Eu já deveria estar na cama faz tempo, mas estou muito mal humorado com as informações econômico-financeiras que estão chegando. A de hoje sobre a indústria, então, me arrasou.

Não foi surpresa para mim e para quem acredita no que escrevo, mas a produção despencar perto de 15% (2008 x 2007) foi ruim demais (*). Lembram da minha analogia? É como vir a 180 km/h e brecar violentamente. Quem estiver mal equipado capotará ou sairá pelo vidro. Os bens equipados terão apenas lesões faciais e imensas dores toráxicas por conta do impacto com o air bag. Não morre, mas sai machucado. E um monte de gente morre nessa.

(*) Detalhe: os “analistas” esperavam 7%, segundo noticiado. Estamos bem de analistas…

Leia mais aqui sobre a derretida da indústria brasileira.

Crédito, Juros, Spread – é óbvio ululante que a tragédia acima é fruto da redução da oferta de crédito. Os motivos já são conhecidos do leitor assíduo do blog, mas a gente repete para o não-iniciados:

  • As linhas externas secaram – representavam algo como 19% do total.
  • Os bancos muito mais conservadores por conta desaceleração da economia.
  • Linhas de crédito migraram para grandes tomadores, como Petrobras.
  • O ‘calote negociado’ do affair derivativos reduziu a disponibilidade dos bancos.
  • O spread subiu porque a oferta de crédito diminuiu. Simples!

“E quando então a oferta de crédito vai aumentar e os juros/spreads cairão?”, você está se perguntando: Vai demorar, porque os bancos sabem que haviam emprestado demais nos últimos anos e, consequentemente, estão enfrentando grandes perdas. A economia terá que se reaquecer com estímulo governamental, para que só depois os comitês de crédito comecem a afrouxar suas decisões. Lá para março/abril de 2010. Antes será difícil.

Balança Comercial, Câmbio, USD – um dos posts mais sérios que eu já escrevi foi solenemente ignorado pelos amigos. Chamava-se “Caos, Câmbio…”. Tivemos uma ‘maxi-desvalorização’ do real e ninguém notou, ou reclamou. Eu previa – e confirmo -que teremos um câmbio nervoso em 2009, porque o mundo comprará menos produtos nossos e as nossas commodities exportadas valerão menos; teremos menos investimento estrangeiro no país (*) e nada de crédito externo. Por outro lado, apesar de importarmos menos também (viva a desaceleração!), as multinacionais aqui instaladas continuarão enviando dividendos para o exterior com voracidade e os juros/principal das nossas dívidas terão de ser pagos/remetidos. Acho, portanto, que em 2009 sairá mais dólar do país do que entrará, i.e. o real perderá valor.

(*) em 2009, registramos o mais inesperado dos recordes: entrarão no país USD 45 bi de investimento direto, inclusive no final do ano. Não tenho dúvida que este número não se repetirá, nem de perto em 2009.

Atenção, portanto, com o seu fluxo de caixa em moeda forte! E explique bem a sua situação para o seu banco, na hora de tomar crédito. Se o seu banco desconfiar que você importa demais e terá alta nos custos (por causa do câmbio), sem poder repassar esta alta nos preços, bye-bye linha de crédito! Serão reduzidas, cortadas, encarecidas, etc.

Leio no Estadão (repórter Adriana Ferreira) que as exportações de janeiro cairam 22,8% em relação a janeiro de 2008 (e 25% em relação a dezembro). Ruim demais. Enquanto isso, as importações cairam apenas 12,6% e 6,3% respectivamente. Ruim de menos. O deficit comercial em janeiro atingiu expresivos USD 518 milhões. Péssimo. Foi porisso que o governo tomou aquela decisão estabanada, na semana passada, de “monitorar” as importações – mas que voltou atrás.

Notícias internacionais – não irei aborrecê-los com páginas e páginas de más notícias vindas de todos os fronts do mundo. Até porque tornaram-se banais e não deveriam surpreender mais ninguém (e.g. crédito paralizado, economias encolhendo, prejuízos recordes nos balanços das empresas, etc).

Atenção: não quero ninguém pessimista (“Oh meu Deus, vou vender tudo!”), mas nem otimista (“O mundo não vai acabar! Vou comprar mais!”), mas sim realista (“Dado o cenário de profunda recessão mundial e de recessão leve aqui…”). Outro dia eu disse para um grupo de “otimistas”, que eles estavam era praticando auto-ajuda econômica, tipo O Segredo, Neurolinguística do Lair Ribeiro, etc.

Não gostaram….

Abraços, F.

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Promessa é dívida!

A grande maioria das empresas é ‘vítima’ da chamada sazonalidade de Natal. Em outras palavras, elas vendem muito mais durante: (a) outubro e novembro (as indústrias), (b) dezembro (o comércio). Digo que elas são ‘vítimas’ porque a sazonalidade requer um planejamento todo especial para dar conta da demanda irregular desta época.

Significa que meses antes da venda ocorrer a empresa já teve que planejar (i.e. adivinhar) o quanto terá de comprar de matéria-prima (indústria) ou produto para revender (comércio), além da necessidade de capital de giro! No entanto, este ano tivemos um complicador extra: a volatilidade causada por esta crise maluca.

De qualquer forma, a maioria das empresas deve estar neste momento:

  1. Sem ou com pouco caixa.
  2. Com muitas duplicatas a receber no seu ativo –  e com maior risco de inadimplência.
  3. Com mais estoque do que de hábito, porque previu vender mais do que conseguiu.
  4. Boa parte das duplicatas a pagar já foram pagas.
  5. Endividamento bancário elevado – garantido, em parte, pelas duplicatas acima.

Esta é uma fotografia clássica de um balanço em final de ano/janeiro. Só que desta vez há um problema adicional: o cenário de crise deste primeiro trimestre de 2009:

  1. Os bancos entrarão 2009 com menos apetite de lhe dar crédito do que antes.
  2. Razão: eles sabem (ou supõe – e tanto faz!) que sua empresa vendeu menos do que esperava neste Natal.
  3. Sabem – ou supõe, e tanto faz! – que sua empresa está com pressão de capital de giro e que está com menor oferta de crédito do que antes!
  4. Antes de liberarem mais crédito, a tendência é que os bancos solicitem o balancete do primeiro trimestre do ano… que só será produzido em maio, i.e. tarde demais para quem precisa de caixa já.
  5. Grandes setores estão estocados e produzindo pouco ou nada, e.g. automotivo, siderúrgico e construção civil (só para citar alguns que empregam bastante).
  6. A volatilidade do câmbio e o cenário depressivo internacional não ajudarão as exportações.
  7. A indústria irá demitir com mais frequência e os juros subirão (por conta do crédito menos ofertado). Moral da história: a propensão marginal a consumir das famílias cairá consideravelmente.

Resumindo, o cenário de horrores acima citado promete o seguinte às empresas:

  • Poucas vendas
  • Pouco crédito (e caro)

O que fazer (sob a ótica de crédito – não tenho a pretensão de sugerir estratégia empresarial):

  1. Limpar o balanço, i.e. o que não conseguiu vender no preço justo no Natal, não será vendido agora! Então liquide pra valer os seus estoques, pois financiá-los com empréstimo bancário será DIFÍCIL, CARÍSSIMO e ainda DETERIORARÁ O SEU CRÉDITO NA PRAÇA.
  2. “E alongar o crédito?” Se conseguires, sereis dígno do reino dos céus! (texto com estilo bíblio) Os bancos só alongarão créditos para clientes que estejam, comprovadamente, quebrando. E cobrarão juros, taxas e multas contratuais irracionais (e pedirão todas as garantias possíveis e imagináveis).
  3. Não reponha estoques. E se precisar fazê-lo, barganhe como nunca por maiores prazos com os seus fornecedores. Acredite: é melhor pagar mais juros (ou preço mais alto) para o fornecedor alongar o prazo de pagamentos, do que pedir dinheiro em bancos. Os bancos, ao sentirem que sua empresa não precisa deles, voltarão, aos pouquinhos, a procurá-lo para emprestar e aí você poderá reequilibrar o jogo.
  4. Se precisar muito, recorra a empresas de factoring de 1a. linha e faça suas duplicatas virarem caixa – mas só com as de 1a. linha. Procure a ANEFAC (associação do setor) para mais informações. Eu gosto da ANEFAC e de algumas factorings top, mas tem muita gente no setor que cobra como agiota. E saiba: os bancos têm precoceito com empresas que descontam títulos com factorings (palavra de um preconceituoso convertido), i.e. muito banco deixará de te emprestar se ‘cheirar’ que a situação do seu negócio está tão ruim, que você está precisando de factorings…
  5. Outra opção que é válida, mas só para quem vende para empresas muito grandes e poderosas, é descontar o título com o proprio sacado. Grupos que têm seu próprio banco gostam disso. O problema, segundo tenho sido informado, é que tem muita empresa deste perfil que também está com pouco crédito na praça…dureza!

Simples, não é?! A crise está tão dura, que a regra única a ser seguida é CASH IS KING (ou caixa é o rei). E eu diria mais: neste momento CASH IS GOD (…é deus, com ‘d’ minúsculo para não blasfemar).

É isso mesmo, converta seus ativos em caixa e reduza ao máximo seu endividamento bancário.

Opinião deste Blog: 2009 não é ano para se apostar “ah, o mercado vai virar”, “não vou vender por tão pouco e ter prejuízo”, “meu produto vale mais que isso”, etc. A regra é clara: o seu cliente está sem grana!

2009 é ano para empatar ou perder pouco.

A vida é longa e a gente reconstrói as perdas deste ano – mas para quem quebrar agora, o futuro será muito mais incerto e doloroso. Não esqueça: o seu carro tem acelerador e freio (além do breque de mão!): não queira acelerar sempre.

Com meu abraço, que é simpático com a sua causa,

Fernando

Analisar a evolução das decisões dos bancos centrais brasileiro e americano é uma graça (ou será desgraça?)!

Os dois podem ser acusados de tudo, menos de serem inconsistentes em relação às suas visões e interpretações sobre a situação econômica e os ‘remédios’ a serem aplicados.

Tanto o Brasil como os EUA sofrem do mesmo mal: falta crédito e falta confiança nos agentes econômicos. Naturalmente, as causas da doença são diferentes. Nos EUA, eles criaram o vírus em laboratório e depois, por uma falha de ‘vedação’, o vírus se espalhou causando uma contaminação em massa. Lá, o estado do paciente é gravissímo, pois a doença o destrói por dentro há mais de um ano.

Já o Brasil sofreu contágio por contato. Não que esse contato fosse tão próximo assim, mas como a transmissibilidade é alta, também pegamos a doença, que se apresenta em seu estágio inicial, mas já demonstra ser muito séria.

Estranhamente, porém, cada Banco Central resolveu trabalhar o clássico ‘antídoto’ anti-crise, as taxas de juros, de forma inversa:

1. Nos EUA, o FED entende que precisa zerar os juros básicos. E o fez. A decisão de ontem criou uma banda que varia entre zero e 0,25% a.a. – em outras palavras, é zero mesmo. O pior é que o efeito será (como vem sendo) nulo. A economia não se aquecerá por causa disso. Afinal, os juros já eram baixos demais. Vai dar, sim, um alívio mínimo aos endividados, que são muitos, mas isso se os bancos repassarem essa queda para os seus clientes. Duvido.

2. No Brasil, o BC acredita que o fantasma da inflação ainda nos ronda e a SELIC não sai dos 13,75%. E o pior é que aqui o efeito será nulo também. Não teremos mais ou menos inflação porque os juros da SELIC estão nesse nível ou em 10% a.a. Produtos importados subirão de preço com ou sem alta dos juros, pois nossa moeda se desvalorizou 50% este ano. Para compensar, todas as commodities despencaram de preço. Ainda assim, os juros que nós e nossas empresas pagam na ponta equivalem a várias SELICs, i.e. não seria 1% ou 2% que fariam a diferença na decisão de compra de ninguém.

Alguns “super analistas” já estão dizendo que os juros cairão no Brasil em 2009. Genial, não?! Mas o BC irá esperar sinais claros e cristalinos de que não há inflação ‘escondida atrás do armário’ e que a economia está de fato nocauteada. De qualquer forma, os spreads bancários não irão cair, pelo contrário, irão subir, pois a SELIC cairá e os juros na ponta ficarão nesse patamar, i.e. maiores lucros para o sistema financeiro. Os bancos dirão que é para compensar o aumento da inadimplência.

Nos EUA, até o não-economista, President Elected Barack Obama diz que o ‘armamento’ do FED está acabando. Acabou de fato. O negócio agora é injetar dinheiro na veia do sistema, seja através de rebates fiscais, compras de ativos (podres ou não), perdão (ou rebate) de dívida dos mutuários do sistema hipotecário, etc. Aqui também, mas assim como nos EUA (e na Europa e na Ásia), a recuperação do paciente será lenta e longa (ver último post).

Com meu abraço,

Fernando

Acho que não há tema no mundo, neste momento, que me cause maior interesse intelectual do que as fórmulas pensadas/utilizadas para tirar os bancos internacionais do buraco, salvando, portanto, a economia global de uma depressão – e talvez o próprio capitalismo como nós o conhecemos.

Primeiro foi a idéia de Paulson & Bernanke que achavam que com meros USD 700 bi eles comprariam “ativos tóxicos” dos bancos, criariam um fundo de papéis podres e o mercado iria negociar esses papéis e tudo continuaria como antes. Em outras palavras, conseguiriam restabelecer a confiança do/no mercado. Nada aconteceu, conforme havíamos previsto aqui.

Depois evoluíram para onde eu achava que tinham que seguir: comprar participações acionárias dos bancos problemáticos. O FED e o Tesouro seguiram a prática britânica e o fizeram, só que de forma lenta e limitada. Não resolveu nada também, até para minha surpresa.

E por que? Está cada vez mais claro que o mercado (incluindo a Mrs. Mary, viúva do Kentucky, e o Mr. Smith, aposentado da Flórida) sabe que o conjunto de ativos podres dos bancos é grande demais. Qualquer solução que lance esses ativos a perdas, dilapidará o capital desses bancos, o que limitará sua capacidade de alavancagem (i.e. de emprestar). Além da falta de apetite de risco, teriam falta de capital regulatório mesmo! E o fato do FED/Tesouro entrar no capital dos bancos como minoritários não resolveria a questão, pois o governo seria acionista e isso não garante que o banco não quebraria (o capital injetado pelo governo viraria pó se os ativos fossem lançados a perdas).

OK, é confuso mesmo, lamento dizer.

Agora, no caso do Citibank, lançaram um terceiro modelo de resgate de banco que mistura dois instrumentos, como se um médico decidisse receitar uma combinação de dois antibióticos fortes, pois notara que um só não consegue debelar a doença.

O modelo:

  1. O governo continua injetando dinheiro vivo, pois precisa dar liquidez ao banco para que este possa honrar os depósitos que são resgatados.
  2. Mas agora o governo decidiu também garantir os ativos podres do banco. Em outras palavras, se o devedor do banco não pagar, o governo paga o banco.
  3. Essa solução restabelece o “trading” desses ativos podres criando-se um mercado para eles, pois o garantidor é o Estado.
  4. Melhor ainda, os bancos poderão tomar empréstimos (“repo”), oferecendo tais ativos garantidos pelo governo como colateral.
  5. A coisa toda foi estruturada como um seguro de crédito, com co-seguro (90% é risco governo, 10% é risco Citi). O prazo é de 10 anos, o que é longo o suficiente.

O link abaixo nos leva ao Financial Times, onde Laurence Kotlikoff e Perry Mehrling (economistas de Boston e Columbia), dois craques convidados do também-craque Martin Wolf, discorrem sobre o tema. Vale a leitura (em inglês).

http://blogs.ft.com/wolfforum/2008/11/finally-system-risk-insurance/#more-263

Então, “seus problemas acabaram”, como diriam os Cassetas? Não. Resolveu-se, aparentemente, o problema do Citi, mas existem outros milhares de bancos combalidos, de todos os tamanhos e dos dois lados do Atlântico. Francamente não sei como segurar tudo isso sem uma contrapartida monetária, i.e. um lastro do governo (como era o ouro). Estamos falando de um belo naco do PIB dos EUA!!

Também falta criar um sistema que classifique os ativos em função de sua real qualidade de crédito – esqueçam os ratings da Moody’s e S&P. Esses ativos serão (espero!) negociados por uma fração do seu valor de face e esse percentual dependerá da qualidade do risco. Na medida que a economia melhorar e os devedores começarem a repagar suas hipotecas (e os imóveis se valorizarem), naturalmente o valor desses ativos subirá e quem os detiver (“buy-and-hold”) ganhará dinheiro (em especial com o custo quase zero de financiar as posições).

E no fim das contas, não deixa de ser o velho e mal-falado “prejuízo socializado”. Afinal, sempre que um ativo der calote, o governo (i.e. o contribuinte) é que salvará a pele do investidor e do banco.

Ah, um dos meus heróis contemporâneos, Nobel Prize Winner Professor Paul Krugman ficou furioso com esse plano. Leiam abaixo.

http://krugman.blogs.nytimes.com/2008/11/24/citigroup/

E a economia real? Se esse modelo destravar o trauma dos bancos que pararam de emprestar uns para os outros, assim como tranqüilizar seus gestores quanto ao futuro da própria instituição, poderemos ver o crédito voltar a irrigar a economia real. Nunca como antes, mas muito mais que agora. Quando? Mais 6 meses de sombras, pois a máquina demora “a pegar no tranco”. Teríamos mais 1 ano de recessão, mas escaparíamos da depressão mundial.

Meus amigos, essa combinação de ativismo governamental e criatividade é heavy metal. É como jogar uma bomba atômica no olho do furacão da crise. Se isso não funcionar – e nada garante que irá funcionar – seremos todos funcionários públicos. Já pensou, o Lada (da extinta URSS) sendo carro oficial em Washington? 🙂

Gorbachov para Presidente…do Mundo!

Abraços esperançosos!

Fernando

PS: mas que ninguém pense que eu acho que deve-se resolver o imbróglio e ficar por isso mesmo. Tem que processar e prender quem fez coisa errada, cortar o bônus desse povo, etc., etc.

 Quem se lembra da expressão Acionistas Ativistas (do inglês Activist Shareholders)? A seguir, o link da Wikipedia (em inglês) que a detalha: 

http://en.wikipedia.org/wiki/Activist_shareholder 

Em poucas palavra, são acionistas (em geral, pequenos) que não se limitam a coletar dividendos e torcer pela alta das ações: eles querem ser protagonistas e fazem de tudo para que suas proposições sejam levadas a sério. O case do agora desaparecido conglomerado financeiro holandês ABN AMRO notabilizou esses novos personagens do capitalismo global acelerado.

Agora, eu cunho a expressão Governos Ativistas, i.e. aqueles que não se limitam a normatizar, supervisionar e intervir nos mercados a partir de instrumentos universalmente aceitos. Governos Ativistas se propõem a complementar a ação dos mercados, confrontá-los e ameaçá-los publicamente, utilizar instrumentos e políticas heterodoxas, injetar capital onde não são supostos a fazê-lo e até onde tais aportes não são necessários ou bem-vindos, etc.

Atualmente, no entanto, difícil é encontrar algum governo que não seja “Ativista”. Alguns exemplos que merecem destaque:

  1. Tudo começou com Gordon Brown, do Reino Unido, ao decidir socorrer bancos privados via injeção de capital acionário nestes.
  2. Nos EUA Mr. Paulson obrigou o Wells Fargo a aceitar capitalização do Tesouro, mesmo com o banco provando que não precisava!
  3. A nossa MP 443 que permite que BB e a (nova) CaixaPar comprem bancos, construtoras, etc., num movimento quasi-estatizante.
  4. O FED (BC americano) emprestou dinheiro para capital de giro para empresas, via aquisição de commercial papers, ao invés de fazê-lo somente a bancos.
  5. O Presidente da França vem ameaçando publicamente estatizar os bancos franceses que não retomem os empréstimos ao setor produtivo.
  6. Reduções seguidas e orquestradas das taxas de juros, no mundo todo – o Brasil foi uma exceção, naturalmente…
  7. Agora foi a vez da China informar que irá injetar mais de meio trilhão de dólares em sua economia doméstica (quase um terço de suas reservas cambiais!).

A lista de ações “ativistas” é longa…e surpreendentemente INEFICAZ!

As bolsas de valores, como sempre, são a face mais visível de uma situação única: a cada “ação ativista” as bolsas sobem para logo em seguida sofrerem quedas em suas cotações. Indo direto ao ponto, o mercado acionário vem ignorando solenemente as ações conjuntas dos governos.

Mas a grande surpresa continua sendo o mercado de crédito. A começar pelo mercado de crédito interbancário, onde a confiança simplesmente desapareceu e ninguém a encontra. Em seguida, temos o mercado de crédito corporativo, igualmente congelado e encarecido, sendo isso por conta da recessão que já aflige EUA, Europa e Japão.

O link abaixo, do fórum do Financial Times, que é liderado pelo lendário Martin Wolf, nos informa que nem mesmo o Fortis, banco que foi federalizado 100% pelo governo belga, tem acesso às linhas do mercado interbancário. Em outras palavras, o mercado interbancário mantém-se seco, pois a desconfiança mútua de seus participantes permanece, a despeito das intervenções firmes dos governos nacionais.

http://blogs.ft.com/wolfforum/2008/11/money-market-on-strike/#more-246

Incoerência da História? – acompanhem o meu raciocínio. É impressão minha ou governos de centro-esquerda, como Brasil, França, Alemanha e Reino Unido, estão queimando dinheiro público para “ajudar os mercados”? – a despeito do desgaste que os políticos poderão ter com seus eleitores! O caso americano também merece destaque, ainda que pela razão inversa: Bush & company rasgaram suas bíblias neoliberais numa intervenção trilionária jamais imaginada! E ainda assim perderam pontos eleitorais suficientes para elegerem Barack Obama, o mais improvável Presidente dos EUA.

E não é que os supostos grandes beneficiários dessa injeção de recursos “nos mercados” estão rejeitando essa ajuda suprema, outrora impensável? Estarão os mercados se auto-imolando? Será uma expiação coletiva de seus próprios pecados capitais?

Dá para afirmar que os governos ativistas estão tentando salvar mercados que não querem sê-lo. Será suicídio em massa, tal qual costumava acontecer com aquelas seitas malucas nos anos 70?

Muito doido tudo isso! Boa semana para todos!

Fernando

Esqueçam as previsões dos analistas. Conforme já devo ter dito umas 500 vezes, aqui, em reuniões e na mídia:

1. Não há liquidez em lugar nenhum do mundo, o que inviabiliza compras pra valer de ações ou de qualquer outro ativo – por outro lado, o atual momento favorece muito qualquer tipo de vendas.

2. Não há mais dúvida que a recessão mundial já chegou (EUA e Europa). A dúvida é se esta será dura ou muito dura e quanto tempo durará (em anos, não meses).

3. Não há referência de preços na economia global: o petróleo está caro ou barato? O dólar está caro ou barato? A ação da Vale está…? Esqueçam, ninguém sabe!

Isso posto, não há como se tomar uma posição direcional, i.e. “compra e senta em cima do papel”. Quem está jogando agora é a turma da especulação (sem juízo de valor!) que entra comprando e depois frita os papéis. Tem também alguns desavisados que só perdem nesses momentos de volatilidade.

Como estou quase ganhando o apelido de “Roubini Brasileiro”, tamanho negativismo que devo transmitir nessas páginas, segue abaixo uma visão otimista. Sabem né, é aquela coisa do livre arbítrio… Pois é, cada um com seu julgamento e decisão:

http://web.infomoney.com.br//templates/news/view.asp?codigo=1403420&path=/investimentos/

Eu discordo brutalmente de várias afirmações deste articulista.

Abraços, Fernando

Ontem eu escrevi que “…NÃO ME SURPREENDEREI SE O MERCADO DEVOLVER PARTE DESSES GANHOS na 3a ou 4af…“.

Quer dizer que eu sou bom de bolsa? Nem um pouco! OK, num passado distante, fui responsável pela gestão de riscos de tesouraria (entre outros) do segundo banco mais agressivo do mercado (na época) e analisava a fundo a volatilidade e tendências dos principais ativos financeiros (e.g. bolsa, dólar, Pré, CDI, etc.).

E não tem erro: sempre que a bolsa despenca um monte – assim, sem motivo mais concreto – ela sobe como um foguete no dia seguinte. A recíproca é 100% verdadeira – e foi o que aconteceu de ontem pra hoje.

O motivo: especulação pura. A historinha que “os analistas” contaram para justificar a explosão das cotações foi a de que os governos se uniram para salvar o sistema, etc. Eu escrevi que achava que isso “já deveria estar no preço”, não foi? Pois é, já estava e pobre de quem comprou na máxima do dia…

Aqui no Brasil o mercado resistiu melhor – mas os especialistas devem analisar se o Ibovespa não foi salvo por um ou alguns papéis mais representativos do índice.

Notícias sobre a recessão abundam, justificando a derretida “light” de hoje. Também não deveria ser surpresa para ninguém.

Como já disse, amigos, gostando ou não, NÃO HÁ NENHUM MOTIVO QUE JUSTIFIQUE OTIMISMO PARA O PERÍODO DE 2 ANOS QUE IREMOS ENFRENTAR.

Até mais tarde, com posts realmente quentes! Abs, F.