Boas!

A crise financeiro-bancária americana, que muitos vêm há tempos dizendo que já estava equacionada, mostra que não está.

Relembremos – logo que o Lehman Brothers quebrou, em setembro último, e começou a  ‘dragar’ outros bancos importantes, a dupla Paulson & Bernanke arquitetou o TARP (Troubled Assets Relief Plan, ou Plano de Alívio de Ativos Problemáticos).  Após muito debate, o Congresso americano aprovou USD 700 bilhões para que FED e Tesouro ajudassem bancos com problemas.

A idéia era que o governo comprasse ativos podres diretamente dos bancos para limpar seus balanços; não funcionou, conforme este Blog preveu. A precificação de tais ativos seria (e é) complexa e poderia simplesmente zerar o capital dos bancos, inviabilizando sua existência. Depois, resolveram usar os recursos do TARP para comprar ações dos bancos, para capitalizá-los, conforme o modelo britânico – este Blog achava que este era o modelo correto. Funcionou apenas marginalmente.

O que acontece – nada parece funcionar e este é o fato preocupante. A primeira reação dos bancos – e a mais visível para todos – foi a paralisação das operações de crédito, mesmo após a citada capitalização. Já dissemos que os banqueiros americanos estavam sem auto-confiança para correr o risco de perder mais. E, justamente, achavam que iriam perder mais porque enxergavam que a economia entraria numa profunda recessão, destruindo empresas e negócios. Estavam certos, só que ao antecipar o corte do crédito, acabaram por acelerar a chegada da recessão e multiplicar os efeitos negativos desta sobre a economia americana.

Esta semana B.Bernanke deu uma palestra na London School of Economics e deixou claro que o sistema financeiro americano ainda “apresenta problemas sérios”. Sabe-se que existem milhares de bancos sem liquidez, lotados de ativos podres que se forem vendidos ao seu devido valor, quebarão muitos bancos.

Existem centenas de “bancos zumbis” nos EUA, em coma vegetativo. Não captam de ninguém, nem emprestam para ninguém. Só o FED os mantém vivos, respirando por aparelhos. Dará para reanimá-los? E como? Ou será melhor desligar os aparelhos que bombeiam recursos diariamente para eles?

E agora? – Paulson & Bernanke agora lançam o Aggregator Bank Tabajara!  Bem, o Tabajara é por minha conta, mas se encaixa direitinho. O modelo: banco estatal cuja missão seria comprar os ativos podres que antes o governo não conseguiu comprar dos bancos problemáticos. Novamente, a que preço? E o Aggregator Bank compraria de todos os bancos ou só de alguns (como o governo americano fez quando capitalizou uns 30 bancos apenas)?

Bank of America (BOA) – o maior banco americano irá receber mais USD 20 bi de capitalização do Tesouro (grana do TARP), após os USD 25 bi iniciais (que não deram nem pra saída). Mais que isso, o governo americano irá garantir a bagatela de USD 118 bilhões de ativos da Merril Lynch. Explico: O  BOA comprou às pressas a Merril à época que o Lehman quebrou para evitar o “fim dos tempos”. Só que ao investigar melhor o que tinha comprado, analistas e auditores do BOA encontraram tanta coisa ruim que poderiam nocautear o comprador e o comprado.

Confuso? – e isso é o que a excelente máquina de notícias da Bloomberg conseguiu descobrir até agora. E o Citi, que informei outrou dia, então? Eles queriam comprar o finado Wachovia, que foi adquirido pelo Wells Fargo, que também precisa de mais TARP, para digeri-lo. Só que o Citi, como agora está provado, não tinha recursos nem para si – já levou USD 50 bi de TARP e ainda tem muita, mas muitas perdas a reconhecer.

Recessão Made in USA – já dissemos isso aqui umas cem vezes: sem um sistema financeiro forte, que esteja em condições de financiar uma retomada da atividade econômica, é impossível que um país saia da recessão. O período de trevas que os americanos irão viver durará bastante.

Abraços, F.

PS: alguém ainda duvida que o sistema financeiro americano está estatizado?

Acho que não há tema no mundo, neste momento, que me cause maior interesse intelectual do que as fórmulas pensadas/utilizadas para tirar os bancos internacionais do buraco, salvando, portanto, a economia global de uma depressão – e talvez o próprio capitalismo como nós o conhecemos.

Primeiro foi a idéia de Paulson & Bernanke que achavam que com meros USD 700 bi eles comprariam “ativos tóxicos” dos bancos, criariam um fundo de papéis podres e o mercado iria negociar esses papéis e tudo continuaria como antes. Em outras palavras, conseguiriam restabelecer a confiança do/no mercado. Nada aconteceu, conforme havíamos previsto aqui.

Depois evoluíram para onde eu achava que tinham que seguir: comprar participações acionárias dos bancos problemáticos. O FED e o Tesouro seguiram a prática britânica e o fizeram, só que de forma lenta e limitada. Não resolveu nada também, até para minha surpresa.

E por que? Está cada vez mais claro que o mercado (incluindo a Mrs. Mary, viúva do Kentucky, e o Mr. Smith, aposentado da Flórida) sabe que o conjunto de ativos podres dos bancos é grande demais. Qualquer solução que lance esses ativos a perdas, dilapidará o capital desses bancos, o que limitará sua capacidade de alavancagem (i.e. de emprestar). Além da falta de apetite de risco, teriam falta de capital regulatório mesmo! E o fato do FED/Tesouro entrar no capital dos bancos como minoritários não resolveria a questão, pois o governo seria acionista e isso não garante que o banco não quebraria (o capital injetado pelo governo viraria pó se os ativos fossem lançados a perdas).

OK, é confuso mesmo, lamento dizer.

Agora, no caso do Citibank, lançaram um terceiro modelo de resgate de banco que mistura dois instrumentos, como se um médico decidisse receitar uma combinação de dois antibióticos fortes, pois notara que um só não consegue debelar a doença.

O modelo:

  1. O governo continua injetando dinheiro vivo, pois precisa dar liquidez ao banco para que este possa honrar os depósitos que são resgatados.
  2. Mas agora o governo decidiu também garantir os ativos podres do banco. Em outras palavras, se o devedor do banco não pagar, o governo paga o banco.
  3. Essa solução restabelece o “trading” desses ativos podres criando-se um mercado para eles, pois o garantidor é o Estado.
  4. Melhor ainda, os bancos poderão tomar empréstimos (“repo”), oferecendo tais ativos garantidos pelo governo como colateral.
  5. A coisa toda foi estruturada como um seguro de crédito, com co-seguro (90% é risco governo, 10% é risco Citi). O prazo é de 10 anos, o que é longo o suficiente.

O link abaixo nos leva ao Financial Times, onde Laurence Kotlikoff e Perry Mehrling (economistas de Boston e Columbia), dois craques convidados do também-craque Martin Wolf, discorrem sobre o tema. Vale a leitura (em inglês).

http://blogs.ft.com/wolfforum/2008/11/finally-system-risk-insurance/#more-263

Então, “seus problemas acabaram”, como diriam os Cassetas? Não. Resolveu-se, aparentemente, o problema do Citi, mas existem outros milhares de bancos combalidos, de todos os tamanhos e dos dois lados do Atlântico. Francamente não sei como segurar tudo isso sem uma contrapartida monetária, i.e. um lastro do governo (como era o ouro). Estamos falando de um belo naco do PIB dos EUA!!

Também falta criar um sistema que classifique os ativos em função de sua real qualidade de crédito – esqueçam os ratings da Moody’s e S&P. Esses ativos serão (espero!) negociados por uma fração do seu valor de face e esse percentual dependerá da qualidade do risco. Na medida que a economia melhorar e os devedores começarem a repagar suas hipotecas (e os imóveis se valorizarem), naturalmente o valor desses ativos subirá e quem os detiver (“buy-and-hold”) ganhará dinheiro (em especial com o custo quase zero de financiar as posições).

E no fim das contas, não deixa de ser o velho e mal-falado “prejuízo socializado”. Afinal, sempre que um ativo der calote, o governo (i.e. o contribuinte) é que salvará a pele do investidor e do banco.

Ah, um dos meus heróis contemporâneos, Nobel Prize Winner Professor Paul Krugman ficou furioso com esse plano. Leiam abaixo.

http://krugman.blogs.nytimes.com/2008/11/24/citigroup/

E a economia real? Se esse modelo destravar o trauma dos bancos que pararam de emprestar uns para os outros, assim como tranqüilizar seus gestores quanto ao futuro da própria instituição, poderemos ver o crédito voltar a irrigar a economia real. Nunca como antes, mas muito mais que agora. Quando? Mais 6 meses de sombras, pois a máquina demora “a pegar no tranco”. Teríamos mais 1 ano de recessão, mas escaparíamos da depressão mundial.

Meus amigos, essa combinação de ativismo governamental e criatividade é heavy metal. É como jogar uma bomba atômica no olho do furacão da crise. Se isso não funcionar – e nada garante que irá funcionar – seremos todos funcionários públicos. Já pensou, o Lada (da extinta URSS) sendo carro oficial em Washington? 🙂

Gorbachov para Presidente…do Mundo!

Abraços esperançosos!

Fernando

PS: mas que ninguém pense que eu acho que deve-se resolver o imbróglio e ficar por isso mesmo. Tem que processar e prender quem fez coisa errada, cortar o bônus desse povo, etc., etc.

TRANSPARÊNCIA

Lembram quando Paulson & Bernanke ficaram de joelhos perante o Congresso americano, implorando pela aprovação de um pacote de USD 700 bilhões? À época, esse volume era ultrajantemente grande. Muitos – eu incluso – acharam que isso seria a “entrada” de uma refeição que ainda teria “prato principal” e “sobremesa”.

Pois bem, a Bloomberg informou que a conta já chegou aos USD 2 trilhões – e continua crescendo – sob a forma de diferentes programas emergenciais (novos e outros já existentes pré-crise).

Pior, o Congresso exigiu total transparência quanto à utilização dos USD 700 bi e agora não consegue informações sobre um lote muito, mas muito maior – e crescente. A Bloomberg News chegou a entrar com uma ação na justiça americana, solicitando que sejam divulgadas informações relativas às garantias dadas para esses empréstimos.

Se por um lado ninguém retorna as ligações e emails dos editores da Bloomberg News, Paulson & Bernanke vêm passando maus momentos em diversas audiências no Congresso americano, pois são cobrados pelas promessas de total transparência.

Mas dentro do próprio Congresso há quem os apóie, como o poderoso Chairman da House Financial Services Committee Barney Frank, que disse: “O grau de transparência do FED vem sendo adequado e o risco que estão assumindo é apropriado para a atual situação econômica.” Ele discutiu essa situação com Timothy F. Geithner, número 1 do FED Regional de NY e o mais forte candidato para substituir Paulson no futuro governo de Barack Obama. E Mr. Geithner também concorda que o FED não poderia divulgar mais do que está fazendo, pois colocaria o sistema em risco. Em outras palavras, dificilmente o nível de transparência das ações do FED mudarão no governo Obama.

O tema é complexo; nunca vivemos nada parecido. É natural que os contribuintes tenham direito de saber para onde seu dinheiro está indo e quais garantias o governo está recebendo pelos empréstimos e demais ajudas dadas aos bancos. Mas quando o assunto é sigilo e solidez de bancos grandes, todo o cuidado com a informação é aconselhável. Abaixo a reportagem integral.

http://www.bloomberg.com/apps/news?pid=20601170&refer=home&sid=ahdVHk_Ccoeg

Desafios do capitalismo…

Abraços, F.

Caríssimos:

É difícil escolher por onde começar. Depois de baterem cabeça durante 6 meses, os líderes do nosso Planeta Azul (incluindo os brasileiros) decidiram resolver tudo em uma semana, mais precisamente em um único fim-de-semana.

Agenda cheia – enquanto os 15 principais eurolíderes se reuniram extraordinariamente em Paris para tratar da crise deles, os ministros das finanças do G7 e do G20 se reuniram em Washington para discutr a crise do mundo todo – e neste último jamboree até o nosso Ministro Mantega participou e discursou. Para arrematar, também aconteceu a reunião anual do FMI e do Banco Mundial.

Algumas notas relevantes

1. A BOA NOTÍCIA – HOUVE CONVERGÊNCIA À TESE DE SE CAPITALIZAR OS BANCOS COM DINHEIRO PÚBLICO, AO INVÉS DO EXÓTICO PLANO PAULSON (i.e. comprar ativos podres, criação de fundos, mercado secundário, etc. OS EUA IRÃO SEGUIR O REINO UNIDO E A EUROPA DO EURO VAI JUNTO.

2. Mas por que demoram tanto para decidir sobre o óbvio?

  • Já dissemos que ultra-liberais como Bush et caterva têm imensa resistência de anexar às suas já surradas biografias palavras como “…durante o seu mandato foi responsável pela estatização dos bancos americanos...”;
  • OK, o governo decide comprar ações dos bancos, mas e o resto, e os detalhes? (i) quais bancos? (ii) a que preço? (iii) qual o percentual de controle? (iv) com quais direitos? (v) como e quando desmontar tais operações, etc. A lista de complexidades e dúvidas é imensa para qualquer um;
  • O lado político, com ou sem eleição [Obama vs. McCain].

Imaginem a situação abaixo descrita pela Bloomberg, i.e. o governo americano tendo que injetar capital para salvar o Morgan Stanley, banco de investimentos mega-protagonista nesta hecatombe financeira. Imagine a situação do Henri Paulson tendo que explicar isso para os eleitores, para os seus vizinhos, filhos, etc.

Morgan Stanley “Urgently needs rescue” by the U.S. Treasury, which should buy preferred stock to help protect Mitsubishi UFJ Financial Group Inc.’s stake in the investment bank, George Soros wrote in the Financial Times today.

Notem que até o George Soros dá palpite. Logo ele, que de tanto especular quebrou o Bank of England em 1992, desvalorizou a Libra Esterlina e ganhou USD 1 bilhão em um único dia, segundo diz a lenda.

E esta outra abaixo: além dos bancos, seguradoras, investidores e fundos de investimentos, muitos Estados americanos também estão ‘beijando a lona’  (como se diz no mundo do boxe).

California, Alabama and Massachusetts are urging the Fed and Treasury to include their securities in rescue plans designed for banks and businesses. The $2.66 trillion U.S. market for state and city bonds has been all but frozen since Lehman Brothers Holdings Inc., weighed down by losses in mortgage-backed bonds, declared history’s largest bankruptcy on Sept. 15.

A Califórnia, ensolaradao estado governado pelo Governator Arnold Schwarzenegger, precisa de UD 7 bilhões, do contrário faltará merenda escolar nas escolas públicas, entre outras amenidades – não é piada!

California has said it needs to sell as much as $7 billion in notes to maintain its schools, health system and other public services. The Bush administration said it is reviewing the states’ financial positions.

Enquanto isso na Europa…

…entre um gole de Veuve Clicquot e um naco de terrine de fois gras, os líderes europeus cedem ao:

  • Charme de Nicola Sarkozy, Presidente da França e, conforme já escrevi aqui, candidato ao futuro cargo de Presidente do Mundo. Ele está aproveitando como ninguém sua passagem como Presidente em Exercício da União Européia – cargo itinerante, que muda de mãos a cada seis meses.
  • Pragmatismo de Gordon Brown, escocês que lidera o Reino Unido que teve ‘guts’ para lançar o plano de capitalização, i.e. estatização dos bancos britânicos. E que agora é copiado por todos! Detalhe: a carreira política dele estava com os dias contados e talvez agora ganhe uma sobrevida.

Abaixo, dois textos de primeira qualidade em inglês (lamentavelmente), sobre o affair Europa. O primeiro link é da Business Week e o segundo é do Wall Street Journal.

http://www.nytimes.com/2008/10/13/business/13europe.html?pagewanted=1&hp

http://online.wsj.com/article/SB122381862224826507.html

E o Brasil até que mandou bem

Gostemos ou não do governo Lula e/ou do Ministro Mantega, o fato é que partiu do próprio Henry Paulson a indicação para que o nosso Ministro da Fazenda fosse o ‘chairman’ da reunião do G20 – e isso é algo muito positivo. Pelo que eu li na imprensa daqui e lá de fora Mantega não empolgou, mas também não decepcionou. Fez um discurso politicamente correto a partir da ótica de uma nação emergente que já fez muita lambança no passado, que levou muitos pitos internacionais em público, mas que agora está bem arrumadinho e sofrendo do mesmo jeito que antes. “Assim não dá, né, Bush!”…

Brazilian Finance Minister Guido Mantega suggested the IMF should “establish a new set of measures to strengthen and protect” the world financial system, shifting focus away from the U.S. and European models it has long championed.

“The world is watching incredulously as the crisis reveals serious systemic weaknesses and policy limitations in what used to be considered model countries, countries that were presented as the reference point for good governability, as examples to be emulated,” he said. “We need a new financial structure, with more controls and less favoritism.”

Brazil has for years pushed for an IMF restructuring that would increase its sway in the institution’s decisions.

Mantega chaired a Saturday meeting of leaders from the G20, a group of the world’s biggest economies, including the European Union, Brazil, Mexico and Argentina. The group will meet again in Sao Paulo on Nov. 8 and 9 to further address the economic crisis.

http://www.businessweek.com/ap/financialnews/D93P67S81.htm

Uma nota sobre o FMI – há 25 anos eu escuto a esquerda brasileira esculhambar com o FMI – lá atrás tinha a famosa frase “Fora FMI” (que alguns saudosistas ainda usam, talvez ignorando que o Fundo já se foi…). Agora temos o presidente Lula (um dos que mais a usou) vociferando esta semana: “Cadê o FMI??? Agora que o problema é lá na casa deles, cadê o FMI???” – acho que foi um desopilar de fígado de várias décadas de ódio retido…

O fato é que o FMI tornou-se uma organização patética. No passado, seja lá qual for o viés político de cada um e o grau de entendimento das suas constantes “visitas” ao Brasil, o fato é que o Fundo tinha um missão clara e a exercia com galhardia: país de terceiro mundo quebrou? Precisa de dinheiro de longo prazo? O FMI ajuda, mas o país terá que engolir um receituario de política econômica duríssimo (juro alto, recessão, sem inflação, corte de gastos públicos, etc.).

Agora que países como o Brasil e boa parte do resto do mundo arrumaram a própria casa, o tal do FMI passou a fazer projeções econômicas ridículas: sempre errando pra cima, tornaram-se os bastiões do otimismo. Quer dizer, até o mundo derreter semana passada, pois agora o managing director do Fundo, o francês Dominique Strauss-Kahn, passou a dizer frases de efeito e fora do tempo, como: “O sistema financeiro mundial está à beira do abismo”. Faça-me o favor, eu quero novidade!

Uma nova liderança mundial

Os chefes de estado do mundo (quase) todo clamaram neste final-de-semana por uma nova arquitetura das finanças internacionais, ou como disse alguém, “para novos tempos, uma nova governança”. Mas como bem disse outro líder, “é difícil achar uma solução global quando temos problemas locais”. É isso mesmo. A natureza do problema é similar no mundo todo, mas todos os detalhes são locais e cada país tem os seus para resolver – em particular as injunções políticas.

Curisiosidade final – vocês sabiam que o FMI é sempre liderado por um europeu e o Banco Mundial sempre por um americano? É uma convenção internacional, não escrita, mas é assim que vem funcionando desde sempre.

Abraços e que tenhamos todos uma semana menos turbulenta!

Fernando

Foi legal assistir ‘on-line, real-time’ a votação do Plano no Senado americano. Foi um momento histórico para a economia mundial, pois evitou-se, por hora, que o sistema financeiro americano e internacional entrassem em colapso como nunca ocorrera antes (nem em 1929).

Foi muito legal também assistir a entrevista que o Alexandre Schwartsman, ex-Banco Central e economista-chefe do Santander, deu para o Jornal da Dez, da Globonews. Bem, foi muito legal porque ele confirmou duas visões que eu tenho e que já divulguei aqui (em outras palavras, é bom estar em boa companhia!):

1. O Pacote do Paulson evitará a hecatombe, mas não evitará a recessão porque o crédito se contrairá brutalmente e não financiará o consumo como fazia antes.

2. Wall Street nunca mais será a mesma até porque os bancos de investimento que por lá reinaram desapareceram – todos, da mesma forma que desapareceram os dinossauros. Tornaram-se bancos comerciais e isso muda tudo. Tenho um post sobre este tema e o publicarei amanhã.

Ainda sobre atividade econômica, hoje estive com a chefia da Missão Econômica da França no Brasil e fiquei impressionado com a visão daqueles senhores franceses sobre a economia na Europa. O humor do consumidor despencou, o desemprego subiu rapidamente, tudo de repente. E antes da crise financeira ser deflagrada.

É isso. A emoção apenas começou. Chegou a hora do empresário fazer gestão profissional do seu capital (próprio e de terceiros), porque o inverno tende a ser longo e frio…

Abraços,

Fernando

PS: e a pessoa física? Essa que trate de comprar menos e quando o fizer que compre à vista!

Surpresa Geral: o Plano Paulson não foi aprovado!

E não é que eles não conseguiram aprovar o Plano Paulson?! É inacreditável a falta de liderança e prestígio do presidente Bush! Afinal, foram os senadores do seu próprio partido que o derrubaram na votação! É coisa para “pedir o boné” e ir para o seu rancho no Texas curtir a aposentadoria. O país mais importante e rico (sim, ainda o é, em tese) do mundo vive uma crise sem precedentes e está sem comando.

Ah, e McCain, candidato Republicano que apoiou o pacote (a contragosto) também perdeu, moralmente falando.

Paul Krugman, que é Democrata até a alma, aproveitou para destilar seu veneno com requintes de crueldade. Ao usar a expressão “Banana Republic”, vingou todos nós, latino-americanos. Ver abaixo.

http://krugman.blogs.nytimes.com/2008/09/29/ok-we-are-a-banana-republic/

Conforme bem escreve Floyd Norris, do NYT (ver link abaixo), surpreendeu também a falta de força dos líderes do partidos no Congresso que não conseguiram arregimentar forças no plenário.

Norris também diz, de forma direta, o seguinte: a indústria bancária está com problema com ou sem o pacote. É lamentável o esforço que estão fazendo para mudar as regras contábeis. Em inglês: The banking industry is in trouble with or without this bailout. Its efforts to change accounting rules to hide its problems are sad and appalling.

http://norris.blogs.nytimes.com/2008/09/29/september-surprise/

Abraços, F.

O que um ubber economist e um lead rock singer tem em comum? Até minutos atrás eu achava que era NADA. Até deparar-me com  um blog que juntou as visões de Jeffrey Sachs, festejado economista americano, com Bono Vox, o cantor-ativista irlandês do U2.

No link abaixo o Sachs esculhamba com o Bush, com educação, mas firmeza! Eu traduzirei uma parte que julgo chave no contexto. É quando o post comenta o discurso infeliz que Mr. Bush Jr fez na ONU:

“…Ele mencionou as palavras TERROR 32 vezes, EXTREMISTAS 7 vezes e TIRANIA 4 vezes. Por outro lado, temas como “Objetivos do Milênio”, “Mudança Climática” e “Meio-ambiente” não mereceram uma única referência…”

http://blogs.ft.com/mdg/2008/09/23/president-george-w-bush-and-terror/

Bush e os Republicanos estão espiando os seus pecados, como raramente um grupo político experimentou na história política dos EUA, do Brasil, da Guiné Bissau, ou de qualquer lugar do mundo não-tirânico.

Tudo começou com a sua primeira eleição, após aquele processo maluco na Flórida governada pelo seu irmão Jeb Bush. A vitória se deu no “tapetão”, após uma suspeita recontagem de votos. Em seguida, ele resolveu mostrar ao mundo que os EUA não precisavam dar satisfação a ninguém, até que…aconteceu aquela coisa hedionda que foi o ataque ao World Trade Center.

Dalí pra frente, o que já não era bom ficou pior. Invasão do Iraque, encrenca no Iraque, fracasso no Iraque. E para marcar de vez o seu lamentárvel governo (de 8 anos!), Bush se auto-presenteou com esta mega crise financeira, que irá doer no bolso dos americanos por muitos anos.

Bush sempre cercou-se de gente dura (os chamados falcões): a sua entourage foi formada a partir de braços-direitos do seu pai, Bush Sr, que sempre foi muito mais carismático que o filho, ainda que não fosse santo também. São homens frustrados e vingativos por não terem derrotado Sadam na Guerra do Golfo, assim como não terem re-eleito Bush Pai, que perdeu para Clinton.

No lado econômico nomeu Henri Paulson, ex-top boss do mais importante banco de investimentos dos EUA (e do mundo, claro). Quis a justiça divina que tudo aquilo que Mr. Paulson preconizou e praticou ao longo da sua carreira (bem-sucedida, por sinal), explodisse como uma bomba-relógio no seu colo, tendo sido a bomba armada por ele mesmo. Ver um homem como Paulson, que tem profunda intimidade com o verbo MANDAR, se ver obrigado a conjugar o verbo CEDER, chega a ser cômico se não fosse tão reflexivo.

O mundo dá muitas voltas e ninguém está livre disto.

Deus os ajude, para que sejamos ajudados por tabela!

Fernando