Caros – o BC reduziu os juros básicos (SELIC) em 1,5%, baixando-os para 11,25% (atingindo, de novo, a menor taxa da história). Como a inflação deverá andar por volta dos 4,25%, os juros reais cravarão 6 pontos percetuais, o que ainda é muito.

A repercussão desta decisão (via rádio e TV) foi unânime: poderiam ter feito isto em dezembro. O destaque vai para o Paulo Skaf, que conclamou o BC a “reduzir a SELIC para, no máximo, 8%” foi no programa da CBN, agora a noite. Foi uma demanda tão factível como seria eu pedir ao Marcelo Teixeira, Presidente do meu Santos FC, que contrate de volta Robinho, Diego e companhia, para sermos campeões de tudo em 2009. Não dá, é impossível…

Ouço que vários bancos já reduziram certas taxas de juros. Coisa de mostrar para a sociedade que não querem aumentar o spread. Mas não esperem nenhuma queda relevante nos juros na ponta, pois os comitês de crédito dos bancos estão prá lá de conservadores. E com a oferta de crédito baixa os juros não caem…nem com a SELIC derretendo.

Temo que 2009 esteja perdido – crescimento do PIB ao redor de zero é a minha aposta.  A contração econômica do final de 2008 lançou uma inércia gigantesca na economia e esta só irá pegar no tranco se os bancos retomarem seu apetite para emprestar. Vai demorar alguns trimestres. Lá de fora não virá notícia boa – e grana! – tão cedo.

Sigamos o jogo, com foco na gestão das contas pessoais, sem contar com grandes promoções, ou sonhos de investir para “acabar com a concorrência”, etc. É ano de cautela, de perder pouco. Esta é a regra, crescer é exceção.

Abraços, FB

PS 1: hoje almocei com o amigo e comentarista-mór deste blog, o empresário Álvaro Stefani, que me deu algumas lições de gestão empresarial. A primeira é trabalhar com ética e só se relacionar com gente ética.

PS2: o Ministro Mantega declarou que “será difícil o Brasil atingir a meta de crescimento do PIB de 4% em 2009”. Mas ainda bem que ele não disse IMPOSSÍVEL, pois assim ainda resta uma esperança…

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Prezados,

Finalmente saiu o número que todo mundo queria saber: a economia brasileira recuou 3,6% no último trimestre de 2008. Um senhor tombo! Esto dado ofusca o saudável crescimento do PIB acumulado de 2008 de 5,1%. Afinal, se por um lado o pequeno “retrovisor” mostra que fomos bem até o 3o. trimestre, o imenso parabrisa frontal não engana: os tempos são difíceis.

A indústria brasileira expirementou uma retração de assombrosos 17% (janeiro’09 vs.’08) e um crescimento de apenas 2% contra o combalidíssimo mês de dezembro último. Estes péssimos números foram apenas um reflexo dos números agora divulgados pelo IBGE.

E os juros – a taxa SELIC (que, em geral, só importa para quem é aplicador ou para uns poucos grandes grupos econômicos que pagam [ou pagavam] juros anuais perto da SELIC), ao que tudo indica, irá cair entre 1,5% e 2% na reunião do COPOM de amanhã. Virá para algo ao redor de 11%. Se é 10,75% ou 11,25%, isto só interessa para os traders de juros futuros na BMF. Ah, sim, e para o governo também, pois sua dívida pública nos remunera à base de SELIC, i.e. quanto mais ela cair, mais o Tesouro economiza no pagamento de juros, podendo construir escolas, hospitais, distribuir bolsa-família, etc.

Enfim, seja 1%, 2% ou 3%, esta queda de juros se dará porque o BC estará convencido que a atividade econômica está de joelhos e que, portanto, não há chance da inflação voltar a assombrar o COPOM. Nada a se comemorar, portanto, pois o endividado que vier a pagar menos juros (isto se os juros na ponta cairem também, que fique claro!), também estará, provavelmente, vendendo menos e gerando menos caixa!…

O spread – é assim: os juros na ponta são função da oferta de crédito versus a demanda por crédito. Os números do PIB vão assustar os bancos ainda mais, pois estes sairam pior do que os próprios analistas dos bancos esperavam. Se a SELIC cair 2%, mas os juros na ponta cairem, digamos, 1%, então o spread aumentou.

Uma coisa é certa, os juros na ponta cairão mais lentamente do que a SELIC. E cairão primeiros para empresas e cidadãos que se ‘venderem’ corretamente para os bancos, i.e. forem transparentes, demonstrarem claramente sua estratégia de negócio, seus números, riscos e mitigantes do seu negócio. Em outras palavras, cairá mais e primeiro para aqueles que tiverem um plano de negócio para enfrentar a crise.

Para os que praticarem o oba-oba, a SELIC cairá, mas os juros pagos continuarão no mesmo patamar…

Bancos públicos – vem sendo noticiado – e o amigo do blog Guilherme comentou aí embaixo – que os bancos federais estão emprestando mais, cobrando menos juros e lucrando mais. Sem querer parecer metido, mas sendo mesmo assim, eu conseguiria escrever dois textos, ideológicamente construídos, um defendendo a expansão da banca pública e outro tripudiando com ela.

O fato é que:

  1. Os bancos públicos estão fazendo política econômica, ajudando a destravar o crédito, ainda que parcialmente.
  2. Estes bancos estão ganhando muito agora – o que é normal e justo -, mas também estão sendo menos precavidos ao assumir riscos maiores.
  3. Partes destes lucros serão devolvidos em 6 meses, quando a inadimplência aumentar. Não tem “almoço grátis” (do inglês There is no free lunch).
  4. Os bancos públicos estão fazendo política anti-cíclica, enquanto os bancos privados só fazem agem ciclicamente, i.e. empresta guarda-chuva em dia de sol, toma o guarda-chuva se vier temporal. Isso acontece no Brasil, na França e na Costa do Marfim e é dever de ofício do banqueiro.
  5. Os acionistas privados destes bancos já sabem que isto faz parte da missão do banco estatal. Se não gostam de ver o capital do banco ser usado para tais fins, que comprem ações de bancos privados.

Oligopólio – o Valor de ontem traz um editorial em que Armínio Fraga é citado como “estando preocupado com o oligopólio do sistema financeiro brasileiro“. Vejamos algumas verdades:

  1. Pouco banco não significa que o crédito será escasso e os juros elevados. O grande exemplo vem da Holanda, onde 3 bancos dominam completamente o sistema e, ainda assim, os juros estão entre os mais baixos do mundo, cortesia do lendário pão-durismo do simpático e trabalhador povo batavo. Lá, a turma poupa muito e se endivida pouco. Em outras palavras, cabe a cada um de nós fazer com que tenhamos oferta de crédito bem acima da nossa necessidade, pois só assim pagaremos juros menores. Se, por outro lado, você se mostra um péssimo risco para os bancos, o país poderá ter 2 mil bancos e os juros que você pagará serão estratosféricos ainda assim.
  2. Pouco banco significa margem de negociação reduzida. Num país como o Brasil, em que 5 bancos darão as cartas, se você se relacionar mal com 2 deles vai ter problemas. E isso é perfeitamente comum. Desaparece aquele velho axioma: “Eu nunca mais faço negócio com o Banco X, porque eles me fizeram isso e aquilo!”. Bem, a partir de agora é bom guardar o seu orgulho, pois nunca sabemos o dia de amanhã, ou, nestes tempos bicudos, como será hoje depois do almoço…
  3. Pouco banco funciona bem em país onde o mercado de crédito é maduro e, portanto, sua população tem educação creditícia. Estamos longe disso. Nossos bancos não são experientes em crédito e nossos tomadores menos ainda. O futuro será complicado neste campo.

Em suma, a tendência é que os juros na ponta continuem muito salgados por vários anos. Esta reversão se dará quando a Tempestade Perfeita se dissipar, i.e. (a) as empresas mostrarem bons resultados com consistência, (b) os bancos retomem a confiança perdida, (c) as linhas externas voltem, provendo liquidez, (d) o brasileiro reduzir seu apetite por crédito caro.

Abraços e boa 4af! F.

Vejam a nota do IBGE na íntegra. Minha análise vem mais tarde (mas não gostei muito do perfil do crescimento). Abraços até mais tarde, FB

 

http://www.ibge.com.br/home/presidencia/noticias/noticia_visualiza.php?id_noticia=1226&id_pagina=1

Leiam o link da Reuters, abaixo.

O governo americano mostra que o consumo das famílias cresceu 1,7% (anualizado), o que me surpreende, dado o cenário de crédito apertado. As exportações também ajudaram a aquecer a demanda agregada.

A crise acabou, então? Eu apostaria que tem cálculo errado antes de apostar no final da crise. Mas, como diz o ditado, cada cabeça uma sentença.

Em tempo, as bolsas européias fecharam em alta! Mas eu não compraria ações ou tomaria crédito por conta deste dado.

Abraços, Fernando

http://br.reuters.com/article/topNews/idBRN2843507020080828

Leiam abaixo um artigo do Clóvis Rossi, da Folha de SP. Ele não é um especialista em crédito, mas nos ajuda a refletir.

Tenho apenas um comentário: quando ele fala que a PJ leva em conta os juros….hum…nem todas, na verdade, muito poucas. A maioria delas é administrada por uma PF, que pouco conhecimento tem do tema, pouco tempo tem para se dedicar ao tema e, pior, por não gostar do tema se afasta ainda mais do mesmo. Abs, FB

 

O besouro e o crédito

Clóvis Rossi

 

SÃO PAULO – Diz-se do besouro que não pode voar, pela sua aerodinâmica. No entanto voa. Daria para dizer a mesma coisa sobre o crédito no Brasil: na teoria, o aumento dos juros deveria derrubar a demanda por crédito. Na prática, o crédito voa -ou alcança um recorde após o outro. Em julho, chegou ao nível máximo desde que começaram a ser coletados os dados pelo Banco Central.
É mais fácil explicar por que a demanda por crédito continua subindo, apesar do aumento do custo do dinheiro, do que explicar por que o besouro voa: brasileiro não leva em conta o nível dos juros, mas o valor da prestação. Se cabe no bolso, pega dinheiro, mesmo pagando mais.
É verdade que são as pessoas jurídicas que estão buscando mais crédito -e, em tese, elas, sim, levam em conta a taxa de juros. De todo modo, fica evidente que o aquecimento da economia tende a se manter, na medida em que o crédito é um dos combustíveis mais importantes para o consumo.
Logo, é igualmente evidente que se torna mais e mais ingrata a tarefa do Banco Central de derrubar a demanda via aumento dos juros.
O que, por sua vez, significa que soa bem provável a previsão da grande maioria dos economistas de que os juros continuarão subindo e subindo. “Uma Selic [taxa de referência do BC] de 14,75% em dezembro é muito provável, assim como sua manutenção por uns quatro a seis meses, entrando em 2009”, escreve, por exemplo, José Francisco de Lima Gonçalves, professor da Faculdade de Economia e Administração da USP e economista-chefe do Banco Fator, para o número mais recente do boletim da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas, também da USP.
Vai acabar levando a inflação para o centro da meta em 2009. Mas, acrescenta Lima Gonçalves, “o custo será a redução do crescimento do PIB de 5% para 3,5%”.
É um bom negócio?

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20080712/not_imp204697,0.php

O link acima nos trás o texto do Editorial do caderno de economia do Estadão de hoje.

Não deveria haver – mas sempre há… – discussão sobre o fato que o aumento do crédito é o grande responsável pelo robusto crescimento econômico que o Brasil teve em 2007 e que vem tendo em 2008.

Mas este mesmo volume de crédito disponível joga contra o esforço do governo para abater este surto inflacionário – por mais que os preços mais recalcitrantes sejam os dos alimentos (e aí a questão é internacional) e não nos eletrodomésticos e automóveis.

Saco de maldades – no post anterior eu comentei que o Ministro Mantega vem, consistentemente, pegando mais leve do que Henrique Meirelles. Porém, dia desses, o Ministro disse que, se necessário, o governo tem ainda vários instrumentos para atacar a inflação. Isto me lembra a famosa expressão utilizada pelo ex-Presidente do Banco Central, Gustavo Franco, que disse algo do genêro: “Se o mercado não entrar na linha, o ‘saco de maldades’ do Banco Central é grande e será utilizado”.

Sem a mesma verve de Franco, Mantega quis dizer a mesma coisa. Acho que já existe consenso no governo, que o crédito é um co-responsável de peso pela alimentação da inflação. Desta forma, o ‘saco de maldades’ teria as seguintes ‘ferramentas’ para ação:

  • Restrição aos prazos de diversos tipos de crédito, e.g. ao consumidor, para aquisição de automóveis, leasing, etc.
  • Aumento do IOF, visando encarecer o custo do dinheiro para toda a cadeia (e de quebra aumentar a arrecadação federal).
  • Aumento dos depósitos compulsórios que são recolhidos pelos bancos, o que reduz a quantia de recursos disponíveis para empréstimos livres – e que aumenta o custo do dinheiro, por tabela.

A lista é longa, mas quanto mais duradouro for este processo infacionário, mais difícil ficará a vida de quem:

  1. Tem dificuldade para obter crédito.
  2. Está endividados além da conta.
  3. Tem projetos de expansão e necessitará crédito para financiá-lo.

O que fazer? (repetindo o que já foi escrito antes)

  1. Reduza seus gastos (PF).
  2. Alongue suas dívidas já (PF e PJ).
  3. Aumente o números de bancos de crédito.
  4. Reduza a dependência de um ou poucos bancos.
  5. Evite sacar/tomar linhas indexadas (e.g. ao CDI). Fixe o custo, no Pré.

Abraços, FB