COPOM. Nada a se comemorar, portanto, pois o endividado que vier a pagar menos juros (isto se os juros na ponta cairem também, que fique claro!), também estará, provavelmente, vendendo menos e gerando menos caixa!…

O spread – é assim: os juros na ponta são função da oferta de crédito versus a demanda por crédito. Os números do PIB vão assustar os bancos ainda mais, pois estes sairam pior do que os próprios analistas dos bancos esperavam. Se a SELIC cair 2%, mas os juros na ponta cairem, digamos, 1%, então o spread aumentou.

Uma coisa é certa, os juros na ponta cairão mais lentamente do que a SELIC. E cairão primeiros para empresas e cidadãos que se ‘venderem’ corretamente para os bancos, i.e. forem transparentes, demonstrarem claramente sua estratégia de negócio, seus números, riscos e mitigantes do seu negócio. Em outras palavras, cairá mais e primeiro para aqueles que tiverem um plano de negócio para enfrentar a crise.

Para os que praticarem o oba-oba, a SELIC cairá, mas os juros pagos continuarão no mesmo patamar…

Bancos públicos – vem sendo noticiado – e o amigo do blog Guilherme comentou aí embaixo – que os bancos federais estão emprestando mais, cobrando menos juros e lucrando mais. Sem querer parecer metido, mas sendo mesmo assim, eu conseguiria escrever dois textos, ideológicamente construídos, um defendendo a expansão da banca pública e outro tripudiando com ela.

O fato é que:

  1. Os bancos públicos estão fazendo política econômica, ajudando a destravar o crédito, ainda que parcialmente.
  2. Estes bancos estão ganhando muito agora – o que é normal e justo -, mas também estão sendo menos precavidos ao assumir riscos maiores.
  3. Partes destes lucros serão devolvidos em 6 meses, quando a inadimplência aumentar. Não tem “almoço grátis” (do inglês There is no free lunch).
  4. Os bancos públicos estão fazendo política anti-cíclica, enquanto os bancos privados só fazem agem ciclicamente, i.e. empresta guarda-chuva em dia de sol, toma o guarda-chuva se vier temporal. Isso acontece no Brasil, na França e na Costa do Marfim e é dever de ofício do banqueiro.
  5. Os acionistas privados destes bancos já sabem que isto faz parte da missão do banco estatal. Se não gostam de ver o capital do banco ser usado para tais fins, que comprem ações de bancos privados.

Oligopólio – o Valor de ontem traz um editorial em que Armínio Fraga é citado como “estando preocupado com o oligopólio do sistema financeiro brasileiro“. Vejamos algumas verdades:

  1. Pouco banco não significa que o crédito será escasso e os juros elevados. O grande exemplo vem da Holanda, onde 3 bancos dominam completamente o sistema e, ainda assim, os juros estão entre os mais baixos do mundo, cortesia do lendário pão-durismo do simpático e trabalhador povo batavo. Lá, a turma poupa muito e se endivida pouco. Em outras palavras, cabe a cada um de nós fazer com que tenhamos oferta de crédito bem acima da nossa necessidade, pois só assim pagaremos juros menores. Se, por outro lado, você se mostra um péssimo risco para os bancos, o país poderá ter 2 mil bancos e os juros que você pagará serão estratosféricos ainda assim.
  2. Pouco banco significa margem de negociação reduzida. Num país como o Brasil, em que 5 bancos darão as cartas, se você se relacionar mal com 2 deles vai ter problemas. E isso é perfeitamente comum. Desaparece aquele velho axioma: “Eu nunca mais faço negócio com o Banco X, porque eles me fizeram isso e aquilo!”. Bem, a partir de agora é bom guardar o seu orgulho, pois nunca sabemos o dia de amanhã, ou, nestes tempos bicudos, como será hoje depois do almoço…
  3. Pouco banco funciona bem em país onde o mercado de crédito é maduro e, portanto, sua população tem educação creditícia. Estamos longe disso. Nossos bancos não são experientes em crédito e nossos tomadores menos ainda. O futuro será complicado neste campo.

Em suma, a tendência é que os juros na ponta continuem muito salgados por vários anos. Esta reversão se dará quando a Tempestade Perfeita se dissipar, i.e. (a) as empresas mostrarem bons resultados com consistência, (b) os bancos retomem a confiança perdida, (c) as linhas externas voltem, provendo liquidez, (d) o brasileiro reduzir seu apetite por crédito caro.

Abraços e boa 4af! F.

Retorno de uma jornada de dois dias em Brasilia. Foi uma viagem rica, pois conversei com muita gente boa e senior, dos setores público e privado. Deu para sedimentar algumas visões importantes, as quais divido com os amigos:

I. A Origem da Crise do Crédito no Brasil

  1. Ela NÃO começou no dia 15 de setembro de 2008, quando o Lehman Brothers quebrou nos EUA.
  2. Ela APENAS se desnudou naquele momento.
  3. A inadimplência já subia consistentemente naqueles dias, só que era mascarada pelo crescimento dos ativos de crédito na economia.
  4. Já estava claro para muitos bancos que haviam emprestado mais do que deviam para gente/empresas que não tinham estofo para tamanho endividamento.
  5. A quebra do banco americano, com o consequente corte nas linhas externas, apenas acelerou o processo voraz de corte de linhas.
  6. Isto retroalimentou o processo de inadimplência já em curso.
  7. Agora que o estoque de crédito não cresce mais, a inadimplência não pára de crescer (em reais e na proporção do estoque de crédito).

II. Perspectiva da Crise de Crédito no Brasil

  1. A morosidade para a retomada do crédito no Brasil, não se dá, portanto, em função da recessão que está aqui instalada.
  2. Se dá – e continuará se dando – porque os bancos estão – e continuarão – ajustando seus portfolios de crédito. Em outras palavras, reduzirão o crédito para muitos clientes, cobrarão integralmente os empréstimos de outros tantos, etc.
  3. O Fabio Barbosa (CEO Santander/Real e Febraban) já disse – com propriedade – que o crédito não voltará a ser o que era antes, pois não há funding disponível para tanto tomador de crédito. Ele não disse e eu complemento, que não haverá oferta de crédito para muita gente, simplesmente porque os bancos e financeiras (e seguradoras de crédito) aprenderam que estes tomadores não eram suficientemente sólidos.

Portanto, concluo que a retomada do crédito – e da atividade econômica como um todo – se dará de forma mais lenta e gradual. Mas, se Deus quiser, de forma mais consistente.

III. Outras histórias/conclusões tiradas da minha viagem

  1. Senti preocupação séria por parte dos maiores bancos financiadores do comércio exterior brasileiro.
  2. Não me foi dito explicitamente, mas macaco velho cheira estas coisas: espera-se algumas grandes perdas de crédito no mercado. Outro dia o grande frigorífico Independência entrou em recuperação judicial. Senti que gente bem maior, neste e em outros setores, terão problemas.
  3. Há tempos eu brinco (sério) que todas as empresas tomarão um belo calote de um cliente que jamais imaginariam. Parece que eu não sou o único a acreditar nisto…
  4. Bom saber que o Banco do Brasil não parece ter problemas de funding. Mas caiu a demanda por linhas, porque cairam as exportações e o valor destas (principalmente das commodities).
  5. Outra coisa que venho ouvindo de bancos em geral: “Funding tem, o que não tem é bom tomador de crédito“. Os bancos estão muito refratários e tem a ver com o item  I deste post. E eu os entendo, porque aqui na Coface o volume de sinistros (i.e. empresas que dão calote nos meus clientes) cresceu barbaramente!
  6. O exportador brasileiro gostaria de tomar linhas de longo-prazo, para arrumar o seu passivo bancário, só que não há linha longa disponível, muito menos apetite dos bancos em oferecê-la.
  7. Outro fator: muitos exportadores estão sem ‘lastro’ para novos financiamentos curtos (ACC’s-ACE’s). Tomaram linha demais e não estão exportando suficiente. Isto é muito ruim.

É isso. Cautela e canja de galinha quando o assunto é crédito: seja dando prazo nas suas vendas, ou contando com o crédito para o seu capital de giro! Procure por linhas de crédito ANTES de precisar delas desesperadamente!

Abraços, Fernando

Prezados,

O link abaixo traz o texto mais lúcido e esclarecedor, escrito por alguém de destaque na mídia, sobre o tema Crédito. Além da abordagem crítica (ou preocupada – “luz amarela”) sobre a expansão da “dobradinha” Consumo-Crédito, ele nos indica rica bibliografia para pesquisa. Acadêmico de alto nível é outra coisa.

O Ilan Goldfajn, que por sinal não conheço pessoalmente, é um craque. É professor da PUC-Rio, diretor do “think thank” IEPE Casa das Garças e sócio-diretor da Ciano Investimentos – e foi diretor do Banco Central.

Boa leitura!

Comentários são sempre bem-vindos, F.

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20080902/not_imp234625,0.php

ENTREVISTA: FABIO BARBOSA
Crédito cresce de maneira ordenada no país
Para presidente da Febraban, presão salarial pode dificultar freada da inflação
GUILHERME BARROS
COLUNISTA DA FOLHA
O presidente da Febraban (Federao Brasileira dos Bancos) e do Santander no Brasil, Fabio Barbosa, 53, afirma que os bancos brasileiros estão preparados para trabalhar com volumes crescentes de empréstimos e juros decrescentes.

O que é necessário, a seu ver, é melhorar o sistema de informação sobre as pessoas para os bancos terem mais segurança ao concederem empréstimos.

Por isso, considera importante a aprovação do cadastro positivo de crédito (informações compartilhadas sobre bons pagadores) pelo Congresso. “Os bancos teriam mais possibilidades de ampliar a inserção social das camadas que ainda não estão consumindo ou tomando dinheiro emprestado”, diz.

Sobre a redução recente dos índices de inflação, Barbosa afirma que esse fato é extremamente positivo, mas ele acha que é cedo para apostar todas as fichas nessa queda. O grande problema, segundo ele, será a pressão dos salários.

 

>FOLHA – A crise global vai afetar o Brasil?
FABIO BARBOSA – Sempre acaba afetando um pouco, mas acho que o grande determinante será a economia chinesa. Ela tem um peso muito grande na economia mundial e continua crescendo num ritmo forte. Há 30 anos que a economia cresce a uma média de 10% ao ano e há 29 anos nós dizemos que esse ritmo de expansão não é sustentável. Muita gente acha que a China vive muito das exportações para os EUA, o que não se comprova pelos números. A China vai produzir, neste ano, por volta de 8 milhões de automóveis e não exporta carros para os mercados americano e europeu. É só mercado interno. Nós temos dificuldades em compreender a extensão do mercado interno chinês. A desaceleração que se fala da China que o crescimento vai cair de 11,9%, que foi a expanso em 2007, para 9,5%, neste ano. Ou seja, na média dos 10%.

FOLHA – Não é uma contradição o Banco Central continuar subindo os juros se a inflação está em queda?
BARBOSA – Olha, esse um assunto delicado. A inflação está mostrando sinais de desaceleração, o que é muito bom. Estamos vivendo agora uma época de reajustes salariais e é importante que eles não contaminem a economia e dificultem esse processo de desaceleração de preços. Por isso, é positivo o fato de o governo estar atento e segurar um pouco a economia, para que não haja repasse de custos para os preços finais.
FOLHA – Mas a alta dos juros não pode frear o crescimento?
BARBOSA – No corremos o risco de vôo de galinha. O governo está atento a isso, até porque o BC agiu de forma firme, na hora em que precisou agir. As contas públicas estão sendo gerenciadas já há bastante tempo de forma responsável. Esse risco não existe. O preço da previsibilidade é a eterna vigilância.
FOLHA – Os números da economia do Brasil são bastante positivos, mas os juros no país ainda são incompatíveis para um país que quer fazer parte do Primeiro Mundo. Por que juros tão altos?
BARBOSA – Já vi vários estudos de pessoas que se dedicaram ao assunto muito mais do que eu e não foram capazes de explicar por que a economia brasileira só se equilibra numa taxa de juros mais elevada de que as dos demais pases. O fato é que, quando a taxa começa a cair e atinge patamares internacionais, a economia tende a ficar muito aquecida, em descompasso com a sua capacidade de produção, e, nessa hora, os juros voltam a subir. Mas, ainda assim, os juros hoje estão muito mais baixos do que que já estiveram no passado. Trabalhar com juro real de um dígito é uma grande novidade para o Brasil. Estamos na direção certa, mas ainda precisamos mais para que possamos manter o ritmo de crescimento da economia acima de 5%.

FOLHA – Os bancos esto preparados para uma queda dos juros?
BARBOSA – Essa pergunta já vem sendo feita desde a época do Plano Real. Na época do Plano Real, algumas instituições tiveram dificuldade, mas a resposta para essa pergunta é que os bancos estão preparados para trabalhar com volumes crescentes de emprsétimos e taxas de juros decrescentes. O que é necessário, na medida em que você trabalha com juros mais baixos, na medida em que você vai atingindo outras camadas da população, que as instituições tenham um sistema de informação melhor, e por isso que eu insisto na importância de instrumentos como o cadastro positivo. Daria para os bancos oferecerem ainda mais possibilidades de promover a inserção social dessas camadas que ainda não estão consumindo ou tomando dinheiro emprestado.

FOLHA – Mas os bancos ainda ganham muito com os juros?
BARBOSA – Os bancos estão cada vez mais ampliando suas carteiras de crédito para compensar a queda nas aplicações em títulos públicos. E esse crescimento do crédito que tem viabilizado essa expansão da economia, além de também estar aumentando a rentabilidade dos bancos. A instituição está cumprindo o seu papel. O banco existe para três razões. Para proteger e rentabilizar a poupança das pessoas; para financiar o consumo e o investimento; e para prestar os servios de pagamentos e recebimentos da sociedade. E os bancos estão fazendo isso.

FOLHA – A rentabilidade dos bancos brasileiros foi duas vezes maior do que a dos americanos neste ano. Só a crise financeira explica essa diferena?
BARBOSA – Os bancos americanos, assim como muitos da Europa, vêm apresentando problemas desde meados do ano passado. São problemas sérios e felizmente o sistema bancário brasileiro no está passando por isso. A rentabilidade maior dos bancos brasileiros é, portanto, uma boa notícia. Não deveria merecer preocupação. Na medida em que os bancos têm problema de rentabilidade, até de perda, eles começam a reconsiderar um pouco seus planos de expansão dos empréstimos. Emprestam menos. Ao emprestarem menos, isso condiciona um crescimento menor da economia. Esse é o primeiro preço que a sociedade paga. O banco tem menos apetite para crédito e isso segura o crescimento econômico. Isso já está acontecendo nos Estados Unidos, na Europa e no Japão. O efeito multiplicador de uma crise bancária é muito maior do que o efeito multiplicador de uma crise provocada por um setor industrial ou qualquer outra atividade de serviço. É por isso que, em muitos casos, o governo tem que socorrer algumas instituições financeiras, como ocorreu recentemente no Reino Unido. Quer dizer, acaba se usando dinheiro público para isso. É por isso que deveríamos buscar sempre as condições para que o sistema financeiro continue forte. Sistema financeiro fraco implica um problema para o crescimento da economia.

FOLHA – O sr. vê com preocupao esse crescimento do crédito no Brasil ao ritmo de 30%?
BARBOSA – Não. O crédito vem crescendo de maneira ordenada, em cima de operações de crédito consignado, que acho que foi a modalidade que mais se expandiu, e de financiamento de veculos, que são feitos a prazos compatíveis de 36, 48 meses. As operações de veículos que são feitas com prazo acima disso são pouquíssimas, não são representativas. O crédito imobiliário também está se expandindo, após a melhora do arcabouço jurídico. Eu não vejo preocupaço maior. O que acho necessário é a aprovação do cadastro positivo pelo Congresso. O que é cadastro positivo? Cadastro positivo é um projeto que vem sendo trabalhado para permitir que o sistema financeiro tenha melhores informações sobre o cliente para poder tomar decisões melhores sobre os empréstimos.

 

http://www.rgemonitor.com/roubini-monitor/253363/new_york_times_article_on_nouriel_roubini_as_dr_doom

Acho que não dá para esconder que eu sou fã do polêmico professor da New York University, Nouriel Roubini. Ele sempre foi muito criticado por ser “compulsivamente” negativo sobre as perspectivas da economia americana e mundial: sobre o risco de uma grande depressão. Leiam acima.

Terei eu uma veia depressiva também? Talvez. Mas, assim como virou moda no mundo dos esportes o uso de drogas anabolizantes e estimulantes, visando a obtenção de melhor performance mais rapidamente, a economia americana se viciou em crédito – que se usado em excesso é um anabolizante econômico, para individuos, empresas e países.

Assim como esportistas mediocres se tornam, temporariamente, campeões, economias que deveriam crescer a 2-3% a.a. acabam crescendo a 4-5% a.a. Cidadãos que poderiam trocar de carro a cada 4 anos, o fazem em 2. Ou quem deveria andar de onibus e guardar dinheiro para momentos de crise, compra um carro financiado e fica sem dinheiro para consertá-lo quando quebrar.

E assim como o doping esportivo leva a resultados desastrosos no médio-prazo (punicões esportivas, multas, fim de carreira e diversos tipos de canceres para aqueles que exageram na dose), o excesso de crédito também pode arruinar a vida de individuos, empresas e países.

Lamento informar, mas os EUA foram pegos no exame anti-doping nas Olimpíadas Econômicas. Resultado laboratorial: excesso de esteróides anabolizantes creditícios.

E não me canso de provocar: o quão anabolizada estará a nossa economia, em especial os neo-endividados?

Abraços, Fernando